A Verdadeira Adoração

Adoração é amar e honrar a Deus. Adoração é conhecer a Deus por quem ele é, obedecê-lo e proclamar seu nome. A adoração é moldada por nossa compreensão da Palavra de Deus, quanto mais você se aprofunda na verdade sobre Deus, mais elevada se torna a sua adoração. Um conhecimento superficial de Deus força a necessidade de se manipular emocionalmente as pessoas, o que resulta em uma adoração superficial.

Vamos prosseguir agora com o relato da conversa entre Jesus e a mulher samaritana junto a um poço, uma das narrativas mais conhecidas e marcantes das Escrituras. Este fato está registrado em João 4.1-42. Na última vez vimos até o versículo 15. Devemos lembrar que o Evangelho de João possui um propósito claramente declarado: “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.31).

O evangelho de João é um livro apologético, pois apresenta evidências de que Jesus é o Filho de Deus. Em segundo lugar, é um livro evangelístico, porque conclama seus leitores a crerem nessa verdade para receberem a vida eterna. Por isso, em qualquer parte do Evangelho de João, o foco sempre recairá sobre a majestade, a glória e a divindade de Jesus Cristo.

E é exatamente isso que encontramos aqui. Sua divindade brilha quando revela à mulher toda a sua história moral. Ele nunca a havia visto antes, não conhecia sua família nem seu passado, mas conhecia perfeitamente sua vida. Trata-se de uma clara manifestação de sua natureza divina.

Ao mesmo tempo, vemos também sua humanidade. No versículo 6, Jesus se assenta junto ao poço porque está completamente exausto. O termo grego utilizado indica um estado de extremo cansaço. Como homem, ele experimentava fadiga real; como Deus, possuía conhecimento perfeito. Essa união gloriosa entre divindade e humanidade é um dos grandes temas deste Evangelho.

No centro dessa conversa encontra-se o ensino sobre a verdadeira adoração (Jo 4.21-24). Esse é o tema dominante deste relato. Talvez seja útil pensar na adoração de uma forma pouco comum. Adoração é, em essência, sinônimo de salvação. Existem apenas dois tipos de pessoas no mundo: aquelas que adoram a Deus de maneira aceitável e aquelas que não o adoram. Em outras palavras, existem os salvos e os perdidos.

Quando falamos de adoração, estamos falando da própria essência da salvação: confessar Jesus como Senhor, submeter-se a Deus e à sua revelação em Cristo, obedecer à ordem divina que diz: “este é o meu Filho amado; a ele ouvi” (Mt 17.2). A salvação é um ato de adoração obediente. É render-se diante do Deus triúno.

Nesse sentido, a definição mais pura de adoração é a própria salvação. Ninguém pode adorar verdadeiramente a Deus sem antes ter se submetido ao evangelho de seu Filho. Portanto, embora a conversa com a mulher gire em torno da adoração, o que temos aqui é uma profunda explicação sobre a natureza da verdadeira salvação.

Repetindo: Há apenas dois grupos de pessoas: os que adoram a Deus de forma aceitável e os que não o fazem. Os verdadeiros adoradores são os crentes, possuidores da vida eterna, destinados a adorá-lo perfeita e eternamente no céu. Os que rejeitam essa adoração permanecerão para sempre incapazes de adorá-lo, sob condenação eterna. Não existe uma terceira possibilidade.

Mas além de compreender a importância da adoração, quero destacar outro aspecto desta passagem: a maneira como Jesus conduz esta mulher à salvação. Sua conversão torna-se tão evidente que ela imediatamente se transforma em testemunha para sua cidade. A mudança em sua vida é tão marcante que Deus a utiliza como instrumento para levar outros ao conhecimento de Cristo.

Ao estudarmos este relato, queremos contemplar a glória de Cristo, mas também aprender como ele evangelizou essa mulher. Quais foram os elementos e a sequência de sua abordagem? Como Ele alcançou uma pessoa indiferente, rejeitada pela sociedade e moralmente comprometida?

