Os Campos Prontos para a Ceifa
Enquanto os discípulos olhavam para os campos de trigo, Cristo os convida a enxergar outra colheita. Entre o poço e a cidade aproximava-se uma multidão de samaritanos, vestidos com suas túnicas brancas. Era como se aquelas pessoas fossem espigas maduras caminhando em direção ao verdadeiro ceifeiro. A colheita espiritual não estava distante; ela estava chegando naquele exato momento.
Em João 4.1-42 temos um relato extenso de um acontecimento incrível: a conversa de Jesus com a mulher samaritana. No penúltimo sermão olhamos para o versículos de 1 a 15, em que Jesus se apresenta com a fonte da água viva. No último sermão, olhamos para os versículos 16 a 26, em que Jesus trata da verdadeira adoração e, pela primeira vez no evangelho de João, ele se identificou como o Messias, o Deus Eterno encarnado.
Agora chegamos a última parte da história, versículos 27 a 42, onde vemos muito sobre missões e evangelismo, quando pelo testemunho daquela mulher muitos samaritanos creram em Jesus, que permaneceu com eles por dois dias. Eles disseram: “nós mesmos temos ouvido e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo” (v.42).
E este foi o objetivo de João ao escrever seu evangelho: “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.31). E ele ouviu o testemunho de João Batista acerca de Jesus: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29).
Breve revisão dos sermões anteriores em João 4.1-26
Mas agora há uma declaração dessa verdade feita por um grupo de samaritanos. Isso seria improvável, eles eram afastados de Israel por causa dos casamentos mistos com gentios idólatras, ocorridos séculos antes, depois que o reino do norte foi levado para o cativeiro pela Assíria (2Rs 17).
Os samaritanos tinham uma compreensão limitada de Deus. Criam apenas no Pentateuco, tendo apenas informações sobre Deus como Criador e o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. De alguma forma, porém, eles criam na vinda do Messias. A mulher samaritana disse a Jesus: “Eu sei que há de vir o Messias, chamado Cristo; quando ele vier, nos anunciará todas as coisas” (Jo 4.25). Mas eles estavam contaminados pela idolatria há muito tempo. Estavam separados da verdade, alienados de Deus, atormentados pela imoralidade e afastados da revelação divina e da obra de Deus por meio do seu povo, Israel.
Então, como é possível que esse obscuro grupo de aldeões samaritanos, rejeitado, marginalizado e odiado pelos judeus, fosse o instrumento escolhido por Deus para declarar que Jesus é o Salvador do mundo? O mesmo Jesus que foi rejeitado pelo sumo sacerdote, principais sacerdotes, saduceus, fariseus, escribas, rabinos, Sinédrio e pela nação de Israel.
A nação de Israel ainda era uma nação de Jonas, que, tal como o profeta, se recusava a pregar o arrependimento aos gentios, temendo que eles se convertessem (Jn 4.2). E tal foi o desgosto de Jonas com o arrependimento dos ninivitas, que ele disse ao Senhor: “peço-te, pois, ó Senhor, tira-me a vida, porque melhor me é morrer do que viver” (Jn 4.3).
Na época de Cristo, Israel ainda eram uma nação de Jonas, com desprezo pelos gentios e um desprezo especial pelos samaritanos. Jesus não havia declarado a ninguém que ele era o Messias, mas quando a mulher samaritana lhe disse que o Cristo viria e ensinaria todas as coisas, Jesus lhe respondeu: “Eu o sou, eu que falo contigo” (Jo 4.26). Ele declara a uma mulher samaritana que ele era o Deus Eterno encarnado.
E assim, toda a história serve para nos levar ao final, onde uma aldeia inteira proclama Jesus como o Salvador do mundo. A salvação veio através dos judeus (Jo 4.22), ou seja, a verdade sobre a salvação veio através das Sagradas Escrituras e todo o Antigo Testamento foi revelado aos judeus. Eles eram os guardiões da revelação divina.
Paulo escreveu: “aos judeus foram confiados os oráculos de Deus” (Rm 3.2) e que aos israelitas pertencem “a adoção e também a glória, as alianças, a legislação, o culto e as promessas, deles são os patriarcas, e também deles descende o Cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito para todo o sempre. Amém!” (Rm 9.4-5).
