O Arauto do Novo Rei

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Este é o segundo de dezenas de sermões de John MacArthur sobre todo o Evangelho de Marcos. Veja detalhes e links no fim do texto


Abra sua Bíblia no primeiro capítulo de Marcos. E nós vamos ler os oito primeiros versos. E então, vamos olhar para eles hoje:

1 Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus;
2 Como está escrito nos profetas: Eis que eu envio o meu anjo ante a tua face, o qual preparará o teu caminho diante de ti.
3 Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas.
4 Apareceu João batizando no deserto, e pregando o batismo de arrependimento, para remissão dos pecados.
5 E toda a província da Judéia e os de Jerusalém iam ter com ele; e todos eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados.
6 E João andava vestido de pêlos de camelo, e com um cinto de couro em redor de seus lombos, e comia gafanhotos e mel silvestre.
7 E pregava, dizendo: Após mim vem aquele que é mais forte do que eu, do qual não sou digno de, abaixando-me, desatar a correia das suas alparcas.
8 Eu, em verdade, tenho-vos batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo.

Assim, Marcos começa a narrar a história do Senhor Jesus Cristo, extraída de seu tempo passado com o amado apóstolo Pedro, que é a fonte humana de suas informações. É claro que Marcos foi superintendido e guiado pelo Espírito Santo, de modo que, quando ele escreveu, ele o fez sob inspiração divina. A palavra-chave que quero que você observe está no versículo 1. É a palavra “evangelho”.

A palavra “evangelho”, é claro, é muito familiar para nós. Às vezes, quando a usamos, na verdade queremos nos referir a um livro, como o “Evangelho de Mateus”, o “Evangelho de Marcos”, por exemplo. Mas, no Novo Testamento, a palavra “evangelho” nunca é uma referência a um desses quatro livros. A palavra “evangelho” no Novo Testamento sempre se refere à mensagem da salvação, e esse é o seu uso aqui nos versos que acabamos de ler.

Como devemos entender, então, no contexto em que Marcos está escrevendo, o uso dessa palavra? Como as pessoas do primeiro século viam seu significado? Não há aqui nenhuma definição da palavra “evangelho”. A palavra grega “ευαγγελιον” (ou “euaggelion”) é a palavra traduzida como “evangelho”, que aparece em nossa Bíblia. Mas, o que a palavra “euaggelion” significava para aqueles cristãos aos quais o livro de Marcos foi primeiramente apresentado?

A palavra “euaggelion” foi inventada pelos cristãos? Era uma palavra que só existia no vocabulário cristão? Bem, a resposta para essas perguntas é: não. Trata-se de uma palavra muito antiga. E era uma palavra muito familiar, tanto para judeus quanto para gentios, muito usada e bastante específica em seu significado. Sim, a palavra “ευαγγελιον” ou “euaggelion” significa boas notícias, mensagem alegre, boas novas. Ela tinha um uso mais técnico, tanto na mente dos judeus quanto dos gentios. E, lembre-se, Marcos está escrevendo de Roma para cristãos romanos e não-cristãos romanos. Ou seja, os primeiros destinatários de seu livro eram gentios.

É importante, então, considerar como aquelas pessoas gentias entenderiam essa palavra. Mas, vamos examinar, antes de tudo, como os judeus a entenderiam. Certamente havia judeus entre os cristãos em Roma. Certamente havia judeus entre os não-cristãos que liam e continuavam a ler este livro. Então, o que a palavra evangelho significava para eles? Como tal palavra se conectava a eles?

Bem, “euaggelion” é usada na versão grega do Antigo Testamento, chamada Septuaginta. O Antigo Testamento foi escrito originalmente em hebraico, mas existe uma versão grega na qual a palavra “euaggelion” é apresentada no Velho Testamento. Para isso, vamos ver Isaías, capítulo 40. Esse é um capítulo muito importante, a propósito, pois trata da expectativa acerca da vinda do Messias, em um futuro distante. Também contém a expectativa de que os filhos de Israel seriam libertados do cativeiro e voltariam para suas terras, em um futuro próximo. É por isso que o capítulo 40 começa assim:

1 Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus.
2 Falai benignamente a Jerusalém, e bradai-lhe que já a sua milícia é acabada, que a sua iniqüidade está expiada e que já recebeu em dobro da mão do Senhor, por todos os seus pecados.

Isaías está se referindo a um futuro próximo, que seria o retorno de Israel do cativeiro na Babilônia, mas também está se referindo a um futuro distante, acerca do Messias que estaria por vir. Passando para a verso 9: “Tu, ó Sião, que anuncias boas novas, sobe a um monte alto…”, ou seja, “encontre o ponto mais alto para fazer o anúncio, para que você possa ser ouvido pela maioria das pessoas”. E a palavra grega na Septuaginta, traduzida aí no texto como “boas notícias” é “euaggelion”. O texto continua:

9 Tu, ó Sião, que anuncias boas novas, sobe a um monte alto. Tu, ó Jerusalém, que anuncias boas novas, levanta a tua voz fortemente; levanta-a, não temas, e dize às cidades de Judá: Eis aqui está o vosso Deus.
10 Eis que o Senhor DEUS virá com poder e seu braço dominará por ele; eis que o seu galardão está com ele, e o seu salário diante da sua face.