Diferentemente de Nicodemos, ela não possuía interesse espiritual algum. Nicodemos era um mestre em Israel, conhecedor das Escrituras e consciente de sua necessidade espiritual. Por isso procurou Jesus durante a noite em busca da verdade. A mulher samaritana, porém, não demonstrava qualquer interesse religioso no início da conversa.

E é exatamente isso que torna este relato tão importante para nós. Em sua vida cristã, talvez ocasionalmente alguém lhe pergunte como se tornar um cristão. Contudo, isso raramente acontece. Na maioria das vezes, você precisará tomar a iniciativa. Foi exatamente o que Jesus fez.

Vivemos cercados por pessoas que, à primeira vista, não demonstram interesse pelas verdades espirituais. Ainda assim, somos chamados a alcançá-las. Neste relato, o Senhor nos oferece um modelo de evangelização. Ao observarmos sua abordagem, veremos quão eficaz ela pode ser quando acompanhada pela graça de Deus.

1) Revisão do sermão anterior (João 4.1-15) 

Voltemos à narrativa, revisando o que vimos na última vez, em João 4.1-15, e depois vamos prosseguir. Jesus estava deixando a Judeia e seguindo para o norte, rumo à Galileia. Seu ministério havia se sobreposto ao de João Batista, ambos pregando o arrependimento e preparando o povo para a chegada do Reino. Porém, a oposição dos líderes judeus crescia rapidamente. Como sua hora ainda não havia chegado, Ele partiu, submetendo-se perfeitamente ao tempo determinado pelo Pai.

Em sua viagem, passou por Samaria. Do ponto de vista geográfico, essa era a rota mais curta. Muitos judeus, entretanto, evitavam aquele caminho por desprezarem os samaritanos, descendentes da mistura entre israelitas e povos pagãos após a conquista assíria em 722 a.C. Consideravam-nos impuros e apóstatas.

Jesus, porém, não compartilhava desse preconceito. Ele não via os samaritanos como inimigos, mas como um campo missionário. Havia uma necessidade maior do que a geográfica: a necessidade divina. Um encontro preparado por Deus o aguardava junto ao poço de Jacó. Após uma longa e cansativa caminhada, Jesus chegou ao poço e ali se assentou. O texto bíblico enfatiza seu extremo cansaço. Então apareceu uma mulher samaritana para tirar água.

Normalmente, as mulheres buscavam água ao entardecer. Mas aquela mulher veio ao meio-dia. Provavelmente procurava evitar o contato com as demais pessoas da cidade, que conheciam sua reputação moral. Alguns estudiosos sugerem ainda que havia poços mais próximos de Sicar, e que ela escolheu aquele mais distante justamente para permanecer isolada. Seja qual for a razão, Deus a conduziu exatamente ao lugar onde deveria estar.

Jesus lhe disse: “Dá-me de beber”. Os discípulos haviam ido à cidade comprar alimento, deixando-os a sós. E é aqui que aprendemos a primeira lição sobre a evangelização de uma pessoa indiferente: tudo começa com uma condescendência inesperada.

Jesus estabelece uma ponte com ela. Coloca-se na posição de necessitado e lhe pede ajuda. É um gesto simples, mas profundamente significativo. Ao mesmo tempo, era algo chocante, pois ela era uma mulher samaritana. João destaca repetidamente esse fato, lembrando-nos de que os judeus não mantinham relações com os samaritanos. A própria mulher expressa sua surpresa: “Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana?” Jesus ignorava as barreiras étnicas e religiosas erguidas pela tradição humana. Ele via uma alma que precisava ser alcançada.

A partir dessa conexão, Jesus oferece algo que ela nem sequer havia pedido. No versículo 10, diz: “Se conheceras o dom de Deus e quem é o que te pede: dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva”. Ela não estava buscando a Deus. Não fazia perguntas espirituais. Foi Jesus quem tomou a iniciativa. Assim também acontece na maior parte da evangelização. O Senhor conduz a conversa para o maior de todos os temas: o dom gratuito de Deus.

