O Alto Chamado de Jesus

Através de homens humanamente improváveis e insignificantes, o Senhor estabeleceu sua igreja e o evangelho começou uma trajetória até os confins da terra. O avanço do evangelho não pode ser atribuído ao poder humano, mas ao poder de Deus. A verdade do evangelho se espalhou em cada geração por meio de pessoas humildes, desconhecidas e sem influência.

Seguindo pelo evangelho de João, vamos olhar agora para os versículos 38 a 51, do primeiro capítulo. Trata-se de uma porção narrativa das Escrituras. E veremos muitas dessas narrativas à medida que nos aprofundamos no evangelho de João, conforme ele conta a história de Jesus a partir de sua própria perspectiva. Mas há alguns elementos fundamentais e maravilhosos nesta seção, como seria de se esperar no início deste maravilhoso evangelho.

Trata-se de um relato muito simples de Jesus reunindo seus primeiros seguidores. João disse que escreveu seu evangelho “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.31). Ele teve dois propósitos: 1) apologético: provar que Jesus é o Filho de Deus, o Messias, o Salvador, o Redentor; 2) evangelístico: para que, crendo, tenhamos a vida eterna em seu nome.

João reúne evidências de que Jesus é o Filho de Deus, o Messias prometido e o Salvador. Se você tem alguma dúvida sobre quem é Jesus, leia o evangelho de João, porque João o escreveu para que você saiba que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus que se fez carne, a segunda pessoa da Trindade, aquele que estava desde o princípio com Deus e criou todas as coisas, que nele temos a vida eterna.

Como vimos no sermão anterior, depois de descrever quem era Jesus (João 1.1-14), o apóstolo João registrou o testemunho do maior homem que já viveu até sua época, João Batista, o último e maior de todos os profetas do Antigo Testamento. Ele era reverenciado pelo povo como profeta (Mt 14.5; 21.26). Ao ver Jesus, João Batista declarou: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29).

Os verdadeiros israelitas, os verdadeiros judeus, os judeus crentes sabiam que eram pecadores. O ministério de João Batista era um ministério de arrependimento. Seu batismo era um batismo de arrependimento. Ele estava confrontando uma nação de pessoas que se consideravam justas, que não achavam que precisavam se arrepender e que não precisavam de um Salvador.

Essa era a visão dominante. Essa era a visão da elite religiosa. Eles não buscavam um cordeiro, um sacrifício ou um salvador; buscavam um rei. Acreditavam ter alcançado status e aceitação diante de Deus por meio de sua religiosidade vazia e moralidade aparente. A mensagem de João Batista era:

Vocês não são melhores do que os gentios. Vocês estão fora de um relacionamento com Deus, precisam se arrepender e precisam ser batizados como uma expressão externa do desejo de uma purificação interior, como um gentio que se associa à religião judaica.

Em outras palavras: “vocês são forasteiros, precisam se arrepender ou a ira de Deus cairá sobre vocês”. João Batista pregava a ira e o arrependimento, e então apontava para Cristo e dizia: “Este é o Cordeiro e o sacrifício pelos vossos pecados”. Os verdadeiros judeus entendiam isso. Sabiam que eram pecadores. Sabiam que precisavam se arrepender e que precisavam de um sacrifício pelos seus pecados.

Então, em João 1.38-51, encontramos um pequeno grupo de judeus que eram crentes no Antigo Testamento. Eles tinham uma interpretação verdadeira do Antigo Testamento, o que realmente mudou suas vidas. Veja as palavras de nosso Senhor a Natanael: “Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo!” (Jo 1.47). Natanael ficou mais conhecido como Bartolomeu, um dos doze apóstolos (Lc 6.14).

Aqui está um pequeno grupo de crentes: André, Pedro, Filipe, Natanael — e João também estava originalmente com André. Podemos acrescentar depois Tiago e Tomé. Eram sete pescadores da Galileia que, por fim, dão testemunho, embora Tomé tenha levado muito tempo até que finalmente dissesse: “Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20.28).