Isaías está anunciando as boas novas da vinda de Deus. Esse é seu uso da palavra “euaggelion” aí, significando uma boa notícia. Isaías está anunciando que o Senhor viria com força para libertar aquele povo. Falar sobre isso era a melhor notícia possível. Lembre-se, as pessoas para quem Isaías estava falando estavam cativas. Elas estão sendo informadas: “Há uma restauração futura. A punição e o castigo terminaram; vocês voltarão e o Senhor subirá ao trono novamente, e Ele reinará sobre vocês.”

No capítulo 52 de Isaías encontramos um uso semelhante da palavra “euaggelion”. Observe o versículo 7: “Quão formosos são, sobre os montes, os pés do que anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz, do que anuncia o bem, que faz ouvir a salvação, do que diz a Sião: O teu Deus reina!”. Novamente, a palavra usada aí, traduzida como “boas novas” é “euaggelion”.

Assim, embora a palavra “euaggelion” possa ter significados amplos, seu significado técnico era descrever as melhores notícias possíveis, que era a ascensão de um novo rei, a ascensão de um rei soberano ao Seu trono, que reinaria sobre o Seu povo para produzir salvação, paz e felicidade. Era assim que os judeus compreendiam a palavra “euaggelion”, e é nesse sentido que ela foi usada por Isaías.

Ambas as passagens consideram, então, o retorno dos judeus do exílio na Babilônia. Quando eles retornassem à sua terra, Deus habitaria novamente em Sião, Deus subiria novamente ao Seu trono. Haveria um novo templo construído, que seria como o palácio de Deus, em que Ele habita. E, durante o tempo do cativeiro, lembre-se de que o templo havia sido destruído. O palácio de Deus havia sido transformado em escombros. O povo foi levado. Deus havia habitado com os exilados na Babilônia, segundo o profeta Ezequiel.

Mas, chegaria o dia, diz Isaías, em que o povo retornaria, e Deus retornaria com eles e ascenderia ao Seu trono. Isso aconteceria em um futuro próximo. E aconteceu, foi cumprido no grande retorno dos judeus do exílio da Babilônia e na reconstrução do templo, e Deus novamente assumiu Seu lugar como soberano sobre Sua nação teocrática de Israel. Então, as boas novas às quais Isaías se refere falam de entronização, de um governante soberano que assumiria seu trono, ou seja, Deus, o Deus de Israel, o único Deus verdadeiro, estabelecendo Seu trono em Jerusalém.

O retorno da Babilônia seria o cumprimento próximo da profecia de Isaías. O cumprimento distante dessa profecia se refere à promessa messiânica de que o Rei virá no futuro e estabelecerá Seu reino em Israel, estabelecerá Seu governo e Seu trono, e isso acontecerá quando Jesus voltar e estabelecer Seu reino milenar. Portanto, a palavra “euanggelion” refere-se à boa notícia da chegada de um rei, da ascensão de um rei. Isso no uso judaico, ou seja, como os judeus compreendiam essa palavra.

E o uso pagão da palavra “euanggelion”? Como os romanos entenderiam essa palavra, quando a lessem ou ouvissem no livro de Marcos, já que, diferentemente dos judeus, não conheciam o Velho Testamento? Bem, deixe-me ler uma inscrição. Esta é uma inscrição do mundo romano. A data é 9 a.C.:

A providência que cobrou toda a nossa vida, mostrando preocupação e zelo, tendo ordenado a consumação mais perfeita para a vida humana, dando-a a Augusto, preenchendo-a com a virtude de fazer o trabalho de um benfeitor entre os homens e enviar a ele, por assim dizer, um salvador para nós e para os que vieram depois de nós, para fazer guerra à destruição, para criar ordem em todos os lugares. O aniversário de Augusto é o começo do mundo do ‘euaggelion’, que veio através dele.

Que interessante… Eles usaram a palavra “euaggelion” naquela ocasião, nessa inscrição, para descrever a chegada de César Augusto, retratado aqui como um benfeitor, para realizar o trabalho de um salvador, fazendo cessar a guerra, criando ordem em todos os lugares. É a chegada de um deus. A “boa notícia” ou “euaggelion”, então, é que Augusto César chegou. Essa inscrição real foi dedicada a ele, aparentemente, em seu aniversário.

Então, vemos novamente que o termo “euaggelion” era usado como um termo técnico para se referir à chegada triunfal de um imperador. Assim, tanto judeus como pagãos, compreendiam a palavra “euaggelion” como a chegada de um novo monarca, que apontava para a chegada de uma nova era. E a nova era seria uma era de ordem, paz, salvação e bênção.

Assim, Marcos escolhe uma palavra cujo significado era bem conhecido entre judeus e gentios e, de fato, ele está prestes a escrever a história de um novo Rei. As boas notícias estão prestes a ser contadas. Pelo menos, este é o começo das boas notícias, ou o “princípio do evangelho de Jesus Cristo”. A história ainda está sendo escrita, pois o Rei ainda não assumiu completamente o trono, o que um dia acontecerá na Terra e, finalmente, no novo céu e na nova terra, como um Rei eterno.

Mas Marcos começará a contar a história da chegada, ascendência, estabelecimento e entronização do novo Rei, que é muito mais glorioso do que todos os outros reis, e Seu nome é Jesus Cristo, o Filho de Deus. Ele é o novo Rei. Esta é a história do novo Rei que chegou, que está prestes a inaugurar Seu reino e trazer uma nova era de salvação, bênção, paz e ordem ao mundo. Um escritor histórico disse:

O paralelo entre o ‘evangelho [ou ‘euaggelion’] no culto ao imperador romano e na Bíblia é César e Cristo, o imperador no trono e o rabino desprezado na cruz, que se confrontam. Ambos são evangelho para os homens. Eles têm muito em comum, mas pertencem a dois mundos diferentes.

