A Tragédia da Apostasia

É possível conhecer o evangelho, conviver com cristãos e testemunhar as obras de Deus sem jamais se entregar a Cristo? Em Hebreus 5:11–6:12, encontramos uma advertência solene sobre o perigo de ouvir a verdade e permanecer indiferente a ela. Há grave diferença entre estar próximo da salvação e receber Cristo pela fé, compreendendo por que os privilégios espirituais trazem consigo a responsabilidade de responder à revelação de Deus. O chamado é urgente: não endurecer o coração, mas confiar naquele para quem toda a Escritura aponta.

Um cristão pode perder a salvação?

Durante nosso estudo de 1 João, uma pergunta tem surgido repetidamente: um crente pode perder a salvação? Várias pessoas me perguntaram sobre Hebreus 6, que fala da impossibilidade de renovar para o arrependimento aqueles que caíram, e sobre João 15, em que os ramos que não permanecem na videira são lançados no fogo.

O estudo de 1 João também despertou dúvidas: se os cristãos amam os irmãos, guardam os mandamentos e confessam seus pecados, o que acontece quando alguém deixa de agir assim? Essa pessoa perde a salvação? Essas questões têm gerado dúvidas e merecem nossa atenção.

Nas próximas semanas, examinaremos algumas dessas passagens. Começaremos com Hebreus 5:11–6:12, sob o tema “A tragédia da apostasia”. Precisamos ler desde o capítulo 5 para compreender o contexto e identificar a quem a advertência se aplica.

A segurança do crente é uma questão séria, pois há muito em jogo. A Bíblia ensina que a salvação é eterna, pois somos guardados pelo poder de Deus (1Pe 1.5). Para avaliar essa convicção, examinaremos as passagens frequentemente usadas para defender a posição contrária, buscando compreender o que realmente ensinam. O tema de Hebreus é nossa primeira consideração.

A importância de compreender o contexto de uma passagem bíblica

Sempre que você estuda uma passagem de um livro, precisa entender o tema principal dele. Ao interpretar uma passagem, primeiro você traça um círculo bem grande, que representa o livro. Dentro dele, traça outro círculo, que representa o capítulo, e então um terceiro círculo no centro, que representa a passagem em si.

Mas você nunca será justo com a passagem a menos que tenha compreendido toda a intenção do livro. Você precisa entender sobre o que o autor está escrevendo, qual é o tema do livro e qual é o tema do capítulo. Só então poderá analisar o tema da passagem. Essa é a única maneira justa. Caso contrário, tirará versículos do contexto e poderá atribuir-lhes o significado que quiser. Não há limites.

É um erro grave pegar um versículo, ignorar seu contexto e lhe dar um significado completamente diferente. Assim vemos pessoas alegando que interpretaram suas palavras fora de contexto, Deus também não quer ser citado fora de contexto. E não faça isso com o livro de Hebreus.

Os destinatários da carta aos Hebreus

Devemos entender que havia três tipos de destinatários desta epístola. Se você não entender isso, ficará muito confuso.

1) Judeus verdadeiramente convertidos. Por exemplo, em Hebreus 6:9, o escritor passa a falar diretamente a esses cristãos, reconhecendo neles evidências de salvação, como amor e serviço

2) Judeus convencidos intelectualmente, mas ainda não convertidos: conheciam o evangelho e haviam presenciado a atuação do Espírito, porém hesitavam em confiar em Cristo, inclusive por pressão familiar e social. Para MacArthur, a advertência de Hebreus 6:4–6 dirige-se a essas pessoas.

3) Judeus não convencidos da verdade do evangelho: o Espírito Santo também fala com aqueles que ainda não creram, que não estão convencidos de nada. E para esses últimos, Ele lhes dá informações suficientes para mostrar-lhes que Jesus é de fato quem Ele afirmou ser, e é isso que acontece no capítulo 9, direcionado especialmente para esse grupo.

Portanto, há três grupos de destinatários da epístola. E a chave para interpretar Hebreus é entender para qual grupo ele está falando. E se não entendermos isso, então estragaremos tudo, porque confundiremos os assuntos. Por exemplo, Hebreus não está dizendo aos crentes que aos homens está ordenado morrer uma vez e depois disso o julgamento (Hb 9.27). Essa declaração não é para os destinatários crentes da epístola.

Devemos entender a qual desses 3 grupos cada texto é destinado. Ao longo de todo o estudo do livro de Hebreus, relacionaremos cada texto a cada grupo específico. O fluxo geral do texto é para os crentes. Periodicamente, porém, há avisos para aqueles dois grupos de incrédulos que mencionei, os intelectualmente convencidos e os não convencidos.

