O Juízo e a Coroação do Rei
Em Zacarias 6:1–15 há dois acontecimentos proféticos centrais no plano de Deus: o julgamento das nações e a coroação de Jesus Cristo. A oitava visão, com os quatro carros, representa a ação divina contra o mal em toda a terra. Já a coroação simbólica do sumo sacerdote Josué aponta para o Messias, que reunirá em si as funções de Rei e Sacerdote, governando com justiça e intercedendo por seu povo. A principal mensagem é que Deus conduz a história para o estabelecimento do reino de Cristo na terra, cumprindo suas promessas e vencendo toda oposição. Essa certeza exige uma resposta pessoal: confiar em Jesus para pertencer ao seu reino e viver em obediência, de modo digno daquele que reinará. A esperança futura deve produzir fidelidade no presente.
Nos últimos sermões vimos as sete primeiras visões do profeta Zacarias (Zc 1 a 5). Agora vamos avançar para a oitava última visão do profeta, no capítulo 6.
A profecia sempre foi um tema fascinante. O homem sempre quis saber algo sobre o futuro, sempre tentando ver o invisível e conhecer o inacessível, sempre tentando desvendar o mistério do futuro para dissipar o medo que paira sobre sua cabeça. E esse medo é o medo do desconhecido.
E a única fonte, na verdade, da verdade sobre o futuro é a Bíblia. Só Deus conhece o futuro e só Ele conhece o fim desde o princípio. E só Ele determina e traça o curso do destino do homem e do universo. Somente Deus é onisciente. O profeta Isaías escreveu que Deus é único e soberano, que anuncia de antemão o que acontecerá e garante o cumprimento de seus propósitos, que seu conselho permanecerá de pé, e que nada impedirá a realização de sua vontade (Is 46.9-10).
Deus também conhece toda a maldade da humanidade, em todos os lugares, em todos os tempos, nada escapa ao seu olhar. O profeta Amós escreveu que Deus anuncia um julgamento do qual ninguém poderá escapar. Nenhum esconderijo, seja no abismo, no céu, no alto dos montes ou no fundo do mar, poderá proteger os rebeldes. Até no cativeiro, sua mão os alcançará: o juízo será completo e inevitável (Am 9.1-4). Deus encontrará o homem injusto em qualquer lugar. Deus sabe tudo. Ele conhece o pecado de todos aqueles que praticaram a iniquidade.
Por outro lado, o salmista escreveu que Deus nos conhece desde antes do nascimento, e todos os nossos dias, inclusive os futuros, estão registrados em seu livro. Ele ficou maravilhado com a preciosidade e a grandeza dos pensamentos de Deus (Sl 139.16-17). O profeta Malaquias escreveu que Deus ouve os que o temem e registra sua fidelidade em um livro de memória. Eles lhe pertencem e serão reconhecidos como seu tesouro particular no dia em que Ele agir (Ml 3.16-17).
Deus encontra toda a injustiça e tem conhecimento de tudo. Por outro lado, Ele conhece todos os justos e tem seus nomes registrados em seu livro. Portanto, Deus é onisciente. Assim, ele estabeleceu um plano. E em algum lugar no meio da onisciência de Deus está a sua presciência, que faz com que o plano se concretize. Muitos detalhes desse plano para o destino do homem são apresentados para nós na Bíblia. E, particularmente, Deus revelou muito do futuro aos seus profetas.
Grande parte do que você lê na Bíblia hoje, que é história passada, era história futura para os escritores quando a receberam. Todas as profecias dos escritores do Antigo Testamento sobre a vinda do Messias eram grandes verdades proféticas. Agora, para nós, são história passada. Mas Deus revelou muitos detalhes sobre o futuro aos seus profetas.
1) O que dizem as profecias?
Deus conhece toda a história: passada, presente e futura. Mas Ele não é um mero espectador. Ele conduz os acontecimentos para que tudo se cumpra segundo seus propósitos. E revelou aos profetas do Antigo Testamento certos elementos desse futuro.