Então, Marcos inicia seu relato histórico da vida de Jesus com uma linguagem que faria seus leitores romanos saberem que o novo e mais glorioso Rei chegou, e Ele está muito acima dos outros reis, incluindo César. Ele é o assunto desta história. E este é apenas o começo de Sua história. E qual é o nome dele? Jesus Cristo, o Filho de Deus.

Jesus identifica Seu nome humano, Yeshua ou Yehoshua em hebraico – basicamente, Josué – significando que Yahweh é salvação. Yehoshua , assim, quer dizer “Yahweh é salvação”. O anjo declarou: “chamarás o seu nome JESUS; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados”, Mateus 1:21. Seu nome é Jesus, mas seu título é Cristo. Isso não é um nome; Cristo não é o sobrenome Dele. É um título real. Significa “O Ungido”. Os títulos Cristo e Messias significam a mesma coisa.

E a Sua linhagem? Ele é o Filho de Deus. Um na natureza com Deus, coeterno e igual. E Marcos também nos apresenta o início da história do Rei Jesus. O começo da história do Rei Jesus, o Filho de Deus. Não é o filho de algum outro monarca terrestre. Em João 1:49, lemos: “Natanael respondeu, e disse-lhe: Rabi, tu és o Filho de Deus; tu és o Rei de Israel.” Um novo Rei com um reino radicalmente novo, diferente de qualquer outro rei e de qualquer outro reino, e alguém que se põe acima de todos os outros reis e de todos os outros reinos, aquele cuja Bíblia O chama de Rei dos reis.

Este é o começo das boas novas de Sua ascensão ao trono. Ele prova ser o Rei divino, o Filho de Deus, por Suas palavras e ações, na primeira metade do Evangelho de Marcos. Ele prova ser o Filho de Deus e o Rei prometido, na segunda metade, por Sua morte e ressurreição. Então, a princípio, Seus feitos e palavras provam quem Ele é. Sua morte e ressurreição provam quem Ele é. E, bem no meio do livro de Marcos, Pedro confessa: “Tu és o Cristo”, ou em outras palavras, “Tu és exatamente quem afirmas ser”.

E assim, este é um livro sobre a chegada do maior Rei de todos os tempos, o novo Rei. E o novo Rei introduz um novo reino e uma nova era para o mundo. É apenas o começo da história, porque essa história se desenrolará por toda a História humana, e será consumada no novo céu e na nova terra, quando Ele governará e reinará para todo o sempre.

Então, Marcos estabelece o que é este livro em sua declaração de abertura. Agora, ele estabelece várias verdades sobre o novo Rei. Deixe-me lhe dar cinco delas.

A promessa do novo rei. Versículos 2 e 3: “Como está escrito nos profetas: Eis que eu envio o meu anjo ante a tua face, o qual preparará o teu caminho diante de ti. Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas.” É a única profecia do Antigo Testamento na introdução de Marcos. Você verá que no livro de Marcos são citadas várias profecias.

O que é notável é que a primeira profecia mencionada por Marcos não se refere ao Rei, mas a Seu arauto. E Marcos, lembre-se, está escrevendo para os gentios. Ele está escrevendo para cristãos romanos – e, claro, para não-cristãos romanos – que ouvirão a leitura de seu livro.

Os destinatários iniciais de seu livro não são os judeus. Por isso Marcos traz a citação de muitas profecias. Seus esforços para conectar a vinda de Jesus ao Antigo Testamento, por exemplo, não são focados em relatar genealogias, como Mateus e Lucas o fizeram. Marcos cita profecias específicas sobre Jesus, como o nascimento virginal, Belém, o chamado do Egito.

Marcos sabe, no entanto, que se os gentios olhassem para a história deste novo Rei e a vissem como uma chegada autêntica de um novo rei, eles esperariam que houvesse algum tipo de arauto que anunciasse a vinda do rei, porque era exatamente assim no mundo deles. No contexto em que os destinatários do livro de Marcos viviam, nenhum rei chegava e se auto anunciava como rei. Sempre haveria um precursor desse rei, alguém que anunciava a sua chegada próxima.

Os reis também sempre tinham uma comitiva. Os arautos tinham como função preparar o caminho e preparar as pessoas para a chegada do rei que representavam. Assim, os arautos não podiam ser qualquer pessoa, mas tinham que possuir autenticidade e autoridade para fazer esse anúncio.

Então, Marcos, consistente com a abordagem gentia de como os reis eram anunciados, vai ao Antigo Testamento pela única vez na introdução de seu Evangelho, não para encontrar uma profecia sobre Jesus, mas para encontrar uma profecia sobre Seu arauto, para dar autenticidade ao Seu arauto.

Apesar da variedade de textos do Antigo Testamento que se conectam a Jesus Cristo, Marcos usa uma profecia não sobre o novo Rei, mas sobre o Seu precursor, aquele que deve proclamar Sua chegada. Isso se encaixaria com os protocolos oficiais que as pessoas no mundo gentio bem conheciam.

