Desconstrução da Fé Cristã (2)
A “desconstrução da fé” não é um fenômeno novo, mas uma manifestação contemporânea da apostasia: assim como muitos discípulos abandonaram Jesus em João 6 por rejeitarem seus ensinamentos, aqueles que possuem apenas uma ligação superficial com o cristianismo tendem a afastar-se quando a Palavra de Deus confronta seus desejos e exige obediência; em contraste, o verdadeiro discípulo reconhece Cristo como o Filho de Deus, permanece em sua Palavra e demonstra uma fé genuína por meio de uma obediência sincera, contínua e motivada pelo amor.
Vamos voltar a João 6.60–71 e dar continuidade à mensagem que intitulei “A desconstrução cristã”. Durante muitas gerações da Igreja, ninguém teria entendido o significado dessa expressão. No cenário contemporâneo, porém, o termo tornou-se muito popular para descrever pessoas que antes professavam a fé cristã, mas que se afastaram dela. Elas dizem estar “desconstruindo” sua fé. Essa prática tem encontrado espaço principalmente nas redes sociais, onde essas pessoas compartilham testemunhos sobre como se libertaram da opressão que, segundo elas, o cristianismo representava. Essa é a situação típica.
A maioria daqueles que abandonam a fé o faz porque não está disposta a renunciar à iniquidade, à transgressão e ao pecado, nem a obedecer ao Senhor. A questão pode ser resumida da seguinte maneira: os verdadeiros cristãos obedecem; os falsos cristãos ressentem-se das exigências dessa obediência. Portanto, a fim de compreendermos esse fenômeno e ajudá-los a enxergar o que realmente está acontecendo, João 6 é uma excelente passagem para explicar, pois estamos diante de algo generalizado.
Como mencionei no último sermão, existem muitas formas falsas de cristianismo, igrejas que pregam um evangelho falsificado e produzem exércitos de falsos discípulos. Há tanto joio semeado no meio do trigo que não devemos nos surpreender com tamanha desconstrução. Pessoas que nunca foram cristãs genuínas acabam abandonando a profissão de fé que fizeram para se apegarem às próprias transgressões.
Depois de alimentar uma multidão (Jo 6.1–15), curar seus enfermos (Mt 14.14) e ensinar a verdade (Jo 6.22-59), Jesus deparou-se com um resultado trágico: “muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele” (Jo 6.66). Eram desertores. Jesus estava no auge de seu ministério na Galileia, realizando milagres e curando pessoas de todos os tipos de enfermidades, além de libertá-las de possessões demoníacas. Ele proclamou sua divindade, apresentando-se como o Filho de Deus, e confirmou a veracidade dessa afirmação por meio de seu poder miraculoso.
A deserção não é uma ideia nova
Em vez de fé, a resposta da multidão foi uma deserção em massa. Esse foi o mesmo padrão observado em Israel quando a nação estava prestes a entrar na Terra Prometida. Aquela geração havia testemunhado, com os próprios olhos, os grandes feitos do Senhor. Naquele momento, porém, o Senhor lhes disse:
Ouve, pois, ó Israel, e atenta em os cumprires, para que bem te suceda, e muito te multipliques na terra que mana leite e mel, como te disse o Senhor, Deus de teus pais. Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te. Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas (Dt 6.3-9).
Ao longo do livro de Deuteronômio vemos diversas exortações para que Israel mantivesse sua fidelidade ao Senhor. Por exemplo, o Senhor disse:
Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força […] Cuidareis de cumprir todos os mandamentos que hoje vos ordeno, para que vivais, e vos multipliqueis, e entreis, e possuais a terra que o Senhor prometeu sob juramento a vossos pais. Recordar-te-ás de todo o caminho pelo qual o Senhor, teu Deus, te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, para te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias ou não os seus mandamentos. Ele te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conhecias, nem teus pais o conheciam, para te dar a entender que não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do Senhor viverá o homem (Dt 6.5; 8.1-3).