1.1) Podemos organizar essas profecias em quatro grandes categorias:
a) Trata do destino espiritual de Israel: O Antigo Testamento está repleto de anúncios de julgamento por causa do pecado, de cativeiro nas mãos de outras nações e de bênçãos pela obediência. Também anuncia que Deus reunirá seu povo na terra prometida e o restaurará.
b) Trata da profecia messiânica: São os anúncios da primeira e da segunda vinda do Messias, de sua morte e ressurreição e de seu retorno para estabelecer o reino.
c) Trata dos últimos dias: Deus revela acontecimentos que marcarão o fim desta era, que são frequentemente associados ao Dia do Senhor.
d) Trata das profecias de julgamento, que anunciam o que Deus fará com as nações e os indivíduos ímpios.
Temos, portanto, quatro grandes temas: o destino espiritual de Israel, o Messias, os últimos dias e o julgamento dos ímpios.
1.2) Agora, quero considerar essas profecias sob outra perspectiva: a do seu cumprimento. Nesse caso, podemos dividi-las em três grupos.
a) Há profecias que já se cumpriram. Quando estudamos a confiabilidade da Bíblia, vimos anúncios referentes a Babilônia, Tiro, Sidom, Corazim, Cafarnaum e outras cidades. Deus anunciou o que aconteceria, e a história confirmou sua Palavra. Leia Oseias, Amós, Miqueias, Isaías, Jeremias e Ezequiel, e encontrará muitas profecias já realizadas. Também se cumpriram as profecias referentes ao nascimento, à vida, à morte e à ressurreição de Cristo.
b) Há profecias cujo cumprimento experimentamos hoje. Jesus prometeu que, ao voltar para o Pai, enviaria o Espírito Santo para habitar em seu povo e capacitá-lo para testemunhar ao mundo. E participamos dessa realidade, não é? (Jo 14.16-17; At 1.8). Deus também anunciou uma nova aliança, diferente daquela estabelecida com os pais de Israel. Hoje, participamos dessa aliança inaugurada por Cristo (Jr 31.31-34; Lc 22.20). Além disso, Deus prometeu reunir Israel dentre as nações. Parece-me que o retorno dos judeus à sua terra pode representar uma etapa do cumprimento dessas promessas.
c) Há profecias que ainda aguardam cumprimento. Há quatro temas que se destacam nesse grupo:
a) A restauração de Israel à sua terra. Isaías, Jeremias e Ezequiel anunciam que Deus reunirá seu povo e o estabelecerá novamente na terra que lhe prometeu (Is 27.12-13; Jr 31.8-12; Ez 37.21-22).
b) A salvação de Israel. As Escrituras anunciam sua futura restauração espiritual, aquilo que chamamos de salvação nacional de Israel (Ez 37.23; Rm 11.25-27).
c) O julgamento dos inimigos de Israel. Deus intervirá contra as nações que se levantarem contra seu povo (Zc 12.9; 14.2-3).
d) O estabelecimento do reino messiânico. O Messias reinará sobre seu povo, e o Senhor será Rei sobre toda a terra (Ez 37.24-28; Zc 14.9).
Portanto, ao considerarmos as profecias ainda não cumpridas, encontramos estas promessas: Israel será restaurado à sua terra, será redimido, seus inimigos serão julgados e o reino do Messias será estabelecido. É com esse panorama em mente que prosseguiremos no estudo de Zacarias.
2) As profecias nas oito visões de Zacarias
Ao estudarmos Zacarias, vemos que suas oito visões, entre os capítulo 1 a 6, abrangem os quatro grandes temas da profecia do Antigo Testamento: o destino espiritual de Israel, a vinda do Messias, os últimos dias e o julgamento das nações ímpias. Tudo está aqui. Por isso, esse livro é tão importante para a compreensão profética da Palavra de Deus.
Observem também como essas visões apresentam, em certo sentido, uma sequência dos acontecimentos futuros: a restauração de Israel à sua terra, sua salvação nacional, a destruição de seus inimigos e o estabelecimento do reino messiânico. Já vimos as sete primeiras visões de Zacarias (Zc 1 a 5). Elas anunciam que Deus não abandonou Israel e cumprirá suas promessas de restauração por meio do Messias.
• 1ª visão: o cavaleiro entre as murteiras revela o cuidado e a intervenção de Deus em favor de seu povo (Zc 1.7-14);
• 2ª visão: os quatro chifres e os quatro artífices anunciam a derrota dos poderes que o oprimem (Zc 1.18-21);
• 3ª visão: o homem com o cordel de medir aponta para uma Jerusalém restaurada, ampliada e protegida pela presença do próprio Senhor (Zc 2.1-13).
