A Estratégia Ministerial de Jesus

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Temos sido realmente abençoados e privilegiados por estarmos estudando juntos o Evangelho de Marcos. Tenho certeza de que alguém pode dizer: “Você acabou de concluir uma série de sermões no Evangelho de Lucas, que levou 10 anos para ser concluída, e agora você está voltando a Marcos, a mesma história do Senhor Jesus Cristo?”

E eu responderia que sim, passamos por Mateus, por João, Lucas, e agora chegamos a Marcos, e se houvesse mais quatro Evangelhos, veríamos cada um deles também, porque as glórias de Cristo são inesgotáveis. As facetas de Sua majestade, a maravilha de Sua pessoa não podem ser contidas. Toda perspectiva, todo ponto de vista nos enriquece profundamente. E nunca se canse de examinar o Senhor Jesus Cristo, e Ele, é claro, é o tema desses Evangelhos.

Estamos determinados a avançar um pouco mais rápido através de Marcos. Não seria incomum eu pegar a passagem que vamos ver nesta manhã e pregar até oito a dez mensagens só nesse texto das Escrituras. Eu fiz isso no passado, com grande prazer e alegria. Mas, essa é uma abordagem diferente da que estamos adotando em Marcos, uma visão um pouco mais ampla das coisas, para que possamos nos mover na velocidade que Marcos quer que seus leitores se movam, pois, como eu lhes disse, ele usa a palavra “imediatamente” [ou “e logo”, em algumas traduções para o português] cerca de uma dúzia de vezes no capítulo 1, apenas para garantir que continuemos em movimento, e certamente faremos isso.

Deixe-me ler o texto para nós desta manhã. É Marcos 1, versículo 12 ao versículo 20:

12 E logo o Espírito o impeliu para o deserto,
13 onde permaneceu quarenta dias, sendo tentado por Satanás; estava com as feras, mas os anjos o serviam.
14 Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galileia, pregando o evangelho de Deus,
15 dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho.
16 Caminhando junto ao mar da Galileia, viu os irmãos Simão e André, que lançavam a rede ao mar, porque eram pescadores.
17 Disse-lhes Jesus: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens.
18 Então, eles deixaram imediatamente as redes e o seguiram.
19 Pouco mais adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam no barco consertando as redes.
20 E logo os chamou. Deixando eles no barco a seu pai Zebedeu com os empregados, seguiram após Jesus.

Agora, lendo isso, você precisa entender que existem algumas omissões muito amplas no texto. Você tem o relato da tentação de Jesus Cristo nos versículos 12 e 13, e Marcos não nos dá nenhum registro do que foi a tentação no deserto. Em Mateus, você tem uma apresentação muito detalhada das facetas da tentação que vieram contra Cristo e como Ele as respondeu. Você tem o mesmo em Lucas. Porém, de Marcos, você recebe um comentário muito rápido sobre a tentação.

A tentação de Cristo é, então, seguida aqui pelo ministério de Cristo, começando na Galileia. Para conseguir isso, Marcos pulou o ministério inicial de Jesus no sul – na Judeia e em Jerusalém – um ministério que se sobrepôs ao ministério em andamento de João Batista. Um ministério que incluiu, por exemplo, a purificação do templo em João 2, onde Jesus lançou publicamente Seu ministério. Também são omitidos alguns milagres.

Também Marcos pulou o movimento de Jesus quando deixou a Judeia e foi para o norte, através de Samaria, conforme registrado em João 4, onde Ele encontrou a mulher samaritana e Se revelou como o Messias para essa samaritana. Marcos pula tudo isso e vai para o ministério de Jesus quando Ele finalmente chega à Galileia. Assim, muitos eventos e muito tempo se passaram entre a tentação de Cristo e o ministério da Galileia.

E então, aparentemente sem uma conexão com o que foi dito no versículo 16, Marcos registra o chamado de Jesus quanto aos quatro primeiros discípulos, ou apóstolos. E a pergunta vem: por que Marcos reúne essas informações dessa maneira? E a resposta é: porque Marcos está tentando estabelecer algo para nós.

Agora sabemos que Jesus é o novo Rei. O versículo 1 diz que o livro trata do evangelho de Jesus Cristo, o Filho de Deus. É a anunciação de que o novo rei chegou, o Rei de Deus, o Ungido, o Messias, o Salvador, o Filho de Deus, Jesus Cristo.

Essa é a história Dele. E, quando a história começa, tudo o que Marcos quer fazer é estabelecer as bases dessa história. A primeira coisa importante que acontece com Cristo é o Seu batismo. Essa é a Sua coroação como o novo Rei do céu. O Pai diz: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo.” O Espírito Santo desce, assenta sobre Ele, capacita-O, enche-O, e o Espírito Santo se torna o intermediário entre a natureza divina e a natureza humana de Jesus, de modo que as duas são ligadas pelo poder do Espírito Santo.

Ele agora é capacitado pelo Espírito. Ele agora recebe autoridade divina. Essa é a Sua coroação, a inauguração de Seu ministério. O que resulta disso é a Sua autoridade. Marcos, então, imediatamente quer demonstrar essa autoridade. E nos três parágrafos que eu li, ele demonstra a autoridade de Cristo sobre três reinos. Número um, sobre Satanás e seu reino. Número dois, sobre o pecado e seu domínio. Três, sobre os pecadores.

É importante que saibamos que, para que ficasse crível que o novo Rei tomaria Seu trono, reinaria, derrotaria o usurpador (o rei temporário, o próprio Satanás), teria vitória sobre Satanás, o pecado e os pecadores, Ele teria que demonstrar o poder para fazer isso. E é aí que Marcos estabelece a autoridade de Jesus.

  • Primeiro, em Sua tentação, Sua autoridade sobre Satanás se torna clara.
  • E então, em Sua pregação, Sua autoridade sobre o pecado se torna clara, porque Ele prega as boas novas de que, se você se arrepender e crer, será perdoado e entrará em Seu Reino. Ele pode dominar Satanás. Ele pode dominar o pecado.
  • E em terceiro lugar, Ele pode e irá dominar as almas dos pecadores, e isso é ilustrado pelo fato de que do nada Ele se aproxima de quatro homens, dá uma ordem a eles, a qual eles imediata e instantaneamente obedecem – a um imenso custo e sacrifício para eles.

