Refletindo Sobre a Descrença

A fé e a incredulidade são temas centrais do Evangelho de João, mostrando que a salvação é inteiramente obra da graça de Deus, mas é recebida pela fé em Cristo. Deus concedeu evidências abundantes da identidade de seu Filho por meio das Escrituras, de seus milagres, de suas palavras e de sua perfeita revelação, tornando a incredulidade um problema do coração, e não da falta de provas. Diferentes manifestações de incredulidade — desde aqueles que aguardavam o cumprimento das promessas, passando pelos samaritanos que creram mediante a revelação de Cristo, até os judeus e galileus que exigiam sinais — é evidente o contraste entre uma fé superficial, baseada em milagres, e a fé salvadora, que confia na Palavra de Cristo. A chegada de Jesus à Galileia confirma essa realidade: embora recebido com entusiasmo, a maioria permaneceu incrédula, enquanto apenas aqueles que verdadeiramente creram em sua palavra experimentaram a salvação e a vida eterna.

Olhando para João 4.43-45 falaremos sobre crer, incredulidade e a fé. Este é um tema vital no Evangelho de João. Em João 3.1-10 identificamos o fato de que a salvação é obra de Deus. Jesus disse a Nicodemos: “é necessário nascer de novo, nascer do alto”. Ou seja, tal como não podemos contribuir para nosso nascimento físico, em nada podemos contribuir para nosso nascimento espiritual: é uma obra divina de Deus. Esse é o lado divino da salvação.

Mas a salvação também possui um aspecto humano. A obra soberana de Deus se realiza por meio da fé do pecador. Assim, embora o Evangelho de João enfatize a soberania divina na salvação, ele também destaca, de maneira igualmente clara, a responsabilidade humana de crer. Pode-se dizer, portanto, que o Evangelho de João é, acima de tudo, o evangelho da fé. A palavra grega para “crer” (pisteuo), é usada cerca de cem vezes no evangelho de João e, em quase todas essas ocasiões, refere-se a crer para a salvação.

Isso reafirma o propósito de João ao escrever seu evangelho: “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.31). O livro é evangelístico no sentido de que deseja que você creia na verdade e receba a vida eterna.

O Evangelho de fé

Nele encontramos ampla evidência para crermos em Cristo — por meio de quem ele é, de suas obras, palavras, sinais e maravilhas. Tudo isso foi cuidadosamente compilado por João sob a inspiração do Espírito Santo e apresentado de forma convincente para que creiamos no Senhor Jesus Cristo. Mas não é só isso. No Evangelho de João, somos ordenados a crer e advertidos sobre as terríveis consequências da incredulidade.

Este não é apenas o tema do Evangelho de João, mas sim o cerne da fé cristã. Trata-se de crer no Senhor Jesus Cristo para a salvação. Em resumo, todas as falsas religiões oferecem salvação por meio de algum comportamento humano, obra, cerimônia religiosa ou conquista moral. Satanás propagou a falsa religião para convencer o mundo de que o homem pode ser justificado diante de Deus, escapar do juízo e do inferno, e ainda ganhar a vida eterna por meio de seus próprios esforços.

Mas o verdadeiro evangelho diz que a salvação vem apenas pela fé e não por obras (Ef 2.1-10). A Escritura diz que Cristo é o caminho, a verdade e a vida, que ninguém vai ao Pai se não for por ele (Jo 14.6); diz que “não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At. 4.12); que “a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome” (Jo 1.12); e “quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 3.18).

A multidão perguntou a Jesus: “que faremos para realizar as obras de Deus?”. Jesus lhe respondeu: “a obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi enviado” (Jo 6.29). Tudo se resume a crer. Jesus disse:

Quem crê em mim crê, não em mim, mas naquele que me enviou. E quem me vê a mim vê aquele que me enviou. Eu vim como luz para o mundo, a fim de que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas. Se alguém ouvir as minhas palavras e não as guardar, eu não o julgo; porque eu não vim para julgar o mundo, e sim para salvá-lo. Quem me rejeita e não recebe as minhas palavras tem quem o julgue; a própria palavra que tenho proferido, essa o julgará no último dia (Jo 12.44-48).