Essas visões encorajavam os judeus que haviam retornado do exílio a prosseguir na reconstrução, mas, seu cumprimento pleno ocorrerá na volta de Cristo e no estabelecimento de seu reino milenar. As quatro visões seguintes mostram que essa restauração exige purificação espiritual, capacitação pelo Espírito Santo e julgamento do mal.
• 4ª visão: a troca das vestes sujas de Josué por vestes limpas representa a remoção da culpa de Israel pela graça divina, mediante o Messias (Zc 3.1-10);
• 5ª visão: o candelabro e as duas oliveiras mostram que a nação voltará a testemunhar como luz para os povos pelo poder do Espírito (Zc 4.1-14).
• 6ª visão: o rolo voante anuncia o julgamento dos pecadores segundo a Palavra de Deus (Zc 5.1-4);
• 7ª visão: a mulher dentro do efa representa a impiedade e o sistema de falsa religião e materialismo associado à Babilônia, destinado ao juízo (Zc 5.5-11).
Assim, a mensagem conjunta é de consolo e santidade: Deus restaurará seu povo, removerá sua culpa e enfrentará tudo aquilo que se opõe ao seu governo.
Agora, no capítulo 6, chegamos aos dois últimos temas: o julgamento dos inimigos de Deus e o estabelecimento do reino do Messias na terra (Zc 6.1-15). É precisamente para isso que a história caminha. Deus agirá contra seus inimigos e estabelecerá seu reino. Essa oitava visão nos ajuda a entender como Deus vai julgar o mundo e estabelecer o Seu reino.
Você consegue imaginar um mundo onde a justiça, a bondade, a paz e a alegria prevalecem? Onde há saúde e longevidade, crianças brincam junto às cobras e animais antes inimigos convivem pacificamente? Imagine alimentos em abundância, mesmo com uma população crescente, e Jesus Cristo governando com perfeição e amor. Seu povo participa do governo, enquanto os incrédulos são julgados com justiça. Esse será o reino milenar: o mundo que virá com a volta de Jesus, conforme o plano de Deus.
Em Zacarias 6 vemos os dois últimos elementos para o estabelecimento do reino: a destruição do inimigo e a entronização de Cristo. Deus remove os governantes ímpios e retoma o domínio da Terra, usurpado por Satanás, estabelecendo Cristo como o governante supremo. Analisaremos esses dois elementos sob duas palavras: condenação e coroação.
3) A 8ª visão de Zacarias: a condenação dos inimigos de Deus
Esse é um tema recorrente em toda a Bíblia. De fato, em Apocalipse 14.6 há uma declaração de um anjo voando pelo céu pregando o evangelho eterno. Há um debate sobre o que seria o evangelho eterno. Mas isso não é um problema tão difícil, pois, no versículo 7, o anjo diz: “temei a Deus e dai-lhe glória, pois é chegada a hora do seu juízo”. Deus pune os pecadores, e aquela será a condenação final do sistema mundano que precede o estabelecimento do reino.
Desde Lúcifer e sua queda inicial até o estabelecimento do novo céu e da nova terra, o evangelho eterno continuará a marcar a maneira como Deus lida com os homens. Ele punirá o pecador; Ele recompensará o justo. Isso é fundamental. E você pode encontrar isso repetidas vezes nas Escrituras.
Zacarias 6
1 E outra vez levantei os meus olhos, e olhei, e vi quatro carros que saíram dentre dois montes, e estes montes eram montes de metal.
2 No primeiro carro, eram os cavalos vermelhos, e, no segundo carro, cavalos pretos.
3 E, no terceiro carro, cavalos brancos, e, no quarto carro, cavalos grisalhos e fortes.
As visões tinham um efeito cumulativo e devastador sobre o profeta, que precisava erguer os olhos novamente a cada revelação. Desta vez, ele viu quatro carros de guerra saindo entre dois montes de bronze. Como tropas de assalto dos exércitos antigos, esses carros representam os instrumentos do julgamento divino sobre as nações.
Na primeira visão, os cavalos e seus cavaleiros haviam percorrido a Terra e retornado para apresentar seu relatório. Agora, a imagem de reconhecimento dá lugar à de combate: Deus coloca seus instrumentos de julgamento em ação, fazendo-os avançar para o juízo final.