O relacionamento do ser humano com Deus — seja no caso do antigo Israel, seja no caso daqueles que hoje professam a fé — sempre implicou responsabilidade diante de Deus, expressa em obediência. Não se trata meramente de uma relação sentimental, mas de uma relação marcada pela obediência e pelo reconhecimento de Deus como Senhor.
Então, o que aconteceu? Os israelitas entraram na Terra Prometida, mas a nação permaneceu obediente? Não. Amaram o Senhor, seu Deus, de todo o coração, de toda a alma e com toda a força (Dt 6.5)? Não. Guardaram os seus mandamentos? Não. Assim, grande parte da história do Antigo Testamento retrata a resposta de Deus a essa desobediência. Observe o que escreveu Jeremias:
Houve alguma nação que trocasse os seus deuses, posto que não eram deuses? Todavia, o meu povo trocou a sua Glória por aquilo que é de nenhum proveito. […] Porque dois males cometeu o meu povo: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas (Jr 2.11,13).
O Senhor já os havia advertido: “Se vocês se esquecerem do Senhor, seu Deus, e seguirem outros deuses, os servirem e os adorarem, eu lhes asseguro hoje que vocês certamente serão destruídos” (Dt 8.19). Foi exatamente isso que Israel fez. Por essa razão, Deus declarou: “Todavia, o meu povo se esqueceu de mim […] eis que entrarei em juízo contigo” (Jr 2.32,35).
Israel caiu em apostasia e rebeldia. É essencialmente isso que vemos ao longo da história do Antigo Testamento. Portanto, a ideia de abandonar a fé não é nova, e o Novo Testamento também aborda esse tema. No fim de seu ministério, já próximo do martírio, Paulo escreveu: “Todos os da Ásia me abandonaram; dentre eles cito Fígelo e Hermógenes” (2Tm 1.15). Os desertores fizeram parte da vida e do ministério do apóstolo Paulo.
O duro juízo sobre os desertores
Em 2 Pedro 2, encontramos uma descrição mais detalhada da apostasia. No versículo 20, lemos: “Pois, se eles escaparam das corrupções do mundo pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo […]”. O que isso significa? Eles “escaparam das corrupções do mundo” no sentido de terem estabelecido algum tipo de vínculo com o cristianismo. Como consequência, a influência da corrupção moral sobre sua vida diminuiu, em comparação com a maneira como viviam anteriormente. São pessoas que se aproximaram da igreja e do povo de Deus e que, “pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo”, passaram a compreender algo do evangelho e foram influenciadas por ele.
Contudo, se “eles se deixarem enredar novamente” pelas impurezas do mundo “e forem vencidos, o último estado se torna pior para eles do que o primeiro” (2Pe 2.20). Pedro é ainda mais específico: “Seria melhor para eles não terem conhecido o caminho da justiça do que, tendo-o conhecido, desviarem-se do santo mandamento que lhes foi transmitido” (2Pe 2.21). Observe, mais uma vez, que o próprio evangelho é chamado de “santo mandamento”, pois ele inclui as palavras reveladas por Deus a respeito da resposta de obediência que requer de nós.
Pedro ilustra essa realidade de duas maneiras: é como “um cão que volta ao seu próprio vômito” ou como “uma porca que, depois de lavada, volta a chafurdar na lama” (2Pe 2.22; cf. Pv 26.11). Há pessoas que, de maneira superficial e exterior, por sua associação com os cristãos e com a religião, escapam, até certo ponto, da contaminação moral. Isso, contudo, não permanece. Elas voltam a ser envolvidas pelas mesmas corrupções e são vencidas por elas. Assim, seu estado final torna-se pior do que o primeiro (2Pe 2.20).
Teria sido melhor que nunca tivessem conhecido o caminho da justiça (2Pe 2.21). Por quê? Porque a punição é maior para quem conheceu a verdade e a rejeitou do que para quem não a conheceu (Lc 12.47–48). É isso que o autor da Epístola aos Hebreus ensina ao falar do castigo muito mais severo reservado àqueles que conheceram o evangelho e o rejeitaram (Hb 10.26-29). Podemos sentir tristeza por aqueles que nunca ouviram o evangelho e perecem sem o conhecimento de Cristo, mas precisamos compreender que um castigo eterno ainda mais severo aguarda aqueles que estiveram próximos do evangelho, foram expostos à sua verdade e, posteriormente, afastaram-se dela.