Portanto, a salvação vem por meio de Israel. Tanto as Escrituras quanto o Messias, tanto a Palavra escrita quanto a Palavra viva, vieram por intermédio dos judeus. Mas Israel nunca foi o destino final do plano de Deus; foi o instrumento escolhido para levá-lo adiante. Deus chamou essa nação para ser missionária, para anunciar ao mundo a verdade do único Deus vivo e verdadeiro. Quando o Messias viesse, ele seria o Salvador do mundo, e Israel deveria ter compreendido isso. O Antigo Testamento não deixa dúvidas quanto a esse propósito.
Basta ler os cânticos do Servo em Isaías. No capítulo 42, Deus apresenta o Messias dizendo: “Eis o meu Servo, a quem sustenho, o meu escolhido, em quem a minha alma se compraz”. Sobre ele repousaria o Espírito do Senhor, e sua missão seria levar justiça às nações. Ele realizaria essa obra com perfeita mansidão, sem quebrar a cana rachada nem apagar o pavio que fumega. Perseveraria até estabelecer a justiça na terra. Então Deus acrescenta: “Eu te darei como aliança para o povo e como luz para as nações, para abrir os olhos dos cegos, tirar os presos da prisão e libertar os que vivem em trevas”. Desde o início, o propósito do Messias era alcançar não apenas Israel, mas todas as nações.
Isaías 49 reforça essa mesma verdade. O Servo viria para restaurar Jacó e reunir Israel, mas Deus declara que isso seria pouco diante da grandeza de sua missão: “Também te farei luz para as nações, para que a minha salvação chegue até os confins da terra”. Sim, o Messias redimiria Israel, mas não somente Israel. Ele seria o Salvador do mundo.
É por isso que a declaração dos samaritanos em João 4 é tão extraordinária. Aqueles homens, desprezados pelos judeus, reconheceram aquilo que muitos em Israel se recusavam a admitir: Jesus é verdadeiramente o Salvador do mundo. Essa verdade se torna a mensagem dominante do livro de Atos, quando o evangelho ultrapassa as fronteiras de Israel, alcança Cornélio, avança pelo mundo gentílico e continua sua expansão até os confins da terra. Como afirma 2 Coríntios 5:19, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo.
A confissão daqueles samaritanos, dizendo: “nós mesmos temos ouvido e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo” (Jo 4.42), possui um significado profundo. Em primeiro lugar, ela afirma que Cristo salvará pessoas de todas as partes do mundo. Sua obra redentora não está limitada a uma etnia, uma cultura ou uma nação. Ele reúne para si um povo de toda tribo, língua, povo e nação. Como declara 1 João 2.2, Jesus é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro. O alcance do evangelho é universal. Deus chama pecadores de todas as nações para participarem da salvação em seu Filho.
Mas há uma segunda verdade igualmente importante. Quando a Palavra de Deus afirma que Jesus é o Salvador do mundo, ela também afirma que o mundo possui apenas um Salvador. Há muitos que serão salvos em todos os povos, mas somente um Salvador para todos eles. O próprio Jesus declarou: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6).
Pedro reafirmou essa verdade em Atos 4:12: “não há salvação em nenhum outro”. Portanto, quem rejeita Cristo permanece em seus pecados. Como o Senhor advertiu em João 8.24, quem não crer nele morrerá em seus pecados e enfrentará o julgamento eterno. Todas as religiões que rejeitam a pessoa e a obra de Jesus Cristo conduzem ao engano, porque afastam os homens do único Salvador que Deus ofereceu ao mundo.
Essa mensagem confronta diretamente o espírito da nossa época. Vivemos em uma cultura que afirma que todas as religiões são igualmente válidas e conduzem ao mesmo Deus. Devemos tratar todas as pessoas com amor, respeito e dignidade, independentemente de suas convicções religiosas. Contudo, amar as pessoas não significa validar suas crenças.