Então, é isso que está estabelecido nesses três pequenos parágrafos. Mas, além disso, há algumas implicações que acho úteis para nós. Jesus também nos dá um modelo de como um ministro fiel deve ser. Ele nos dá um modelo de como o ministério deve ser feito. Se você quer ministrar efetivamente, aqui está o padrão. Vitória sobre Satanás é essencial. Uma mensagem clara. Tudo isso está no início do Evangelho de Marcos. Isso, então, torna-se um modelo para o ministério, que realmente precisamos entender.

Enquanto, por um lado, estamos vendo a autoridade de Cristo demonstrada, por outro, estamos olhando para a própria estratégia de Cristo. Certamente, na igreja de hoje não há falta de estratégias. Não há falta de estratégias para um ministério bem-sucedido, pois elas são quase infinitas. Todo empreendedor novo tem a mais nova ideia para reunir multidão e popularidade.

Toda nova tendência supera a antiga e, se você estiver tentando se manter atualizado, é impossível porque, quando você disser ao seu pessoal que vai fazer diferente e tiver trabalhado no processo para chegar à nova tendência, ela já vai ser obsoleta. Que tolice, francamente, é perseguir métodos, abordagens estilizadas, superficiais, relacionadas às preferências sociais e modismos culturais!

Existe um modelo para o ministério, demonstrado nessa parte das Escrituras, que nunca muda: trata-se da estratégia do Senhor para um ministério eficaz, em cumprimento de Seu próprio chamado divino. E Marcos nos apresenta esses três parágrafos. Eles são breves. Eles são seletivos. Eles são rápidos, no estilo clássico que Marcos escreve.

Agora, num exame superficial, eles podem parecer não relacionados. Porém, eles não são independentes, como acabei de salientar. Eles são cuidadosamente selecionados pelo Espírito Santo para colocar as peças essenciais que produzem um ministério eficaz. Nosso Senhor estabelece Seu poder, seu Reino sobre Satanás. Ele estabelece a mensagem do Seu Reino, que é uma mensagem que indica Seu poder sobre o pecado. E Ele estabelece os meios de expansão do Seu Reino, que é promovê-lo através dos homens.

Então, eu quero destacar três pontos. Nem sempre lhes dou um pequeno esboço, mas de vez em quando é divertido ter um. O que contribui para um ministério eficaz? Resposta: santidade da alma, simplicidade de assunto e seletividade dos sucessores. Marcos reúne esses três pequenos parágrafos com ações que definem os componentes de todo ministério eficaz.

1 – A SANTIDADE DA ALMA

Agora, isso é imediatamente após o batismo. Os versículos 9 a 11 descrevem o batismo, a coroação, a inauguração do ministério de Cristo , o momento que Cristo esteve esperando por trinta anos. E o lançamento de Seu ministério se dá naquela gloriosa e divina afirmação do Pai e coroação no Seu batismo. É seguido imediatamente pelo relato de Marcos da tentação de nosso Senhor por Satanás. Isso é para estabelecer o fato de que o novo Rei tem o poder de estabelecer Seu Reino, embora haja um forte adversário sobrenatural, Satanás.

E assim, vemos, antes de tudo, a santidade da alma. A questão é: o Filho de Deus pode conquistar Seu arqui-inimigo? O Filho de Deus pode passar pela emboscada mais atraente que Satanás possa inventar? Ele nunca será capaz de estabelecer Seu Reino se não puder derrubar o usurpador, se não puder conquistar Satanás.

Ele deve ser capaz de esmagar a cabeça da serpente, na linguagem de Gênesis 3:15. Ele deve ser capaz de destruir as obras do diabo, como João colocou, se Ele quiser estabelecer Seu Reino, pois Satanás atualmente reina no mundo.

Veremos aqui que Ele tem o poder de vencer Satanás no momento mais tentador e sedutor da tentação, em Seu ponto mais fraco, nas circunstâncias mais isoladas que se possa imaginar. Ele mostra Seu poder sobre Satanás, e nos dá um modelo da importância de fazer o trabalho do Reino com um coração puro.

Assim, quando chegamos aos versículos 12 e 13, a majestosa e gloriosa coroação tinha acabado de acontecer. Você poderia esperar que algo celestial acontecesse após essa coroação, como anjos cantando, ou alguma coisa assim. Ou você poderia esperar por algum tipo de celebração ou talvez por uma doxologia que exaltasse as glórias de Cristo. Mas não, você nem consegue recuperar o fôlego, seguindo a narrativa de Marcos. Você vai da coroação à tentação sem nada entre elas. Imediatamente após o Seu batismo, Ele é levado a entrar em conflito com Satanás, o arqui-inimigo de Deus.

Não houve tempo para saborear a glória do batismo, para aproveitar a tão esperada hora de Seu comissionamento. Não houve tempo para apreciar as maravilhosas palavras de afirmação do Pai, para saborear a alegria da união com o Espírito Santo. Jesus é lançado em um ataque feroz feito pelo diabo, e é assim que o versículo 12 começa, com a palavra imediatamente [ou “logo”] a qual é usada por Marcos cerca de uma dúzia de vezes no primeiro capítulo: “Imediatamente o Espírito o impeliu para o deserto.”

O Espírito Santo agora assumiu o controle de Sua vida, que O encheu. Ele está cheio do Espírito Santo, Lucas 4: 1 diz. Essa é a terceira menção do Espírito Santo, que é o poder por trás de tudo o que Jesus fará. E Marcos não nos dá a razão pela qual o Espírito Santo o impeliu ao deserto, mas Mateus 4:1 o faz: “Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo.”

O verbo, usado no versículo 12, traduzido como impelido, é “ekballō”, que tem o sentido de jogar para fora. Assim, literalmente, o Espírito jogou Jesus para fora, no sentido de uma forte compulsão. Essa foi a vontade de Deus. Jesus não foi resistente e por isso teve que ser lançado para fora, impelido. Não é isso que Marcos está dizendo. Jesus não estava relutante. Mas, o Espírito Santo está agora no controle. O Espírito Santo, que controla Sua vida em cumprimento ao plano de Deus, literalmente O joga no deserto.