Então, Marcos relata a chegada de um mensageiro. Identificado no versículo 2: “Eu envio o meu mensageiro.” E ele ainda identifica o mensageiro como alguém que estará clamando no deserto. Marcos aqui está citando o profeta Isaías. Ele era muito bem conhecido, até mesmo pelos cristãos gentios, por causa de seu vasto livro, muitos dos quais focados na chegada do Messias, o servo de Jeová, como Isaías O identifica.

Então, Marcos cita profecias de Isaías. Aliás, Mateus, Marcos, Lucas e João também usam profecias, apontando João Batista como seu cumprimento. João Batista é o cumprimento dessas profecias, e todos os quatro escritores dos Evangelhos indicam isso. “Como está escrito em Isaías, o profeta” – ou, de preferência, “como está escrito”. O novo Rei não é um novo plano. O novo Rei não é uma reflexão tardia. Este é o plano eterno de Deus. O plano culmina na chegada do novo Rei, Jesus Cristo, o Filho de Deus.

Os leitores gentios precisavam saber que quem anunciou Sua chegada é profetizado pelos profetas antigos. E não apenas isso, mas é profetizado pelo notável profeta Isaías, do Antigo Testamento. Ele é um arauto oficial, divinamente encomendado, para o novo Rei.

Agora, apenas como uma nota, Marcos diz: “Como está escrito no profeta Isaías…”. Há uma citação no versículo 2 e outra no verso 3. O versículo 2 é a citação de Malaquias 3:1. E o verso 3 é a citação de Isaías 40:3. O fato de Marcos identificar no texto apenas o profeta Isaías, e omitir o nome de Malaquias, não é algo incomum na citação de profecias do Antigo Testamento, em que o escritor se refere a apenas um dos profetas do Antigo Testamento, o mais proeminente, o mais notável, pois, afinal, tudo é Palavra de Deus.

Essas profecias andam juntas de maneira perfeita, e ambas se referem à mesma pessoa, de modo que freqüentemente são usadas juntas. Malaquias é o introdutório; Isaías é o mais importante. Mas ambos são referências gerais. Há algo que você precisa saber que os escritores do Novo Testamento fizeram: às vezes, eles citam o Velho Testamento exatamente como está o texto em hebraico. Mas, outras vezes citam a Septuaginta, o Antigo Testamento grego. Também, às vezes fazem uma referência exata de um texto, e outras vezes uma referência interpretativa.

Lembre-se sempre que os escritores do Novo Testamento foram inspirados por Deus. E assim, quando interpretam um texto do Antigo Testamento, eles o fazem por inspiração divina também. Então, eles sempre dão a verdadeira interpretação do texto. Às vezes a citação do Velho Testamento não é feita de modo literal, mas de modo interpretativo. Certamente a citação que Marcos está fazendo no verso 2, de Malaquias 3:1, é interpretativa.

Malaquias 3:1 registra: “Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim…”. Já em Marcos 1:2, você tem uma interpretação disso: “Eis que eu envio o meu anjo ante a tua face, o qual preparará o teu caminho diante de ti.” Obviamente, ambos se referem ao Rei vindouro. Mas, antes que o Rei venha, à frente Dele virá o mensageiro. Portanto, é uma profecia de que haverá alguém que chegará antes da vinda do Rei, cujo trabalho será o de preparar Seu caminho.

Como todos os profetas, este arauto do novo Rei é um mensageiro. Todos os profetas são proclamadores. Ele é um pregador. Ele fará um forte apelo para que as pessoas se preparem para a chegada do novo Rei. Malaquias 3:1 é uma referência direta a esse mensageiro, esse arauto do Rei vindouro.

E então, em Isaías 40:3, lemos como registrado aqui em Marcos 1:3: “Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor; endireitai no ermo vereda a nosso Deus.” Agora, lembre-se, Isaías profetizou o retorno dos judeus do cativeiro babilônico. Ele profetizou que eles voltariam para Israel; eles atravessariam o deserto e Deus os lideraria. E quando eles chegassem, Deus estaria com eles, e Ele ascenderia ao Seu trono, e novamente reinaria sobre eles.

E assim, no cumprimento próximo dessa profecia, Isaías estava falando sobre o retorno do cativeiro babilônico e a ascensão de Deus ao Seu lugar soberano sobre um Israel reconstituído. E isso exigiria preparar o caminho do Senhor. Deus os levaria de volta do cativeiro, e Deus estaria com eles.

No cumprimento futuro, essa profecia fala sobre alguém que prepararia o caminho para o novo Rei. E isso, é claro, está aqui associado ao precursor de Jesus, a saber, João Batista. Haveria alguém que anunciaria a chegada do novo Rei, convocaria pessoas para se prepararem para Sua gloriosa ascensão ao trono e estabelecimento de Seu reino de salvação, bênção e paz.

Os romanos entenderiam isso. Os gentios entenderiam isso. Os judeus entenderiam isso. O arauto não apontava para um monarca comum. Este não seria um rei típico, devido à natureza de Sua pessoa. Primeiro de tudo, Ele não era filho de outro rei, humanamente falando. Mas, Ele é o Filho de Deus. Isso O diferencia de todos os outros. Ele é Deus, o Filho, o que significa dizer que Ele é Deus eterno.