Portanto, é necessário advertir aqueles que hoje se mostram fascinados pela chamada desconstrução da fé cristã: teria sido melhor que nunca tivessem ouvido o evangelho, pois seu castigo eterno será muito mais severo. Afinal, “se continuarmos a pecar deliberadamente, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados. Pelo contrário, resta apenas uma terrível expectativa de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários” (Hb 10.26-27). Como também declara a Escritura: “Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hb 10.31). Isso não é algo com que se deva brincar, ainda que esteja na moda e seja popular.
O movimento desertor atual
A atual tendência de abandono da fé cristã — chamada de desconstrução, rebelião, traição, apostasia ou qualquer outro nome que se queira dar — é tratada com tanta leviandade que algumas pessoas se autodenominam “ex-evangélicas”, usam a hashtag “#ex-evangélico” e ostentam essa condição como um distintivo de libertação. Apresentam-se como integrantes de um novo grupo de pessoas que teriam se libertado da opressão.
Muitos dos que falam sobre essa desconstrução da fé cristã — e são centenas de milhares — descrevem a sensação de liberdade que experimentaram ao se afastarem da Palavra de Deus e do cristianismo. Na internet, há inúmeros testemunhos, supostos “espaços seguros”, programas de terapia e todo tipo de aconselhamento e abordagem motivacional destinados a ajudar outras pessoas a desconstruírem sua fé e a se libertarem daquilo que consideram ser a opressão de Cristo e do evangelho.
Como justificativa, apontam para o que chamam de: “igrejas tóxicas”, “patriarcado opressor” e para o que consideram ser “a estreiteza da moral bíblica”. Falam de misoginia, racismo, supremacia branca e homofobia — enfim, recorrem a todo o repertório do ideário woke para apresentar razões pelas quais alguém deveria abandonar o cristianismo.
Contudo, como já afirmei, isso nunca resulta de um estudo cuidadoso das Escrituras. Não acontece porque essas pessoas examinaram a Palavra de Deus e descobriram que o evangelho não resistiu ao seu escrutínio. Não. Acontece porque amam o pecado e não estão dispostas a abandoná-lo.
Afinal, o cristianismo não se resume a uma afirmação a respeito de Jesus; ele também implica obediência aos seus mandamentos. A Grande Comissão inclui esta ordem: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações […] ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado” (Mt 28.19-20). O cristianismo envolve uma relação de aliança com Deus, marcada pela obediência — uma obediência que alcança todas as áreas da vida.
O ensino bíblico acerca da moralidade, do papel do homem e da mulher, bem como de tantas outras questões, é ofensivo à cultura contemporânea e à mente não regenerada. Por essa razão, aqueles que nunca foram verdadeiramente convertidos são mais propensos a abandonar a fé que professavam e, assim, revelar sua apostasia.
E haverá muitos nessa condição, pois existem igrejas que pregam um evangelho incompleto ou distorcido e estão cheias de pessoas que, embora não sejam verdadeiramente cristãs, acreditam que são. Em algum momento, muitas delas abandonarão a fé que afirmavam possuir, porque jamais encontraram verdadeira satisfação na forma de cristianismo que lhes foi apresentada — uma religiosidade meramente exterior, incapaz de transformar o coração.
Em 2014, Leelah Alcorn, uma adolescente transgênero submetida pela família à terapia de conversão religiosa, morreu por suicídio em Ohio após publicar no Tumblr: “Não há como vencer. Não há saída.” Sua morte levou a autora do relato a concluir que jovens LGBTQ+ eram colocados em perigo por cristãos, ativa ou passivamente. Ao investigar o assunto, ela reconheceu sua atração por mulheres e, depois de desconstruir a homofobia que havia aprendido, passou a acreditar que sua sexualidade não a afastava do amor de Deus.