Por favor, não entenda isso mal. Deus não é o tentador, o Espírito Santo não é o tentador. Tiago 1 diz que Deus não tenta homem algum. Deus não pode ser tentado. Ele não pode tentar. Mas, Deus permitirá que os Seus filhos sejam tentados, a fim de que através da vitória sobre a tentação possam triunfar. A tentação não é por acaso, não é por capricho, não é pela vontade de Satanás. Não é o que Satanás planejou. É pelo poder do Espírito Santo no plano de Deus.

Por que no deserto? Essa tentação não poderia ter chegado em outro lugar? Claro, poderia ter sido em Jerusalém. Em uma das tentações que o diabo traz a Jesus, ele realmente O leva a Jerusalém. Por que o deserto? Porque Jesus está aqui longe de todos e de tudo. Ele passou do momento mais alto e exaltado de Sua coroação no Seu batismo, entre as multidões que cercavam João Batista ao batizar no rio Jordão. Ele passou das multidões para o isolamento absoluto e total no deserto.

O Pai O elogiou, o Espírito O capacitou, João Batista declarou que Ele era o Messias, o Salvador, o Cordeiro de Deus. Ele é cheio do Espírito Santo. Ele está em total consciência de Sua personalidade e Sua missão divina. Sua santa humanidade está cheia de poder, sabedoria e verdade. Sua alma está repleta de alegria. Depois de esperar trinta anos, Ele está prestes a começar Sua missão e, justamente naquele momento mais alto, o Espírito Santo literalmente o joga no deserto em um conflito com Satanás.

Por que o deserto foi escolhido? Porque Ele terá que lidar com Satanás por conta própria, sem ninguém ao Seu redor, nenhum apoio, ninguém para ajudá-Lo através da tentação, ninguém para orar com Ele, orar por Ele, ninguém para confortá-Lo, ninguém para encorajá-Lo. Ele está absolutamente sozinho. Ele deve demonstrar Seu poder sobre Satanás sem ajuda.

Muito provavelmente, dizem os historiadores, isso se deu na região desértica chamada Jeshimon. George Adam Smith a chamou de “a devastação”. É uma área selvagem, severa, desabitada. Pode ser a área perto da estrada de Jericó para Jerusalém, que é realmente uma estrada assustadora. Eu já estive por lá várias vezes, uma área perigosa com picos rochosos e escarpados, ribanceiras assustadoras. Eu estive naquela estrada em um ônibus muito precário.

Mas, naqueles dias, não havia pessoas nessa área. Não havia pessoas atravessando aquela área fora da trilha, e por isso era um local onde Jesus estaria absolutamente sozinho. Deuteronômio 8:15 fala do terrível e grande deserto, com suas serpentes e escorpiões ardentes, solo árido, onde não há água. E, assim, Jesus será tentado em condições contrárias às de Adão.

Adão foi tentado em um paraíso, em um lugar exuberante. Adão foi tentado na companhia de Eva. E Adão caiu. Cristo foi tentado em absoluto isolamento, em um lugar que mais sentiu os efeitos da maldição lançada por Deus como resultado do pecado, que é o mais oposto ao Éden do que qualquer lugar do mundo. Um deserto absolutamente árido e perigoso. O versículo 13 o descreve como um local em que Jesus estaria “entre as feras”.

E Marcos aqui está ilustrando o perigo daquele lugar, mas ele também está dizendo que não havia pessoas lá, porque as pessoas não vivem onde os animais selvagens vivem, e os animais selvagens acabam indo para onde as pessoas não estão. O objetivo é descrever o perigo, mas ainda mais o isolamento nesse local. Se você ler o Antigo Testamento, verá que existem passagens que descrevem o tipo de coisas que viviam naquele lugar.

Acabei de ler para você em Deuteronômio 8, que fala sobre escorpiões e serpentes, mas o Antigo Testamento fala de leões no deserto da Judeia, de porcos selvagens muito perigosos, de lobos, raposas, chacais, panteras. Esse não é um lugar onde as pessoas viviam. É um lugar sinistro, perigoso e inabitável, cheio de animais selvagens.

Agora, Marcos não nos diz o que Mateus e Lucas nos dizem, que Jesus ficou sem comida por quarenta dias inteiros (Mateus 4:2, Lucas 4:2). Jejuns de quarenta dias haviam acontecido antes de Cristo. De acordo com o capítulo 34 de Êxodo, Moisés fez um jejum de quarenta dias. De acordo com 1 Reis 19, Elias também fez um jejum de quarenta dias. É muito tempo, quase seis semanas sem comer nada.

O versículo 13 diz que Jesus esteve no deserto quarenta dias, sendo tentado por Satanás. Quarenta dias sozinhos, quarenta dias isolado, em um lugar perigoso e devastador. Quarenta dias sem nada para comer. Portanto, Ele não tinha um sistema de apoio, ninguém para ajudá-Lo, ninguém para confortá-Lo, para instruí-Lo, ninguém para encorajá-Lo, e ele estava em uma condição de fraqueza física muito grave.

Sua força se esgotaria muito antes da sexta semana. Começaria a diminuir seriamente na segunda semana. Mas, se Ele é o Rei, deve ser capaz, embora sozinho e fraco, de conquistar o inimigo. E assim, o Espírito Santo O lança nesse conflito. Ele não é apenas um rei – e é isso que você precisa ter em mente. Ele é Rei, e está reinando sobre Seu povo agora, e reinará sobre a terra e sobre todo o novo céu e a nova terra na eternidade. Ele é Rei, sempre reinará e, finalmente, reinará sobre tudo.

Mas, Ele também é um servo sofredor. E enquanto como um rei Ele é exaltado, como servo sofredor, é humilhado. É um paradoxo. O mais exaltado é o que mais sofre. Vagando naquele lugar sozinho por quase seis semanas, sem nada para comer no deserto, Ele está sendo tentado o tempo todo por Satanás.

Algumas pessoas presumem que Ele só foi tentado no final dos quarenta dias. Bem, as tentações que vieram ao fim dos quarenta dias estão registradas em Mateus 4 e Lucas 4, mas aqui (em Marcos 1) nos é dito que Ele foi tentado o tempo todo.