Eles começam como o núcleo dos seguidores de Jesus, que então se tornaram,mais tarde, os apóstolos de Cristo, os primeiros grandes pregadores e missionários do evangelho. A obra que eles começaram ainda está em curso, e continuará até a volta de Jesus. É incrível como o Senhor escolheu pessoas aparentemente insignificantes para mudar o mundo. O Senhor pode pegar qualquer um e fazer isso. Por isso Paulo escreveu:

Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento, pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes (1Co 1.26-27).

O Senhor chamou os humildes, os insignificantes, os que não são ninguém. E é assim que o evangelho começa, João Batista sendo a primeira testemunha de Jesus. Ele era um ninguém para a elite religiosa de Israel. As pessoas que aparecem em João 1.38-51 são alheias à instituição religiosa, não há rabino, não há sacerdote, não há saduceu, não há fariseu, não há escriba — ninguém que faça parte da estrutura religiosa de Israel.

No verso 41, um deles diz: “Achamos o Messias!”. No verso 45, outro diz: “Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei”. No verso 49, outro diz: “Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!”. O propósito desta narrativa é declarar essas afirmações. Eles encontraram o Messias, o cumprimento do Antigo Testamento, o Filho de Deus e o Rei de Israel.

Eles não foram chamados para serem apóstolos naquele momento, isso só aconteceu um ano e meio depois. Na metade do ministério de Jesus, esses homens foram identificados como parte dos doze apóstolos. Mas, no início, eles eram apenas pescadores galileus comuns, insignificantes e sem influência, que viviam no mesmo lugar e ganhavam a vida da mesma maneira. É bem possível que tenham adorado a Deus juntos na mesma sinagoga.

Mas, através desses homens improváveis, o Senhor estabeleceu sua igreja e o evangelho começou uma trajetória até os confins da terra, e continua avançando. A verdade do evangelho se espalha em cada geração desde a primeira, por meio de pessoas humildes, desconhecidas, sem influência, impotentes, fracas e mansas. Embora existam aqueles que pregam para grupos, mas a principal forma de o reino avançar é de uma pessoa para outra, e foi assim que tudo começou.

O desafio para eles era imenso. Cada um deles era um ninguém e passaram a proclamar o nome de Jesus, que era um ninguém para a elite religiosa de Israel. E todos na Judeia desprezavam a Galileia, e o povo da Galileia desprezava Nazaré. Que começo humilde!

O avanço do evangelho não pode ser atribuído ao poder das pessoas, mas ao poder de Deus. Portanto, se você vai se gloriar, glorie-se no Senhor, porque é por obra dele que você está em Cristo.

As pessoas podem ter pensado: “Se Jesus é o verdadeiro Messias, os rabinos, os escribas, os fariseus e os sacerdotes nos dirão”. Mas, eles resistiram a Jesus, rebelaram-se contra a sua mensagem e o mataram. A mensagem virá de alguns pescadores da Galileia, segundo o propósito de Deus. E continua assim até hoje.

O Início do ministério de Jesus

Em João 1.38 temos o início do ministério de Jesus. Até então ele havia vivido na obscuridade, na Galileia; os homens que aparecem agora nem sequer o conheciam. Naquela pequena região da Galileia, Jesus viveu trinta anos e eles nem sequer sabiam quem ele era, Jesus não havia feito nada para chamar a atenção para si.

Mas agora Jesus começa a reunir seus seguidores, e João Batista desaparece da história no evangelho de João, fazendo apenas uma breve aparição no capítulo 3. Mas agora a narrativa se volta para Jesus Cristo, e ele assume o protagonismo.

Ao analisarmos João 1.38-51, vamos dividi-los da maneira natural como o apóstolo João os apresenta: em dois grupos. O primeiro se concentra em André e Pedro; o segundo, em Filipe e Natanael. O apóstolo João também está presente aqui, mas ele nunca se refere a si mesmo.