Em sua oração sacerdotal, Jesus disse: “não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra” (Jo 17.20). João Batista declarou: “o Pai ama ao Filho, e todas as coisas tem confiado às suas mãos. Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (Jo 3.35-36).

a) A salvação resulta em vida eterna em Cristo: A vida eterna vem para aqueles que creem não apenas em Deus, mas em Deus revelado em Cristo. Ao crerem no Senhor Jesus Cristo, os pecadores se tornam filhos de Deus, obtêm a vida eterna, escapam do juízo divino e da morte eterna, tornando-se parte da ressurreição para a vida. Jesus disse: “quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida […] Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (Jo 5.24; 11.25).

b) A salvação nos torna habitação do Espírito Santo: Pecadores, ao crerem no Senhor Jesus Cristo, recebem o Espírito Santo e se tornam habitantes da terceira pessoa da Trindade. Que promessa incrível! Jesus disse: “quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre” (Jo 7.38). E o apóstolo João observa: “isto ele disse com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele cressem; pois o Espírito até aquele momento não fora dado, porque Jesus não havia sido ainda glorificado” (Jo 7.39).

c) A salvação no liberta das trevas espirituais e eternas: O próprio Senhor declarou: “quem me vê a mim vê aquele que me enviou. Eu vim como luz para o mundo, a fim de que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas” (Jo 12.45-46). A fé em Cristo tira o pecador do domínio das trevas e o introduz na luz da vida.

d) A salvação nos capacita para o serviço: Em João 14.12, Jesus afirma: “em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e as fará maiores do que estas.” Isso não significa obras maiores em natureza ou poder, mas em alcance. O ministério terreno de Jesus esteve concentrado, basicamente, nos limites de Israel. Após sua morte, ressurreição e ascensão, seus discípulos levariam o evangelho ao mundo inteiro, pelo poder do Espírito Santo. As obras seriam maiores em extensão, porque a mensagem alcançaria todas as nações.

A riqueza da salvação é recebida pela fé

Veja, então, a riqueza dessa salvação. Ela nos torna filhos de Deus e nos concede a vida eterna. Livra-nos da ira vindoura e do julgamento divino. Garante nossa participação na ressurreição. Dá-nos o Espírito Santo para habitar em nós. Arranca-nos das trevas espirituais e eternas. Capacita-nos para o ministério e para o serviço. Todos esses benefícios pertencem àqueles que creem no Senhor Jesus Cristo.

E tudo isso é recebido pela fé. Nenhuma dessas bênçãos é conquistada por mérito humano. A salvação não vem pelas obras, para que ninguém se glorie (Ef 2.8-9). Do começo ao fim, ela é um dom da graça de Deus recebido pela fé.

Por isso, a Escritura não trata a fé como uma simples sugestão. Crer em Cristo é uma ordem divina. Em João 6.28-29, a multidão perguntou: “que faremos para realizar as obras de Deus?” Jesus respondeu: “a obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi enviado.” Essa é a exigência de Deus para todo pecador. A resposta que ele requer não é uma lista de obras religiosas, mas a fé em seu Filho. Quem crê não perece; recebe a vida eterna.

Por que devemos crer em Jesus?

A resposta é porque Deus forneceu evidências abundantes. Esse é exatamente o propósito dos quatro Evangelhos. Mateus, Marcos, Lucas e João reúnem as provas necessárias para demonstrar que Jesus é o Cristo, o Messias prometido, o Filho de Deus, para que os homens creiam e tenham vida em seu nome.

Os Evangelhos registram suas palavras, suas obras e seus milagres. Demonstram que Ele cumpriu todas as promessas do Antigo Testamento. Revelam seu poder sobre as doenças, sobre os demônios, sobre a natureza e até sobre a morte. Cada sinal aponta para a mesma conclusão: Jesus é exatamente quem afirmou ser.

O próprio Senhor apresentou essa evidência. Em João 5.36-40, ele declara que suas obras testificam de que o Pai o enviou. Depois acrescenta que as Escrituras também dão testemunho dele. Os judeus examinavam diligentemente as Escrituras porque julgavam encontrar nelas a vida eterna. Contudo, recusavam-se a vir àquele para quem as Escrituras apontavam. Conheciam o texto, mas rejeitavam o autor da vida.