E o interessante sobre a tentação é que ela nunca foi no sentido de Ele desistir de Sua soberania. Nunca foi uma tentação para que Ele desistisse de Sua realeza ou para Ele renunciar aos Seus direitos e privilégios, Sua honra, exaltação e elevação. Mas foi uma tentação para Ele abandonar Sua humilhação. E se você ler Mateus 4 e Lucas 4 você verá a narrativa dessas tentações.

Primeiro, Ele está com fome e o inimigo O tenta a transformar pedras em pão. Por quê? Satanás diz: “Você é o Filho de Deus, você é o Rei, você é Deus, o Filho. Você é o Ungido, você é o Messias.” Satanás afirma isso. “Você é privilegiado, deveria ter honra. Você deveria ter respeito. Você não deve ter fome. Não aceite essa humilhação.” Satanás não queria tentar que Cristo abandonasse Seu reinado, abandonasse Sua exaltação, mas abandonasse Sua humilhação, porque Satanás queria afastá-lo da cruz, porque a cruz era necessária como sacrifício pelo pecado, para que, em última análise, Jesus fosse reconhecido como o verdadeiro rei.

Então, no final, o objetivo de Satanás foi um ataque ao Seu Reinado. Mas, no começo, o objetivo da tentação era chamá-Lo a abandonar Sua humilhação. “Transforme estas pedras em pão, você tem o direito de comer, você é o Filho de Deus.” Satanás também O levou para uma montanha alta, mostrou-Lhe os reinos do mundo. Ele disse: “Agora estou no controle desses reinos do mundo. Se você se curvar a mim, eu os darei a você. Você tem direito a eles. Você é o herdeiro. Você tem direito aos reinos do mundo. Você pode ter os reinos do mundo. Apenas me adore.”

Essa proposta de Satanás foi um apelo ao domínio de Cristo, à Sua exaltação, Sua elevação, Sua honra, Sua glória, Sua Filiação. “Você é o Filho de Deus, não deveria ter fome. Você é o Filho de Deus, você deve governar como o Filho de Deus.” É uma tentação para abandonar a humilhação, que envolveu fome e que envolveu ser rejeitado, odiado, difamado, espancado e crucificado, em vez de exaltado.

E então, em terceiro lugar, o diabo O levou ao pináculo do templo, provavelmente o lado sudeste, cuja distância até o chão media várias centenas de metros. E Lhe disse: “Por que você simplesmente não pula? Você pula e faz um pouso suave, e todo mundo se inclina para você e você não terá humilhação, não terá rejeição. Todos te abraçarão como Messias!”

Todos os apelos de Satanás eram para que Ele tomasse posse daquilo que Lhe havia sido dado corretamente em Seu batismo: honra, autoridade, dignidade, exaltação. A tentação era no sentido de Jesus tomar iniciativa própria em Se apossar daquilo que o Pai Lhe havia dado, abandonando Sua humilhação. Essa foi a tentação.

A questão é: Jesus poderia suportar isso? Ele poderia lidar com isso? Ele poderia sobreviver a isso? Ele se apegaria aos Seus privilégios? Ele se apegaria à Sua honra? Lembre-se que honra, glória, exaltação eram algo natural a Ele antes de Sua encarnação. Esses atributos pertenciam a Ele. Eram Seus por direito. Ele já os conhecia. Tudo que Ele conheceu, desde toda a eternidade, foi honra e glória.

A propósito, esse não foi o começo da tentação para Jesus. Hebreus 4:15 diz que Ele foi tentado, em todos os aspectos, como nós. Ele foi tentado da maneira que qualquer ser humano é tentado, desde o nascimento até Sua morte. Ele foi tentado do modo que as crianças pequenas, crianças mais velhas, adolescentes, jovens e adultos são tentados. Ele foi tentado o tempo todo, em todos os pontos, como nós, mas sem pecado.

Assim, a tentação no deserto não foi a única tentação. Foi apenas o ponto culminante da tentação, baseada em Sua autoridade estabelecida. E agora, que Ele foi identificado como o Filho de Deus, como o Messias, o Ungido, o novo Rei, o Salvador em Seu batismo, e está prestes a lançar Seu ministério, Satanás quer desviá-Lo disso, tentando-O a Se apegar a Seus privilégios e abandonar a humilhação.

Mas, esta não foi, de forma alguma, a primeira tentação de Jesus, nem a última. Ele disse aos discípulos, Lucas 22:28: “Mas vós sois os que tendes permanecido comigo nas minhas provações…”. Elas continuaram depois disso. Os outros escritores dos Evangelhos nos dizem que Satanás se afastou “por um tempo”, até ter outro momento oportuno.

Também sabemos que Ele foi tentado no Getsêmani (Marcos 14, versículo 32 e seguintes), que é chamado por Lucas, em Lucas 22:53, como “a hora do poder das trevas”. Ele foi novamente afligido no jardim, sentindo a antecipação do que enfrentaria na cruz. Porém, a tentação que Ele enfrentou nesse deserto foi única, uma vez que Ele nunca mais experimentou esse tipo de isolamento, nunca com esse grau de fraqueza física, com esse ataque maciço de Satanás, que foi, literalmente, baseado no que acabou de acontecer, a saber, Sua grande coroação.

Ele nunca foi tentado assim novamente, porque foi em Sua coroação no batismo que tudo foi estabelecido sobre quem Ele é, e Satanás imediatamente lançou seus ataques. Porém, é o Espírito Santo que quer que seja assim. O Espírito Santo é quem faz o conflito acontecer.

Para que o novo Rei seja triunfante, todos precisam saber que Ele pode conquistar Satanás, certo? Você tem que saber disso. Ele tem que ser capaz de vencer o pecado, porque o pecado é o grande problema. E Ele deve ser capaz de conquistar pecadores e transformá-los em discípulos.

E tudo começa com a conquista do adversário ilegítimo reinante, o próprio Satanás, o poderoso governante demônio que se opõe a Deus e a todos os Seus propósitos. Bem, o que Jesus fez? Como Ele saiu da tentação? Mateus e Lucas nos dizem que Ele respondeu citando as Escrituras. Deuteronômio. Ele citou três vezes as Escrituras e rejeitou a tentação.

