A Divina Glória de Cristo

Em João 5.30-47, Jesus demonstra sua divindade. Em perfeita unidade com o Pai, ele não age independentemente, mas cumpre sua vontade e exerce sua autoridade. O Pai confirma a identidade do Filho por três testemunhos convergentes: João Batista, que apontou Jesus como o Cordeiro de Deus; os milagres realizados por Cristo, que manifestavam o poder divino; e, sobretudo, as Escrituras, cujo enredo — da Lei e dos sacrifícios aos profetas — anuncia sua obra redentora. Portanto, a incredulidade dos líderes judeus não decorria da falta de evidências, mas da recusa em aceitar aquilo que Deus havia revelado.

Embora examinassem as Escrituras e ostentassem grande religiosidade, esses líderes não reconheciam que toda a revelação bíblica conduzia a Cristo, a única fonte de vida eterna. Jesus identifica três causas profundas dessa rejeição: eles buscavam a própria glória em vez de honrar o Filho, não possuíam verdadeiro amor por Deus e não criam realmente nas Escrituras. A conversão é a transformação, operada por Deus, de um coração resistente em um coração disposto a glorificar Cristo, amar a Deus e confiar em sua Palavra.

Prosseguindo no evangelho de João, vamos começar a olhar agora os testemunhos da divindade de Jesus, contido no capítulo 5, versículos de 30 a 47. Como temos visto em sermões anteriores, a seção de João 5.17-47 registra um longo discurso de Jesus, no qual ele declara sua divindade. Tudo isso está alinhado com o objetivo que João tinha em mente quando escreveu seu evangelho: “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.31).

Ao longo de seu evangelho, João coleciona diversas declarações de Jesus acerca de sua divindade, bem como a crescente hostilidade que ele enfrentou dos líderes religiosos por causa dessas declarações. Eles queriam matá-lo porque Jesus dizia ser o Deus eterno encarnado (Jo 5.18; 7.25-26; 8.58-59; 10.30-33; 11.42-57; 19.7). Essa hostilidade constitui um diagnóstico geral da raça humana e da condição humana. Jesus é o Filho de Deus e a única esperança de salvação, a rejeição dos pecadores a essa verdade exibe as trevas que pairam neste mundo.

A vida se encontra em Jesus Cristo e somente nele. Ele é o caminho, a verdade e a vida (Jo 14.6). Quem crê nele não perecerá, mas terá a vida eterna (Jo 3.36). Essa é a mensagem do evangelho repetida inúmeras vezes. Mas a resposta humana está contida nessas palavras de Jesus: “vocês não querem vir a mim para terem vida” (Jo 5.30). Ele estava falando da rejeição do pecador em crer na verdade incontestável do evangelho.

Jesus falou a Nicodemos sobre a necessidade do novo nascimento, algo que está fora do alcance do homem, pois é uma obra soberana do Senhor (Jo 3.1-10). O pecador é incapaz de se salvar e de contribuir para a sua salvação, mas permanece relutante em vir ao único que pode salvá-lo. Esta é a condição da humanidade caída e não regenerada.

Ele disse aos escribas e fariseus: “morrereis nos vossos pecados; porque, se não crerdes que Eu Sou, morrereis nos vossos pecados […] qual a razão por que não compreendeis a minha linguagem? É porque sois incapazes de ouvir a minha palavra. Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos” (Jo 8.24,43-44). Esse é o problema do ímpio. Ele lhes disse: “Quem é de Deus ouve as palavras de Deus; por isso, não me dais ouvidos, porque não sois de Deus” (Jo. 8.47).

Em João 12.37 diz: “e, embora tivesse realizado tantos sinais diante deles, não creram nele”. Eles acreditavam superficialmente, como vimos em João 2; reconheciam que Jesus era um profeta enviado por Deus, pois não havia como explicar seus milagres. Mas não criam nele como a Luz, nem se tornaram filhos da luz. Assim se cumpriu a palavra de Isaías: “Senhor, quem creu em nossa mensagem, e a quem foi revelado o braço do Senhor?” (Is 53.1). Eles não queriam crer e, por isso, não podiam crer.