Essa é a tragédia da incredulidade. A evidência nunca foi o problema. As Escrituras apontavam para Cristo. Seus milagres confirmavam sua identidade. Suas palavras revelavam sua autoridade divina. Ainda assim, o mundo não o reconheceu. Ele veio para os seus, e os seus não o receberam.

Essa rejeição traz consequências eternas. Em João 8.24, Jesus declara: “se não crerdes que Eu Sou, morrereis nos vossos pecados.” Não existe afirmação mais séria do que essa. Quem rejeita Cristo permanece sob a culpa do pecado e caminha para a condenação eterna.

Observe que Jesus não faz distinção entre o irreligioso e o religioso. Os líderes judeus eram profundamente comprometidos com sua religião. Conheciam as Escrituras, praticavam cerimônias e ocupavam posições de autoridade espiritual. Mesmo assim, estavam perdidos, porque rejeitavam o próprio Messias. Religião sem Cristo não salva. Moralidade sem Cristo não salva. Conhecimento bíblico sem Cristo não salva.

A única esperança do pecador é confiar exclusivamente em Jesus Cristo. Não em suas obras. Não em seus méritos. Não em sua religião. Somente em Cristo. Quem crê nele recebe a vida eterna. Quem o rejeita morrerá em seus pecados. Essa continua sendo a grande divisão da humanidade: os que creem e vivem, e os que rejeitam o Filho e permanecem sob condenação.

A mensagem que a igreja deve proclamar ao mundo

O Evangelho nos entrega uma responsabilidade clara: chamar os pecadores à fé em Jesus Cristo. Isso é evangelismo. A missão da igreja não é oferecer soluções para os problemas superficiais da vida, mas conduzir homens e mulheres à fé no Salvador. Afinal, o problema universal não é a falta de propósito, de felicidade ou de realização pessoal. O problema universal é a incredulidade. Jesus disse: “Se não crerdes que Eu Sou, morrereis nos vossos pecados” (Jo 8.24). Essa é a verdadeira tragédia da raça humana. O homem está perdido não porque lhe falta autoestima, mas porque rejeita o Filho de Deus.

Por isso, o evangelismo bíblico é completamente diferente de grande parte da evangelização contemporânea. Com frequência, a mensagem começa e termina nas necessidades do homem: sua solidão, seus medos, sua ansiedade ou sua busca por felicidade. Cristo torna-se apenas um meio para satisfazer desejos pessoais. Mas esse não é o padrão das Escrituras. Os Evangelhos nunca apresentam Jesus como um recurso para melhorar a vida, mas como o Senhor e Salvador diante de quem todo pecador deve se arrepender e crer. O centro da mensagem não é o homem e suas necessidades; é Cristo e sua glória.

O evangelho, portanto, é simples e objetivo. O homem é pecador e caminha para a condenação eterna. A única esperança é o perdão oferecido por Deus mediante a fé em Jesus Cristo. Quem confessa que Jesus é Senhor e crê, de todo o coração, em sua morte e ressurreição recebe a remissão dos pecados e a vida eterna como dom da graça divina. Essa é a mensagem que deve ser proclamada. Se alguém rejeita a Cristo, não existe uma segunda abordagem baseada em promessas de felicidade ou realização pessoal. O problema permanece o mesmo: sem Cristo não há salvação.

Os tipos de incredulidade

a) A incredulidade que está à espera do cumprimento da promessa

É a incredulidade daquele que conhece as Escrituras, crê na Palavra de Deus e apenas aguarda a revelação do Messias. Foi assim com Zacarias e Isabel (Lc 1), que esperavam a consolação de Israel até receberem a confirmação divina por meio do anjo. O mesmo aconteceu com Ana e Simeão (Lc 2.25-38), que aguardavam a chegada do Redentor e o reconheceram imediatamente quando José e Maria entraram no templo trazendo o menino Jesus.