O tema fundamental da carta aos Hebreus e a chave para compreender o texto de Hebreus 5.11 a 6.12

Existe um tema fundamental no livro de Hebreus que precisa ser compreendido: o cristianismo é superior ao judaísmo. Repetidamente, encontramos em Hebreus a superioridade imensurável do cristianismo sobre o judaísmo. É extremamente importante usar esse princípio básico como a chave para esta passagem. Usar qualquer outra interpretação seria forçar a entrada, porque essa é a chave que abre a porta.

Nosso texto agora (Hb 5.11 a 6.12)  não está comparando cristãos com cristãos. Nem mesmo em Hebreus 5:11–14, onde se fala de criancinhas, está se referindo a cristãos; está se referindo aos judeus. Eles são as criancinhas. Os adultos são os genuínos cristãos. Essa é a analogia constante do livro de Hebreus.

Ao longo de toda a Epístola aos Hebreus, Jesus Cristo é apresentado como superior a tudo na antiga aliança: aos anjos, aos profetas, a Moisés, a Josué, a Arão, aos sacrifícios e ao sacerdócio. Esse é o ponto central do livro. A questão fundamental desta passagem (Hb 5.11 a 6.12) é se você é um judeu que ainda se apega ao judaísmo ou um cristão. Nessa analogia, o bebê representa quem permanece no judaísmo, enquanto o homem maduro representa o genuíno cristão.

Portanto, quando o autor afirma em Hebreus 6:1: “prossigamos para a perfeição”, ou “prossigamos em maturidade”, ele não está dizendo: “Cristãos inexperientes, cresçam”. Está dizendo: “Judeus que se apegam aos princípios básicos da revelação de Deus, avancem para a revelação completa, que é Jesus Cristo”. Assim, ele os está convidando à salvação.

Há uma série de advertências em Hebreus. Todas são evangelísticas e, para ser consistente com as demais, esta também o é. Elas convidam judeus intelectualmente convencidos da veracidade do cristianismo a se converterem, sem parar no início do caminho. Essa é a tese fundamental do livro e desta passagem em particular.

As figuras da antiga aliança apontam para Cristo

O Antigo Testamento era como uma cartilha, um livro cheio de figuras. Pense nos primeiros livros de uma criança: antes de aprender a ler, ela reconhece imagens de animais e objetos. Essas figuras ajudam a prepará-la para compreender as palavras. Da mesma forma, as figuras do Antigo Testamento preparavam o povo para compreender a revelação de Jesus Cristo.

Mas você não espera que seu filho adolescente chegue em casa, sente-se à mesa e continue falando apenas “patinho, cachorrinho, bola”. Isso indicaria que ele não avançou como deveria. A ilustração é simples: aquilo que serve ao início do aprendizado precisa dar lugar a uma compreensão mais completa.

O Antigo Testamento é como esse livro ilustrado. Seus tipos, cerimônias, festas, dias santos e sacrifícios apontam para Cristo. O tabernáculo e o templo também estão repletos dessas figuras. Quando chega o Novo Testamento, porém, o chamado é para avançar além da cartilha. A maturidade está na revelação de Jesus Cristo. Por isso, o apelo aos judeus é: deixem os princípios elementares e avancem para as coisas profundas; passem do leite ao alimento sólido.

De forma diferente, em 1 Coríntios 3:1–2, Paulo compara os cristãos imaturos a crianças que ainda precisam de leite, pois não estão preparados para receber alimento sólido. Ele está falando de pessoas que já creem em Cristo, mas precisam crescer espiritualmente. Em Hebreus 5.11 a 6.12 a comparação tem outro sentido: o leite representa os ensinamentos iniciais da antiga aliança, e o alimento sólido representa a revelação plena em Jesus Cristo. Assim, o chamado é para que aqueles que ainda se apegam à antiga aliança avancem para a nova aliança, colocando sua fé em Cristo.

O problema

Hebreus 5
11 A esse respeito temos muitas coisas que dizer e difíceis de explicar, porquanto vos tendes tornado tardios em ouvir.

Para compreender esses versículos, lembre-se que no versículo 10 diz que Jesus foi “nomeado por Deus sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque”. Quem foi Melquisedeque? Foi um sacerdote do Antigo Testamento que se encontrou com Abrão (Gn 14.18-20). Ele é apresentado como rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo, uma combinação incomum. Sua importância em Hebreus está relacionada a um dos temas centrais do livro: o sacerdócio de Jesus Cristo (Rei e Sarcedote).