Por que não criam? Porque desejavam fazer a vontade do diabo, não a vontade de Deus. Escolheram a incredulidade e, então, o julgamento divino caiu sobre eles: “cegou seus olhos e lhes endureceu o coração, para que não vejam com os olhos, nem compreendam com o coração, nem se convertam, e eu os cure” (Jo 12.40; Is 6.10). Essa é a condição da humanidade caída e não regenerada: está sob o poder do príncipe deste mundo, pertence ao reino das trevas e é cativa do diabo.

Mesmo diante de evidências incontestáveis de que Jesus é o Messias, o Filho de Deus e o Salvador do mundo, eles se recusaram a crer. E não eram apenas relutantes, eram hostis. Em João 5, enquanto Jesus declarava e demonstrava sua divindade, começaram a persegui-lo e procuraram matá-lo. Não se tratava de mera indiferença, mas de hostilidade agressiva. O Filho de Deus encarnado estava diante deles, falando-lhes e apresentando provas irrefutáveis, mas eles o rejeitaram e o odiaram mortalmente.

A incredulidade nunca se deve à falta de evidências. O testemunho é claro, e as Escrituras o apresentam plenamente. A Bíblia jamais responsabiliza Deus pela incredulidade humana, nem ensina que as pessoas são condenadas por falta de provisão, como se o sacrifício de Cristo fosse insuficiente. A condenação sempre recai sobre aqueles que não creem. Quando o pecador é convencido de seu pecado e exposto à verdade, resta-lhe uma única esperança: clamar a Deus em arrependimento, implorando pela fé que é dom de Deus, e pedindo que Ele conceda a disposição de crer a um coração que naturalmente se recusa.

Jesus disse: “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). A amplitude do evangelho e a responsabilidade do pecador são evidentes. Quem crê não é condenado; quem não crê já está condenado. E este é o julgamento: a Luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas porque suas obras eram más (Jo 3.19). A verdade é clara, mas os homens amam o pecado, desejam satisfazer o diabo e odeiam a Luz. Essa profunda indisposição está arraigada na mente e no coração humanos.

Ao longo do Evangelho de João vemos essa incredulidade repetidamente, mas também encontramos pontos de luz. Os primeiros discípulos reconheceram Jesus como o Messias (Jo 1.35-51); os samaritanos de Sicar o receberam como o Salvador do mundo (Jo 4.39-42); e o oficial cujo filho foi curado creu com toda a sua família (Jo 4.50-53). Cumpriu-se, assim, o que João escreveu: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus” (Jo 1.11-12). A nação, porém, rejeitou-o, seguiu seus líderes religiosos corruptos, perseguiu-o e clamou por sua morte.

Com Jesus não existe meio-termo. Ou você o recebe como Filho de Deus, Messias, Salvador e Senhor, ou o rejeita. Jesus disse: “Quem não está comigo está contra mim” (Mt 12.30; Lc 11.23). Ninguém pode permanecer neutro ou indiferente diante dele. Ou você o confessa como Senhor e Deus, ou permanece contra Ele — e Ele contra você.

Nosso bendito Salvador apresentou amplas provas de sua divindade. Em João 5, curou, junto ao tanque de Betesda, um homem paralítico havia 38 anos e ordenou-lhe que carregasse sua esteira e voltasse para casa. Os líderes judeus, porém, sentiram-se ofendidos porque isso aconteceu no sábado. Quando o confrontaram, Jesus não recuou nem tentou amenizar a hostilidade deles; declarou que agia como o Pai e afirmou sua igualdade com Deus. Eles compreenderam perfeitamente sua reivindicação e a consideraram a blasfêmia suprema. Diante da revelação do próprio Deus encarnado, escolheram rejeitá-lo e procuravam matá-lo (Jo 5.18).

Nos sermões anteriores vimos que, em João 5.17-29, Jesus se declarou igual ao Pai em natureza, obras, poder, autoridade, honra e verdade. Ele disse que possui autoridade divina tanto para dar vida quanto para julgar. No presente, ele realiza a ressurreição espiritual daqueles que, mortos em seus pecados, ouvem sua Palavra e creem nele. No futuro, ele realizará a ressurreição física de todas as pessoas, destinando os que estão nele à vida eterna e os que permaneceram sem ele à condenação eterna e à segunda morte.