Observe a ligação entre as palavras “dom” e “pedir”. Essa é a diferença fundamental entre o evangelho e todas as religiões humanas. As religiões dizem: faça, mereça, conquiste. O evangelho diz: peça. O pecador nada pode oferecer a Deus. Tudo o que pode fazer é clamar por misericórdia, como o publicano: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador (Lc 18.13).

Jesus oferece a água viva — a vida que procede de Deus. Mas a mulher não compreende suas palavras. Elas lhes parecem estranhas e até absurdas. Por isso, responde com ironia: “Senhor, tu não tens com que tirar água, e o poço é fundo. Onde, pois, consegues essa água viva?” Em seguida, acrescenta: “És tu, porventura, maior do que Jacó?”

Há confusão em suas palavras, mas também sarcasmo. Ela não entende quem está diante dela. Mesmo assim, Jesus responde com paciência e graça. Ele amplia sua oferta: “Quem beber desta água tornará a ter sede; aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna”.

Agora o Senhor vai além da misericórdia oferecida e apresenta a bênção incomparável da salvação. A água viva não apenas satisfaz; ela concede vida eterna. É exatamente assim que a evangelização deve acontecer. Partimos de um ponto de contato comum e conduzimos a conversa ao dom de Deus: a vida eterna oferecida gratuitamente aos pecadores.

A mulher, entretanto, continua incrédula. No versículo 15, diz: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não mais tenha sede, nem precise vir aqui buscá-la”. Tudo indica que ainda fala com ironia. Ela continua pensando em água física e não percebe que está diante da fonte da vida eterna.

2) A convicção inabalável de Jesus

João 4
15 Disse-lhe a mulher: Senhor, dá-me dessa água para que eu não mais tenha sede, nem precise vir aqui buscá-la.
16 Disse-lhe Jesus: Vai, chama teu marido e vem cá.
17 ao que lhe respondeu a mulher: Não tenho marido. Replicou-lhe Jesus: Bem disseste, não tenho marido;
18 porque cinco maridos já tiveste, e esse que agora tens não é teu marido; isto disseste com verdade.

Provavelmente ela tinha se virado naquele momento para pegar água e voltar para a aldeia, intrigada com aquele estranho, que parecia um tanto delirante, fazendo afirmações tão estranhas. Ela responde corretamente: ‘Não tenho marido’”.

Vimos no última vez três componentes do evangelismo pessoal de Jesus: sua condescendência em conversar com uma pessoa rejeitada; a misericórdia não solicitada e as bênçãos incomparáveis prometidas. E agora vemos uma convicção inabalável. Com base apenas nos três primeiros componentes, poderíamos ter um falso convertido. Se você evangelizar puramente com base em todos os dons de Deus, haverá pouca resistência.

Mas, de forma convicta, Jesus confronta seu pecado, e isso mudará completamente a percepção dela sobre Jesus. É crucial e necessário levar o pecador a encarar a culpa do pecado e sentir o peso do julgamento divino, pois a fé deve ser acompanhada de arrependimento. Ela era uma mulher adúltera e conhecia a lei do Antigo Testamento sobre o adultério.

Os samaritanos aceitavam o Pentateuco, que é muito claro: “Não adulterarás” (Ex 20.14). É maravilhoso apresentar ao pecador todas as glórias do evangelho, todas as bênçãos, o dom de Deus, a água viva, a vida eterna. Mas não basta parar por aí, não basta apresentar a verdade positiva da bênção de Deus que satisfaz a alma. Se você fizer apenas isso e depois pedir uma resposta, obterá uma conversão falsa e, consequentemente, alguém enganado sobre sua verdadeira condição.