A Escritura é inequívoca: há um único Salvador e um único caminho para Deus — a graça mediante a fé em Jesus Cristo. É isso que torna João 4 um texto tão extraordinário. Pela primeira vez, e a partir de um grupo de samaritanos, é proclamado abertamente aquilo que se tornará a mensagem da Igreja ao longo dos séculos: Jesus Cristo é o Salvador do mundo. E essa verdade continua sendo absoluta. Como afirma 1 Coríntios 16.22: “Se alguém não ama o Senhor, seja anátema”. Todo aquele que rejeita o único Salvador permanece sob condenação.
Tudo Isso acontece no final desse encontro com a mulher samaritana. Jesus havia saído de Betânia, talvez caminhado uns trinta quilômetros, uma caminhada difícil até o poço de Jacó, na região da Samaria, perto da pequena vila de Sicar. Ele se sentou junto ao poço, como vimos no texto de João 4.1-26.
Os discípulos de Jesus foram até a vila, a cerca de um quilômetro e meio de distância, para comprar comida, o que indica que eles não compartilhavam dos escrúpulos pecaminoso judaicos de que os samaritanos eram um povo amaldiçoado e que não se devia interagir com eles. Para muitos judeus, nem mesmo atravessar a Samaria era uma opção; preferiam dar uma volta maior para evitá-los.
Mas isso não se aplicava ao nosso Senhor e aos seus discípulos. Eles estavam felizes em ir por aquele caminho. Estavam contentes em entrar na vila, interagir com as pessoas, comprar comida delas, comer da comida delas. Isso não era um problema para eles. Isso demonstra o desprezo de Jesus pelas regras artificiais que os judeus haviam criado para isolá-los de outros povos em nome de uma suposta santidade.
Jesus chega ao poço e está sentado sozinho. Uma mulher chega ao poço ao meio-dia, um horário incomum, pois era a hora mais quente do dia. Possivelmente, por causa de sua vida imoral e má reputação, ela queria evitar contato com outras pessoas. Ela era uma mulher desprezada. Seria praticamente considerada uma prostituta naquela sociedade.
Aquela mulher não conhecia Jesus e era uma pessoa ignorante e indiferente ao evangelho. E Jesus começou a conversa falando sobre o dom de Deus, a água da vida e a vida eterna. Não se tratava de algo que ela deveria conquistar, mas pedir a Deus. Foi assim que Jesus iniciou o evangelismo:
Se conheceras o dom de Deus e quem é o que te pede: dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva […] Quem beber desta água tornará a ter sede; aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna (Jo 4.10,13-14).
A mulher samaritana respondeu: “Senhor, dá-me dessa água para que eu não mais tenha sede, nem precise vir aqui buscá-la” (Jo 4.15). Mas Jesus começou a expor a vida pecaminosa daquela mulher. Em sua onisciência, ele bem sabia todas as coisas. Ela foi exposta e sentiu o peso daquela convicção. Ela disse ao Senhor: “vejo que tu és profeta. Nossos pais adoravam neste monte; vós, entretanto, dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar” (Jo 4.19-20).
Mas o Senhor desmontou sua religiosidade vazia e lhe diz: “vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores. Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4.23-24).
Ela respondeu: “há de vir o Messias, chamado Cristo; quando ele vier, nos anunciará todas as coisas” (Jo 4.25). Então Jesus se identificou como o Messias, o Deus Eterno encarnado, o Redentor prometido (Jo 4.26). Ela passou de indiferente, ignorante e desinteressada a ter uma revelação de Cristo. História incrível. Paramos aqui na última vez, agora vamos prosseguir.
A providência divina evidenciando a divindade do Redentor
João 4
27 Neste ponto, chegaram os seus discípulos e se admiraram de que estivesse falando com uma mulher; todavia, nenhum lhe disse: Que perguntas? Ou: Por que falas com ela?