Temos um Sumo Sacerdote que se compadece de nossas fraquezas, foi tentado à nossa semelhança e entrou nos céus (Hb 4.14–15). Por isso, compreender o sacerdócio de Cristo é fundamental. No versículo 11, ele diz: “a esse respeito temos muitas coisas que dizer”. Sobre quem o escritor tem muito a dizer? Melquisedeque, cujo sacerdócio será desenvolvido no capítulo 7. Antes, porém, o autor precisa tratar de uma dificuldade: essas coisas são difíceis de explicar porque seus ouvintes se tornaram “tardios para ouvir”.

Esse é o problema. O autor quer mostrar a relação entre Melquisedeque e Jesus Cristo, nosso Grande Sumo Sacerdote, mas encontra resistência na compreensão de seus ouvintes. A expressão grega traduzida como “tardios”, transmite a ideia de lentidão, preguiça ou falta de disposição. Eles estavam sem motivação para ouvir e responder ao ensino. Ele se tornaram tardios para ouvir, ou seja, houve um tempo em que demonstraram interesse e disposição para ouvir, mas isso foi se perdendo.

O adiamento da fé e o endurecimento do coração

Para entender o que aconteceu, precisamos considerar o contexto apresentado em Hebreus 2:3–4. O evangelho chegou àquela comunidade por meio daqueles que haviam ouvido o Senhor, e Deus confirmou a mensagem com sinais, maravilhas, milagres e manifestações do Espírito Santo. Na reconstrução apresentada aqui, essas pessoas receberam a mensagem com entusiasmo. Viram o poder de Deus e ficaram intelectualmente convencidas de que o evangelho era verdadeiro. Estavam próximas de assumir um compromisso de fé com Cristo.

Entretanto, começaram a sofrer pressão de seus compatriotas judeus: “Não entrem nisso. É heresia. Vocês poderão ser expulsos da família, perder seus vínculos com a comunidade e se afastar dos amigos”. Assim, ficaram divididos. De um lado, estavam convencidas da verdade do evangelho e haviam testemunhado manifestações do poder de Deus. De outro, temiam as consequências de seguir a Cristo. Permaneceram no limiar da fé, adiando sua resposta.

Com o tempo, esse adiamento produziu insensibilidade espiritual. Ouviram repetidamente a mensagem, mas continuaram sem se comprometer com ela. Aquilo que antes despertava entusiasmo tornou-se familiar e enfadonho. De tanto adiarem a decisão, tornaram-se cada vez mais lentos para ouvir e responder.

Isso acontece com frequência. Há pessoas que frequentam uma igreja, ouvem o evangelho durante anos e acabam se acomodando, permanecendo ali por toda a vida sem conhecer verdadeiramente a Cristo. A convivência com os cristãos, por si só, não significa conversão. Quanto mais adiam sua resposta ao evangelho, mais endurecidos e espiritualmente insensíveis se tornam. Daí a seriedade da advertência: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração” (Hb 3.15).

A fraqueza em reter os fundamentos

Hebreus 5
12 Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido”.

Essa é uma acusação séria. Eles haviam recebido instrução durante tempo suficiente para serem capazes de ensinar outras pessoas. Isso não significa que eram cristãos, mas que já tinham amplo contato com o evangelho. Apesar disso, precisavam voltar aos fundamentos.

Eles escutavam os ensinamentos, mas não respondiam a eles. Com o tempo, perderam a compreensão até dos princípios elementares do evangelho. A palavra grega traduzida como “princípios” transmite a ideia de elementos básicos, como o alfabeto de uma língua. Eles precisavam voltar ao ABC dos oráculos de Deus.

Mas o que são os “oráculos de Deus”? Em Romanos, Paulo pergunta qual é a vantagem de ser judeu e qual é o benefício da circuncisão. Sua resposta é que há vantagens, principalmente porque aos judeus foram confiados os oráculos de Deus, isto é, a revelação divina registrada nas Escrituras do Antigo Testamento (Rm 3.1–2).

Depois de tanto contato com a Palavra de Deus, eles deveriam ser capazes de ensiná-la. Entretanto, ainda precisavam reaprender os fundamentos da revelação do Antigo Testamento, pois não haviam compreendido seu significado. Se entendessem aquilo para o qual os sacrifícios, as cerimônias e as demais figuras da antiga aliança apontavam, reconheceriam seu cumprimento em Cristo. A própria carta explica que a Lei possui “sombra dos bens vindouros” e apresenta os sacrifícios antigos em contraste com a oferta definitiva de Jesus (Hb 10.1–14).