Ela ocultou sua real situação, mas Jesus reconheceu que, de fato, ela falou a verdade sobre não ter marido. Houve uma grande mudança na conversa. Não se falava mais de bênçãos, misericórdias e satisfação. Essa pecadora inicialmente indiferente, ignorante e descuidada precisava ser levada à convicção e ao arrependimento por sua condição miserável. Já que ela não estava disposta a contar toda a verdade, Jesus a contou por ela: “cinco maridos já tiveste, e esse que agora tens não é teu marido”.

O divórcio era muito comum entre os judeus em Israel, ainda mais entre os samaritanos. Essa mulher já havia se divorciado várias vezes, e agora seguia o mesmo padrão, vivendo com um homem que não é seu marido. Ela era uma adúltera vivendo em um relacionamento imoral. Ela morava com algum homem que não era seu marido. Morar junto não é casamento, pois o casamento é uma aliança vinculativa, formal, social, oficial e pública.

Em sua onisciência, Jesus sabia a história daquela mulher. A vida pecaminosa dela foi exposta, ela não podia se esconder, não há para onde ir. E a resposta dela é uma resposta incrível e maravilhosa.

João 4
19 Senhor, disse-lhe a mulher, vejo que tu és profeta.

Sua ideia inicial, de que ele era um estranho falando coisas que lhe pareciam bizarras, desapareceu. O texto grego tem o sentido de que ela chegou ao conhecimento de que Jesus era um profeta, ou seja, que ele falava da parte de Deus. Aquilo que ela havia escondido, foi exposto por Jesus. E ela diz:

João 4
20 Nossos pais adoravam neste monte; vós, entretanto, dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar.

Sua pergunta é: Em que lugar devo ir para adorar? Sua alma está se curvando lentamente e ela sabe que estar bem com Deus é uma questão de adoração. Ela só quer saber onde ela deveria ir para adorar, se ao templo dos samaritanos no Monte Gerizim ou no templo de Jerusalém, no Monte Moriá (atual Monte do Templo).

Na evangelização, há condescendência, há a oferta de misericórdia, uma bênção incomparável e a vida eterna. Há o necessário confronto e a convicção do pecado para levar o pecador ao arrependimento. E isso precisa ser abordado, a adoração inaceitável precisa ser abandonada. E o que Jesus disse à mulher é que a maneira como ela encarava a adoração precisava ser abandonada.

João 4
21 Disse-lhe Jesus: Mulher, podes crer-me que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai.
22 Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus.
23 Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores.
24 Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade.

É uma porção monumental sobre adoração. E o texto começa falando de que a adoração inaceitável precisa ser abandonada. Aquela mulher precisava saber disso.

O culto samaritano no Monte Gerizim era uma forma corrompida do verdadeiro culto de Israel. Segundo relatos históricos, sua origem está ligada a um sacerdote judeu apóstata que se associou a Sambalate, inimigo de Neemias, e ajudou a estabelecer um centro religioso rival ao de Jerusalém.

Embora preservasse elementos do judaísmo, especialmente o Pentateuco, o culto samaritano havia sido profundamente influenciado pelo sincretismo religioso surgido após a conquista assíria do Reino do Norte, em 722 a.C. Com a mistura entre os israelitas remanescentes e povos pagãos trazidos pelos assírios, desenvolveu-se uma religião que combinava aspectos da revelação divina com crenças pagãs. O culto samaritano representava uma distorção da verdadeira adoração.

Ela sabia que precisava ir a Deus, ajoelhar-se e reconhecê-Lo, mas não sabia para onde ir. Tudo o que ela conhecia era a religião externa, porque é tudo o que os pecadores conhecem. Ela fica atônita com o conhecimento que Jesus tem de seu padrão de vida iníquo. Sua consciência é atormentada. Sua alma é transpassada.

Ela é desmascarada como uma adúltera que quebrou a aliança. Ela é uma estranha à justiça. O peso da culpa, que ela passou grande parte do tempo tentando evitar, agora cai com toda a força sobre sua cabeça. A realidade se impõe à sua mente antes indiferente: ela precisa se reconciliar com Deus. E talvez esse seja o caminho para a água viva e a vida eterna. Ela precisava ir a Deus.