Marcos não nos conta isso. O único comentário de Marcos vem no final do versículo 13: “Ali esteve quarenta dias, sendo tentado por Satanás. Estava com os animais selvagens, e os anjos o serviam.” Os anjos estavam ministrando a Ele. Mateus 4:11 nos conta que: “o diabo o deixou e eis que os anjos vieram ministrar a ele”. A palavra ministrar usada no texto original significa servir comida. Como os anjos ministraram a Ele? Eles O alimentaram. Após quarenta dias de jejum, deram-Lhe algo para comer.

Mas penso que eles ministraram de outra maneira também. A própria presença dos anjos e o ato de Lhe servir comida trazem embutidas a aprovação do Pai. Essa foi a maneira de Deus dizer: “Ainda estou bem satisfeito…”. A aprovação divina de Seu santo triunfo sobre Satanás e Sua feroz tentação é sinalizada por Deus enviando santos anjos para ministrar a Ele no final, no culminar de Sua vitória.

E, é claro, Sua vida e ministério subsequentes tornam Sua santidade além de qualquer dúvida. Mas aqui Sua santidade foi assaltada por Satanás sem sucesso. E, lembre-se que Satanás partiu com tudo o que tinha para cima de Jesus, num forte ataque.

E assim, Jesus saiu do deserto vitorioso, demonstrando Seu poder sobre Satanás. O primeiro milagre que veremos na sequência, versículos 21 a 28, é um milagre em que Ele exibe Seu poder sobre o reino de Satanás. Ele tem poder sobre Satanás, claramente, e demonstra isso por meio de Seu ministério, por toda a vida.

Mas, aqui está a primeira coisa a aprender sobre ministério: um ministério eficaz é realizado por aqueles que triunfam sobre a tentação e o pecado. Não triunfamos sobre isso no sentido que nosso Senhor Jesus fez, mas no sentido que um fiel servo do Senhor o faz.

É por isso que o apóstolo Paulo poderia dizer, quando foi criticado em seu ministério: “Porque a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência, de que em santidade e sinceridade de Deus, não em sabedoria carnal, mas na graça de Deus, temos vivido no mundo, e mormente em relação a vós.” (2 Coríntios 1:12).

Paulo está dizendo, em outras palavras: “Minha vida é marcada por santidade e sinceridade piedosa.” E Paulo diz a Timóteo, 2 Timóteo 2:20-21, o seguinte:

20 Ora, numa grande casa não somente há vasos de ouro e de prata, mas também de pau e de barro; uns para honra, outros, porém, para desonra.
21 De sorte que, se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda a boa obra.

Deus abençoa e capacita um servo puro. Um ministério eficaz é realizado pela santidade da alma. Aqueles que entram no triunfo de Cristo são aqueles que andam em obediência e santidade diante dEle.

2 – A SIMPLICIDADE DO MÉTODO

Em segundo lugar, o ministério eficaz não envolve apenas a santidade da alma, mas a simplicidade do método. Nosso Senhor quer demonstrar aqui que Ele tem poder sobre o pecado, e o evangelho é essa demonstração de poder sobre o pecado. Versículos 14 e 15: “Ora, depois que João foi entregue, veio Jesus para a Galileia pregando o evangelho de Deus e dizendo: O tempo está cumprido, e é chegado o reino de Deus. Arrependei-vos, e crede no evangelho.”

Ele está dizendo: ofereço-lhes um lugar no Reino, um lugar no Reino eterno, o Reino da salvação, a esfera do perdão, se vocês se arrependerem e crerem. O evangelho é a boa notícia de que Deus perdoa os pecadores e os leva ao Seu reino eterno, quando se arrependem de seus pecados e creem no evangelho de Jesus Cristo.

Então a partir daqui, o ministério de Jesus finalmente se torna público. Agora, lembrem-se, eu lhes disse que o tempo havia passado. Seu batismo foi há meses atrás. Ele esteve na Judeia, purificando o templo, ministrando lá. E agora, Ele finalmente chegou à Galileia. Porém, Ele realmente só lançou Seu ministério na Galileia após a prisão de João Batista.

Seis meses ou mais após o batismo de Jesus, João Batista foi preso por Herodes. Um ano depois, sua cabeça foi cortada. Foi depois que João foi levado em custódia, que Jesus entrou na Galileia. Antes disso, João ainda estava batizando no Jordão, e Jesus estava ministrando na Judeia, e seus dois ministérios se sobrepuseram.

Você leu sobre essa sobreposição em João 1, 2 e 3. E você ouvirá João Batista dizer: “importa que Ele cresça e que eu diminua”, e Deus cuidou disso tirando João de cena. A história da prisão de João Batista é fascinante, e Marcos contará sobre ela no capítulo 6. Mas ele não faz nenhum comentário sobre a prisão aqui no capítulo 1, porque sua narrativa acompanha os passos de Jesus, o ministério de Jesus.

Assim, Marcos pula o ministério inicial de Jesus na Judeia, pula Seu trânsito através de Samaria e começa pelo ministério na Galileia. E assim, ele diz, Jesus entrou na Galileia pregando o evangelho de Deus. A Galileia era a parte norte da terra de Israel, o interior e os arredores, longe do centro religioso de Jerusalém. O fato de Jesus ter lançado Seu ministério na Galileia com todo poder era um testemunho contra a apostasia e a corrupção de Jerusalém, o centro da vida religiosa de Israel.

Mas, observe a simplicidade do método, que consistia na pregação do evangelho de Deus. Alguém disse que Deus só tinha um Filho, e Ele era um pregador. Deus tem um método, e é pregar o evangelho. A pregação da cruz é tolice para aqueles que perecem mas, para aqueles que creem, é o poder de Deus. Pregar é o meio que Deus ordenou. O ministério fiel consiste em proclamar, anunciar as boas novas. E quais são as boas notícias? Marcos as chama de “evangelho de Deus”, as boas novas da salvação.

O que Marcos quer dizer com evangelho de Deus? Não é o evangelho do Senhor Jesus Cristo? Bem, é sim. É o evangelho sobre o Senhor Jesus Cristo. Mas é o evangelho de Deus, no sentido de que Deus é a fonte dele. O evangelho é de Deus. Não é a ideia de que o evangelho é sobre Deus, embora certamente seja sobre Ele e sobre Sua manifestação em Cristo, mas é o evangelho que vem de Deus sobre Jesus Cristo.