Esse mesmo padrão aparece nos primeiros discípulos. André, Pedro e os demais haviam aprendido, nas Escrituras, quem seria o Messias. Quando João Batista apontou para Jesus e declarou: “Eis o Cordeiro de Deus” (Jo 1.36), eles simplesmente o seguiram. Logo puderam anunciar: “Encontramos o Messias.” Observe que nenhum milagre foi necessário naquele momento. A fé nasceu da Palavra de Deus. Eles conheciam as profecias, compreendiam a identidade prometida do Messias e apenas precisavam saber que Jesus era aquele de quem as Escrituras falavam.

Esse continua sendo o caminho da verdadeira fé. Deus conduz o pecador por meio da sua Palavra até Cristo. O fundamento da fé nunca são experiências emocionais ou promessas de uma vida melhor, mas a revelação divina acerca da pessoa e da obra do Senhor Jesus. Quando o Espírito Santo abre os olhos do pecador para contemplar Cristo nas Escrituras, a incredulidade cede lugar à fé salvadora. É por isso que a tarefa da igreja é anunciar fielmente a Cristo, confiando que Deus, por sua Palavra, produz a fé nos corações daqueles que ele chama para Si.

b) A incredulidade que requer mais revelação da verdade

No capítulo 4 encontramos um segundo nível de incredulidade, ilustrado pela mulher samaritana e pelos habitantes de Sicar. Os samaritanos não eram judeus verdadeiros; sua religião era uma mistura de elementos do Pentateuco com tradições posteriores. Ainda assim, criam na vinda do Messias. A mulher declara: “quando o Messias vier, ele nos anunciará todas as coisas” (Jo 4.25). Para eles, o Messias seria identificado por seu conhecimento perfeito.

Foi exatamente por esse caminho que Jesus se revelou. Ao expor com precisão a vida daquela mulher, demonstrou possuir um conhecimento que somente o Messias poderia ter. Convencida, ela foi à cidade e anunciou: “Vinde comigo e vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Será este, porventura, o Cristo?” (Jo 4.29).

O resultado foi extraordinário: toda a aldeia veio a Jesus e muitos creram nele (Jo 4.39-42). É a única ocasião nos Evangelhos em que uma cidade inteira se volta para Cristo, e trata-se de uma cidade samaritana, não judaica. E tudo isso sem um único milagre. Eles precisavam apenas de mais revelação da verdade.

c) A incredulidade que exige sinais

Mas João apresenta ainda um terceiro e mais profundo tipo de incredulidade. Não basta o cumprimento das Escrituras, nem a revelação adicional. Essa incredulidade exige provas visíveis. É isso que Jesus encontra em João 4.48, quando declara ao oficial do rei: “Se, porventura, não virdes sinais e prodígios, de modo nenhum crereis.” As Escrituras já não lhes bastavam; exigiam manifestações extraordinárias.

Mesmo assim, em sua graça, Jesus foi ao encontro dessas pessoas. Os milagres tinham exatamente esse propósito. Em João 5.36, Ele afirma que suas obras testificavam que o Pai o havia enviado. Em João 10.37-38, acrescenta que, ainda que não cressem em suas palavras, deveriam crer nas suas obras. Seus milagres eram evidências divinas destinadas a conduzir os incrédulos ao reconhecimento de sua identidade.

João 2 ilustra esse princípio. Muitos creram ao ver os sinais realizados durante a Páscoa. Contudo, era uma fé superficial. Jesus não confiava neles, porque conhecia bem seus corações (Jo 2.23-25). Nicodemos expressa bem essa limitação: “Sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele” (Jo 3.1-2). Os milagres os levaram apenas à conclusão de que Jesus era um mestre enviado por Deus, mas ainda não reconheceram quem ele realmente era.

Assim, João apresenta uma progressão clara.

a) Os primeiros discípulos precisaram apenas do testemunho das Escrituras para seguir o Cordeiro de Deus.
b) Os samaritanos necessitaram de maior revelação e reconheceram o Messias por seu conhecimento sobrenatural.
c) Já muitos judeus e galileus exigiram sinais e maravilhas. Jesus os concedeu, mas nem mesmo os milagres venceram a incredulidade endurecida de muitos. Em vez de reconhecerem o Filho de Deus, atribuíram suas obras ao poder de Satanás e decidiram eliminá-lo (Jo 8.48; 11.53). A incredulidade humana pode resistir até mesmo às mais claras manifestações da verdade divina.