Para onde ela vai? Ela quer se arrepender, mas para onde vai? Ela vai ao templo dos samaritanos no Monte Gerizim e oferece um sacrifício, pede a um sacerdote que ofereça um sacrifício? Ela vai a Jerusalém e pede a um sacerdote de lá que ofereça um sacrifício? O que ela faz? Como encontra a paz? Como obtém o perdão?

Os pecadores naturalmente veem a religião como algo externo. Para onde eu vou? A qual igreja eu vou? A qual lugar? Qual ritual? Qual cerimônia? Porque isso é tudo o que eles conhecem, pois seus corações nunca foram transformados. Eles não conhecem a vida interior de Deus.

Jesus lhe diz, em outras palavras: “Mulher, creia em mim, você precisa crer no que eu lhe digo” (Jo 4.21). E lhe diz: “nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai”. Os locais de cultos em ambos os montes foram destruídos. Mas Jesus falou sobre o que estava por vir após sua morte na cruz.

2.1) A adoração que Deus recebe

A verdadeira adoração não exige um lugar, um rito ou uma cerimônia de qualquer tipo. A verdadeira adoração é sempre sobre amar, honrar, obedecer e servir a Deus de todo o coração. Jesus lhe diz que a verdadeira adoração, aquela a que Deus procura, é a adoração em espírito e em verdade.

Jesus lhe diz: “Vós adorais o que não conheceis” (Jo 14.22). Foi uma condenação à religião samaritana, pois eles se limitavam ao Pentateuco, e ainda incorporaram elementos pagãos e idólatras da religião daqueles com quem se casavam.

E Jesus acrescenta: “nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus.” As Escrituras foram dadas aos judeus, o Messias veio por meio de Israel. É isso que Jesus quis dizer. Não é só para os judeus, mas vem dos judeus. Paulo escreveu: “aos judeus foram confiadas as palavras de Deus” (Rm 3.2). Mas isso não foi um elogio ao judaísmo apóstata, o qual Jesus denunciou muitas vezes.

Você compreende o significado da morte de Jesus Cristo quando o véu que separava o Santo dos Santos foi rasgado de alto a baixo? (Mt 27.51). Aquele acontecimento simbolizou o fim de todo o sistema de adoração do Antigo Testamento, com seus rituais, cerimônias e símbolos que apontavam para Cristo.

Na cruz, o Senhor confirmou que a antiga ordem havia chegado ao seu cumprimento. Não haveria mais um lugar específico onde Deus devesse ser buscado. Não haveria mais templos, sacerdotes, altares ou sacrifícios. As vestes litúrgicas, o incenso, as cerimônias e todos os elementos externos da antiga adoração haviam cumprido seu propósito e agora davam lugar à realidade para a qual apontavam: o próprio Cristo.

Tanto a adoração equivocada dos samaritanos quanto a adoração corrompida do judaísmo incrédulo estavam destinadas a desaparecer. Não haveria mais montanhas sagradas, templos sagrados ou rituais sagrados. Tudo isso era sombra; a substância é Cristo.

Na verdade, Deus sempre buscou a adoração do coração. Por isso os profetas denunciaram repetidamente a religiosidade vazia de Israel. Amós declarou que Deus rejeitava suas festas e cânticos porque seus corações estavam longe dele (Am 5.21-27). Malaquias condenou o povo por oferecer sacrifícios defeituosos (Ml 1.6-14). Isaías denunciou uma nação espiritualmente enferma, cuja adoração externa não correspondia à condição do coração (Is 29.13).

Os símbolos do antigo sistema tinham a função de conduzir o povo à verdadeira adoração. Porém, quando Cristo veio e consumou Sua obra redentora, esses símbolos perderam sua função. A realidade havia chegado. Agora Deus é adorado não por meio de um sistema cerimonial, mas em espírito e em verdade.