Por isso, o autor diz que eles necessitavam de leite, e não de alimento sólido (Hb 5:12). Retomando a ilustração da cartilha, precisavam olhar novamente para as figuras e compreender o que elas ensinavam. O autor se dirige a judeus que estavam diante da decisão de crer em Cristo, mas se tornaram insensíveis por ouvirem sem responder. Agora, precisavam reaprender o significado das próprias Escrituras das quais se orgulhavam conhecer.

Foi isso que Jesus mostrou aos discípulos no caminho de Emaús: começando por Moisés e passando pelos profetas, explicou o que as Escrituras diziam a seu respeito (Lc 24.27). Da mesma forma, declarou aos judeus que as Escrituras testemunhavam dele e que, se cressem em Moisés, também creriam nele, pois Moisés havia escrito a seu respeito (Jo 5.39, 46–47). O problema, portanto, era que aqueles ouvintes ainda não compreendiam plenamente para quem a revelação recebida apontava. Precisavam voltar aos fundamentos e reconhecer neles o testemunho acerca de Cristo.

A inexperiência na palavra da justiça

Hebreus 5
13 Ora, todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança.

Aqueles ouvintes ainda estavam na fase da cartilha, alimentando-se de leite, porque eles não haviam experimentado a justiça recebida pela fé em Cristo (Rm 3.21–22; Fp 3.9).

O argumento é que o cristão já recebeu essa justiça ao crer, portanto o autor não está descrevendo cristãos que precisam amadurecer, mas pessoas que permaneciam ligadas à antiga aliança e ainda não haviam colocado sua fé em Jesus. Conheciam os ensinamentos, mas não haviam experimentado a realidade para a qual apontavam. Eles precisavam reaprender os fundamentos da antiga aliança e reconhecer seu cumprimento em Cristo.

Agora, observe a palavra grega traduzida com “criança”, ela não indica, por si só, que alguém é salvo. Seu significado depende do contexto. Pode ilustrar a imaturidade de um cristão, mas também a falta de entendimento de alguém que ainda não crê.

a) Em Romanos, por exemplo, Paulo descreve judeus que se consideravam guias de cegos, luz para os que estavam nas trevas, instrutores de insensatos e mestres de crianças (Rm 2.19–20). Nesse contexto, “crianças” não significa cristãos recém-convertidos, mas pessoas consideradas sem conhecimento e necessitadas de instrução.
b) Em Gálatas, Paulo também utiliza a figura da criança ao comparar o herdeiro menor de idade com aqueles que estavam sujeitos aos princípios elementares do mundo (Gl 4:1–3). Isso mostra que a imagem pode servir a diferentes argumentos.
c) Em 1 Coríntios, Paulo se dirige explicitamente a cristãos, chamando-os de “crianças em Cristo”. Ele lhes deu leite, e não alimento sólido, porque ainda eram carnais, como demonstravam suas invejas e divisões (1Co 3:1–3).

Portanto, não podemos concluir que toda referência a “crianças” no Novo Testamento descreve cristãos imaturos. É o contexto que determina o sentido. No contexto de Hebreus 5.11 a 6.12, descreve aqueles que permaneciam ligados à antiga aliança sem compreender plenamente seu significado. Ao resistirem à nova aliança, demonstravam que ainda não haviam experimentado a justiça que vem pela fé em Cristo. Eles precisavam de conversão, e não apenas de crescimento.

O alimento sólido e o discernimento espiritual

Hebreus 5
14 Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal.

Uma criança pequena ainda não sabe distinguir o que lhe faz bem do que lhe faz mal. Coloca objetos na boca sem reconhecer o perigo, porque ainda não desenvolveu discernimento por meio da experiência e da prática. O autor usa essa imagem para explicar a condição de seus ouvintes. Em contraste com a criança que precisa de leite, o adulto recebe alimento sólido e tem suas faculdades exercitadas para discernir o bem e o mal (Hebreus 5:13–14).

Aqueles ouvintes eram como crianças: haviam recebido instrução, mas não tinham respondido à verdade nem desenvolvido discernimento espiritual. O autor desejava explicar o sacerdócio de Melquisedeque e sua relação com Cristo, porém eles haviam se tornado lentos para ouvir (Hb 5.10–11).

Pelo tempo decorrido, já deveriam ser mestres. Em vez disso, precisavam reaprender os princípios elementares dos oráculos de Deus. Continuavam necessitando de leite, e não de alimento sólido (Hb 5.12). A resistência prolongada à mensagem os havia tornado apáticos e insensíveis. Se compreendessem o significado das figuras da antiga aliança, reconheceriam seu cumprimento em Cristo, pois a Lei apresenta a sombra dos bens vindouros, cuja realidade se manifesta em sua obra (Hb 10.1–14).