O evangelho de Deus é um termo comum do Novo Testamento. Romanos 1: 1, Romanos 15:16, 2 Coríntios 11: 7, 1 Tessalonicenses 2: 2, 8 e 9, 1 Pedro 4:17 referem-se ao evangelho de Deus. Eu amo a simplicidade disso! Jesus veio pregar as boas novas de Deus. A mensagem que temos para o mundo é de Deus. Quero dizer, o quão básico é isso, certo? Então, quando você vai ministrar, o que você faz é repetir a mensagem que veio de Deus.

Não se trata de analisar a cultura. Não se trata de encontrar os botões psicológicos das pessoas. Não se trata de buscar o interesse das pessoas. Não se trata de criar uma mensagem que de alguma forma se encontre com o que elas querem. Chegamos como arautos anunciando uma mensagem de Deus. Isso é o que fazemos. E esta é a mensagem: as boas notícias, as melhores notícias que o mundo já ouviu.

No versículo 15 de Marcos 1, lemos o seguinte: “o tempo está cumprido…”. A palavra traduzida como tempo aí é “kairos”, não “chronos”, que significa a hora do relógio, ou o tempo no calendário. “Kairos” significa a época, o ponto fixo da História para um evento acontecer. Ou nas palavras de Gálatas 4:4, “a plenitude do tempo”. Ou a “dispensação da plenitude dos tempos”, como está em Efésios 1:10. Em outras palavras, o momento soberano de Deus. A hora significativa na História humana.

O mundo esperava há muito tempo a era mais significativa da História, que seria a chegada do Salvador, que pagaria a penalidade pelo pecado e, portanto, proporcionaria salvação a todos os que cressem, desde o início da História até o fim. O tempo estava cumprido. Esse é o grande momento épico de Deus. As promessas do Antigo Testamento sobre o Messias, sobre o Reino, as promessas da salvação estão prestes a ser cumpridas.

Qual é a mensagem? Que Cristo veio não apenas para conquistar Satanás, mas para vencer o pecado. O novo Rei chegou e com ele o reino. O reino está aqui, porque o Rei está aqui. Onde quer que o Rei esteja presente, o reino está. A mensagem de Jesus, muito simples, inconfundível: “o Reino de Deus está próximo, aqui está. Porque Eu estou aqui, o Reino está aqui.”

Quando Ele estava em Nazaré, na Galileia, em Lucas 4, logo após Sua tentação, nesse exato momento, entra na sinagoga e diz: “Hoje essa profecia se cumpriu diante de vocês.” Ele estava falando sobre a profecia messiânica de Isaías 61. É a mensagem, as boas novas, a hora de Deus, o Reino está aqui porque o Rei está aqui.

Como você entra nesse reino? Arrependa-se e acredite no evangelho, escreve Marcos. Arrependa-se do seu pecado. Acredite no evangelho, nas boas novas a respeito de Jesus Cristo. Como devemos entender o Reino? Devemos compreendê-lo em três dimensões: Reino Espiritual, Reino Milenar, Reino Eterno. É um reino que é agora e ainda não, que é invisível, mas que mais tarde será visível. Esse é a maneira simples de entender o Reino.

  • A primeira vez que Jesus veio, que o Rei veio, porque o Rei está aqui, Seu Reino está aqui. Ele prega o evangelho da salvação. Ele estabelece – ouça – Seu Reino espiritual invisível no coração de todos os que crêem, em todo o mundo. Isso está acontecendo agora, não é mesmo? O Reino em todo o mundo. Você faz parte do Reino pela fé no Senhor Jesus Cristo. Ele é seu Rei, Ele governa você e governa todos os que pertencem a Ele. Quando você se tornou cristão, você entrou no Seu reino. Você faz parte do Seu reino. Buscar Cristo é buscar o Reino e Sua justiça e receber tudo o mais, como Jesus disse no Sermão da Montanha. Esse é o sentido espiritual do Reino.
  • No futuro, haverá um Reino terrestre, que Apocalipse 20 diz que durará mil anos, em que todas as promessas do Antigo Testamento serão cumpridas na terra, e haverá justiça e salvação em todo o mundo, além de todos os demais elementos do milênio do Antigo Testamento. As profecias serão concretizadas e cumpridas. Isso será no futuro, não está acontecendo agora.
  • Depois disso, será a última fase do Reino, que dura para sempre, o novo céu e a nova terra, onde Cristo reinará para todo o sempre como Rei dos reis e Senhor dos senhores. A primeira vez que Ele veio foi para estabelecer o Reino Espiritual. Na segunda vez que Ele virá será para estabelecer o Reino Milenar, seguido pelo Reino Eterno. Mas se você é cristão, Ele é seu Rei, está certo? “Rei da minha vida, eu Te corôo agora, a Tua glória será…”, não cantamos isso?

O Reino está presente, porque o Rei está presente. O Rei está presente em sua vida, você faz parte do Seu Reino. Ele é seu Rei e está edificando o Seu Reino espiritual, até que Ele retorne pela segunda vez para estabelecer Seu Reino terrestre, e depois Seu Reino eterno. Você é de Cristo e pertence ao Seu reino. O Reino pertence a você. O Reino é inseparável do Rei.

Como você entra no Reino? Arrependa-se e acredite no evangelho. Confie no Senhor Jesus Cristo. Nesse momento, se um leitor está lendo o capítulo 1 de Marcos e ainda não conhece a história completa, ele precisa continuar lendo para entender o alcance total do evangelho, certo? Ele tem que chegar à cruz e depois à ressurreição. Mas Marcos diz que, uma vez que você conhece o evangelho, você deve se arrepender – “metanóia” – que significa virar e seguir o caminho oposto. Vire-se e siga o caminho oposto. Afaste-se do seu pecado, creia em Cristo.

Há uma ênfase muito forte sobre crer, no Evangelho de Marcos, como nos outros Evangelhos. Confie em Cristo. Esse é um tipo objetivo de arrependimento. Nas palavras de Atos 20, você se arrepende diante de Deus e deposita sua fé em Jesus Cristo. Essa não é uma fé nebulosa, é uma fé muito objetiva na pessoa de Jesus Cristo e em Sua obra.