28 Quanto à mulher, deixou o seu cântaro, foi à cidade e disse àqueles homens:
29 Vinde comigo e vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Será este, porventura, o Cristo?!
30 Saíram, pois, da cidade e vieram ter com ele.
Naquele exato momento, os discípulos retornaram da cidade. A conversa entre Jesus e a mulher samaritana havia chegado ao fim. Eles só chegaram depois que Cristo revelou claramente sua identidade como o Messias. Esse detalhe não é acidental. João o registra para mostrar que Deus dirigia soberanamente cada acontecimento daquela cena. A história da mulher samaritana não é apenas um relato de conversão; é uma poderosa demonstração de que Jesus é o Filho de Deus e o Salvador do mundo.
A divindade de Cristo foi demonstrada pela perfeita providência que dirigiu cada detalhe do encontro com a mulher samaritana. Não encontramos aqui milagres físicos, curas ou sinais extraordinários. O único elemento sobrenatural explícito é a onisciência de Cristo. Entretanto, há um milagre ainda maior acontecendo nos bastidores: Deus governa cada circunstância para cumprir perfeitamente seus propósitos. A providência é justamente isso: o controle absoluto de Deus sobre pessoas, decisões, acontecimentos e tempo, convergindo tudo exatamente para a realização de sua vontade.
Nada nesta narrativa acontece por acaso. Jesus percorreu a longa distância até Sicar para estar junto àquele poço no momento exato. A mulher, que costumava buscar água sozinha para evitar o contato com outras pessoas, chegou precisamente naquela hora. Os discípulos haviam saído para comprar alimento, deixando Jesus sozinho. Sua sede tornou-se o ponto de partida para uma conversa que mudaria eternamente a vida daquela mulher. Tudo se encaixa com uma precisão que somente a providência divina pode explicar.
Depois de conduzi-la ao reconhecimento de seu pecado, despertar nela o desejo da verdadeira adoração e revelar-se como o Messias, João escreve: “Nesse ponto chegaram os seus discípulos.” A expressão indica um instante cuidadosamente determinado. Se eles tivessem chegado alguns minutos antes, interromperiam a conversa. Se chegassem depois, perderiam completamente aquela revelação. Deus sincronizou cada detalhe. O encontro termina exatamente quando deveria terminar.
Ao presenciarem Jesus conversando com uma mulher samaritana, os discípulos receberam uma lição que jamais esqueceriam. O Mestre estava derrubando barreiras étnicas, religiosas e sociais diante de seus olhos. Aquilo antecipava a missão que lhes confiaria mais tarde: serem suas testemunhas em Jerusalém, na Judeia, em Samaria e até os confins da terra. O evangelho havia sido prometido a Israel, mas jamais se destinou exclusivamente a Israel. Desde o princípio, o propósito de Deus era alcançar todas as nações.
É por isso que João afirma que Jesus “necessitava passar por Samaria” (Jo 4.4). Não era uma necessidade geográfica, mas uma necessidade divina. Cristo vivia segundo o cronograma do Pai. Ao longo deste Evangelho, ele afirma repetidamente: “a minha hora ainda não chegou” (Jo 2.4; 7.6,30; 8.20). Quando o momento determinado finalmente veio, declarou: “a minha hora chegou” (Jo 13.1; 17.1). Toda a Sua vida foi conduzida pelo perfeito relógio da soberania divina.
Os discípulos ficaram admirados ao vê-Lo falando com aquela mulher. Um rabino jamais faria isso, e muito menos com uma samaritana de reputação tão ruim. Ainda assim, João observa algo notável: nenhum deles perguntou por que ele estava fazendo aquilo. Permaneceram em silêncio. Começavam a aprender uma das maiores lições do discipulado: confiar no Senhor mesmo quando não compreendiam seus caminhos. O crente imaturo vive questionando a vontade de Deus; o crente maduro aprende a descansar nela.
Enquanto isso, a mulher deixou seu cântaro e correu para a cidade. João não explica por que ela abandonou o recipiente. Talvez fosse pesado demais para quem desejava chegar rapidamente ao seu destino. Talvez o tenha deixado para que Jesus pudesse beber. O motivo permanece secundário. O importante é que agora havia algo infinitamente mais urgente do que buscar água. Ela precisava anunciar aquilo que havia acabado de descobrir.