A autora então buscou perspectivas como a teologia da libertação e a teologia feminista negra, adotando uma compreensão mais ampla de Deus, de si mesma e do cristianismo. Trata-se de uma rebelião contra a fé, essas pessoas não abandonam o cristianismo por problemas com a Bíblia, mas porque não desejam renunciar a comportamentos que ela considera pecaminosos, destacando a homossexualidade como um fator importante nesse processo de desconstrução religiosa.
Uma multidão de falsos discípulos se ofende com o ensino de Jesus e o abandona
Então, é isso que enfrentamos. Como devemos entender isso? Um episódio em João 6 nos dá uma pista sobre essa questão.
João 6
60 Muitos dos seus discípulos, tendo ouvido tais palavras, disseram: “Dura é essa palavra. Quem pode suportá-la?” (Jo 6.60).
Jesus acabara de curar todos os enfermos de uma multidão e, de forma igualmente milagrosa, alimentou cerca de 25.000 pessoas (Jo 6.1-15; Mt 14.14). E, em meio a tudo isso, ele ensinou sobre si mesmo como o Pão da Vida (Jo 6.48). Ele disse: “a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.40). Mas a reação da multidão, ao ouvir o ensino de Jesus, foi: “Dura é essa palavra. Quem pode suportá-la?”.
João 6
61 Mas Jesus, sabendo por si mesmo que os seus discípulos murmuravam a respeito do que ele havia falado, disse-lhes: — Isto escandaliza vocês?
62 Que acontecerá, então, se virem o Filho do Homem subir para o lugar onde primeiro estava?
63 O Espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita. As palavras que eu lhes tenho falado são espírito e são vida.
64 Mas há descrentes entre vocês. Ora, Jesus sabia, desde o princípio, quais eram os que não criam e quem iria traí-lo.
65 E prosseguiu: — Por causa disto é que falei para vocês que ninguém poderá vir a mim, se não lhe for concedido pelo Pai.
66 Diante disso, muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele.
Ao escrever: “muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele”, o apóstolo João usou uma construção grega que significa um caráter definitivo desse abandono.
João 6
67 Então Jesus perguntou aos doze: — Será que vocês também querem se retirar?
68 Simão Pedro respondeu: — Senhor, para quem iremos? O senhor tem as palavras da vida eterna,
69 e nós temos crido e conhecido que o senhor é o Santo de Deus.
70 Então Jesus lhes disse: — Não é fato que eu escolhi vocês, os doze? Mas um de vocês é um diabo.
71 Ele se referia a Judas, filho de Simão Iscariotes, porque este, sendo um dos doze, era quem o haveria de trair.
Este é um momento chocante e dramático do ministério de Jesus na Galileia. Depois de ouvirem seu ensinamento, muitos discípulos disseram: “Isso é difícil demais de aceitar. Não podemos acreditar nisso” — ou, conforme o próprio texto: “É uma palavra dura; quem pode suportá-la?” (João 6,60). Pouco depois, “muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele” (João 6.66). Não foi um afastamento momentâneo, mas uma deserção definitiva.
Para entender o que aconteceu, precisamos voltar ao início de João 6, quando Jesus alimentou a multidão. Muitos desses discípulos foram atraídos pelo grande número de pessoas reunidas. É assim que os falsos discípulos frequentemente se aproximam do cristianismo: são atraídos pela multidão, pela megaigreja, pelo espetáculo, seja lá o que for. Depois, ficam fascinados pela perspectiva do sobrenatural. Naquele tempo, viram Jesus curar, expulsar demônios e alimentar milhares com comida criada por Ele (João 6:1–14). Hoje, esse mesmo fascínio pode ser produzido artificialmente por luzes, sons e música.