O evangelho é o poder sobre o pecado que, para quem vem ao Rei e se arrepende e crê no evangelho, o pecado é conquistado, o poder do pecado é quebrado. A presença do pecado será eliminada um dia. Jesus tem poder sobre o pecado, assim como poder sobre Satanás.

E então, olhando para o lado do ministério, o ministério eficaz é modelado aqui no fato de que não há mensagem complexa. Não há assunto misto. Não há confusão sobre qual seja a mensagem. Jesus veio pregar o evangelho de Deus, as boas novas do céu, que agora são reveladas nas Escrituras.

E é por isso que dizemos que todo ministério que é fiel parte diretamente da Palavra de Deus, pois é uma proclamação da provisão de Deus, da salvação pela fé em Cristo. Os ministros fiéis se concentram no evangelho, na mensagem de Cristo, na salvação que Ele traz, no Reino espiritual do presente, no futuro, o milenar e, no final, o Reino eterno.

Nós não temos um evangelho social, pessoal. Não há nada no evangelho que seja projetado para aliviar as desigualdades da sociedade. Não há nada sobre o evangelho que seja projetado para ganhar terreno político. Não há nada no evangelho que deva ter algum efeito no bem-estar psicológico das pessoas. Temos uma mensagem simples, e o ministério fiel sempre articula apenas essa mensagem salvadora do evangelho.

3 – A ESCOLHA DOS QUE VÃO MINISTRAR

Há um outro recurso num ministério fiel, além da santidade de alma e da simplicidade do método: a seletividade dos sucessores. Qualquer pessoa no ministério sabe que você não pode fazê-lo sozinho. O Senhor tem poder sobre Satanás. O Senhor tem poder sobre o pecado. O Senhor tem poder sobre os pecadores. Ele vai trabalhar Seu plano através dos pecadores, chamando-os para Si mesmo, transformando-os, capacitando-os e usando-os. Esse é o plano Dele.

Não através dos anjos, mas através dos pecadores. Vimos que no versículo 16, Jesus estava caminhando pelo Mar da Galiléia – lembre-se agora que Ele voltou para a Galileia, de acordo com o versículo 14, andando pela praia um dia. Ele viu Simão e André, irmão de Simão, lançando uma rede no mar, porque eram pescadores. Ele já os conhecia. De acordo com João 1:35 a 42, Simão e André também foram ao batismo de João Batista. Eles viram Jesus lá.

João Batista disse que Ele era o Cordeiro de Deus. Eles passaram um tempo com Jesus. Eles creram em Jesus. Eles sabiam que Ele era o Messias, então eles já O conheciam. Assim, Jesus volta para encontrá-los meses depois no mar da Galileia. A palavra mar é realmente uma palavra muito grande para esse lugar, pois se trata de um lago. O nome real do lugar era Gennesaret ou Kinnereth, que é uma forma da palavra que significa harpa.

Também é chamado de Mar de Tiberíades ou Lago de Tiberíades, pois Tiberíades era a maior cidade às margens do lago, que ficava na costa oeste. Mas é um lago em forma de harpa, cerca de 213 metros abaixo do nível do mar. Lá Jesus viu Simão e André, os quais havia conhecido antes. A propósito, Simão e André eram nomes gregos muito comuns naqueles dias. A forma hebraica de Simão é Simeão, e há até um uso da forma hebraica de André no Talmude, então eles podem ter sido nomes judeus que foram meio helenizados.

O que eles estavam fazendo? Eles estavam lançando uma rede no mar. Agora, é assim que eles costumavam pescar naqueles tempos. Ainda hoje se pesca dessa forma. Eles tinham uma rede circular, com até seis metros de diâmetro. O perímetro da rede tinha pesos.

Eles eram muito bons em colocá-la sobre o braço de uma certa maneira, para que se desenrolasse, e com grande destreza, após muita prática, eles poderiam girar aquela coisa e ela voaria até sua extremidade, e cairia na água completamente.

Desdobrava-se e começava a afundar nas bordas. E assim ocorria a captura do cardume de peixes, que eles sabiam estar no meio. E quando os pesos levavam a rede ao fundo, havia também uma corda no perímetro, que os pescadores mergulhavam no fundo da água, eles pegavam a corda, puxavam-na com força, arrastavam os peixes para a praia.

O Mar da Galileia, aliás, era um local de pesca muito movimentado. Havia pelo menos 16 portos naquele pequeno lago. Flávio Josefo comandou 230 barcos no lago numa guerra chamada Guerra da Galileia, em 68 d.C. Portanto, havia alguma pesca formidável acontecendo naquele lago. Era uma fonte de uma grande quantidade de peixes.

E, a propósito, o peixe era a principal carne do mundo mediterrâneo. Não havia outra carne, não eram ovelhas ou qualquer outra coisa a principal fonte de proteína animal. Portanto, havia um enorme mercado para peixes, e muito provavelmente os pescadores desse lago vendiam seus peixes em todo o Mediterrâneo. Então, eles eram exportadores de peixes também. Isso era um negócio.

Simão e André não eram empregados contratados. Esses homens tinham um negócio, estavam no negócio da pesca. Eles eram homens de destaque, assim como os irmãos de sangue Tiago e João, que estavam no mesmo ramo, e eram parceiros de Pedro e André. Aprenderemos isso mais tarde nos relatos do Evangelho de Marcos.

Portanto, eles estavam em um negócio bastante proeminente. De acordo com João 18:15, João era bem conhecido pelo sumo sacerdote. Não sei como eles tinham uma conexão, mas não quero que você pense que esses caras eram pobres pescadores. Eles tinham um negócio muito bem sucedido. Pode ser que esses homens falavam hebraico, aramaico e até grego, porque precisavam fazer negócios em nível internacional.

E assim, Jesus vem até eles. Simão e André já tinham declarado seu interesse por Ele, quando estiveram com João Batista, meses antes. Então, Ele lhes disse: “Sigam-me, e eu farei vocês pescadores de homens”. A propósito, esse é um comando altamente incomum. Rabinos não faziam isso. Não temos registro em todos os escritos judaicos de um rabino ordenando que as pessoas o seguissem. Como os profetas, eles diziam às pessoas para seguirem a Deus, obedecerem a Deus, seguirem a lei, mas não há registro de que eles dissessem aos ouvintes para segui-los.