O primeiro grupo de seguidores: André e Pedro 

No sermão anterior, sobre João 1.19-37, vimos João Batista falando a três grupos diferentes, em três dias diferentes, com três mensagens diferentes. No primeiro dia ele diz a uma delegação hostil do Sinédrio: “Ele está aqui”. No segundo dia, ele diz à uma multidão: “Olhem para Ele”. E, no terceiro dia, ele diz a dois de seus discípulos (André e João): “Sigam-no”. Essa é a essência da fé salvadora. Você entende que ele veio; quem ele é; e dedica sua vida a segui-lo. Isso é o que significa ser cristão.

E é aí que a história continua, a partir de João 1.38, após André e João seguir a Jesus (Jo 1.37). Ainda é o terceiro dia e o local continua sendo o mesmo: em “Betânia, do outro lado do Jordão, onde João estava batizando” (Jo 1.28). Não se trata da Betânia perto de Jerusalém, onde habitavam Maria, Marta e Lázaro, mas de outra Betânia, “além do Jordão”, região próxima a Judeia.

Este é o terceiro dia na cronologia do apóstolo João, indicando que ele estava presente, pois ele indica a hora (Jo 1.39) e quando o dia muda (Jo 1.43). A partir de João 1.38 retomamos a narrativa. Este é o primeiro grupo.

João 1
38 E Jesus, voltando-se e vendo que o seguiam, disse-lhes: Que buscais? Disseram-lhe: Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?
39 Respondeu-lhes: Vinde e vede. Foram, pois, e viram onde Jesus estava morando; e ficaram com ele aquele dia, sendo mais ou menos a hora décima.
40 Era André, o irmão de Simão Pedro, um dos dois que tinham ouvido o testemunho de João e seguido Jesus.

No verso 40, um dos discípulos é nomeado: André, irmão de Simão Pedro. O outro não é nomeado, mas isso é um forte indício de que se trata do apóstolo João, pois ele não se identifica em seu evangelho, mesmo quando um fato se relaciona a ele. Em João 13.23, 20.2 e 21.20 ele se intitula como “aquele quem Jesus amava”; Em João 19.26 como “o discípulo amado”. Ele meio que desaparece da cena em seu evangelho. Ele é o escritor, e sua humildade transparece, e ele se retira gradualmente, contando a história de André e seu irmão Simão Pedro.

Então, no versículo 38, eles estão seguindo Jesus, que se vira e perguntam: “Que buscais?”. Ou seja, “qual a motivação de vocês? ; O que vocês querem de mim? O que vocês estão procurando?” Eles sabiam que João Batista havia identificado Jesus como o Messias, o Cordeiro de Deus e não como o Rei reinante. Ele era um rei, e eles declararam isso ao final deste testemunho. Mas, inicialmente, Jesus vem como um cordeiro; como um sacrifício pelo pecado e não como Rei.

Eles eram discípulos de João Batista e estavam ouvindo o seu chamado ao arrependimento (Jo 1.35). Eles haviam abraçado completamente a mensagem de João Batista sobre julgamento, pecado e arrependimento, e sobre a necessidade de salvação, e sobre a vinda do Cordeiro de Deus.

João Batista estava pregando por meses. Ele não disse apenas “Eis o Cordeiro de Deus”. Certamente ensinou tudo sobre a identidade de Jesus Cristo como o Cordeiro, conectando-a ao sistema sacrificial do Antigo Testamento — talvez Isaías 53 — para que eles soubessem exatamente o que significava a sua vinda como Cordeiro.

Esses homens ouviram essa mensagem, creram nela e vieram para se arrepender e receber aquele que seria o sacrifício. Quando Jesus lhes perguntou o que eles estavam procurando, eles responderam: “Rabi, onde moras?”. O título “rabi” era um título de honra dos alunos para o seu mestre. Eles estavam dizendo a Jesus: “O Senhor é nosso mestre! Onde moras?”. Eles tinham muitas perguntas a fazer para Jesus, por isso perguntam onde ele morava.