3.1) O que são os dois montes bronze?
Observe que os carros de guerra surgem entre duas montanhas de bronze. No hebraico, o uso do artigo definido — “as duas montanhas” — sugere montanhas específicas e conhecidas. Essas montanhas falam força e poder, e o fato de serem de bronze fala de julgamento, pois o bronze aparece repetidamente nas Escrituras como símbolo de julgamento, Essa associação aparece também na descrição de Cristo em Apocalipse 1:15–16, cujos pés são semelhantes ao bronze polido. A visão apresenta, portanto, uma poderosa cena de julgamento divino.
Há um consenso em identificar essas montanhas como Sião e o Monte das Oliveiras, entre os quais fica o vale do Cedrom, a leste de Jerusalém. Zacarias vê os carros de guerra de Deus avançando pelo vale como instrumentos de julgamento sobre as nações. Essa identificação ganha significado quando relacionada a outras profecias que situam o julgamento divino naquela região.
Em Joel 3.2, Deus declara: “Reunirei todas as nações e as farei descer ao vale de Josafá, e ali as julgarei por causa do meu povo e por causa da minha herança”. O nome Josafá significa “o Senhor julga”, razão pela qual a expressão pode ser entendida como “vale do julgamento”. Embora sua localização seja discutida, é associado ao vale do Cedrom.
A conexão se amplia em Zacarias 14.4, que descreve os pés do Senhor sobre o Monte das Oliveiras, diante de Jerusalém. O monte será dividido de leste a oeste, formando um grande vale, com uma metade deslocada para o norte e a outra para o sul. Essa transformação preparará o cenário do julgamento das nações anunciado por Joel.
Assim, a visão dos quatro carros de guerra em Zacarias 6 é relacionada à profecia do retorno de Cristo em Zacarias 14 e ao vale de Josafá mencionado em Joel 3. Os carros avançam entre Sião e o Monte das Oliveiras, anunciando a ação poderosa de Deus no julgamento final das nações.
3.2) O que são os cavalos vermelhos, pretos, brancos e baios (grisalhos)?
Vejamos agora Zacarias 6:2-3. Para revelar mais sobre o julgamento, Deus apresenta as cores dos cavalos: o primeiro carro é puxado por cavalos vermelhos; o segundo, por pretos; o terceiro, por brancos; e o quarto, por cavalos baios (grisalhos) e fortes.
Mas por que quatro carros? Na linguagem bíblica, o número quatro frequentemente expressa universalidade. Isaías 11.12 menciona os “quatro cantos da terra”, e outras passagens falam dos “quatro ventos do céu”. A imagem aponta, portanto, para um julgamento de alcance mundial.
Essa visão apresenta um paralelo interessante com os quatro cavaleiros de Apocalipse 6, tanto pelas cores quanto pelo contexto de juízo. Sem precisar acompanhar cada passagem agora, observemos essas correspondências:
• Os cavalos vermelhos podem ser associados à guerra e ao derramamento de sangue. Em Apocalipse 6.4, o cavaleiro do cavalo vermelho recebe uma grande espada e poder para tirar a paz da terra, levando os homens a matarem uns aos outros.
• Os cavalos pretos encontram um paralelo no cavalo de Apocalipse 6.5-6. Seu cavaleiro traz uma balança, e os preços elevados do trigo e da cevada indicam escassez e fome.
• Os cavalos brancos lembram o cavalo de Apocalipse 6.2, cujo cavaleiro sai vencendo e para vencer. A imagem sugere conquista, vitória e triunfo.
• Os cavalos grisalhos (baios) e fortes, cuja descrição hebraica apresenta dificuldades de tradução, podem ser relacionados, com cautela, ao cavalo pálido de Apocalipse 6.8, associado à Morte e ao Hades.
Essas aproximações ajudam a perceber a harmonia entre as visões, embora não seja necessário atribuir a cada cor em Zacarias exatamente o mesmo significado que recebe em Apocalipse. A mensagem central é clara: Deus governa as nações e executa seu julgamento sobre toda a terra. Os carros e seus cavalos retratam os agentes desse juízo, que pode envolver guerra, fome, conquista e morte.