Somos agora templo do Espírito Santo (1Co 6.19). Pedro escreveu: “vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo” (1Pe 2.5). Não há espaço na igreja para estruturas hierárquicas, rituais, vestimentas distintas para destacar homens, altares etc. Tudo isso não passa de uma substituição trágica para o culto espiritual que nosso Senhor nos pede aqui.

Cristo inaugurou uma nova era de adoração, que não se concentra em aspectos externos ou em símbolos, mas no que é interno, no que é real e verdadeiro. Tudo o que você precisa para adorar é a verdade das Escrituras e um coração que ama a Deus em qualquer lugar. São essas pessoas que o Pai procura para serem seus adoradores. Ele quer adoradores que o adorem em espírito e em verdade.

A verdadeira adoração é dirigida ao Deus Triúno. Em João 4, Jesus fala do Pai que busca adoradores, mas esse Pai não pode ser compreendido isoladamente do Filho e do Espírito Santo. O Deus revelado nas Escrituras é um só Deus em três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Por isso, adorar em verdade significa adorar a Deus conforme Ele Se revelou. A adoração cristã começa com uma compreensão correta de quem Deus é, pois não podemos adorar adequadamente um deus criado pela imaginação humana.

2.2) A falsa adoração

A importância dessa verdade torna-se evidente quando observamos sistemas religiosos que distorcem a natureza de Deus. Muitas seitas e falsas religiões apresentam conceitos incompatíveis com a revelação bíblica e que são verdadeiras afrontas às Escrituras e ao Senhor.

Por exemplo, a teologia mórmon tradicional apresenta uma concepção herética sobre Deus, radicalmente oposta daquela revelada nas Escrituras. Segundo o mormonismo, Deus Pai não é um ser eterno e absoluto que sempre existiu, mas alguém que, em um passado remoto, foi um homem mortal em outro mundo e, após sua exaltação, tornou-se deus. Além disso, Ele não seria o único Deus, mas faria parte de uma cadeia de divindades, estando sob a autoridade de outros deuses superiores.

O mormonismo também ensina a existência de uma Mãe Celestial, ao lado do Pai Celestial, e afirma que todos os seres humanos existiram anteriormente como filhos espirituais desse casal divino em um estado pré-mortal. Nessa perspectiva, Jesus e Lúcifer seriam irmãos espirituais, ambos gerados pelo Pai Celestial antes de virem à Terra.

Essa visão se estende também ao destino final do homem. De acordo com o mormonismo, seres humanos fiéis podem alcançar a condição de divindade, governando seus próprios mundos e gerando filhos espirituais, assim como teria acontecido com o Pai Celestial. Algumas formulações históricas dessa crença incluem a ideia de que Deus possui um corpo físico, habita próximo à estrela Kolob e que a exaltação plena envolve privilégios ligados à procriação eterna.

Essas doutrinas afrontam profundamente o ensino bíblico de que existe um único Deus eterno, incriado, soberano e imutável, distinto de sua criação e digno de toda adoração. É uma compreensão completamente falsa e oposta sobre quem Deus é. Quando a verdade sobre Deus é corrompida, a adoração também é corrompida.

Por isso, Jesus declara que o Pai procura verdadeiros adoradores, aqueles que o adoram em espírito e em verdade. Deus não é um homem exaltado nem um ser limitado; Ele é Espírito, eterno, santo e soberano. A verdadeira adoração não se fundamenta em lugares, rituais ou tradições humanas, mas nasce de um coração regenerado e é guiada pela verdade revelada nas Escrituras. Quanto mais conhecemos a Deus conforme Sua Palavra, mais nossa adoração se torna agradável a Ele.

Adoração não é música. Adoração é amar e honrar a Deus. Adoração é conhecer a Deus por quem ele é, obedecê-lo e proclamar seu nome. A música é uma das maneiras pelas quais expressamos adoração. A adoração é moldada por nossa compreensão da Palavra de Deus, quanto mais você se aprofunda na verdade sobre Deus, mais elevada se torna a sua adoração. Um conhecimento superficial de Deus força a necessidade de se manipular emocionalmente as pessoas, o que resulta em uma adoração superficial.