A rejeição a Cristo e a incredulidade da Galileia

Agora, quando Jesus chega à Galileia, retomaremos a história aqui no capítulo 4 e analisaremos os primeiros versículos, a partir do versículo 43. Nesse ponto, precisamos refletir sobre a questão da incredulidade. Podemos, portanto, chamar isso de “refletindo sobre a descrença”.

João 4
43 Passados dois dias, partiu dali para a Galileia.
44 Porque o mesmo Jesus testemunhou que um profeta não tem honras na sua própria terra.
45 Assim, quando chegou à Galileia, os galileus o receberam, porque viram todas as coisas que ele fizera em Jerusalém, por ocasião da festa, à qual eles também tinham comparecido.

Após permanecer dois dias em Sicar, onde muitos samaritanos creram nele (Jo 4.39-42), Jesus partiu para a Galileia (Jo 4.43). Foram, sem dúvida, dias de intenso ensino e grande alegria espiritual. Agora, seu ministério se volta para a região ao norte de Israel, ao redor do mar da Galileia.

No caminho, João faz uma observação que, à primeira vista, parece interromper a narrativa: “porque o próprio Jesus testemunhou que um profeta não tem honra na sua própria terra” (Jo 4.44). Por que essa afirmação aparece justamente aqui? João poderia simplesmente dizer que Jesus foi para a Galileia. No entanto, ele insere esse comentário para preparar o leitor para o que está por vir.

A expressão “sua própria terra” refere-se, em primeiro lugar, a Nazaré, sua cidade de origem. Nos Evangelhos, esse termo está associado ao lugar onde Jesus foi rejeitado e onde tentaram matá-lo após sua pregação (Lc 4.16-30). Mas o princípio também se estende à Galileia como um todo. Embora alguns cressem, a maioria rejeitaria o Senhor. Assim, a declaração de Jesus não é apenas um provérbio; é uma antecipação profética da resposta que receberia entre os seus.

Isso não significa que ninguém tenha crido. Após a ressurreição, havia cerca de quinhentos irmãos reunidos na Galileia (1Co 15.6). Contudo, diante das multidões que ouviram sua pregação e testemunharam seus milagres, esse número era pequeno. A regra geral foi a rejeição.

O Evangelho de João registra apenas dois milagres realizados durante cerca de dezesseis meses do ministério de Jesus na Galileia: a cura do filho do oficial do rei (Jo 4.46-54) e a multiplicação dos pães (Jo 6). Mas os outros Evangelhos mostram que Jesus realizou incontáveis sinais naquele período. Curou leprosos, paralíticos, endemoninhados, cegos e mudos; ressuscitou mortos, acalmou a tempestade, andou sobre o mar e alimentou multidões. Os milagres eram constantes, mas, em sua maior parte, encontraram incredulidade.

Por isso, em Mateus 11, Jesus pronunciou severos juízos contra Corazim, Betsaida e Cafarnaum. Essas cidades haviam recebido mais luz do que Tiro, Sidom e até mesmo Sodoma, mas permaneceram impenitentes. Quanto maior a revelação recebida, maior a responsabilidade diante de Deus. Rejeitar Cristo depois de contemplar tão abundante evidência torna o juízo ainda mais severo. Esse é o ponto central do texto: a incredulidade persiste não por falta de luz, mas pela dureza do coração.

Após chegar à Galileia, Jesus recebeu uma acolhida aparentemente calorosa. João registra: “quando, pois, chegou à Galileia, os galileus o receberam” (Jo 4.45). Mas que tipo de recepção foi essa? O próprio versículo responde: eles o receberam porque haviam visto os sinais que realizara em Jerusalém durante a festa da Páscoa, da qual também haviam participado.

Era o mesmo tipo de fé descrito em João 2: uma fé baseada no impacto dos milagres, não em uma compreensão verdadeira de quem Cristo era. É a mesma atitude expressa por Nicodemos: “sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele” (Jo 3.2). Havia respeito, admiração e certo interesse, mas ainda não existia fé salvadora. Era uma fé superficial.

Contudo, em meio à incredulidade predominante, João destaca uma exceção. Nos versículos 46 a 54, do capitulo 4, encontramos a cura do filho do oficial do rei. Essa narrativa contrasta deliberadamente com a incredulidade da Galileia. Enquanto a maioria apenas admirava os milagres, esse homem creu na palavra de Cristo.