3.3) O significado da visão
Zacarias 6
4 Então, perguntei ao anjo que falava comigo: que é isto, meu senhor?
5 Respondeu-me o anjo: São os quatro ventos do céu, que saem donde estavam perante o Senhor de toda a terra.
O profeta pergunta ao anjo que falava com ele: “Que é isto, meu senhor?” Esse é o anjo intérprete que o acompanha nas visões. Zacarias deseja compreender o significado dos quatro carros e seus cavalos.
O anjo responde: “São os quatro ventos do céu, que saem donde estavam perante o Senhor de toda a terra”. A palavra hebraica “ruach” pode significar “vento” ou “espírito”. Nesse contexto, os quatro ventos podem ser compreendidos como espíritos angelicais, agentes enviados para executar o julgamento de Deus.
Observe que eles saem da presença do Senhor. Essa descrição corresponde ao serviço dos anjos, que permanecem diante de Deus, prontos para cumprir suas ordens. Em Daniel 7.10, milhares o servem e miríades estão diante dele. Da mesma forma, em Lucas 1:19, Gabriel se apresenta a Zacarias, pai de João Batista, dizendo: “Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus” (Lc 1.19).
Encontramos uma imagem semelhante em Apocalipse 7.1-2: quatro anjos estão nos quatro cantos da terra, segurando os quatro ventos e aguardando o momento determinado para agir. Em Zacarias, os quatro carros também retratam agentes celestiais que saem para cumprir as ordens divinas sobre a terra.
Por fim, o título “Senhor de toda a terra” destaca a soberania de Deus sobre todas as nações. A expressão também aparece em Miqueias 4:13 e Zacarias 4:14 e, na perspectiva do reino milenar, aponta para o dia em que seu domínio será plenamente manifestado em toda a terra.
Zacarias 6
6 O carro em que estão os cavalos pretos sai para a terra do Norte; o dos brancos, após eles; o dos baios, para a terra do Sul.
7 Saem, assim, os cavalos fortes, forcejando por andar avante, para percorrerem a terra. O Senhor lhes disse: Ide, percorrei a terra. E percorriam a terra.
8 E me chamou e me disse: Eis que aqueles que saíram para a terra do Norte fazem repousar o meu Espírito na terra do Norte.
Os versículos 6 e 7 apresenta o destino dos carros: os cavalos pretos seguem para a terra do norte, os brancos vão atrás deles e os baios seguem para o sul. Depois, os cavalos fortes recebem a ordem de percorrer a terra. Lembrem-se de que os carros e seus cavalos retratam agentes celestiais enviados para executar o julgamento de Deus. Encontramos uma imagem semelhante em Apocalipse, onde anjos tocam as trombetas e derramam as taças do juízo.
Mas por que o norte e o sul? Essas direções lembram as principais rotas pelas quais os inimigos chegavam a Israel. Ao norte estavam os caminhos usados por potências como a Assíria e a Babilônia; ao sul, o Egito. O deserto a leste e o mar Mediterrâneo a oeste ajudam a explicar essa concentração das invasões.
A visão anuncia, portanto, o julgamento de Deus sobre as nações que o desafiaram e maltrataram seu povo. Isso se relaciona à promessa feita a Abraão em Gênesis 12.3: Deus abençoaria os que o abençoassem e amaldiçoaria quem o amaldiçoasse.
Os cavalos vermelhos não recebem um destino explícito nessa parte da visão. O texto não explica essa ausência, por isso não podemos afirmar que saiam depois dos demais. A ênfase está na ordem do Senhor: “Percorrei a terra.” Embora sejam mencionados o norte e o sul, o alcance da missão é mundial.
Essa visão se relaciona aos acontecimentos finais, esse julgamento aponta para a volta de Cristo. Mateus 24 e 25 descrevem sua vinda em glória e o julgamento das nações, enquanto Zacarias 14 apresenta sua chegada ao monte das Oliveiras. Deus intervirá para julgar o mal e estabelecer seu reino.
O versículo 8 encerra a visão e oferece uma chave para compreendê-la: “Eis que aqueles que vão para a terra do norte acalmaram o meu espírito na terra do norte”. A expressão comunica a satisfação da justiça divina: o julgamento determinado por Deus foi cumprido.
O destaque dado ao norte lembra especialmente a Babilônia, uma das grandes opressoras de Israel. No capítulo anterior, Zacarias já havia mencionado Sinar, região associada à Babilônia. Em Apocalipse, esse nome também representa o sistema de oposição a Deus que será finalmente destruído.
