O Poder Destruidor da Falsa Religião
Na cura do paralítico, o centro da narrativa é o devastador poder da falsa religião em endurecer o coração humano contra a verdade. A compaixão de Cristo resultou em desprezo e ódio dos líderes religiosos, além de uma trágica resposta do homem curado, mostrando como a falsa religião é destruidora. Este fato marcou o início da perseguição aberta contra Jesus até a cruz. Há uma pergunta decisiva: permaneceremos cativos de um sistema religioso humano ou nos renderemos, pela fé, ao Senhor Jesus Cristo?
O quinto capítulo do Evangelho de João é uma passagem muito importante das Escrituras. Há nele a história de um homem que Jesus curou, mas vai muito além disso. Não é uma história sobre cura, é uma história sobre a falsa religião, de sua oposição à verdade, e de seu poder devastador sobre as mentes e almas das pessoas.
O versículo 16 diz que “os judeus perseguiam Jesus”. João usa o termo “judeus” para se referir aos líderes do judaísmo apóstata, e não à ao povo judeu. O texto grego tem o sentido de que eles “perseguiam ou caçavam Jesus continuamente”, uma perseguição que se estendeu até a cruz.
Já percorremos os quatro primeiros capítulos do Evangelho de João, e todos eles apontam para uma mesma verdade: Jesus é Deus. No capítulo 1, Ele é apresentado como o Criador. Tudo o que existe foi feito por meio dele; sem ele, nada do que foi criado veio à existência. O Verbo eterno, que é Deus, tornou-se homem, e João declara que contemplamos a sua glória.
Também vimos João Batista direcionar seus discípulos a Cristo como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Assim, somos apresentados ao Messias, o único Salvador, e que todo aquele que nele crê escapa da condenação eterna. Os que o rejeitam permanecem sob juízo.
Ao longo desses capítulos, suas palavras e suas obras confirmam essa realidade. Vimos seu conhecimento sobrenatural. Ele conhecia o coração dos homens. Sabia a história da mulher samaritana, embora jamais a tivesse encontrado. No final do capítulo 4, testemunhamos seu poder ao curar, à distância, o filho de um oficial que estava à beira da morte.
Esses acontecimentos são apenas uma pequena amostra de seu ministério. Ao chegarmos ao capítulo 5, vale lembrar onde estamos na narrativa. Jesus já havia ministrado cerca de um ano na Judeia. Depois seguiu para a Galileia, onde permaneceu aproximadamente dezesseis meses. Em seguida, retornaria à Judeia para os meses finais de seu ministério, culminando na Semana da Paixão, sua morte e ressurreição.
A vida, ensino e obras de Cristo atestavam sua divindade
Durante esse período inicial, suas palavras e seus milagres testemunharam continuamente sua divindade. Demonstravam que ele era o Messias, ou, nas palavras de João, “o Cristo, o Filho de Deus”, para que, crendo em seu nome, os homens recebessem a vida eterna. É justamente nesse ponto que encontramos algo surpreendente. Apesar de todas essas evidências, os líderes judeus passaram a persegui-lo.
Isso chama a atenção porque o ministério de Jesus produziu um impacto sem precedentes em Israel. Seus milagres, realizados diariamente diante de multidões, despertavam admiração por toda parte. Em Mateus 9.33, o povo dizia: “nunca se viu coisa semelhante em Israel.” Em Marcos 2.12, glorificavam a Deus afirmando: “jamais vimos algo assim.” Os milagres eram sinais. Confirmavam sua divindade e autenticavam sua identidade messiânica.
Essa verdade aparece claramente em Mateus 11. João Batista, preso, envia discípulos para perguntar: “És Tu aquele que havia de vir, ou devemos esperar outro?” Jesus não responde com uma simples afirmação. Aponta para as evidências: “os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e aos pobres é anunciado o evangelho.”