O testemunho do Pai sobre a divindade de Jesus

Em João 5.30-47, Jesus chama o Pai para dar testemunho dele. Então, vamos ao padrão mais elevado possível de testemunho, vamos ao único e verdadeiro Deus. E é exatamente isso que Jesus faz. E é realmente uma passagem incrível das Escrituras.

João 5
30 Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou.
31 Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro.
32 Há outro que testifica de mim, e sei que o testemunho que ele dá de mim é verdadeiro.

Contrariamente às acusações de seus oponentes, Jesus não age de forma independente, mas sempre em total harmonia com a vontade do Pai, e que, por isso, seu julgamento é sempre justo. Portanto ao acusá-lo de qualquer coisa, os líderes judeus estavam acusando simultaneamente ao Pai também.

Quando o Senhor disse: “Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro”, ele não quer dar a entender que seu testemunho de si mesmo não é confiável, mas que, para seus oponentes, isso não era suficiente para considerá-lo divino. Então, ele ofereceu o testemunho do Pai como prova.

E o que é esse testemunho? Muitos se confundem com o restante desta passagem e começam a fragmentá-la. Devemos ler João 5.33-39 como um único parágrafo, onde ele apresenta todo o testemunho do Pai em três formas: através de João Batista; dos milagres de Jesus; e através das Escrituras. Mas tudo isso é o testemunho do Pai.

Jesus não se referiu ao testemunho do Pai no seu batismo (Mt 3.13-17) e na transfiguração (Mt 17.1-8). Em ambos o Pai declarou do céu que Jesus é seu Filho amado, mas, no caso de seu batismo, não há registro que outra pessoa tenha ouvido a declaração do Pai, a não ser João Batista. E na sua transfiguração, apenas Pedro, João e Tiago estavam com ele no monte.

Isso fica mais claro na afirmação de Jesus: “o próprio Pai, que me enviou, testemunhou a meu respeito. Vocês nunca ouviram a sua voz, nem viram a sua forma” (Jo 5.37). Portanto, Ele não está se referindo a algo que foi dito audivelmente pelo Pai.

O testemunho do Pai por meio de João Batista

João 5
33 Vocês enviaram representantes a João, e ele testemunhou da verdade.
34 Não que eu busque testemunho humano, mas menciono isso para que vocês sejam salvos.
35 João era uma lâmpada que queimava e irradiava luz, e, durante certo tempo, vocês quiseram alegrar-se com a sua luz.

Jesus fala aos líderes judeus: “Vocês enviaram representantes a João”. Toda a Judeia e Jerusalém foram ao Jordão, onde João pregava, batizava e preparava o povo para a chegada do Messias (Mt 1.1-10). Depois de quatrocentos anos sem profetas, havia uma espécie de febre nacional em torno de João. Embora não realizasse milagres, ele era reconhecido como o cumprimento da profecia: a voz que clamava no deserto, preparando o caminho do Senhor (Is 40.3; Jo 1.22-23).

Jesus o chama de “a lâmpada que ardia e brilhava”. João não era a Luz; Cristo é a Luz. João era a lâmpada que refletia essa Luz. Como lemos em João 1.6-8: “ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz”. Cheio do Espírito Santo desde o ventre de sua mãe (Lc 1.15), João foi aceso por Deus para revelar Cristo. Nada se comparava a ele, e as pessoas foram atraídas por seu ministério como mariposas pela chama. Durante algum tempo, alegraram-se com a luz que ele irradiava.

O testemunho de João, porém, não tinha origem humana; era o testemunho do próprio Pai. Deus enviou o anjo Gabriel a Zacarias e Isabel, um casal idoso e estéril, anunciou o nascimento milagroso daquele filho e o encheu do Espírito Santo ainda no ventre. Zacarias declarou: “E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo; porque irás adiante do Senhor, preparando os seus caminhos” (Lucas 1:76). João não recebeu sua mensagem de si mesmo, dos astros ou de algum poder inferior. Ele era profeta do Deus Altíssimo, comissionado pelo Pai.

E sua mensagem era sobre a salvação: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). João veio dar ao povo o conhecimento da salvação mediante o perdão dos pecados (Lc 1.76-77), apontando para Jesus Cristo. Mais tarde, muitos reconheceram: “João não realizou nenhum sinal, mas tudo quanto disse a respeito deste homem era verdade” (Jo 10:41). João era o profeta do Pai, e tudo o que declarou sobre Cristo era verdadeiro.