Esse é, portanto, o retrato que estamos considerando: pessoas intelectualmente instruídas na verdade, mas ainda indiferentes e indecisas diante dela. Apegavam-se à antiga aliança e resistiam ao compromisso de fé em Cristo. Sua dificuldade não era apenas receber informações mais profundas, mas responder à verdade que já conheciam. Esse era o problema enfrentado pelo autor: como aprofundar o ensino sobre Melquisedeque se seus ouvintes ainda precisavam voltar aos fundamentos? Antes de desenvolver esse assunto, ele precisava confrontar sua lentidão para ouvir.

A solução é avançar para Cristo

Hebreus 6
1 Por isso, pondo de parte os princípios elementares da doutrina de Cristo, deixemo-nos levar para o que é perfeito, não lançando, de novo, a base do arrependimento de obras mortas e da fé em Deus,
2 o ensino de batismos e da imposição de mãos, da ressurreição dos mortos e do juízo eterno.
3 Isso faremos, se Deus permitir.

Depois de apresentar o problema, o autor aponta a solução: deixar os princípios elementares e avançar para a perfeição. Esse chamado não se refere simplesmente ao crescimento de cristãos imaturos, mas à necessidade de avançar da antiga aliança para a salvação em Jesus Cristo.

Para compreender esse argumento, precisamos observar como Hebreus emprega a ideia de “perfeição”. O autor pergunta: se a perfeição pudesse ser alcançada pelo sacerdócio levítico, por que seria necessário outro sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque? (Hb 7.11). A questão é que o sacerdócio antigo não podia realizar plenamente aquilo que Cristo veio cumprir.

Em seguida, afirma que “a lei nunca aperfeiçoou coisa alguma” e apresenta uma esperança superior, pela qual nos aproximamos de Deus (Hb 7:19). Mais adiante, declara que Cristo, mediante uma única oferta, “aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados” (Hb 10.14).

Nesse último texto, “aperfeiçoar” não significa tornar alguém instantaneamente maduro em sua conduta. O foco está na eficácia definitiva do sacrifício de Cristo. É à luz desse uso que, nesta exposição, entendemos o chamado de Hebreus 6:1 como um convite à plenitude da salvação em Cristo.

Mas surge uma pergunta: como alguém pode deixar “os princípios elementares da doutrina de Cristo” para alcançar essa plenitude? Isso significaria abandonar o próprio Cristo? A resposta está no sentido desses princípios elementares. A palavra “Cristo” significa “Messias”. Assim, entendemos a expressão como uma referência aos ensinamentos iniciais acerca do Messias, apresentados nas figuras, cerimônias, sacrifícios e purificações da antiga aliança.

O autor não está dizendo que devemos abandonar Jesus, mas que seus ouvintes precisam avançar das figuras para aquele que elas anunciavam. O sistema antigo era preparatório; Cristo é seu cumprimento. A Lei tinha a sombra dos bens futuros, enquanto o sacrifício de Jesus realiza aquilo para o qual ela apontava (Hb 10.1–14).

O verbo grego traduzido como “deixar” transmite a ideia de “deixar para trás e seguir adiante”. Ele também aparece em situações nas quais Jesus deixa uma multidão para ir a outro lugar (Mt 13.36; Mc 4.36). O chamado é para deixar de permanecer apenas nos ensinamentos preparatórios e receber sua realização em Cristo. Isso não significa desprezar a revelação anterior. Paulo, por exemplo, manteve Jesus Cristo crucificado no centro de sua pregação (1Co 2.2). O ponto é reconhecer que os fundamentos da antiga aliança encontram em Jesus Cristo seu propósito.

A expressão “deixemo-nos levar” (Hb 6,1) destaca que esse avanço depende da ação divina. O autor acrescenta: “Isso faremos, se Deus permitir” (Hb 6.3). Não se trata apenas de adquirir mais informações, mas de responder à verdade sob a atuação de Deus.

Os seis ensinamentos preparatórios da antiga aliança

O autor menciona seis assuntos que constituíam esse fundamento (Hb 6:1–2). Na interpretação apresentada aqui, todos possuem antecedentes na antiga aliança e encontram sua expressão plena em Cristo.

1) Arrependimento de obras mortas: O chamado ao arrependimento já estava presente antes do ministério público de Jesus, como vemos na pregação de João Batista (Mt 3.1–2). Eles precisavam avançar do reconhecimento do pecado para um compromisso de fé com Cristo. Paulo reúne essas duas dimensões ao falar do arrependimento para com Deus e da fé em Jesus (At 20.21).