Entretanto, eles não buscavam Cristo, mas benefícios mundanos. Queriam mais alimento e pretendiam fazer de Jesus seu rei, para que ele continuasse suprindo suas necessidades (João 6.15, 26). Em uma época na qual era preciso trabalhar arduamente para conseguir comida, imagine ter alguém capaz de criá-la. O mesmo acontece com os falsos discípulos atuais: atraídos pela multidão e fascinados pelo sobrenatural, esperam que Jesus satisfaça seus desejos carnais.
Por isso, exigem que seus pedidos sejam atendidos. Querem prosperidade, satisfação, paz de espírito e tranquilidade, como se esse fosse o propósito central do evangelho. Quando não recebem o que esperavam, ficam desiludidos e desertam. Não possuem interesse verdadeiro na pessoa de Cristo nem em seu sacrifício expiatório; desejam apenas aquilo que imaginam poder obter dele.
Jesus, porém, começou a falar de sua morte: “Vocês precisam comer a minha carne e beber o meu sangue” (João 6.53–56). Em outras palavras, precisavam recebê-lo como aquele que veio do Pai e desceu do céu (João 6:38), entendendo que ele daria sua carne “pela vida do mundo” (João 6.51). Mas eles não estavam interessados em Jesus como o Filho de Deus, em sua origem celestial ou em sua morte como sacrifício pelos pecadores. Rejeitaram sua pessoa e sua expiação.
É nesse contexto que disseram: “É uma palavra dura; quem pode suportá-la?” (João 6.60). “Palavra” também pode ser traduzida como “ensinamento”. O termo grego, traduzido como “dura”, transmite a ideia de algo endurecido, áspero, rígido, desagradável, ofensivo, inaceitável ou repulsivo. Eles não estavam dizendo que o ensino era difícil de compreender, mas que era impossível de aceitar. Não admitiam que Jesus tivesse vindo do céu, fosse o pão da vida, pudesse conceder vida eterna e morrer como substituto dos pecadores.
Essa resistência já aparecera anteriormente: “Os judeus murmuravam contra ele, porque dissera: ‘Eu sou o pão que desceu do céu’. E diziam: ‘Não é este Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe nós conhecemos? Como pode ele dizer agora: “Desci do céu”?’ Jesus respondeu: ‘Não murmurem entre vocês’” (João 6.41–43). Eles estavam fascinados pelos atos sobrenaturais de Jesus, mas rejeitavam suas palavras — justamente as palavras que revelavam quem ele era e por que havia vindo. Era a mensagem de Cristo que não conseguiam tolerar.
As pessoas recebem de braços abertos alguém que lhes demonstra compaixão, bondade, misericórdia, cura e restauração. Mas isso é superficial. A verdadeira questão é: você aceitará as palavras dele? Aceitará o que ele declarou sobre si mesmo e sobre seu ministério? Em João 8.30–31, lemos: “Enquanto ele falava estas coisas, muitos creram nele. Disse, pois, Jesus aos judeus que nele haviam crido: ‘Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos’”. O verdadeiro discípulo permanece na Palavra, ama a Palavra e lhe obedece. Não possui apenas um apego sentimental a um Jesus imaginário, que nada tem a ver com o Jesus real.
Em João 5.24, Jesus disse: “Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna”. É simples: quem ouve sua Palavra, crê nela e naquele que o enviou tem a vida eterna; não será condenado, mas passou da morte para a vida. Por isso, Romanos 10.17 afirma que “a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo”. A fé verdadeira nasce de ouvir e crer na verdade.
Eles, porém, se ofenderam. “Jesus, sabendo por si mesmo que os seus discípulos murmuravam a respeito do que ele havia falado, disse-lhes: — Isto escandaliza vocês?” (João 6.61). Embora fossem chamados discípulos por pertencerem externamente ao grupo, eram falsos discípulos e rejeitavam suas palavras. Como está escrito: “O mundo […] me odeia porque eu testifico dele que as suas obras são más” (João 7.7). Eles aceitavam os milagres e o alimento gratuito, mas não suportavam as palavras de Jesus: eram duras demais, ofensivas e inaceitáveis.