O ponto decisivo aparece no versículo 50: “O homem creu na palavra que Jesus lhe disse e partiu.” Antes mesmo de ver qualquer evidência, ele confiou na palavra de Jesus. Depois, quando constatou que seu filho havia sido curado exatamente na hora em que Cristo falou, João conclui: “Creu ele e toda a sua casa” (Jo 4.53).

Esse é o propósito do relato. Uma região inteira podia ouvir os ensinos de Jesus, testemunhar seus milagres e, ainda assim, permanecer em incredulidade. A salvação, porém, alcançou um homem, sua família e sua casa porque eles creram em Cristo. A diferença nunca esteve na quantidade de evidências, mas na resposta dada à revelação recebida.

Essa mesma verdade reaparece em Atos 16. O carcereiro de Filipos, profundamente abalado pelos acontecimentos daquela noite, faz a pergunta mais importante que um ser humano pode fazer: “Senhores, que devo fazer para que eu seja salvo?” (At 16.30).

A resposta de Paulo e Silas é clara e suficiente: “crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa” (At 16.31). A salvação não é alcançada por obras, penitências, rituais ou méritos pessoais. Ela é recebida pela fé no Senhor Jesus Cristo.

Naturalmente, era preciso que o carcereiro soubesse em quem deveria crer. Por isso, Paulo e Silas anunciaram a Palavra do Senhor a ele e a todos os que estavam em sua casa. A fé sempre nasce da revelação da verdade. O evangelho foi pregado, eles creram, foram imediatamente batizados e se alegraram porque Deus havia transformado aquela família.

Em uma única noite, toda aquela casa passou da morte para a vida, das trevas para a luz e da condenação para a salvação. Nenhuma peregrinação foi exigida. Nenhuma penitência foi imposta. Nenhum mérito humano foi acrescentado. Apenas uma resposta foi requerida: crer no Senhor Jesus Cristo.

Essa continua sendo a mensagem do Evangelho. Quem crê em Cristo recebe a vida eterna. Quem se recusa a crer permanece em seus pecados. A linha que separa a salvação da condenação não é a quantidade de conhecimento religioso, nem a prática de boas obras, mas a fé pessoal e verdadeira no Filho de Deus. Na próxima vez, vamos ouvir a história de como o oficial real com o filho doente chegou à fé. Vamos nos inclinar em oração.

Novamente, Senhor, sempre sentimos como se tivéssemos nos banqueteado com a Tua verdade, com a Tua Palavra, por mais inadequadas que nossas palavras possam ser, a Tua palavra é vida, alegria, paz e poder para nós. Obrigado pela experiência que tivemos, mesmo hoje, com o Salvador nestes poucos versículos. Que emoção é para nós conhecer a verdade, conhecer o Verdadeiro, o Deus verdadeiro e vivo através do Senhor Jesus Cristo vivo. Oro por aqueles que não creem, que lutam contra isso, que não estão dispostos a se arrepender de seus pecados e depositar sua confiança em Ti como Salvador.

Oro, Senhor, para que sintam tão pesado sobre si o peso da realidade de que morrerão em seus pecados e perecerão para sempre em tormento consciente no inferno, que esse fardo seja tão pesado que não consigam descansar, não consigam dormir até que confiem em Ti, até que depositem sua fé em Cristo.

Pai, realiza a Tua obra em cada coração, nós oramos. Que Cristo seja exaltado em nós e através de nós, renova-nos na alegre oportunidade que temos de dizer aos outros que eles devem crer, que devem crer no Senhor Jesus Cristo. Dá-nos zelo e fidelidade para proclamar essa mensagem, oramos em Seu maravilhoso nome.


Esta é uma série de sermões traduzidos de John MacArthur sobre o Evangelho de João.
Clique aqui e acesse o índice ordenado por capítulo, com links para leitura. 


Este texto é uma síntese do sermão “Contemplating Unbelief”, de John MacArthur, em 26/5/2013.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/sermons/43-23/contemplating-unbelief

Tradução e síntese feitas pelo Site Rei Eterno


 

 

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