Os judeus aceitaram João superficialmente. Reconheceram que ele era um profeta enviado por Deus, alegraram-se com seu ministério e até se submeteram ao seu batismo de arrependimento. Contudo, fizeram isso apenas por algum tempo. Quando Jesus pronunciou essas palavras, João estava preso ou já havia sido morto. A lâmpada havia saído de cena, mas seu testemunho permanecia: Jesus é o Cordeiro de Deus (Jo 1.29).

Aqui está a tragédia: receberam o profeta, mas rejeitaram sua mensagem. Como alguém pode acolher um homem como profeta de Deus, alegrar-se com sua luz e depois recusar aquilo que ele anunciou? Essa é a indisposição natural do coração humano. Mesmo quando Deus envia um profeta verdadeiro e apresenta claramente a salvação em Cristo, o pecador pode admirar o mensageiro e, ainda assim, rejeitar a verdade que ele proclama.

O Testemunho do Pai através dos milagres e sinais realizados por Cristo

João 3
36 Eu tenho um testemunho maior que o de João; a própria obra que o Pai me confiou para concluir, e que estou realizando, testemunha que o Pai me enviou.

A segunda parte do testemunho do Pai está contida nesse único versículo. Agora passamos das palavras de João Batista para algo ainda maior: os sinais e as maravilhas realizados por Jesus. O Pai preparou João, deu-lhe a mensagem e o enviou; da mesma forma, enviou o Filho e determinou as obras que Ele realizaria. Assim, os milagres de Cristo eram o testemunho do próprio Pai.

Jesus está dizendo: “Vocês olharam para João e reconheceram que o Pai o havia enviado, mas rejeitaram sua mensagem. Agora olhem para mim: não é evidente que o Pai me enviou?”. Nicodemos admitiu: “Ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele” (Jo 3.1-2). A multidão também perguntava: “Quando o Cristo vier, fará mais sinais do que este homem tem feito?” (João 7.31). Ninguém poderia apresentar evidências maiores.

Os milagres de Jesus jamais foram negados, nem mesmo por seus inimigos. Ele declarou: “As obras que eu faço em nome de meu Pai dão testemunho de mim” (João 10.25). E ainda: “Se não faço as obras de meu Pai, não creiam em mim; mas, se as faço, mesmo que não creiam em mim, creiam nas obras, para que saibam e entendam que o Pai está em mim, e eu no Pai” (João 10.37-38). Seus milagres manifestavam a vontade e o poder do Pai, por meio do Espírito Santo.

Depois da ressurreição de Lázaro, os principais sacerdotes e os fariseus convocaram o Sinédrio e perguntaram: “Que faremos? Este homem realiza muitos sinais” (João 11.47). Eles confirmaram os milagres e, em seguida, rejeitaram aquele que os realizava. Jesus disse: “Creiam em mim quando digo que estou no Pai e que o Pai está em mim; ou, pelo menos, creiam por causa das mesmas obras” (João 14.11). 

Quando Jesus diz que o Pai lhe deu essas obras para realizar, isso se refere à sua encarnação. Ele sempre foi Deus, possuindo todos os atributos divinos e sendo o Criador de tudo o que existe. O Pai não precisou conceder-lhe poder divino; deu-lhe a missão e a autoridade para realizar aquelas obras. Em sua encarnação, Cristo voluntariamente restringiu o uso independente de seus atributos e fez somente aquilo que o Pai lhe determinou.

Jesus, então, expõe a gravidade da incredulidade daqueles homens. Eles ouviram João Batista, reconheceram-no como profeta, mas rejeitaram sua mensagem. Agora o Pai testemunha sobre Jesus por meio de suas obras, mas eles o perseguem, o odeiam e querem matá-lo. O problema não era falta de evidências.

O Testemunho do Pai sobre Jesus através das Escrituras

João 5
37 O Pai, que me enviou, esse mesmo é que tem dado testemunho de mim. Jamais tendes ouvido a sua voz, nem visto a sua forma.
38 Também não tendes a sua palavra permanente em vós, porque não credes naquele a quem ele enviou.
39 Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim.
40 Contudo, não quereis vir a mim para terdes vida.