Lembrem-se, eles não se tornam discípulos permanentes de Jesus neste dia. Eles estão apenas começando a examinar Jesus. Mais tarde, eles se tornarão seguidores permanentes e, depois disso, se tornarão apóstolos e serão enviados para pregar o evangelho (Mt 10.1-4; Mc 3.13-19; Lc 6.12-16). O convite do Senhor é imediato, ele disse: “Vinde e vede”. Essa é a acessibilidade, disponibilidade e a condescendência (consentir com a vontade ou pedido de outra pessoa) do nosso Senhor Jesus.

Eles foram até onde Jesus estava hospedado, provavelmente em algum lugar no deserto, sem dúvida um lugar humilde. Eles chegam lá na hora décima. No calendário judaico o dia começa às seis horas da manhã, então a hora décima equivale a quatro horas da tarde. Eles ficaram com ele o resto do dia e a noite.

Só consigo imaginar como deve ter sido aquela conversa. É um paralelo interessante com o último encontro de Jesus com os discípulos no caminho para Emaús (Lc 24.13-35), quando entraram, sentaram-se à mesa e fizeram perguntas a Jesus, e ele essencialmente provou a eles a mesma coisa que provou a estes homens aqui: que ele era aquele de quem a Lei e os Profetas falavam.

João 1
41 Ele achou primeiro o seu próprio irmão, Simão, a quem disse: Achamos o Messias (que quer dizer Cristo),
42 e o levou a Jesus. Olhando Jesus para ele, disse: Tu és Simão, o filho de João; tu serás chamado Cefas (que quer dizer Pedro).

André encontra, em primeiro lugar, seu próprio irmão Simão, o que significa que ele devia estar por perto e que também era um seguidor de João Batista. Eles não estavam na Galileia, onde moravam, mas sim no sul, do outro lado do rio Jordão, a leste de Jerusalém, onde João Batista batizava.

Ele diz a seu irmão Simão: “Achamos o Messias”. “Messias” é a tradução da palavra hebraica “Mashiach” e “Cristo” é a tradução da palavra grega “Christós”, ambas significam “o ungido”. Aqui está um testemunho confiável, sem qualquer dúvida e com absoluta certeza: “encontramos o Messias, o Cristo.” E André conduz Simão até Jesus. É assim que o reino avança, não é? Um trazendo o outro.

Jesus olhou para Simão e disse: “Tu és Simão, o filho de João; tu serás chamado Cefas (Pedro)”. Isso deve ter causado um certo choque em Pedro. Não há indicação de que ele tenha sido informado disso, mas Jesus sabe de tudo. “Cefas” é uma palavra aramaica, a língua comum do povo naquela época em Israel. “Pedro” é a forma grega da palavra “pedra” ou “rocha” . E o nosso Senhor está prevendo o que Pedro se tornará: uma pedra, uma rocha.

Foi uma jornada difícil até Pedro chegar lá, mas ele se tornou uma rocha. Em Mateus 16.16 Pedro declarou a Jesus: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. E o Senhor lhe respondeu: “eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja” (Mt 16.18). O sentido do texto grego é: “Você é uma pedra, mas sobre uma pedra maior eu vou edificar minha igreja”. Essa pedra maior é o Filho do Deus vivo, conforme Pedro havia declarado.

E Pedro foi assim desde o dia em que o Espírito de Deus veio sobre ele. No dia de Pentecostes, ele se levantou e pregou a uma multidão sobre Jesus Cristo, e não mais parou de pregar até seu martírio. Foi o principal apóstolo nos anos da fundação da igreja. Ele foi uma pequena rocha que proclamava a verdade, o Senhor Jesus Cristo, a grande rocha em que a igreja está edificada.

Tenho certeza de que Pedro ficou chocado e disposto a aceitar o testemunho de seu irmão André: “Encontramos o Messias”. Jesus falava como ninguém poderia falar. Esse é o primeiro grupo: André e Pedro.