A macravilhosa conclusão de Jesus

Voltando à história, chegamos a última característica da abordagem evangelística de Jesus: Uma maravilhosa conclusão:

João 4
25 Eu sei, respondeu a mulher, que há de vir o Messias, chamado Cristo; quando ele vier, nos anunciará todas as coisas.
26 Disse-lhe Jesus: Eu o sou, eu que falo contigo.

A mulher samaritana possuía algum conhecimento das promessas messiânicas contidas no Pentateuco. Afinal, os samaritanos aceitavam os cinco livros de Moisés e encontravam neles referências à vinda do Messias, especialmente na promessa de um grande Profeta semelhante a Moisés, anunciada em Deuteronômio 18.15-18. Além disso, haviam preservado parte da expectativa messiânica herdada da antiga fé de Israel.

Por isso ela diz: “Eu sei que há de vir o Messias, chamado Cristo; quando ele vier, nos anunciará todas as coisas”. Suas palavras revelam uma alma que anseia pela verdade. Ela reconhece que ainda não possui todas as respostas e crê que somente o Messias poderá trazer a revelação plena de Deus e conduzir os homens à verdadeira adoração.

É nesse momento que ocorre uma das mais extraordinárias revelações de todo o Evangelho de João. Jesus lhe responde: “Eu o sou, eu que falo contigo”. No texto original, a declaração é ainda mais impactante, pois ecoa o nome divino revelado no Antigo Testamento: “EU SOU”. Em outras palavras, Jesus afirma que aquele que está diante dela é o próprio Deus encarnado, o Messias prometido.

Essa é a culminação de toda a conversa. A mulher está pronta para receber a verdade, e Cristo se revela a ela de forma clara e direta. Ao longo do Evangelho de João, a expressão “EU SOU” aparece repetidamente para afirmar Sua divindade, seja nas declarações “Eu sou o pão da vida” (6.35), “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8.12), “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (14.6), entre outras. Aqui, diante da samaritana, o Messias remove o véu e revela sua verdadeira identidade.

Essa mulher marginalizada, imoral e ignorante com quem o Senhor se sentou para conversar e pregar o evangelho, mostrou-se completamente desinteressada, mas agora deseja a verdade sobre a vida eterna de Deus, que seu coração tanto anseia. Ela quer o perdão por sua vida miserável.

E naquele momento em que ela crê e se arrepende, o Messias lhe é revelado. Esta é uma obra divina. Ela não sabia absolutamente nada sobre Jesus quando tudo começou. Agora, ela quer saber tudo o que estiver disponível sobre ele para poder ser uma verdadeira adoradora.

Como sabemos que a mulher samaritana realmente creu em Cristo? A evidência aparece nos versículos seguintes. João escreveu: “Muitos samaritanos daquela cidade creram nele, em virtude do testemunho da mulher, que anunciara: Ele me disse tudo quanto tenho feito” (Jo 4.39). Sua transformação foi tão evidente que suas palavras levaram outros a buscar o Salvador.

Vindo, pois, os samaritanos ter com Jesus, pediam-lhe que permanecesse com eles; e ficou ali dois dias. Muitos outros creram nele, por causa da sua palavra, e diziam à mulher: Já agora não é pelo que disseste que nós cremos; mas porque nós mesmos temos ouvido e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo (Jo 4.40-42).

Eles creram que a salvação não era apenas para os judeus, mas também para os samaritanos e para todos os povos.

Há também uma lição importante sobre evangelização nesse relato. Jesus conduziu aquela mulher passo a passo. Primeiro, aproximou-se dela com graça e compaixão. Depois, despertou seu interesse pelas realidades espirituais, apresentou-lhe a promessa da água viva, confrontou seu pecado e corrigiu seus conceitos errados sobre a adoração. Assim, Jesus a levou até o ponto em que estava pronta para receber a revelação da verdade.