Chegamos ao maior testemunho. O primeiro nível foi grandioso, João Batista. Depois veio algo ainda maior, os sinais e milagres. E agora, aqui está o maior de todos: “O Pai que me enviou, esse testificou a meu respeito”.

O ministério de João durou algum tempo, e o período dos milagres de Cristo em seu ministério terreno também terminou, mas a Palavra de Deus permanece para sempre. Ela preserva tanto a mensagem de João quanto as obras de Jesus e constitui o testemunho contínuo e definitivo do Pai acerca do Filho.

Jesus diz aos líderes judeus: “Vocês nunca ouviram a voz do Pai nem viram a sua forma” (v.37). Em outras palavras, apesar de seu zelo religioso, eles não conheciam verdadeiramente a Deus. Possuíam os rolos sagrados, examinavam-nos minuciosamente e afirmavam que eram a Palavra divina, mas essa Palavra não habitava neles. Ter uma Bíblia nas mãos não é o mesmo que ter sua verdade no coração. A evidência de que não conheciam o Pai era simples: não criam naquele que Ele enviou.

A expressão “Examinais as Escrituras” (v.39) não é, nesse contexto, uma ordem, mas uma acusação. A melhor tradução de João 5.39 seria: “Vocês examinam as Escrituras, porque julgam ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim”.

Eles investigavam o Antigo Testamento com grande dedicação, como alguém que segue cuidadosamente um rastro, porém impunham suas tradições, alegorias e ideias ao texto. Eram estudiosos meticulosos das Escrituras, mas espiritualmente cegos. Não deixavam as Escrituras falar e, por isso, não reconheciam aquele de quem elas falavam. Simeão e Ana (Lc 2.25-40) compreenderam e creram; assim como os pescadores da Galileia (Lc 5.1-12) e até os samaritanos (Jo 4.39-42). Mas, os líderes religiosos o rejeitaram.

Jesus declara que Moisés seria o acusador daqueles homens: “se vocês cressem em Moisés, creriam em mim, porque ele escreveu a meu respeito” (Jo 5.46). Todo o Antigo Testamento aponta para Cristo. Por isso, na história do rico e Lázaro (Lc 16.19-31), Abraão afirma: “Eles têm Moisés e os profetas; que os ouçam”. Se alguém não crê nas Escrituras, nem mesmo será persuadido por uma ressurreição. E foi exatamente o que aconteceu: Cristo ressuscitou, mas seus inimigos inventaram uma explicação falsa para rejeitar a verdade.

No caminho de Emaús (Lc 24.13-35), diante de dois discípulos confusos, Jesus começou por Moisés e percorreu os profetas, explicando tudo o que as Escrituras diziam a seu respeito. Mais tarde, declarou aos discípulos que era necessário cumprir tudo o que estava escrito sobre Ele na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos: o Cristo sofreria, ressuscitaria ao terceiro dia e, em seu nome, o arrependimento para perdão dos pecados seria anunciado a todas as nações. Seu nascimento virginal, seu nascimento em Belém, sua morte e sua ressurreição já estavam revelados no Antigo Testamento.

A própria história bíblica conduz a Cristo. Gênesis apresenta a criação, a entrada do pecado e o domínio da morte. A Lei revela a culpa humana, mas também mostra que Deus é compassivo, gracioso e perdoador, embora não deixe o culpado impune (Ex 34.7; Nm 14.18; Na 1.3).

Surge, então, o grande dilema da redenção: como Deus pode perdoar o pecador e, ao mesmo tempo, punir todo pecado? Abraão creu, e sua fé lhe foi atribuída como justiça; mas alguém ainda precisaria suportar o julgamento em seu lugar.

Desde o animal sacrificado para cobrir Adão e Eva, passando pelo cordeiro da Páscoa e pelos sacrifícios de Levítico, tudo apontava para um substituto perfeito. Isaías 53 revela esse Servo: ferido por nossas transgressões, moído por nossas iniquidades, morto em nosso lugar e novamente vivo. Assim, o Antigo Testamento conduz a Cristo. Se aqueles judeus cressem verdadeiramente no Pai, teriam recebido o testemunho de João, reconhecido os milagres de Jesus e encontrado o Filho nas Escrituras. Mas não quiseram vir a Ele para ter vida, porque amaram mais as trevas do que a luz.