O segundo grupo de seguidores: Filipe e Natanael

João 1
43 No dia seguinte, resolveu Jesus partir para a Galileia e encontrou a Filipe, a quem disse: Segue-me.
44 Ora, Filipe era de Betsaida, cidade de André e de Pedro.

Este é o quarto dia. Jesus decidiu ir para a Galileia. Era uma caminhada árdua. E ele encontrou Filipe e disse: “segue-me-”. É muito provável que Pedro e André estivessem com Jesus e que mais instruções e perguntas ocorreram durante a caminhada para a Galileia.

João 1
44 Filipe encontrou a Natanael e disse-lhe: Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei, e a quem se referiram os profetas: Jesus, o Nazareno, filho de José.

Deve ter sido incrível a experiência de Filipe diante do convite de Jesus, porque, ao encontrar Natanael, ele diz: “achamos o profeta sobre quem Moisés escreveu”. O texto nem sequer nos conta a conversa em si, mas a conclusão é suficiente.

Somente o apóstolo João o chama de Natanael, pois os outros evangelhos o chama de Bartolomeu, provavelmente um sobrenome. Ele se tornou um dos doze apóstolos. Em João 21.2 diz que Natanael era da cidade de Caná da Galileia, onde Jesus realizou seu primeiro sinal milagroso (Jo 2.1-12).

O que Jesus estava fazendo? Ele estava explicando a eles como ele era o Messias. Como ele era o cumprimento de tudo o que o Antigo Testamento dizia. Então, aqui temos um segundo testemunho. Temos o testemunho de André: “Encontramos o Messias” e temos o testemunho de Filipe, que passou um tempo com Jesus, examinou Moisés e os profetas, e declarou: “Nós encontramos o Messias, o Cristo”.

O testemunho de Natanael

João 1
46 Perguntou-lhe Natanael: De Nazaré pode sair alguma coisa boa? Respondeu-lhe Filipe: Vem e vê.

Filipe disse a Natanael que o Messias é Jesus de Nazaré, filho de José. Nazaré era uma cidade desprezada, e José não era absolutamente ninguém. José quis se apartar de Maria porque ela estava grávida, e eles ainda não haviam tido relações sexuais. Foi preciso um anjo lhe dizer: “José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo de seus pecados” (Mt 1.20-21).

Mais tarde, provavelmente, os fariseus fizeram uma referência sobre o nascimento de Jesus. Eles conheciam a história do noivado de Maria e que José não era seu pai verdadeiro. Dessa maneira, deram a entender que o nascimento de Jesus foi ilegítimo. Eles disseram a Jesus: “Nós não somos bastardos; temos um pai, que é Deus” (Jo 8.41).

A história de Jesus não parecia fazer sentido para alguém que seria o Filho de Deus encarnado, o Messias, o Rei, o Redentor e o profeta prometido. Como poderia ter vindo de Nazaré? Como seu pai e mãe seriam dois nadas? Não nos surpreende, então, quando Natanael diz: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?”. Havia um claro desprezo por Nazaré e por tudo que vinha de lá. Mas Filipe, em outras palavras, lhe diz: “Venha, veja, faça suas perguntas e você crerá”.

João 1
47 Jesus viu Natanael aproximar-se e disse a seu respeito: Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo!

Jesus diz a Natanael: “Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo!”. Essa afirmação de Jesus é bem entendida à luz de Romanos 2.28-29, em que Paulo diz:

Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é somente na carne. Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão, a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus.

Natanael era um verdadeiro crente do Antigo Testamento, sem hipocrisia, duplicidade ou falsidade. Isso era raro em uma nação de apóstatas, de hipócritas e de religiosos que se gloriavam. Aqui está um homem honesto, de coração íntegro e genuíno, algo raro em Israel. Eu amo o fato de que o Filho perfeito de Deus, sem pecado e santo, pôde dizer de qualquer homem: “Eis um verdadeiro israelita em quem não há engano”.