Agora, quero lhe mostrar uma coisa. O que já sabemos é que o nome dele é Jesus, Seu título é “rei”, Sua herança baseia-se no fato de que Ele é Filho de Deus. Mas, quero que você observe como isso é profundo no texto dessas profecias. O versículo 2, de Marcos 1, que corresponde a Malaquias 3:1, diz: “Eis que envio ante a tua face o meu mensageiro, que há de preparar o teu caminho.” Porém, literalmente, no texto de Malaquias 3:1, Deus diz: “Eis que eu envio o meu mensageiro, e ele há de preparar o caminho diante de mim.” Ou seja, o Rei que está vindo é um com Deus. O Rei que está vindo é Deus.

É por isso que João abre seu Evangelho, dizendo: “Vimos a Sua glória, a glória do unigênito do Pai”. E então, é claro, Malaquias 3 continua dizendo: “e de repente virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais…”. E você se lembra, quando o Senhor chegou, a primeira coisa pública que Ele fez foi ir ao templo e purificá-lo. Então, Ele veio subitamente ao Seu templo. Aquele que vem, então, é o Rei. Vindo como Rei, ele ascende ao Seu templo, Seu palácio. Ele o encontra como um covil de ladrões e o limpa.

Mas, quem é Ele? É o Senhor. É Deus. Você vê isso mesmo na segunda promessa do Antigo Testamento, citada por Marcos, no versículo 3, de Isaías 40:3: “voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas.” A palavra usada aí traduzida como Senhor é “Kýrios”. Mais uma vez, Javé, Deus, o Filho de Deus, o próprio Deus. Javé, o Senhor.

No versículo 8, de Marcos 1, lemos: “Ele vos batizará com o Espírito Santo.” Quem mais poderia dar o Espírito Santo, a não ser o próprio Senhor? Sim, Ele é o novo Rei que está chegando. O novo rei é Deus. O testemunho dessa realidade é dado em Seu batismo. Se você descer ao versículo 11, Jesus está sendo batizado: “e ouviu-se dos céus esta voz: Tu és meu Filho amado; em ti me comprazo.” Essa é a voz do Pai.

O mundo nunca viu um rei assim. O próprio Deus virá ao Seu povo, assim como Ele veio ao Seu povo quando eles voltarem do exílio no cativeiro. O próprio Deus virá ao Seu povo. Deus mesmo, Deus Filho será o novo Rei. A boa notícia é que Deus veio. Deus, o Deus do Universo, entrou na História para providenciar salvação, bênção e paz. Seu nome é Jesus. Rei Jesus, filho de Deus. O novo Rei está aqui. Um novo dia para o mundo inteiro. Um novo dia para a História humana; a salvação chegou. Essa é a boa notícia.

Nos mundos grego e romano, a palavra “euaggelion” era frequentemente usada no plural, ou seja “boas notícias”. No Novo Testamento, ela nunca é usada no plural, mas apenas no singular, pois a boa notícia é apenas uma, é a salvação que só há em Cristo. O novo Rei, que é Deus, desce para trazer salvação, paz, ordem e bênção.

Prosseguindo, Marcos nos apresenta o arauto do novo Rei. No versículo 4, aqui está o mensageiro que está clamando no deserto: “assim apareceu João, o Batista, no deserto, pregando o batismo de arrependimento para remissão dos pecados.” Eis o cumprimento da profecia. Por que as pessoas o chamavam assim? Você diz: “Bem, porque ele era batista. Ele é o primeiro batista. Ele é o batista original…”. Não, ele não é o batista original. E também esse não é seu sobrenome.

Esse nome era para identificá-lo e distingui-lo de outros com o mesmo nome, João. Quando você lê o Novo Testamento, vai encontrar uma Maria, e depois a Maria é identificada por algum outro nome, certo? Então, temos Maria, mãe de João Marcos; Maria Madalena; Maria, mãe de nosso Senhor; Maria, esposa de Clopas. Você precisa ter uma maneira de identificar a qual Maria o texto está se referindo.

Da mesma forma, precisamos de uma maneira de identificar de qual João o texto está falando. João era um nome muito comum em hebraico. E assim, o nome João Batista serviu muito bem para identificar aquele João que foi o precursor, o arauto de Jesus. Por que batista? Ora, porque ser alguém que batizava era a sua marca de distinção. E isso o diferenciava de todos os outros, porque ninguém mais batizava como ele.

Antes de João Batista, os judeus faziam limpezas cerimoniais, rituais de purificação, nos quais usavam água. Mas eles só conheciam o batismo que era um evento simbólico ao qual era submetido um prosélito, ou seja, um gentio que queria se converter ao judaísmo, que queria se tornar um adorador do verdadeiro Deus. Essa pessoa era batizada, ou imersa, mergulhada na água, para simbolizar que havia sido purificada de sua vida anterior e entrado na religião pura, por assim dizer, do judaísmo. Esse era o batismo prosélito. Era algo comum, acontecia o tempo todo.

Mas, o tipo de batismo que João trouxe era algo que não existia até então. Além disso, ele apareceu no deserto. De fato, em João 3:23, é nos dada a localização desse deserto de onde João pregava e batizava, a cerca de 40 a 50 km ao sul do mar da Galiléia, ao longo do rio Jordão. Ele subia e descia o rio Jordão durante o seu ministério, pregando no deserto, longe de todas as cidades e do povo.

Ele esteve naquele deserto, basicamente, a vida inteira. De acordo com Lucas 1:80, João passou a vida no deserto. Ele era um sujeito do deserto. Agora, há muitas histórias maravilhosas sobre João Batista, verdadeiras, contadas por Mateus, por Lucas e João. Poderíamos citar o fato de ele ter sido miraculosamente concebido, porque seus pais eram velhos demais e tinham sido estéreis a vida toda. Uma história maravilhosa.