Assim, a visão apresenta os símbolos nos versículos 1 a 3, explica seu significado nos versículos 4 a 7 e termina, no versículo 8, com a satisfação da justiça divina. O mal não permanecerá impune: Deus cumprirá seu propósito, julgará as nações e estabelecerá seu reino.
4) A coroação do Rei
Zacarias 6
9 A palavra do Senhor veio a mim, dizendo:
10 Recebe dos que foram levados cativos, a saber, de Heldai, de Tobias e de Jedaías, e vem tu no mesmo dia e entra na casa de Josias, filho de Sofonias, para a qual vieram da Babilônia.
11 Recebe, digo, prata e ouro, e faze coroas, e põe-nas na cabeça de Josué, filho de Jozadaque, o sumo sacerdote.
A partir do versículo 9, a série de oito visões dá lugar a uma nova palavra do Senhor. Zacarias recebe a ordem de realizar um ato simbólico que aponta para a coroação do Senhor Jesus Cristo. É uma bela passagem sobre a exaltação do Messias. Isso nos lembra de uma verdade fundamental: o clímax da história é uma pessoa: Jesus Cristo. A esperança messiânica encontra nele seu cumprimento.
O texto começa: “A palavra do Senhor veio a mim, dizendo”. Em seguida, Deus ordena que Zacarias receba as ofertas de Heldai, Tobias e Jedaías, que haviam chegado da Babilônia, e vá naquele mesmo dia à casa de Josias, filho de Sofonias.
Embora muitos judeus já tivessem retornado do cativeiro, outros ainda permaneciam na Babilônia. Os recém-chegados trouxeram prata e ouro para contribuir com a reconstrução do templo, conduzida por Zorobabel. Aquela oferta, porém, teria uma finalidade especial no propósito de Deus.
No versículo 11, o Senhor manda Zacarias usar a prata e o ouro para fazer uma coroa e colocá-la sobre a cabeça de Josué, filho de Josadaque, o sumo sacerdote. A palavra hebraica traduzida como “coroa” está no plural e pode indicar uma coroa composta. O que mais chama a atenção, entretanto, é quem deveria recebê-la: o sumo sacerdote.
Em Israel, os ofícios de rei e sacerdote eram distintos. Um exemplo dessa separação aparece em 2 Crônicas 26, quando o rei Uzias tenta exercer uma função sacerdotal e é castigado por Deus.
Como entender, então, a coroação de Josué?A resposta está no caráter simbólico desse ato. Josué aponta para aquele que reuniria perfeitamente os dois ofícios: Jesus Cristo, Rei e Sumo Sacerdote. Sua coroação antecipa, em figura, a glória e a autoridade do Messias.
Hebreus 7 nos ajuda a compreender essa união ao apresentar Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo. Chamado rei de justiça e rei de paz, ele é descrito como semelhante ao Filho de Deus. Na apresentação bíblica, não há registro de sua genealogia, de seu nascimento ou de sua morte, formando uma figura do sacerdócio permanente de Cristo.
Melquisedeque é a figura; Cristo é o cumprimento. Da mesma forma, a coroa sobre a cabeça de Josué aponta para a exaltação do grande Sumo Sacerdote. Jesus é aquele que intercede por seu povo e reina sobre ele, reunindo em si a autoridade real e o sacerdócio eterno.
Zacarias 6
12 E dize-lhe: Assim diz o Senhor dos Exércitos: Eis aqui o homem cujo nome é Renovo; ele brotará do seu lugar e edificará o templo do Senhor.
13 Ele mesmo edificará o templo do Senhor e será revestido de glória; assentar-se-á no seu trono, e dominará, e será sacerdote no seu trono; e reinará perfeita união entre ambos os ofícios.
14 As coroas serão para Helém, para Tobias, para Jedaías e para Hem, filho de Sofonias, como memorial no templo do Senhor.
15 Aqueles que estão longe virão e ajudarão no edificar o templo do Senhor, e sabereis que o Senhor dos Exércitos me enviou a vós outros. Isto sucederá se diligentemente ouvirdes a voz do Senhor, vosso Deus.