Isso significa que Natanael era perfeito? Não, mas ele havia sido aceito por Deus por meio de sua fé. E ele era autêntico. Ele era genuíno. O que está acontecendo aqui é que Jesus está lendo sua condição espiritual de forma sobrenatural.

O que Jesus quis dizer foi que a franqueza de Natanael revelou que ele era um israelita sem motivos duplos, que estava disposto a examinar por si mesmo as afirmações feitas a respeito de Jesus. O termo revela um coração honesto que quer saber a verdade.

João 1
48 Perguntou-lhe Natanael: Donde me conheces? Respondeu-lhe Jesus: Antes de Filipe te chamar, eu te vi, quando estavas debaixo da figueira.
49 Então, exclamou Natanael: Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!

Natanael ficou surpreso e perguntou a Jesus: “Donde me conheces?”. Mas, Jesus ainda acrescentou a informação de que o viu fisicamente, mesmo quando Natanael estava fora do alcance da vista humana, numa clara demonstração de sua onisciência. Em outras palavras, Jesus quis dizer: “eu te vejo onde quer que você esteja e te vi antes mesmo de Filipe te encontrar”.

Foi um breve lampejo do conhecimento sobrenatural de Jesus. O que Jesus disse sobre a pessoa de Natanael foi exato (v.47) e revelou uma informação que somente poderia ser conhecida pelo próprio Natanael. Talvez Natanael tivesse experimentado algum tipo de experiência de comunhão significativa ou excepcional com Deus naquele lugar, e foi capaz de reconhecer a alusão de Jesus à mesma. De qualquer modo, Jesus sabia desse acontecimento que as outras pessoas desconheciam.

Natanael exclamou: “Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!”. A exibição de conhecimento sobrenatural de Jesus e o testemunho de Filipe eliminaram as dúvidas de Natanael, e assim o apóstolo João acrescentou o testemunho de Natanael a essa seção.

O uso do artigo “o” antes de “Filho de Deus” indica que a expressão deve ser entendida no seu pleno significado. Tal com João Batista declarou: “vi e tenho testificado que ele é o Filho de Deus” (Jo 1.34). Para Natanael ali estava uma pessoa que não podia ser descrita apenas em termos humanos. “Filho de Deus” é um hebraísmo que se refere a um ser da mesma natureza de Deus, assim como “filho de Belial” refere-se a um ser com a mesma natureza de Satanás.

João e Tiago eram chamados de filhos do trovão (Mc 3.17) porque possuíam a mesma natureza do trovão — eram pessoas estrondosas, de temperamento forte e impetuosas. Portanto, isso também é um hebraísmo. O que Natanael está dizendo é: “O Senhor tem a mesma natureza de Deus”. Em João 3.16-18 repete a ideia de que Jesus é o Filho de Deus. E assim por diante em todo o evangelho de João. Ou seja, Jesus possui a mesma natureza de Deus. Enfim, a declaração deles era essa:

Rabi, Tu és o Filho de Deus. Tu és divindade, e Tu és o Rei de Israel. Tu és o Messias, o Ungido, aquele que veio para reinar. Encontramos o Messias, aquele que foi prometido em Moisés e nos Profetas, que é o Filho de Deus, que é o Rei que foi prometido.

Os testemunhos se acumulam. André, Pedro, Filipe, Natanael — relatos em primeira pessoa, de testemunhas oculares; podemos incluir João aí, mesmo que ele não se refira a si mesmo. Eles disseram: “Tu és o Filho de Deus”. Mais tarde, na estrada de Cesareia, Pedro declarou a Jesus: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16.16). Na primeira multiplicação de pães, o mesmo Pedro disse a Jesus: Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna; e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus” (Jo 6.68).

João 1
50 Ao que Jesus lhe respondeu: Porque te disse que te vi debaixo da figueira, crês? Pois maiores coisas do que estas verás.
51 E acrescentou: Em verdade, em verdade vos digo que vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem.