Nós poderíamos conversar sobre o fato de que ele já estava cheio do Espírito Santo desde o ventre de sua mãe. Poderíamos ainda falar sobre o fato de ele ser parente de Jesus, que Maria e Isabel se encontraram enquanto estavam grávidas, pois ambas sabiam que Deus havia feito um milagre na concepção de seus filhos. Poderíamos falar sobre o fato de que ele era o culminar da história profética do Antigo Testamento, o último profeta, sendo que não houve nenhum profeta enviado por Deus há 400 anos antes da vinda de João.

Poderíamos falar sobre o fato de que Jesus disse – Mateus 11:11 – “Em verdade vos digo que, entre os nascidos de mulher, não surgiu outro maior do que João, o Batista…”, porque João recebeu a maior responsabilidade que qualquer homem já teve: apontar para o Messias, anunciar o novo Rei. Mas, Marcos deixa todas essas informações fora do seu relato. Ele apenas diz isso sobre João, versículo 6: “Ora, João usava uma veste de pêlos de camelo, e um cinto de couro em torno de seus lombos, e comia gafanhotos e mel silvestre.”

Bem, você pode achar isso um pouco estranho. Realmente era. Mas, no deserto, gafanhotos e mel silvestre seriam uma boa maneira de nutrição, porque, pelo que entendemos, havia muito disso disponível ali. Por outro lado, alguém que viveu no deserto a vida toda, não se importaria com moda. Basicamente a preocupação é se aquecer, porque pode fazer muito frio naquele deserto.

João também era um homem muito conhecido dos historiadores antigos. Até Josefo, o historiador judeu, escreve sobre ele e diz: “Ele era um homem bom que ordenou aos judeus que praticassem virtude e piedade em relação a Deus e viessem ao batismo”. Mas, a única coisa que Marcos nos diz sobre João Batista é concernente ao seu estilo. Agora, como era essa roupa de pelos de camelo que João usava? Ela era feita com pelos de camelo tecidos (num tear), que eram transformados em uma peça de roupa. Era uma espécie de roupa áspera, peluda. Além disso, ele usava um cinto de couro na cintura.

Seu estilo de vida, no entanto, tem um paralelo. Bem, se você olhar para Zacarias 13, ele fala sobre alguns falsos profetas e associa os falsos profetas ao uso de uma túnica peluda, verso 4: “Naquele dia os profetas se sentirão envergonhados, cada um da sua visão, quando profetizarem; nem mais se vestirão de manto de pelos, para enganarem.” Agora, por que um falso profeta, que queria enganar, vestia uma túnica de pelos? Porque uma túnica peluda estava associada a um verdadeiro profeta. Ou seja, era um disfarce perfeito para um falso profeta querer se passar por um verdadeiro profeta.

Quando Jesus disse: “Cuidado com os lobos que vêm em pele de cordeiro”, imagine um lobo com uma ovelha sobre sua cabeça. A roupa de João era peluda, em vez de algo feito de linho ou algodão. E mais notavelmente, se você voltar a 2 Reis, capítulo 1, encontrará Elias, o Tisbita. Isto é o que é dito sobre ele no versículo 8: “Responderam-lhe eles: Era um homem vestido de pelos, e com os lombos cingidos dum cinto de couro. Então disse ele: É Elias, o tisbita.”

Parece que Elias criou a moda para os profetas. Se alguém queria ser levado a sério como profeta, vestiria uma túnica peluda e um cinto de couro. Isso lhe daria a aparência de um profeta. Bem, João era um profeta. Ele não apenas foi um profeta, mas também um profeta que veio no espírito e poder de Elias. Ele era um verdadeiro profeta enviado por Deus. Ouça Lucas 1:15 a 17:

15 Porque ele será grande diante do Senhor; não beberá vinho, nem bebida forte; e será cheio do Espírito Santo já desde o ventre de sua mãe;
16 converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus;
17 irá adiante dele no espírito e poder de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos, e os rebeldes à prudência dos justos, a fim de preparar para o Senhor um povo apercebido.

Você se lembra que em Malaquias 3 há a profecia sobre a vinda de um mensageiro. Um pouco mais é dito sobre esse mensageiro em Malaquias 4:5: “Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor…”. João Batista veio no espírito e poder de Elias. E Jesus disse, em Mateus 11:14, “E, se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir.” No entanto, você se lembra que os judeus não o aceitaram. Eles mataram João Batista, assim como fizeram com Jesus.

Há outro momento em que Jesus retornará e, antes de Sua segunda vinda, haverá outro no espírito e poder de Elias. João Batista entendia isso? Claro que ele entendeu isso. A profecia chegou a seus pais antes de ele nascer, de que ele ministraria no espírito e poder de Elias. Ele se identificou com Elias desde o início. Por isso ele vestiu o que vestiu. Por isso ele viveu da maneira que viveu. Ele viveu contra o padrão da cultura.

Sua dieta era gafanhoto e mel. A propósito, de acordo com Levítico 11:22, esse era o único inseto que um judeu podia comer. Fornece proteína. O mel selvagem estava em toda parte e era bom. Você percebe isso sobre João Batista? Ele não queria se identificar com a sua cultura. Ele se importava em se identificar com a cultura de um profeta. Eu acho que qualquer pregador comete um erro grave quando tenta se identificar com a linhagem do povo, e não com a linhagem dos profetas.