Em Zacarias 6.12, o Senhor explica o significado da coroação de Josué: “Assim diz o Senhor dos Exércitos: Eis o homem cujo nome é o Renovo”. O ato simbólico aponta para o Messias, aquele que reuniria em si os ofícios de Rei e Sacerdote.
A expressão “Eis aqui o homem” lembra as palavras de Pilatos ao apresentar Jesus (Jo 19.5). Naquela ocasião, Cristo estava humilhado e coroado de espinhos. Aqui, a profecia anuncia sua glória e seu governo.
“Renovo” significa broto ou rebento e é um título messiânico também encontrado em Isaías (4.2; 11.1) e em Zacarias 3.8. A imagem comunica esperança: da casa de Davi, aparentemente reduzida a um tronco cortado, surgiria o Messias. Jesus Cristo é esse Renovo, em quem as promessas do reino encontram cumprimento.
As afirmações de Zacarias 6.12-15 sobre a pessoa de Jesus e de sua obra.
1) Ele brotará do seu lugar (Zc 6.12). O Messias surgiria entre seu próprio povo, em sua própria terra. Isso lembra Isaías 53.2, que o apresenta como um renovo tenro e uma raiz que sai de uma terra seca. Jesus cresceu entre os homens, em humildade, pertencendo ao povo de Israel e à linhagem de Davi.
2) Ele edificará o templo do Senhor (Zc 6.12-13). Ressaltando que a obra pertence ao próprio Messias. Isto está relacionado ao reino milenar, trata-se do futuro templo descrito em Ezequiel 40–48. Aquele que veio em humildade estabelecerá o lugar de adoração ao Senhor em seu reino.
3) Ele será revestido de glória (Zc 6.13). O Cristo que foi rejeitado e humilhado será reconhecido em sua majestade. Sua vinda desperta tanto a seriedade diante do julgamento quanto a alegria por sua exaltação. Ele receberá a honra que lhe é devida, como retratam os cânticos de adoração de Apocalipse 4 e 5.
4) Ele reinará e será sacerdote no seu trono (Zc 6.13). Em Israel, a realeza e o sacerdócio eram ofícios distintos. No Messias, porém, estarão unidos perfeitamente. O Salmo 110.4 anuncia: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque”. Assim como Melquisedeque era rei e sacerdote, Cristo reúne as duas funções: como Rei, governa; como Sacerdote, intercede por seu povo.
5) Haverá conselho de paz entre os ofícios de rei e sacerdote (Zc 6.13). A expressão aponta para a harmonia entre a realeza e o sacerdócio. O governo e a adoração estarão unidos sob a autoridade de Cristo. Sua justiça ao governar estará em plena concordância com sua obra sacerdotal, sem conflito ou desarmonia.
6) “Os que estão longe virão e edificarão o templo do Senhor” (Zc 6.15). Essa promessa pode ser relacionada à participação dos gentios, lembrando a linguagem de Efésios 2 sobre aqueles que estavam longe e foram aproximados. A obra continua pertencendo ao Messias, mas pessoas de outras nações são chamadas a participar dela.
A coroação de Josué aponta, portanto, para a glória do Renovo. Jesus Cristo edificará o templo do Senhor, receberá a honra que lhe pertence e governará como Rei e Sacerdote. Sob sua autoridade, haverá justiça, verdadeira adoração e paz. Os que estão longe virão e participarão da obra do Senhor. Na perspectiva do reino messiânico, essa promessa aponta para a presença dos gentios, que se unirão ao povo de Deus na adoração ao verdadeiro Deus.
Isaías 2.2-3 anuncia que todas as nações afluirão ao monte do Senhor. Muitos povos desejarão conhecer seus caminhos e andar em suas veredas. Miqueias 4.1-2 apresenta a mesma esperança: nações reunidas para aprender a Palavra de Deus e viver sob sua direção. Assim, o governo do Messias alcançará povos de toda a terra.
7) O cumprimento da promessa confirmará a Palavra de Deus (Zc 6.15). Ele declara: “Sabereis que o Senhor dos Exércitos me enviou a vós outros”. Quando aquilo que foi anunciado se cumprir, ficará demonstrada a autenticidade da mensagem divina. Essa profecia é relativa a volta de Cristo e ao seu reino na terra, sua vinda manifestará a fidelidade de Deus às suas promessas.