Jesus respondeu a Natanael: “Porque eu te disse que te vi debaixo da figueira, crês”. Jesus está afirmando que a razão pela qual Natanael creu é porque ele lhe demonstrou sua onisciência. Isso é bom, mas pode ser frágil. Então Jesus lhe diz: “você verá coisas maiores do que estas!”. Natanael era um verdadeiro crente do Antigo Testamento, creu em Jesus porque pôde contemplar sua onisciência, mas iria ver coisas muito maiores.

Jesus disse que Natanael viria o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem. Isso possivelmente se refere a Gênesis 28.10-12, onde Jacó sonhou com uma escada para o céu, e os anjos de Deus subiam e desciam por ela. E sobre o que foi esse sonho? Deus estava dizendo a Jacó:

Eu vou te acolher, viajante cansado, peregrino exausto, eu vou cuidar de você, eu vou cumprir as minhas promessas para você, seu povo e sua família. Eu vou cumprir a promessa abraâmica. Eu vou desenvolver a sua nação. Eu vou abençoar a sua nação. Eu vou trazer a salvação para a sua nação. Eu vou abrir os céus e garantir que os anjos subam e desçam para proteger você, cuidar de você e do seu povo até que essa aliança seja cumprida.

E Jesus retoma essa ideia aqui , querendo dizer: “Vocês verão os céus abertos e os anjos subindo e descendo sobre o Filho do Homem. Vocês verão o poder do céu liberado no meu ministério”.

A expressão “Filho do Homem” substituiu a escadaria no sonho de Jacó, significando que Jesus era o meio de acesso entre Deus e o homem. “Filho do Homem” se refere à humanidade de Jesus, foi sua autodesignação favorita nos evangelhos. É comumente associada não apenas com os temas da crucificação e sofrimento (Jo 3.14; 8.28), e revelação (Jo 6.27,53), mas também com sua autoridade escatológica (Jo 5.27). Daniel 7.13-14, referindo-se a Jesus, diz que o Filho do Homem virá em glória para receber o reino do Pai.

E assim Jesus viveu sua vida pelo poder do Espírito Santo e mediada por anjos. Foram anjos que anunciaram a Zacarias que o precursor do Messias nasceria (Lc 1.8-23). Foi um anjo que falou com Maria (Lc 1.26-38). Foi um anjo que falou com José (Mt 1.20-21). Foi um coro de anjos que anunciou o nascimento de Cristo aos pastores em Belém (Lc 2.8-20). Foram anjos que vieram e ministraram a Jesus no final de sua tentação (Mt 4.10-11).

Foram anjos que estavam no túmulo e disseram às mulheres: “não temais; porque sei que buscais Jesus, que foi crucificado. Ele não está aqui; ressuscitou, como tinha dito. Vinde ver onde ele jazia” (Mt 28.5-6). Anjos o cercaram em sua ascensão e disseram aos discípulos: “Varões galileus, por que estais olhando para as alturas? Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu virá do modo como o vistes subir” (At 1.11).

Na sua prisão, Jesus disse a Pedro: “pensas que não posso rogar a meu Pai, e ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos?” (Mt 26.53). Jesus fez o que fez pela vontade do Pai, pelo poder do Espírito, por meio dos anjos.

Então Ele diz: “Natanael, fico feliz que você creia por causa da minha onisciência. Mas você verá coisas maiores. Você verá o céu se abrir e coisas sobrenaturais e divinas acontecerem.” E isso começa no capítulo 2 do evangelho de João e vai até o fim do ministério de Jesus.

Conclusão

Temos aqui um microcosmo de como a salvação funciona.