O testemunho de Deus é inconfundível: “Deus nos deu a vida eterna, e essa vida está em seu Filho. Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida” (1Jo 5.11-12). Rejeitar Cristo é chamar Deus de mentiroso, pois significa recusar aquilo que o Pai declarou sobre seu Filho. A decisão final a respeito de Jesus — crer ou não no testemunho das Escrituras — determina o destino eterno de cada pessoa.

As três acusações que Jesus fez aos líderes religiosos

João 5
40 Contudo, não quereis vir a mim para terdes vida.
41 Eu não aceito glória que vem dos homens;
42 sei, entretanto, que não tendes em vós o amor de Deus.
43 Eu vim em nome de meu Pai, e não me recebeis; se outro vier em seu próprio nome, certamente, o recebereis.
44 Como podeis crer, vós os que aceitais glória uns dos outros e, contudo, não procurais a glória que vem do Deus único?
45 Não penseis que eu vos acusarei perante o Pai; quem vos acusa é Moisés, em quem tendes firmado a vossa confiança.
46 Porque, se, de fato, crêsseis em Moisés, também creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito.
47 Se, porém, não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?

O grande problema dos líderes judeus é que eles estavam ocupados buscando autoexaltação, promoção e reconhecimento. Formavam uma sociedade de admiração mútua, honrando e exaltando uns aos outros. Em Mateus 23, Jesus os descreve fazendo suas obras para serem vistos, ampliando seus filactérios, alongando as franjas das vestes e procurando os primeiros lugares, as saudações e os títulos de rabino, pai e mestre. Queriam ser tudo, menos servos.

1ª acusação contra os líderes religiosos: não queriam honrar a Cristo

Como poderiam crer em Cristo se, para isso, precisariam abandonar a própria glória e glorificar a Cristo? Eles não buscavam a Glória que vem de Deus. João 1.14 declara: “o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, glória como do Unigênito do Pai”. Cristo é a glória do Pai manifestada, a imagem perfeita de Deus. A incredulidade, portanto, não é apenas um problema intelectual ou falta de evidências; é uma condição do coração. Eles não podiam dar glória a Cristo porque estavam consumidos pela própria glória.

Tudo se resume à humildade e à negação de si mesmo. Jesus disse: “se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me” (Lc 9.23). Aqueles homens, porém, não tinham interesse verdadeiro no Messias, mas em si mesmos. Quanto mais religiosos se tornavam, mais alimentavam a própria exaltação. Sua religião parecia santa por fora, mas era conduzida pelo orgulho e hipocrisia.

2ª acusação contra os líderes religiosos: não queriam amar a Deus

A segunda acusação é igualmente devastadora: “Eu conheço vocês e sei que não têm em si mesmos o amor de Deus” (Jo 5:42). Eles carregavam nos filactérios o mandamento de amar o Senhor de todo o coração, alma e força, mas essas palavras não estavam neles. A intenção da Lei era que o amor a Deus governasse seus pensamentos e suas ações; eles, porém, transformaram o mandamento em adereço religioso. A falsa religião é assim: exterior, artificial e desonesta, porque seu verdadeiro objeto de amor é o próprio homem.

Quem rejeita Jesus não ama o Pai, pois Cristo veio em nome do Pai. Se alguém ama o Pai, recebe o Filho que Ele enviou. Entretanto, aqueles líderes rejeitaram o verdadeiro Messias e estavam dispostos a seguir quem viesse em seu próprio nome. A história de Israel está cheia de falsos messias que conquistaram seguidores, e isso continuará até o aparecimento do Anticristo. O coração que não recebe a verdade permanece vulnerável à mentira: rejeita aquele que veio com o testemunho do Pai, mas acolhe o enganador que promove expectativas humanas.