Ao chegar à cidade, procurou os homens reunidos no portão e lhes fez um simples convite: “vinde ver um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Será este, porventura, o Cristo?” Ela não lhes impôs uma conclusão; conduziu-os a investigar por si mesmos. Sua vergonha havia desaparecido. O pecado que antes escondia tornou-se parte de seu testemunho. A graça de Deus havia transformado sua culpa em instrumento para conduzir outros a Cristo.
Essa continua sendo uma das evidências mais claras da verdadeira conversão. Quem experimenta o perdão de Deus deseja naturalmente compartilhar essa alegria. Foi assim nas parábolas de Lucas 15, quando houve festa pela ovelha encontrada, pela moeda recuperada e pelo filho que voltou para casa. É assim também no céu, onde há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende. A mulher samaritana tornou-se imediatamente uma testemunha da graça que acabara de receber.
O resultado não demorou a aparecer. João conclui: “Saíram, pois, da cidade e vieram ter com ele.” Desde a chegada de Jesus ao poço até a resposta daqueles homens, tudo revela a atuação invisível da providência divina. Cada encontro, cada palavra e cada circunstância foram ordenados por Deus para conduzir pessoas à fé em Seu Filho. Assim, João demonstra que Jesus não é apenas um mestre extraordinário ou um profeta entre tantos outros. Ele é o Messias prometido, o Filho de Deus e o Salvador do mundo.
A prioridade de Cristo evidenciando o Redentor divino
João 4
31 Nesse ínterim, os discípulos lhe rogavam, dizendo: Mestre, come!
32 Mas ele lhes disse: Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis.
33 Diziam, então, os discípulos uns aos outros: Ter-lhe-ia, porventura, alguém trazido o que comer?
34 Disse-lhes Jesus: A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra.
A identidade de Cristo é revelada pela prioridade que governa toda a sua vida. Enquanto a mulher conduzia os habitantes da cidade até Jesus, a cena volta ao poço. Os discípulos, que haviam retornado com alimento, insistiam para que o Mestre comesse. “Rabi, come”, diziam eles. Esse detalhe volta a destacar a verdadeira humanidade de Cristo. Eles estavam acostumados a vê-lo cansado, com sede e com fome. Jesus compartilhava plenamente da condição humana, exceto pelo pecado.
Entretanto, sua resposta os surpreendeu: “uma comida tenho para comer, que vós não conheceis.” Imediatamente, os discípulos interpretaram suas palavras de forma literal. Começaram a perguntar entre si: “será que alguém lhe trouxe algo para comer?”. Mais uma vez, como acontece repetidamente no Evangelho de João, Jesus utiliza uma realidade material para ensinar uma verdade espiritual. Assim como a conversa com a mulher começou com água e terminou tratando da salvação, agora o assunto começa com alimento, mas conduz àquilo que realmente sustentava a vida do Filho de Deus.
Então Jesus esclarece: “A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra.” Essa é uma das declarações mais profundas sobre a missão de Cristo. O que sustentava sua alma, o que lhe dava forças, satisfação e alegria, não era o alimento físico, mas cumprir perfeitamente a vontade do Pai. Sua maior prioridade era concluir a obra para a qual havia sido enviado.
E qual era essa obra? A própria Escritura responde: “o Filho do Homem veio buscar e salvar o que se havia perdido” (Lc 19.10). Desde o Antigo Testamento, Deus se revela como o Redentor. Isaías o chama repetidas vezes de “Redentor de Israel” (Is 44.6; 49.7). A história da redenção é a história da iniciativa de Deus em salvar pecadores. Foi para essa obra que Cristo veio ao mundo.
O Novo Testamento amplia essa verdade ao apresentar Deus como “nosso Salvador”. Essa expressão aparece repetidamente nas cartas pastorais (1Tm 1.1; 2.3-4; Tt 1.3; Jd 1.25) revelando que salvar pecadores não é uma atividade ocasional de Deus, mas a manifestação do seu próprio caráter. Ele é paciente, misericordioso e longânimo. Se tratasse imediatamente cada pecador segundo a sua justiça, ninguém permaneceria vivo. Sua bondade sustenta a humanidade enquanto chama homens e mulheres ao arrependimento e oferece, em Cristo, a salvação eterna aos que creem.