Então o Senhor lhes faz um apelo: “Que acontecerá, então, se virem o Filho do Homem subir para o lugar onde primeiro estava?” (João 6.62). Por que não permanecer até sua ascensão e vê-lo voltar ao céu, comprovando que de lá viera? Mas os falsos discípulos não pretendiam ficar, pois não tinham verdadeiro interesse em Jesus nem em seu sacrifício. Ele prossegue: “O Espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita. As palavras que eu lhes tenho falado são espírito e são vida” (João 6:63). As pessoas que abandonam o cristianismo não o fazem porque a Bíblia seja incapaz de demonstrar a validade da fé cristã, mas porque não aceitam as palavras que ela transmite.
Vi ontem que outra diretoria escolar removeu todas as Bíblias da biblioteca de uma escola pública. Eles odeiam a Bíblia, odeiam as palavras de Cristo. Você pode aceitar um Jesus sentimental, desde que não permita que ele diga o que está nas Escrituras. Entretanto, são justamente suas palavras que dão vida. Jesus afirmou: “Se alguém guardar a minha palavra, jamais verá a morte” (João 8.51) e: “Se vocês permanecerem na minha palavra, então serão verdadeiramente meus discípulos” (João 8.31). A questão é o que fazemos com as Escrituras. “Se vocês me amam, obedecerão aos meus mandamentos” (João 14.15; cf. Jo 15.10). Tudo se concentra em ouvir, crer e obedecer às palavras.
“Mas há alguns de vocês que não creem.” Pois “Jesus sabia, desde o princípio, quais eram os que não criam e quem o havia de trair” (João 6.64). Claro que ele sabia: Jesus conhecia o coração humano e não precisava que alguém lhe desse testemunho a respeito do homem (João 2.24–25). Ele conhecia Judas e sabia que aqueles falsos discípulos nunca haviam crido verdadeiramente.
Foi essa incredulidade que os fez abandonar Jesus: “Por causa disso, muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele” (João 6.66). Como diz 1 João 2.19: “Eles saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; mas eles saíram para que ficasse manifesto que nenhum deles era dos nossos”. Eles não perderam a salvação, na verdade eles nunca a possuíram. Afastaram-se não por falta de milagres ou de ensinamentos profundos, mas porque não queriam obedecer aos mandamentos de Cristo.
Eles não desejavam reconhecer a origem celestial de Jesus, pois isso os obrigaria a aceitar suas palavras e obedecer-lhe. Não se pode afirmar que Jesus é o Filho de Deus e, ao mesmo tempo, negar a verdade daquilo que Ele disse. Se ele é o Filho de Deus, então suas palavras vêm do céu. É preciso aceitar tanto quem Ele é quanto aquilo que Ele diz.
A deserção dos falsos discípulos foi causada pelas palavras de Cristo, que eles consideraram uma ofensa. A Bíblia é cristalina sobre o que Deus ama e odeia, o que tolera e o que não tolera. Se você rejeita essas palavras porque está apegado às suas transgressões, até mesmo seu interesse sentimental por Jesus acabará desaparecendo. Essa é a marca do falso discípulo.
O texto, porém, contrapõe essa deserção à afeição dos verdadeiros discípulos. Jesus perguntou aos doze: “Não quereis vós também retirar-vos?” (João 6.67). Simão Pedro respondeu: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna” (João 6.68). Eles não permaneciam porque Jesus podia criar alimento, mas porque desejavam suas palavras. Como o próprio Cristo havia dito: “O Espírito é quem vivifica; a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida” (João 6.63).
Pedro acrescentou: “Nós cremos e sabemos que tu és o Santo de Deus” (Jo 6.69), título frequentemente empregado por Isaías para se referir a Deus. Até os demônios reconheceram isso: “Eu sei quem tu és: o Santo de Deus!” (Mc 1.24). Pedro compreendeu que Jesus viera do céu e que suas palavras concediam vida eterna. O falso discípulo rejeita essas palavras; o verdadeiro discípulo as ama, porque reconhece nelas a vida.