2) Fé em Deus: não bastava permanecer numa afirmação geral de crença em Deus enquanto se rejeitava aquele que ele enviou. Jesus chama seus ouvintes a crerem nele, assim como creem em Deus (Jo 14.1).

3) Ensino de batismos: uma referência às lavagens cerimoniais judaicas. Hebreus menciona essas purificações ao descrever as ordenanças da antiga aliança (He 9.10). O chamado seria avançar dessas práticas exteriores para a purificação da consciência realizada pelo sangue de Cristo (Hb 9.13–14).

4) Imposição de mãos: está ligada à identificação com os sacrifícios do Antigo Testamento. O ofertante colocava a mão sobre a cabeça do animal, e, no Dia da Expiação, Arão impunha as mãos sobre o bode e confessava os pecados do povo (Lv 1:4; 16:21). Essas figuras deveriam conduzir ao reconhecimento de Jesus como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1:29).

5) Ressurreição dos mortos: já anunciada no Antigo Testamento (Dn 12.2). Seus ouvintes precisavam reconhecer em Jesus aquele que declara: “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11.25).

6) Juízo eterno: também presente na revelação anterior (Daniel 12.2). No Novo Testamento, essa verdade é esclarecida à luz de Cristo, a quem foi confiado o julgamento (João 5.22-29).

Portanto, o chamado é para avançar dos ensinamentos preparatórios à sua realização em Jesus. Não se trata de considerar falsas as verdades da antiga aliança, mas de reconhecer seu caráter preparatório. As figuras apontavam para Cristo; agora, era necessário recebê-lo. Esse é o apelo em Hebreus 6:1–3, ou seja: deixem de permanecer apenas na cartilha e avancem para a plenitude da revelação e da salvação em Jesus Cristo.

Advertência: o perigo de rejeitar a verdade conhecida

Hebreus 6
4 É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo,
5 e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro,
6 e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia.

Depois de apresentar o problema e a solução, o autor faz uma advertência: é necessário avançar e responder à revelação de Deus. O chamado é para que aqueles ouvintes deixem de permanecer indecisos e se entreguem inteiramente a Cristo. A rejeição persistente da verdade conduz ao endurecimento e à apostasia.

O argumento é sério: se alguém conhece a revelação de Deus em Cristo e a rejeita deliberadamente, que outra mensagem poderia conduzi-lo à salvação? Não existe outro Salvador nem outro sacrifício capaz de substituir a obra de Jesus. Encontramos uma advertência semelhante quando os fariseus atribuem ao poder de Satanás as obras realizadas por Jesus mediante o Espírito Santo. Diante disso, Jesus fala da gravidade da blasfêmia contra o Espírito (Mt 12.24-32).

Pedro também descreve pessoas que escaparam das contaminações do mundo mediante o conhecimento de Jesus Cristo, mas depois voltaram a se envolver nelas. Para ilustrar esse retorno, emprega a imagem do cão que volta ao próprio vômito (2Pe 2.20-22). Trata-se de pessoas que experimentaram mudanças exteriores sem uma transformação definitiva de sua natureza.

O autor retoma esse perigo ao falar daqueles que continuam pecando deliberadamente depois de receberem o conhecimento da verdade. Para eles, já não resta sacrifício pelos pecados, mas a expectativa do juízo (Hb 10.26-27). O texto descreve uma rejeição consciente de Cristo após o conhecimento do evangelho. O autor apresenta essa atitude como pisar o Filho de Deus, profanar o sangue da aliança e ultrajar o Espírito da graça. Em seguida, lembra que a vingança e o julgamento pertencem ao Senhor (Hebreus 10.29-31).

O apelo, portanto, é urgente: respondam à verdade enquanto a ouvem. Não continuem resistindo até se tornarem insensíveis à revelação recebida. Ele diz que, para esses, é “impossível outra vez renová-los para arrependimento” (Hb 4.6). A mesma palavra grega traduzida aqui como “impossível”, é usada para declarar que “é impossível Deus mentir; que o sangue de animais remova pecados; e que alguém agrade a Deus sem fé (Hb 6.18; 10.4; 11.6). Portanto, não devemos enfraquecer a advertência substituindo “impossível” por “difícil”.