Era justamente essa obra que alimentava o coração de Jesus. Sua satisfação consistia em ver pecadores reconciliados com Deus. Por isso, mesmo cansado da longa caminhada e sem ter ainda se alimentado, sua fome física cede lugar à alegria espiritual produzida pela obra do Pai. A conversão daquela mulher era infinitamente mais preciosa do que qualquer refeição.
O escritor de Hebreus afirma que Cristo suportou a cruz “pela alegria que lhe estava proposta” (Hb 12.2). Essa alegria era a consumação da redenção. O mesmo princípio aparece em Lucas 15. Quando a ovelha é encontrada, quando a moeda perdida é recuperada e quando o filho pródigo retorna, há celebração. O próprio Senhor declara que existe alegria diante dos anjos de Deus por um único pecador que se arrepende. O céu inteiro celebra aquilo que alegra o coração do Salvador.
Há uma lição importante nesse momento. Em determinadas circunstâncias, a intensidade da comunhão com Deus faz até mesmo desaparecer o apetite físico. É isso que ocorre no jejum, quando o coração está totalmente absorvido pela oração. Algo semelhante acontece aqui. Jesus não perde o interesse pela comida porque despreza as necessidades do corpo, mas porque a alegria de realizar a obra da redenção supera momentaneamente qualquer necessidade física. A salvação daquela mulher havia renovado suas forças.
Os discípulos precisavam aprender essa lição, porque em breve seriam enviados ao mundo com a mesma missão. Receberiam a Grande Comissão e dedicariam suas vidas à proclamação do evangelho. Precisavam compreender que não existe privilégio maior do que participar da obra salvadora de Deus. O Salmo 126 promete alegria aos que semeiam com lágrimas, e Daniel 12 declara que os que conduzem muitos à justiça resplandecerão como as estrelas. Mais tarde, o próprio Jesus lhes diria: “Não fostes vós que me escolhestes; pelo contrário, eu vos escolhi para que vades e deis fruto” (Jo 15.16).
Assim, João apresenta mais uma evidência de quem Jesus é. Primeiro, sua divindade foi demonstrada pela perfeita providência que dirigiu cada detalhe do encontro com a mulher samaritana. Agora, sua identidade é revelada pela prioridade que governa toda a sua vida. Nada ocupava lugar mais elevado em Seu coração do que cumprir a vontade do Pai e salvar pecadores. Essa era Sua verdadeira comida. Essa era sua alegria. Essa era a obra do Redentor.
Evidências proféticas evidenciando o Redentor
João 4
35 Não dizeis vós que ainda há quatro meses até à ceifa? Eu, porém, vos digo: erguei os olhos e vede os campos, pois já branquejam para a ceifa.
36 O ceifeiro recebe desde já a recompensa e entesoura o seu fruto para a vida eterna; e, dessarte, se alegram tanto o semeador como o ceifeiro.
37 Pois, no caso, é verdadeiro o ditado: Um é o semeador, e outro é o ceifeiro.
38 Eu vos enviei para ceifar o que não semeastes; outros trabalharam, e vós entrastes no seu trabalho.
Depois de mostrar que sua maior prioridade era cumprir a obra da redenção, Jesus apresenta uma nova evidência de sua identidade. Se anteriormente sua divindade foi demonstrada pela providência e sua missão pela prioridade que governava sua vida, agora ela é confirmada por sua perfeita presciência. Ele não apenas conhece o passado da mulher samaritana e o coração dos homens, como João já havia demonstrado (Jo 2.24-25), mas conhece também o futuro. O desenrolar dos acontecimentos já estava diante de Seus olhos.
Jesus então diz aos discípulos: “Não dizeis vós que ainda há quatro meses até à ceifa?” Alguns entendem essas palavras como um simples provérbio popular. Entretanto, é mais natural compreendê-las como uma referência à situação que estava diante deles. A plantação era feita em novembro, os campos ainda estavam verdes, provavelmente era dezembro ou janeiro, faltavam quatro meses para a colheita normal da primavera.