Entretanto, Jesus respondeu: “Não escolhi eu mesmo vocês, os doze? Contudo, um de vocês é um diabo.” Ele se referia a Judas, filho de Simão Iscariotes, pois este, embora fosse um dos doze, o trairia (Jo 6.70-71). Judas é o arquétipo do falso discípulo: não acreditava nas palavras de Jesus nem desejava obedecer aos seus mandamentos. Era materialista e começou a furtar o dinheiro comum (João 12.4-6), escondendo sua hipocrisia tão bem que os demais discípulos não a perceberam até que ele foi desmascarado no cenáculo.
Jesus encerra a narrativa mostrando que falsos discípulos podem aparecer até nos níveis mais elevados: entre os doze, no pastorado de uma igreja ou na liderança de uma instituição cristã. Contudo, Ele sabe quem são. Diante da tristeza da apostasia, afirma: “Por isso eu lhes disse que ninguém pode vir a mim, se pelo Pai não lhe for concedido” (João 6.65). A salvação é obra de Deus.
Essa verdade já havia sido declarada duas vezes: “Todo aquele que o Pai me dá virá a mim” (João 6.37) e “ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o atrair” (João 6.44). A questão fundamental é: você crê? Alguns rejeitam as palavras do evangelho, da santificação e da verdade; para outros, a Palavra é vida. No fim, tudo repousa na vontade soberana do Pai, para que Cristo realize a redenção e edifique sua Igreja, conforme prometeu: “Edificarei a minha igreja” (Mt 16.18). Esse é o plano divino, e assim será. Vamos orar.
Pai nosso, somos gratos, mais uma vez, pela Palavra que dá vida. E nós experimentamos essa vida. Sabemos que ela é profundamente transformadora, de modo que nos tornamos novas criaturas em Cristo quando recebemos a vida eterna.
Senhor, oro para que Tu toques o coração de todos os que estão aqui e que percorreram parte do caminho, mas ainda não chegaram a Cristo. Que não endureçam o coração, como fizeram aqueles no Antigo Testamento, mas que cheguem a Cristo. Que Tu os atraias, ó Pai, para a Tua glória.
Ajuda-nos a compreender que a marca do discipulado é a obediência — não uma obediência motivada pelo medo, mas pelo amor. É uma obediência que valorizamos, da qual desfrutamos e que amamos. Com Davi, dizemos: “Como amo a tua lei!”Nós Te amamos, e esse amor nos impele à obediência. Amamos a Tua lei, que é uma manifestação justa da Tua natureza, a qual também amamos. Que todos nós examinemos o coração para verificar se estamos na fé — e saberemos que estamos se Te amarmos. Foi isso que Tu perguntaste a Pedro três vezes: “Você me ama?”. E, se Te amamos, manifestamos esse amor por meio da obediência — não uma obediência perfeita, mas sincera, contínua e fiel, sob o poder do Teu Espírito.
Somos gratos pelo chamado celestial que o Pai estendeu a nós, os que cremos. Que sejamos fiéis em seguir e proclamar o glorioso evangelho, o único que pode salvar. E, Senhor, peço que, nesta cultura e nesta geração, Tu faças com que a Tua Palavra seja conhecida e ouvida. Não permitas que esta sociedade silencie a Tua Palavra. Que ela ressoe poderosamente contra as mensagens satânicas que procuram abafar tudo e que a Tua verdade prevaleça. Oramos em nome de Cristo. Amém.
Leia também: Desconstrução da Fé Cristã (1)
Esta é uma série de sermões traduzidos de John MacArthur sobre todo o Evangelho de João.
Clique aqui e acesse o índice ordenado por capítulo, com links para leitura.
Este texto é uma pequena síntese do sermão “Christian Deconstruction, Part 2”, proferido por John MacArthur, em 5/6/2023.
Você pode ouvi-la integralmente (em inglês) no link abaixo:
https://www.gty.org/sermons/81-144/christian-deconstruction-part-2
Tradução e síntese feitas pelo Site Rei Eterno





