Elias queria permanecer na grande tradição dos profetas. Queria falar como um profeta, agir como um profeta, parecer-se com um profeta. Agora, qual foi a mensagem dele? De volta ao versículo 4. Ele estava pregando um batismo de arrependimento para perdão dos pecados. Era o que ele estava fazendo. Nos tempos antigos, o enviado ou arauto do rei iai adiante dele, removendo todos os obstáculos no caminho. Às vezes o arauto abria um caminho, às vezes construía uma estrada, uma ponte, removendo os obstáculos.

O arauto garantiria que as pessoas estivessem prontas para receber este novo rei. Como o povo deveria se preparar para a chegada do novo Rei, Jesus? Era através de um batismo de arrependimento para perdão dos pecados. Eles precisavam ter seus pecados perdoados. Para que seus pecados fossem perdoados, o que Deus misericordiosamente faria, eles precisavam se arrepender de seus pecados. E para demonstrar seu arrependimento, eles estariam dispostos a se submeter a um batismo.

O batismo não traria o perdão do pecado, mas apenas serviria como uma declaração de arrependimento. É por isso que João foi rotulado de batizador. Os judeus tinham lavagens cerimoniais em seus rituais, mas nenhum batismo, exceto o batismo prosélito, ou seja de um gentio convertido so judaísmo.

Então, um judeu que se submetia ao batismo de João estaria simbolicamente afirmando: “Eu não sou melhor que um gentio. Não estou mais preparado que um gentio para encontrar o novo Rei, para que Deus estabeleça Seu reino e me faça parte dele”. Isso era uma grande confissão, pois os judeus haviam sido treinados praticamente para se ressentir contra e odiar os gentios e pensar neles como estando fora da aliança.

João, assim, estava chamando os judeus a se declararem não melhores que os gentios. E para marcar esse arrependimento, essa “metanoia” deliberada que significa uma mudança genuína de vida, eles precisariam produzir o fruto do arrependimento. Você se lembra de como João Batista disse isso? Lucas 3: 8 registra isso: “Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento.” Ou seja: prove que está arrependido.

O primeiro passo seria estar disposto a passar por um batismo de prosélito e se ver como alguém não melhor que um gentio. Um arrependimento radical. E esta foi a mensagem que veio de Deus para João, Lucas 3:2, “veio a palavra de Deus a João…”. Esse não era o batismo em nome de Jesus. Sabemos disso, porque os seguidores de João Batista foram mais tarde batizados por Paulo, em nome de Jesus, de acordo com Atos 19.

Agora, você precisa saber mais uma coisa sobre o contexto da mensagem de João: sua pregação era de julgamento. Em Lucas 3, você pode ler acerca disso. Ele pregou julgamento. Ele disse coisas duras ao povo, tal como: “Raça de víboras, quem vos ensina a fugir da ira vindoura?”. Ele disse: “vem aquele que é mais poderoso do que eu, de quem não sou digno de desatar a correia das alparcas; ele vos batizará no Espírito Santo e em fogo. A sua pá ele tem na mão para limpar bem a sua eira, e recolher o trigo ao seu celeiro; mas queimará a palha em fogo inextinguível.”

Ele era um pregador do julgamento, um feroz pregador do julgamento. Foi essa mensagem que levou as pessoas a quererem lidar com seus pecados. O medo de que, quando o Messias finalmente chegasse, quando o novo Rei ascendesse ao Seu trono e estabelecesse Seu reino, eles estariam do lado de fora olhando. O julgamento estava chegando.

Mas, assim como Deus é um Deus de julgamento, Ele também é um Deus de graça e oferece perdão pelos pecados daqueles que se arrependiam. Bem, todo mundo praticamente queria fazer parte do reino do Messias. Eles não queriam ficar de fora. Eles conheciam a pecaminosidade de seu próprio coração.

Assim, de acordo com o versículo 5, todo a Judéia estava vindo ouvir João, todo o povo de Jerusalém. Trata-se, a propósito, de uma linguagem hiperbólica, significando que muitos ou a maioria das pessoas que habitavam aquela região iam ter com João Batista. Eles estavam sendo batizados por ele no rio Jordão, confessando seus pecados. Algo como um reavivamento nacional. Escreveu Mark Horne:

Ao fazer essa peregrinação Ao Jordão, aqueles que criam na mensagem de João mostraram que queriam estar visivelmente separados dos que estavam sob julgamento quando o Senhor viesse. Eles queriam ser membros do futuro purificado de Israel. Passar pelo batismo de João os ajudou a prever que não eram apenas o povo da aliança de Deus, mas que permaneceriam nessa aliança depois que Deus lançasse para fora outras pessoas. Para ter certeza de que seriam incluídos no futuro Israel perdoado, cuja iniquidade seria removida, eles precisavam se arrepender e pedir perdão.

Era o que eles estavam fazendo. Então, eles vieram confessando, sendo batizados. No entanto, isso era, por melhor que parecesse, bastante superficial, não era? No final da passagem do Messias, e os verdadeiros crentes estão reunidos em Jerusalém após a ascensão de Jesus, há apenas 120 pessoas no cenáculo.