Humanamente falando, ainda não era tempo de colher. Mas Jesus imediatamente estabelece o contraste: “Eu, porém, vos digo: erguei os olhos e vede os campos, pois já branquejam para a ceifa.” Enquanto os discípulos olhavam para os campos de trigo, Cristo os convida a enxergar outra colheita. Entre o poço e a cidade aproximava-se uma multidão de samaritanos, vestidos com suas túnicas brancas. Era como se aquelas pessoas fossem espigas maduras caminhando em direção ao verdadeiro ceifeiro. A colheita espiritual não estava distante; ela estava chegando naquele exato momento.
Essa declaração revela mais do que uma bela figura de linguagem. Trata-se de uma profecia. Jesus anuncia antecipadamente aquilo que acontecerá dentro de poucos instantes. Assim como conheceu toda a história daquela mulher, conhece também o destino espiritual daquela cidade. Ele sabe que muitos daqueles samaritanos iriam crer nele ainda naquele dia.
Por isso acrescenta: “O ceifeiro recebe desde já a recompensa e entesoura o seu fruto para a vida eterna.” Os discípulos estavam prestes a experimentar a alegria da colheita. Em poucos momentos veriam homens e mulheres entrando no Reino de Deus. Participariam da maior recompensa que um servo de Deus pode receber: ser instrumento para conduzir pecadores à vida eterna.
Em seguida, Jesus lhes ensina um princípio permanente da obra de Deus: “um é o semeador, e outro é o ceifeiro.” O Reino de Deus sempre avança dessa maneira. Alguns lançam a semente, outros recolhem os frutos. Nenhum trabalhador pode reivindicar para si toda a obra, porque Deus distribui diferentes tarefas entre seus servos.
Quem havia semeado entre os samaritanos? Em primeiro lugar, Moisés, cujos cinco livros eram aceitos pelos samaritanos e continham as promessas do Messias. Depois, os profetas, cujas verdades ainda influenciavam sua expectativa messiânica. Talvez também João Batista, cujo ministério já alcançara aquela região. E, finalmente, a própria mulher samaritana, que acabara de voltar à cidade anunciando o encontro com Cristo. Muitos haviam preparado o terreno. Agora os discípulos chegavam para participar da colheita.
É por isso que Jesus declara: “Eu vos enviei para ceifar o que não semeastes; outros trabalharam, e vós entrastes no seu trabalho.” Eles estavam chegando ao final de um longo processo conduzido pela providência de Deus. Outros haviam plantado, outros haviam regado, mas naquele dia caberia aos discípulos recolher os frutos. Assim acontece em toda a obra do evangelho. Os servos mudam, as tarefas variam, mas Deus continua sendo aquele que produz o crescimento.
Como Jesus podia afirmar tudo isso com tanta certeza? Porque Seu conhecimento não se limita ao presente. Ele conhece o futuro com absoluta perfeição. Ele sabe quem responderá ao chamado do evangelho, porque é o próprio Salvador que concede a vida eterna. Sua profecia não era uma possibilidade; era uma certeza fundamentada em sua autoridade soberana.
João 4
39 Muitos samaritanos daquela cidade creram nele, em virtude do testemunho da mulher, que anunciara: Ele me disse tudo quanto tenho feito.
40 Vindo, pois, os samaritanos ter com Jesus, pediam-lhe que permanecesse com eles; e ficou ali dois dias.
41 Muitos outros creram nele, por causa da sua palavra,
42 e diziam à mulher: Já agora não é pelo que disseste que nós cremos; mas porque nós mesmos temos ouvido e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo.
O texto bíblico confirma exatamente o que ele havia anunciado: “muitos samaritanos daquela cidade creram nele” (v.39). Pouco depois, João acrescenta: “muitos outros creram nele” (v.41). A profecia cumpriu-se diante dos olhos dos discípulos. Curiosamente, nada semelhante havia acontecido em qualquer cidade de Israel. Em muitas aldeias judaicas, Cristo fora rejeitado. Em Nazaré, sua própria cidade, tentaram matá-Lo (Lc 4.16-30). Em diversas ocasiões, os discípulos experimentaram apenas resistência e incredulidade. Agora, porém, uma cidade samaritana inteira responde com fé ao evangelho.