Isso também precisa ser considerado por quem entende a passagem como perda da salvação: nessa leitura, seria necessário explicar igualmente a impossibilidade de renovação para o arrependimento. Observe ainda a mudança de linguagem. Depois de descrever aqueles que caíram, o autor se dirige aos leitores como “amados” e afirma estar convencido de coisas melhores a respeito deles, “coisas que acompanham a salvação” (Hb 6.9). Essa distinção ajuda a compreender a diferença entre experimentar os privilégios da comunidade cristã e possuir a salvação.

Os privilégios de quem conheceu o evangelho

Os privilégios que haviam experimentado eram profundas. Essas pessoas não eram ignorantes a respeito do evangelho: haviam recebido luz, conhecido a Palavra e presenciado a atuação de Deus (Hb 6:4-5).

1) Foram iluminadas: Ser iluminado envolve receber luz e entendimento. Eles haviam compreendido a mensagem do evangelho, mas esse conhecimento ainda não havia resultado em um compromisso de fé com Cristo (Hb 6.4). Conhecer a mensagem e saber explicá-la não são, por si sós, provas de conversão. Eles haviam recebido instrução suficiente para reconhecer a verdade, tornando-se responsáveis por sua resposta a ela.

2) Provaram o dom celestial: Esse dom celestial é entendido aqui como a salvação oferecida em Cristo. Paulo descreve a salvação pela graça como dom de Deus e agradece por seu dom inefável (Ef 2.8-9; 2Co 9.15). Eles haviam experimentado benefícios relacionados à salvação: conviviam com cristãos, ouviam o evangelho e percebiam seus efeitos. Entretanto, ainda não haviam recebido Cristo pela fé.

A ilustração proposta é a dos espias enviados a Canaã. Eles viram a terra e trouxeram seus frutos, mas a incredulidade impediu aquela geração de entrar nela (Nm 13.23-27; 14;22-23). Assim, também seria possível aproximar-se das bênçãos anunciadas pelo evangelho sem abraçá-lo. Essa distinção, porém, depende da interpretação do contexto, e não apenas do verbo “provar”, que também é empregado para dizer que Jesus experimentou a morte (Hb 2.9).

3) Tornaram-se participantes do Espírito Santo: participar do Espírito Santo significa ter contato real com sua atuação na comunidade, sem que isso necessariamente indique a habitação do Espírito própria daqueles que pertencem a Cristo (Hb 6.4; Rm 8.9). Os destinatários conheciam uma mensagem confirmada por sinais, maravilhas, milagres e distribuições do Espírito Santo (Hb 2.3-4). Haviam presenciado sua obra e experimentado seus efeitos.

Simão, em Samaria, oferece uma ilustração de alguém que se aproximou da comunidade e ficou impressionado com as manifestações do poder de Deus, mas cujo coração foi denunciado por Pedro como não sendo reto diante do Senhor. Ele chegou a oferecer dinheiro para obter autoridade de conceder o Espírito Santo pela imposição de mãos (At 8.13-23). O contato com a atuação do Espírito não deve ser automaticamente identificado com conversão.

4) Provaram a boa Palavra de Deus: Eles haviam ouvido e experimentado a mensagem das Escrituras (Hb 6.5). Conheciam seus ensinamentos e haviam percebido sua bondade. O contraste proposto nesta exposição é com Jeremias, que descreve ter encontrado e comido as palavras de Deus, recebendo-as como alegria para seu coração (Jr 15.16). A questão é a diferença entre entrar em contato com a verdade e acolhê-la pessoalmente com fé.

5) Experimentaram os poderes do mundo vindouro (Hb 6.5): São manifestações do poder de Deus que antecipam a realidade de seu reino. Os milagres que acompanharam a proclamação do evangelho testemunhavam essa atuação divina (Hb 2.3-4). Aqueles ouvintes, portanto, não haviam recebido apenas informações: tinham presenciado evidências do poder de Deus.

A gravidade da apostasia

Depois de enumerar esses privilégios, o autor descreve a queda e afirma ser impossível renovar essas pessoas para o arrependimento, pois estão crucificando novamente, para si mesmas, o Filho de Deus e expondo-o à vergonha pública (Hb 6:6). Isso significa rejeitar conscientemente Jesus depois de conhecer seu testemunho e sua obra. É colocar-se ao lado daqueles que o condenaram, tratando-o como alguém indigno de fé e merecedor de rejeição.

Não se trata, nessa leitura, de uma dúvida passageira ou de uma queda moral seguida de arrependimento, mas de um repúdio deliberado de Cristo. Jesus expressa a seriedade dessa posição ao declarar: “Quem não é por mim é contra mim” (Mt 12.30).