3ª acusação contra os líderes religiosos: não criam nas Escrituras

A terceira acusação é que eles não criam nas Escrituras. Jesus declarou: “Se vocês cressem em Moisés, creriam em mim, porque ele escreveu a meu respeito” (Jo 5.46). Eles se orgulhavam de ocupar a cadeira de Moisés e de conhecer o Antigo Testamento, mas as próprias Escrituras que examinavam apontavam para Cristo. O termo “Moisés” pode representar toda a revelação do Antigo Testamento, que anuncia o Messias, seus sofrimentos e sua glória. Rejeitar Jesus era demonstrar que, apesar de suas alegações religiosas, eles também não acreditavam verdadeiramente em Moisés.

No julgamento, não seria necessário que Jesus os acusasse; Moisés, em quem depositavam sua esperança, seria o acusador. Essa é a ruína do legalismo: imaginar que a Lei será sua defensora, quando ela condenará sua incredulidade. Jesus ensinou que, se alguém não ouve Moisés e os profetas, também não será persuadido mesmo que um morto ressuscite (Lc 16.31). Cristo ressuscitou, e eles responderam inventando uma mentira. Os apóstolos, ao contrário, encontraram Cristo no Antigo Testamento e anunciaram o Evangelho a partir dele.

A indisposição do coração humano reúne, portanto, três recusas: não querer honrar a Cristo, não querer amar a Deus e não querer crer nas Escrituras. Por trás de todas elas está o ego, que busca sua própria glória e se coloca como autoridade final. Mas essas mesmas verdades ajudam o cristão a examinar sua salvação. Qual é a direção do seu coração: você deseja glorificar Cristo, ama a Deus e crê nas Escrituras? Esses desejos não são naturais ao homem caído. Se estão presentes, mesmo em meio a lutas e falhas, é porque Deus transformou um coração relutante em um coração disposto. Esse é o milagre da conversão. Vamos orar.

Pai, agradecemos-Te pelo tempo em que meditamos na Tua Palavra. Foi uma alegria para nós regozijarmo-nos novamente na verdade, conforme ela se revela nas Escrituras. Sabemos que as Escrituras têm muitos críticos, mas eles desconhecem suas glórias, sua majestade e seu caráter sobrenatural. Compreendemos isso. Mas nós não. Não importa o quão profundamente as estudemos, não importa quantas perguntas façamos a uma passagem, ela revela joias raras da verdade divina e nunca decepciona.

A crença nas Escrituras é um dom Teu, mas o crescimento dessa confiança é uma bênção constante, fruto do estudo das Escrituras, de modo que nossa confiança, embora sempre tenha estado presente porque Tu nos tornaste dispostos a crer, é fortalecida. Cremos mais agora e cremos mais a cada vez que somos ensinados novamente, e Te amamos mais, e desejamos honrar a Cristo mais. Esse é o caminho que os verdadeiros crentes trilham. E que possamos nos alegrar e não duvidar, e desfrutar da bênção da certeza.

Obrigado por tudo o que o Senhor está fazendo, Pai, ainda hoje, na vida das pessoas, por meio da convicção e do encorajamento. Que aqueles que ainda não estão dispostos compreendam a seriedade e a condenação que aguardam os que se recusam. E que se afastem do egoísmo que os leva a desejar apenas a própria glória e a própria realização, a se tornarem os governantes supremos de suas próprias vidas e a se voltarem para o Senhor e para Cristo. Faça essa obra, Senhor, e nós lhe daremos todo o louvor. Em nome de Cristo, amém.


Esta é uma série de sermões traduzidos de John MacArthur sobre o Evangelho de João.

Clique aqui e acesse o índice ordenado por capítulo, com links para leitura. 


Este texto é uma compilação e síntese de 3 sermões de John MacArthur, conforme especificado abaixo:

1)  Testimony to the Deity of Christ, part 1 (4/8/2013)
2) Testimony to the Deity of Christ, part 2 (11/8/2013)
3) Testimony to the Deity of Christ, part 3 (25/8/2013)

Você pode ouvi-los integralmente (em inglês) nos links abaixo:

1)  https://www.gty.org/sermons/43-29/testimony-to-the-deity-of-christ-part-1 
2) https://www.gty.org/sermons/43-30/testimony-to-the-deity-of-christ-part-2 
3) https://www.gty.org/sermons/43-31/testimony-to-the-deity-of-christ-part-3 

Compilação, tradução e síntese feitas pelo Site Rei Eterno


 

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