Por que o deserto? William Lane escreve – e penso que ele tem razão, quando diz: 

A convocação para ser batizado no Jordão significa que Israel deve mais uma vez vir ao deserto. Como Israel, há muito tempo havia sido separado do Egito por uma peregrinação pelas águas do Mar Vermelho, a nação é exortada novamente a exercitar a separação. O povo é chamado a um segundo êxodo em preparação para uma nova aliança com Deus.

Quando as pessoas atendiam ao chamado de João e iam até ele no deserto, muito mais estava envolvido nesse ato, do que contrição e confissão. Eles retornavam a um lugar de julgamento, o deserto, onde o status de Israel como filho amado de Deus deve ser restabelecido na troca de orgulho por humildade. A disposição de retornar ao deserto significa o reconhecimento da história de Israel como de desobediência e rebelião, e o desejo de recomeçar mais uma vez.

Finalmente, Marcos migra da promessa, do arauto, da preparação para receber o Rei, e se concentra na preeminência do novo Rei. Vejamos o versículo 7 de Marcos 1:: “E pregava, dizendo: Após mim vem aquele que é mais poderoso do que eu, de quem não sou digno de, inclinando-me, desatar a correia das alparcas.”

João, como verdadeiro precursor, aponta para Cristo. Nunca aponta para si mesmo. João 3:30, registra as seguintes palavras de João Batista: “Importa que Ele cresça, e que eu diminua”. Esse é um modelo para qualquer pregador. Não se identifique com a cultura. Identifique-se com os profetas. Não se pareça com a cultura. Seja parecido com os profetas. Mantenha a dignidade desse ministério. E não aponte para si mesmo, mas aponte para Cristo. “Após mim vem aquele que é mais poderoso do que eu, de quem não sou digno de, inclinando-me, desatar a correia das alparcas”. Quão poderoso Ele é? Ele é o Senhor; Ele é “Kurios”; Ele é Deus, o Filho; Ele é o Rei Jesus.

A que distância João considerava que Jesus está acima dele? Resposta: “aquele que é mais poderoso do que eu, de quem não sou digno de, inclinando-me, desatar a correia das alparcas”. Sabe de uma coisa? Esse era o trabalho mais baixo possível que qualquer empregado poderia ter. Se você fosse o criado que desamarrava as sandálias de seu mestre, sua posição era muito baixa, você seria a ralé. Veja algumas citações antigas de fontes hebraicas: “Um escravo hebreu não deve lavar os pés do seu senhor, nem calçar os sapatos.” Isso estava abaixo da dignidade de um escravo hebreu.

Outra citação: “Todos os serviços que um escravo presta ao seu mestre, um discípulo deve prestar ao rabi, com a exceção de desabotoar os sapatos.” João vem e diz: “Estou abaixo das pessoas que fazem isso. Eu nem estou no nível daqueles que desamarrariam os sapatos Dele. Estou muito abaixo.”

Por que João sabia da sua posição muito abaixo do Rei Jesus? A resposta está no verso 8: “Eu vos batizei em água; ele, porém, vos batizará no Espírito Santo.” Em outras palavras, “tudo o que posso fazer é enfiá-lo na água; mas Ele pode transformá-lo por dentro.” Isso se refere ao trabalho de salvação, da transformação da alma, do nascer da água e do Espírito.

Este não é um segundo batismo pentecostal. Mas, é a lavagem da regeneração e a renovação do Espírito Santo mencionada em Tito 3. Esta é a nova aliança: purificação, limpeza, transformação, regeneração, novo nascimento. João Batista disse: “Eu não posso fazer isso. Somente Deus dá o Espírito Santo. Então, o novo Rei, Ele dará a vocês o Espírito Santo.” Com o Espírito Santo vêm a salvação, santificação, serviço.

Então, Marcos começa o seu livro com as boas notícias, o “euaggelion”. Boas notícias de que há um novo Rei, que é o próprio Deus, trazendo um novo reino. É um reino de perdão, bênção. É para aqueles que se arrependem. É o culminar de toda a história redentora passada e a porta para toda a glória futura. O arauto chegou para anunciar Sua chegada. E o resto é a história do Rei, que Marcos passa a narrar a partir do versículo 9. Oremos.

Pai, agradecemos-Te por este livro maravilhoso, por suas riquezas profundas e encorajamento para nós. Obrigado pela beleza das Escrituras, sua magnificência, consistência, integridade, autenticidade, inerrância, pureza, confiabilidade. Além disso, o poder de mudar vidas. Oramos para que haja alguns nesta manhã que digam com Pedro,, “Tu és o Cristo!”, confessando seus pecados, arrependendo-se e pedindo perdão ao Rei que morreu por eles. Pai, agradecemos novamente por Teu trabalho em nossas vidas. Agradecemos por estarmos no Teu reino. Agradecemos por não estarmos olhando de fora; porque o Senhor nos levou à confissão, arrependimento e fé no Rei. Cremos que Jesus é o Rei e, portanto, temos salvação e vida em Seu nome. Obrigado por este presente, e que Tu possas estendê-lo a muitos outros. Oramos, por Tua glória, Amém.


Esta é uma série de  sermões de John MacArthur sobre o Evangelho de Marcos. Veja abaixo os links dos sermões já publicados.


Este texto é uma síntese do sermão “The Herald of the New King″, de John MacArthur em 22/03/2009.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/library/sermons-library/41-2/the-herald-of-the-new-king

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


Leia também: A grandeza de João Batista


 

 

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