8) O Senhor exige obediência à sua voz (Zc 6.15). O versículo termina com uma condição: “Isto acontecerá, se diligentemente ouvirdes a voz do Senhor, vosso Deus”. A condição diz respeito à participação nas bênçãos prometidas. Deus cumprirá seu propósito, e seu povo é chamado a responder com fé e obediência.
A promessa de que “todo o Israel será salvo” refere-se à restauração da nação (Rm 11.25-27; Ez 37.21–28), sem eliminar a responsabilidade individual e a necessidade de fé (Rm 11.20-23). Ezequiel 20.38 anuncia que Deus separará os rebeldes do seu povo. O reino será estabelecido (Ez 37.22–24), e aqueles que pertencem ao Senhor desfrutarão de suas bênçãos (Ez 37.25–28; Mt 25.34).
A passagem apresenta, assim, a grandeza do Renovo: ele surge de Israel, edifica o templo do Senhor, recebe a glória, governa como Rei e Sacerdote, reúne as nações na adoração e confirma a fidelidade da Palavra de Deus. Diante dele, somos chamados a crer e obedecer.
Zacarias 6.14 diz que “as coroas serão para Helém, para Tobias, para Jedaías e para Hem, filho de Sofonias, como memorial no templo do Senhor”. Encontramos o destino da coroa: ela deveria permanecer como memorial no templo do Senhor. Depois de cumprir sua função simbólica sobre a cabeça de Josué, seria guardada como lembrança da promessa. A coroa apontava para o Rei que viria e para a união perfeita entre realeza e sacerdócio no Messias.
Conclusão
Você pertence ao reino de Deus? Colossenses 1:13 afirma que Deus nos libertou do domínio das trevas e nos transportou para o reino do seu Filho amado. A entrada nesse reino acontece pela fé em Jesus Cristo. É ele quem recebe, salva e conduz seu povo.
Se pertencemos ao Rei, nossa vida deve refletir essa realidade. Em 1 Tessalonicenses 2:12, Paulo nos chama a viver de modo digno de Deus, que nos chama para seu reino e glória.
Já desfrutamos, em Cristo, das bênçãos de seu governo e aguardamos a manifestação plena do seu reino. Essa esperança nos chama a uma vida de fidelidade: confiar em suas promessas, ouvir sua voz e honrá-lo em nossas atitudes. Vamos orar.
Pai, nós te agradecemos por esta noite de comunhão, em que compartilhamos nosso amor uns pelos outros e por ti, ouvindo a tua Palavra, expressão do teu amor por nós. Não nos alegramos com o julgamento, mas reconhecemos que ele faz parte da mensagem que nos confiaste. Obrigado por nos advertires com fidelidade, mostrando que tua santidade exige o juízo sobre o pecado e que, em tua graça, nos ofereces salvação em Jesus Cristo. Ajuda-nos a acolher essa provisão e a anunciar tua verdade com amor.
Pai, sabemos que tua santidade exige o julgamento do pecado e que rejeitar a salvação que ofereces traz condenação. Isso nos entristece, pois não nos alegramos com a perdição de ninguém. Mas nos alegramos com a coroação de Jesus, porque ele é digno de toda honra. Aguardamos o dia em que o aclamaremos como Rei dos reis e Senhor dos senhores, quando ele purificará e governará a terra que um dia o rejeitou e crucificou.
Diante de sua promessa — “Eis que venho em breve” —, respondemos com o apóstolo João: “Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22.20). Que nosso apego a esta vida dê lugar ao desejo de vê-lo glorificado. Acima dos nossos planos, queremos que tua vontade se cumpra e que teu Filho receba a honra que merece.
Obrigado por nossa comunhão. Oramos para que aqueles que ainda não te conhecem creiam em Cristo e se tornem filhos do reino. E que todos nós, que já te pertencemos, renovemos hoje o compromisso de viver de maneira digna de ti, como cidadãos do teu reino. Em nome de Jesus, amém.
Esta é uma série de sermões traduzidos de John MacArthur sobre o livro de Zacarias.
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Este texto é uma síntese do sermão “Establishing God’s Kingdom on Earth”, de John MacArthur, em 8/5/1977.
Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:
https://www.gty.org/sermons/2161/establishing-gods-kingdom-on-earth
Tradução e síntese feitas pelo Site Rei Eterno





