Jesus faz algo absolutamente único. Ele chamou as pessoas para segui-Lo. Ele os chamou de maneira extrema. Ele basicamente os chamou para abandonar absolutamente tudo. De fato, foi o que Ele disse, como você verá em Marcos 8:34 e seguintes: “se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me.” Em outras palavras, “é o fim da sua vida, largue tudo, siga-Me, e Eu vou fazer de você um pescador de homens.”

Eles entenderiam essa analogia, não é mesmo? Houve um uso dela no Antigo Testamento, em Jeremias 16:16, na pesca de homens, mas com vistas ao julgamento. Porém a maneira como Jesus usou a analogia da pesca aqui é com vistas à salvação. O que Ele está dizendo a eles? Simples: abandonem o seu negócio de família. Larguem sua vida do jeito que ela é. Juntem-se a Mim, deixem-Me treiná-los para serem pregadores do evangelho, arautos do Reino.

Aqui Jesus estabeleceu os meios pelos quais o Reino avançará. Ele usará pecadores transformados que Ele identifica e chama soberanamente. Essa é uma autoridade dramática, pessoal, pertencendo unicamente a Jesus, na qual Ele exige tudo. O que é ainda mais notável, versículo 18, “eles deixaram suas redes imediatamente e O seguiram.”

Mas esses caras não são fáceis de persuadir. Você chamaria Pedro de uma tarefa fácil? Acho que não. Pedro tinha uma mente própria? Acho que sim. Mas, eles largaram tudo. O que estava acontecendo aqui? Um chamado soberano e uma habilitação soberana. Foi aí que o poder de Deus veio sobre esses homens, e soberanamente eles foram movidos a seguir.

E agora, Jesus tem Seus dois primeiros apóstolos, Simão e André – ou Pedro e André. Indo um pouco mais adiante, no versículo 19, “Ele viu Tiago, filho de Zebedeu, João, seu irmão, que também estavam no barco consertando as redes”. Esses caras também não eram fáceis de persuadir. Você se lembra qual era o apelido deles? Filhos do trovão.

Tiago é a forma grega de Jacó. João é a forma grega de Johanan. Zebedeu – o pai deles – era casado com Salomé, que pode muito bem ter sido irmã de Maria, a mãe de Jesus. Tiago e João estavam em parceria com o pai, com Simão e André, de acordo com Lucas 5:10. Então, eles estavam todos no mesmo negócio.

E eles estavam fazendo o que se fazia quando não pescavam: consertavam as redes para poderem pescar novamente. Imediatamente, Jesus os chamou e “eles, deixando seu pai Zebedeu no barco com os empregados, o seguiram.” (20). Você consegue imaginar isso? Eu acho que o pai pode ter ficado um pouco chateado com isso. Obediência incrível! Surpreendente!

Vá para o capítulo 2, versículo 14: “Quando ia passando, viu a Levi, filho de Alfeu, sentado na coletoria, e disse-lhe: Segue-me. E ele, levantando-se, o seguiu.” Levi era também conhecido como Mateus. E foi assim que aconteceu com todos eles. Surpreendente, repentina obediência instantânea. Realmente chocante.

E, é claro, por trás disso estão as palavras de Jesus em João 15:16: “Vós não me escolhestes a mim mas eu vos escolhi a vós, e vos designei, para que vades e deis frutos, e o vosso fruto permaneça…”, em outras palavras, ‘você não me escolheu, mas Eu te escolhi, e então te chamei e depois te dei poder para Me seguir’.

E quando você chega ao capítulo 3, versículos 13 e seguintes, você encontra os Doze. A implicação saliente aqui é realmente óbvia, não é? Ele tem poder sobre Satanás, poder sobre o pecado e sobre os pecadores para chamá-los para Si mesmo. O que aprendemos sobre o ministério é que o que importa é a santidade da alma, a simplicidade do método e a seletividade dos sucessores.

O Senhor escolheu os homens para serem Seus companheiros. Precisamos fazer o mesmo. Eu vou lhes dizer isso, pessoal: nada foi mais importante em toda a minha vida de ministério do que me cercar dos homens certos. É assim que o Reino avança. E eu sempre tentei trabalhar com o princípio de 2 Timóteo 2:2, em que Paulo diz: “o que de mim ouviste de muitas testemunhas, transmite-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros.”

O que Paulo está dizendo é: “Eu tenho a verdade, eu a dei a você, Timóteo. Agora, você a dá a homens fiéis que também sejam capazes de ensiná-la aos outros.” Assim, a chave é a seguinte: confie essas coisas a homens fiéis que também serão capazes de ensinar aos outros. Então, procure os fiéis e os capazes. O ministério avança através dos fiéis e dos capazes. Fiel fala de caráter, e capaz fala de talento. O Reino avança quando somos fiéis e capazes de proclamar a verdade.

Aqui está o modelo para o ministério: coração santificado, vencendo o pecado e a tentação, compromisso com a singularidade da mensagem gloriosa do evangelho, que nos chegou de Deus através das páginas das Escrituras, e seletividade dos sucessores, escolhendo cuidadosamente dentre aqueles que te rodeiam, para que possam multiplicar e estender teu ministério. Foi assim que nosso Senhor fez.

Ao mesmo tempo, demonstrou Seu poder sobre Satanás, o pecado e seu poder, chamando e transformando soberanamente os pecadores. Ele é o Rei, e o Rei nos deu uma estratégia para segui-Lo. Oremos.

Pai, obrigado por Tua Palavra para nós nesta manhã. Oh, Senhor, somos muito gratos pelos tremendos e ricos pensamentos que as Escrituras nos dão. Que eles sejam aplicados e praticados em nossas vidas.


Esta é uma série de  sermões de John MacArthur sobre o Evangelho de Marcos.

Clique aqui e veja o índice com os links dos sermões traduzidos já publicados desta série.


Este texto é uma síntese do sermão “Jesus’ Strategy for Effective Ministry″, de John MacArthur em 05/04/2009.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/library/sermons-library/41-4/jesus-strategy-for-effective-ministry

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


 

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