Esse episódio antecipa o avanço da missão após a ascensão de Cristo. Em breve, os discípulos receberiam a Grande Comissão e seriam enviados a Jerusalém, à Judeia, à Samaria e até os confins da terra. Precisavam aprender que Deus já estava preparando a colheita antes mesmo de enviá-los. Seu papel seria semear, regar e trabalhar fielmente. O resultado, porém, sempre pertenceria ao Senhor da seara. Essa continua sendo a esperança de todos os que servem a Cristo: trabalhar confiando que Deus, no tempo certo, produz uma colheita para a vida eterna.
O Salvador divino é evidenciado por sua proclamação
Muitos samaritanos “daquela cidade creram nele, em virtude do testemunho da mulher” (v.39). Então, quando os samaritanos finalmente chegaram ao poço, vieram até Jesus; pediram-lhe que ficasse com eles. Foi maravilhoso que tenham recebido o testemunho dela, mas foi muito mais importante que o tenham ouvido.
Então Jesus ficou lá dois dias. Não sei como foram esses dois dias, mas devem ter sido incríveis. É a única vez em seu ministério terreno que isso aconteceu. É a única vez em que ele passou dois dias com uma cidade inteira, revelando quem ele era. E tenho certeza de que ele falou sobre a cruz, a ressurreição e o reino. E “muitos outros creram por causa da sua palavra” (v.41); e disseram à mulher: ‘já não cremos somente por causa do que você disse, pois nós mesmos o ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo’” (v. 42).
Nosso testemunho para um incrédulo é bom e pode levá-lo a crer. Mas o mais importante é que ele passe do seu testemunho para o testemunho do próprio Senhor, contido nas páginas das Escrituras. Ele é o Salvador do mundo, pois “não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4.12).
Pai, somos gratos novamente, nesta manhã, pelo tempo para contemplar a Tua sagrada verdade, para que ela ganhe vida em nós, para encontrarmos nela nosso próprio alimento, nossa própria satisfação, nossa própria alegria. Mas é mais do que apenas uma experiência; precisa ser algo além disso para Te satisfazer, para Te agradar. Que seja parte de uma renovação da nossa missão de ir, semear, regar e trabalhar, às vezes onde outros já trabalharam, para que possamos nos alegrar, quer semeemos, quer colham, quando Tu trouxeres a colheita.
Obrigado pela declaração de que Jesus é o Salvador do mundo. Esta igreja é uma prova disso. Temos muitos de Israel, muitos judeus entre nós que Te amam porque a Tua igreja é composta por judeus e gentios, em um só corpo. Mas também temos pessoas do mundo todo aqui, e todos reconhecemos que Jesus é o Salvador do mundo, e o mundo precisa reconhecer que Ele é o único Salvador. Que todos aqui reconheçam isso neste dia, que creiam e, crendo, alcancem a vida eterna.
Pai, reconhecemos que a salvação é uma obra divina, que os pecadores precisam nascer de novo, como o Senhor fez naquele dia em Samaria, quando deu vida ao povo daquela aldeia. Dê vida a alguns hoje e atraia-os a Cristo. Que Ele lhes seja revelado claramente de forma salvadora. Damos-Te todo o louvor e gratidão em Seu nome. Amém.
John MacArthur dividiu o texto de João 4.1-42 em três sermões, conforme links abaixo:
- Joao 4.1-15 A Fonte da Água da Vida
- João 4.16-26 A Verdadeira Adoração
- João 4.27-42 Os Campos Prontos para a Ceifa
Esta é uma série de sermões traduzidos de John MacArthur sobre o Evangelho de João.
Clique aqui e acesse o índice ordenado por capítulo, com links para leitura.
Este texto é uma síntese do sermão “Messiah: The Living Water, Part 3”, de John MacArthur, em 5/5/2013.
Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:
https://www.gty.org/sermons/43-22/messiah-the-living-water-part-3
Tradução e síntese feitas pelo Site Rei Eterno





