As pessoas descritas em Hebreus 6:4–5 conheceram o evangelho, presenciaram o poder de Deus e experimentaram benefícios da atuação do Espírito Santo, mas não chegaram a crer em Cristo para a salvação. O texto bíblico não as descreve como justificadas, regeneradas ou adotadas por Deus. Esses privilégios representam uma profunda aproximação da verdade, sem a transformação própria da salvação.

A mesma chuva e diferentes frutos

Hebreus 6
7 Porque a terra que absorve a chuva que frequentemente cai sobre ela e produz erva útil para aqueles por quem é também cultivada recebe bênção da parte de Deus;
8 mas, se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada e perto está da maldição; e o seu fim é ser queimada.

A ilustração é simples: a chuva cai sobre a terra, mas os resultados são diferentes. Um terreno produz plantas úteis e recebe a bênção de Deus; outro produz espinhos e sarças, destinados ao fogo. A chuva abundante representa a revelação de Deus. O terreno que dá fruto ilustra a resposta positiva ao evangelho, a salvação; aquele que produz espinhos representa a rejeição dessa revelação, cujo fim é o juízo. São dois tipos de pessoas diante da mesma verdade. A advertência é: não recebam a chuva da revelação de Deus para, depois, produzirem apenas espinhos e sarças. Toda essa advertência se dirige, portanto, aos incrédulos que chegaram muito perto de crer em Cristo, mas ainda não o receberam.

As evidências que acompanham a salvação

Hebreus 6
9 Quanto a vós outros, todavia, ó amados, estamos persuadidos das coisas que são melhores e pertencentes à salvação, ainda que falamos desta maneira.
10 Porque Deus não é injusto para ficar esquecido do vosso trabalho e do amor que evidenciastes para com o seu nome, pois servistes e ainda servis aos santos.

Esses crentes, mencionados aqui, passaram da infância à maturidade, do leite ao alimento sólido. Eles experimentaram a justiça de Cristo. Seu arrependimento vai além do abandono de obras mortas: volta-se para Deus e para Cristo. Sua fé está em Deus revelado em Cristo. As lavagens externas deram lugar à transformação interior; a identificação repetida com sacrifícios, à união com Cristo; e os ensinos elementares sobre ressurreição e juízo, à plena revelação da bem-aventurada esperança.

A diferença é profunda: eles foram regenerados, além de terem sido iluminados; alimentam-se daquilo que outros apenas provaram. O Espírito Santo habita neles, e a Palavra de Deus é acolhida plenamente. Eles não apenas presenciam milagres: sua própria transformação é um milagre.

A advertência final é que ninguém receba a suave chuva da revelação de Deus e, por contínua indiferença e indecisão, se endureça cada vez mais, até produzir apenas espinhos e sarças, destinados ao fogo do juízo eterno. Essa é a mensagem da passagem e o apelo dirigido a quem ouve: respondam à revelação de Deus com fé em Cristo.

O chamado à fé e à perseverança

Hebreus 6
11 Desejamos, porém, continue cada um de vós mostrando, até ao fim, a mesma diligência para a plena certeza da esperança;
12 para que não vos torneis indolentes, mas imitadores daqueles que, pela fé e pela longanimidade, herdam as promessas.

O escritor volta a se dirigir aos incrédulos que haviam feito algum tipo de profissão de fé, mas corriam o perigo iminente de retornar ao judaísmo e perder definitivamente a oportunidade de salvação. O apelo é que se tornem imitadores dos verdadeiros crentes descritos anteriormente, abraçando também eles a fé em Cristo. Há urgência nessa exortação: “não vos torneis indolentes”, isto é, não sejam lentos em responder. Antes que seja eternamente tarde demais, aqueles que estão tão perto da salvação precisam seguir o exemplo dos que creem, cuja fé se manifesta no amor e no serviço ao Senhor. Vamos orar.

Pai, eu Te agradeço nesta manhã pela clareza da Tua Palavra. Pedimos que ela penetre nossos corações e que aqueles que ainda não se decidiram por Ti sejam movidos pelo Espírito Santo a responder com fé. Que produzam frutos como plantas úteis, agradando àquele que cultivou a terra e recebendo a Tua bênção, em vez de produzirem espinhos e sarças destinados a ser cortados e queimados. Oramos em nome de Cristo. Amém.


Esta é uma série de  sermões de John MacArthur sobre a carta aos Hebreus.

Clique aqui e veja o índice com os links dos sermões traduzidos já publicados desta série.


Este texto é uma síntese do sermão “If They Fall Away”, de John MacArthur, em 23/02/1975.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/sermons/1304/if-they-fall-away

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


 

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