1) Deve haver uma alma que busca. Jesus perguntou a André e João: “O que vocês procuram?” (Jo 1.38). André diz a Pedro: “Achamos o Messias” (Jo 1.41), indicando que Pedro também procurava. Filipe diz a Natanael: “Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei, e a quem se referiram os profetas: Jesus, o Nazareno, filho de José” (Jo 1.45), indicando que ambos procuravam. O Senhor disse: “se me buscarem de todo o coração, me encontrarão” (Jr 29.13). São almas movidas por um sentimento de pecado, por um coração arrependido e pela fé nas Escrituras, a alma que busca vem.

2) Mas a salvação também requer um Salvador que busque, e isso é ilustrado aqui. É Jesus quem inicia tudo. “O que vocês procuram? […] venham e verão.” (Jo 1.38-39). Ele encontrou Filipe e disse: “Siga-me” (Jo 1.43). A Natanael ele disse: “Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo!” (Jo 1.47).

Não há possibilidade de o pecador buscar ao Senhor a menos que o Salvador o busque. Jesus disse aos discípulos: “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós” (Jo 15.16). Ele disse a uma multidão: Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora […] ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o touxer” (Jo 6.37,44);

3) Mas há outro elemento também. A salvação requer uma alma que busca e um Salvador que busca, mas também um santo que busca  e leva a mensagem adiante. Onde isso se encaixa? “A fé vem pelo ouvir, e ouvir a palavra de Cristo […] como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não houver quem pregue?” (Rm 10.7,14).

No primeiro capítulo de João vemos João Batista dizendo: “Eis o Cordeiro de Deus! Siga-o”; vemos André dizendo a Pedro: “Achamos o Messias!”; vemos Filipe dizendo a Natanael: “Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei, e a quem se referiram os profetas: Jesus, o Nazareno, filho de José”.

Logo no início, quando o Espírito Santo inspira João a apresentar o testemunho da identidade do Senhor Jesus Cristo, vemos os elementos da salvação. Ela exige um pecador que busca a Deus, um Salvador que o busca e um santo que a busca e que leve a mensagem adiante. Vamos orar.

Pai, somos tomados pela riqueza das Sagradas Escrituras. Estamos maravilhados. É tão obviamente sobrenatural e divino, e ao mesmo tempo tão acessível, crível e precioso para nós. Obrigado por esta revelação da identidade do nosso Senhor Jesus. Reunimo-nos porque podemos fazer essa confissão. Encontramos o Messias, aquele de quem o Antigo Testamento fala, aquele que é o Filho de Deus, o Rei de Israel. Encontramos o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

Tudo o que Ele é – o Cordeiro, o Messias, o cumprimento das profecias do Antigo Testamento, o Filho de Deus, o Rei de Israel, o Rei dos reis – está presente nos testemunhos de homens humildes que não tinham outra motivação religiosa além do amor de seus corações pelo verdadeiro Deus e pelas Escrituras, e do desejo de serem crentes obedientes e arrependidos.

E foi a eles que o Senhor revelou a verdade, e é o testemunho deles que prezamos. Obrigado por isso. Obrigado por tornar isso um testemunho vivo que tem o poder de reavivar nossos corações da morte para a vida. Que isso aconteça, oramos, em alguns corações ainda hoje.

Agora, Pai, partimos deste lugar com uma nova responsabilidade, um novo nível de prestação de contas, porque o Senhor nos deu esta gloriosa verdade, não como um fim em si mesma, mas como um meio para proclamá-la aos outros. Que sejamos como André, que encontrou Pedro, e Filipe, que encontrou Natanael. Que passemos nossas vidas encontrando outras pessoas e proclamando a verdade de Cristo. Use-nos dessa maneira, e nós o agradeceremos e o louvaremos em nome do Seu Filho. Amém.


Esta é uma série de sermões traduzidos de John MacArthur sobre o Evangelho de João.
Clique aqui e acesse o índice ordenado por capítulo, com links para leitura. 


Este texto é uma síntese do sermão “The Disciples’ Testimony Concerning Jesus ”, por John MacArthur, em 2/12/2012.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/sermons/43-7/the-disciples-testimony-concerning-jesus

Tradução e síntese feitas pelo Site Rei Eterno


 

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