Entretanto, a etapa decisiva não pertence ao evangelista, mas a Deus. Nenhum ser humano tem o poder de abrir os olhos espirituais de outra pessoa. Nossa responsabilidade é apresentar fielmente a verdade, apontar para Cristo e chamar os pecadores ao arrependimento e à fé. A revelação salvadora de quem Cristo é pertence exclusivamente à obra divina.

Assim como aconteceu com a mulher samaritana, temos o exemplo de Lídia, a vendedora de púrpura de Tiatira, em que “o Senhor lhe abriu o coração para atender às coisas que Paulo dizia” (At 16.16). Muitas vezes compartilhamos a verdade sem conhecer o resultado, mas isso não deve nos desanimar. Cabe a nós semear e anunciar Cristo; cabe a Deus revelar Seu Filho aos pecadores, segundo Sua graça e seu propósito soberano. Vamos orar.

Pai, nós Te agradecemos pelo tempo que passamos juntos nesta manhã, meditando neste relato tão maravilhoso. Procuramos condensar em alguns princípios práticos as riquezas desta passagem, mas sabemos que estamos longe de esgotar sua profundidade e beleza. Somos limitados e frágeis ao contemplar encontros tão grandiosos entre o Filho de Deus e os pecadores retratados nas páginas deste Evangelho. Ainda assim, apesar de nossas limitações, podemos contemplar a glória da verdade revelada aqui. Por isso, pedimos que nos concedas o privilégio de nos sentarmos ao lado de pessoas que ainda não Te conhecem, apresentando-lhes as promessas do evangelho, os dons da Tua graça e a satisfação que somente Cristo pode oferecer à alma. Que possamos despertar seu interesse pelas realidades eternas, conduzi-las ao reconhecimento do pecado e chamá-las a abandonar toda forma de falsa adoração, para que busquem a verdadeira adoração que agrada a Ti. E então, Senhor, faz aquilo que somente Tu podes fazer: abre seus olhos, transforma seus corações e revela-lhes a glória do Teu Filho. Usa-nos para esse propósito, nós Te pedimos.

Pai, rogamos também que a luz da glória de Deus, que resplandece na face de Jesus Cristo, brilhe nos corações daqueles que ainda estão em trevas. Que vejam os que nunca viram, que ouçam os que nunca ouviram e que compreendam os que jamais compreenderam. Pelo poder regenerador do Espírito Santo, desperta os mortos espirituais e faze-os contemplar Cristo em toda a Sua majestade e beleza. Concede salvação, Senhor, não apenas para o bem deles, mas para a manifestação da Tua própria glória, para que Teu nome seja exaltado e louvado eternamente.

Obrigado pelo privilégio de Te adorarmos neste dia. Obrigado por todos aqueles que, pela Tua graça, se tornaram verdadeiros adoradores. Que sejamos fiéis em adorar-Te em todos os aspectos da nossa vida, honrando-Te, obedecendo-Te e nos prostrando diante da Tua soberania. E que Tu nos uses como instrumentos em Tuas mãos para conduzir muitos outros à verdadeira adoração. A Ti rendemos toda honra, louvor e gratidão, em nome de Jesus Cristo. Amém.


Esta é uma série de sermões traduzidos de John MacArthur sobre o Evangelho de João.
Clique aqui e acesse o índice ordenado por capítulo, com links para leitura.


John MacArthur dividiu o texto de João 4.1-42 em três sermões, conforme links abaixo:

  1. Joao 4.1-15  A Fonte da Água da Vida
  2. João 4.16-26 A Verdadeira Adoração
  3. João 4.27-42 Os Campos Prontos para a Ceifa

Este texto é uma síntese do sermão “Messiah: The Living Water, Part 2”, de John MacArthur, em 28/04/2013.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/sermons/43-21/messiah-the-living-water-part-2

Tradução e síntese feitas pelo Site Rei Eterno


 

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