Seus milagres eram a confirmação visível de quem ele era. Suas palavras completavam esse testemunho. Tanto seus sinais quanto sua pregação autenticavam sua messianidade e sua divindade. Não apenas seus milagres impressionavam. Seu ensino também causava profundo impacto. As multidões reconheciam que “jamais alguém falou como este homem” (Jo 7.46). Ao concluir o Sermão do Monte, ficaram maravilhadas porque Ele ensinava como quem possui autoridade, e não como os escribas (Mt 7.29).
Por isso, multidões o seguiam por toda parte. Conforme relata Mateus 4.25, pessoas vinham da Galileia, da Decápolis, de Jerusalém, da Judeia e de além do Jordão. Praticamente toda a região era alcançada pela fama de Jesus. Em Mateus 13, a multidão era tão grande que Jesus entrou num barco para ensinar desde o mar. Em Lucas 12.1, havia milhares de pessoas reunidas, a ponto de se atropelarem umas às outras. Onde quer que Ele estivesse, formavam-se multidões atraídas pelo poder de seus milagres e pela autoridade de sua Palavra.
No capítulo 6 de João, versículo 2 diz que “uma grande multidão o seguia, porque via os sinais que ele realizava nos enfermos”. Era isso que atraía as multidões. No versículo 5, Jesus, ao levantar os olhos e ver aquela imensa multidão, pergunta a Filipe como poderiam alimentá-la. No versículo 10, ordena: “façam o povo assentar-se”. Havia muita grama naquele lugar, e cerca de cinco mil homens se assentaram. Considerando mulheres e crianças, talvez houvesse quinze ou vinte mil pessoas. Era uma popularidade extraordinária. Nenhum mestre havia atraído multidões tão grandes.
A rejeição à verdade é o resultado da falsa religião
Mas aquela atração era movida pela curiosidade, não pela fé. Era superficial. Por quê? Porque aquelas pessoas eram prisioneiras de um sistema religioso falso, estabelecido havia gerações e sustentado por líderes que exerciam enorme influência sobre a consciência do povo. A falsa religião aprisiona a mente. Paulo afirma, em 2 Coríntios 10, que ela ergue fortalezas ideológicas das quais é extremamente difícil libertar as pessoas.
João 6 ilustra isso com clareza. No versículo 26, Jesus confronta a multidão: “vocês me procuram não porque viram os sinais, mas porque comeram dos pães e ficaram satisfeitos”. O interesse deles era puramente material. No versículo 64, Jesus declara: “Há alguns de vocês que não creem”. E João acrescenta que ele sabia, desde o princípio, quem eram os incrédulos e quem o trairia. Finalmente, no versículo 66, muitos dos seus discípulos se retiraram e deixaram de segui-lo.
Eles chegaram ao ponto da decisão: Ou permaneceriam com Cristo, abandonando o sistema do judaísmo apóstata, ou permaneceriam fiéis ao sistema e rejeitariam Cristo. Escolheram o sistema. Por trás desse sistema estavam os escribas, os fariseus, os rabinos, os saduceus e até os herodianos. Era um sistema diabólico, condenatório e mortal.
O que esses líderes diziam sobre Jesus? Em João 8.48, afirmavam que ele era samaritano e possuído por demônio. Em Mateus 12.24, declaravam que expulsava demônios pelo poder de Belzebu. Repetiam essas acusações continuamente para impedir que o povo abandonasse o falso sistema religioso e seguisse Cristo.
O resultado é impressionante. Depois de três anos de ministério, marcado por incontáveis milagres, apenas cento e vinte discípulos estavam reunidos no cenáculo. Segundo 1 Coríntios 15, houve ainda uma reunião de cerca de quinhentos irmãos na Galileia. Aproximadamente seiscentos discípulos comprometidos após um ministério incomparável.
Humanamente falando, esperaríamos uma crescente onda de fé. Mas os Evangelhos mostram exatamente o contrário. A oposição cresce continuamente. E essa hostilidade pode ser rastreada até a influência persistente dos líderes religiosos, que convenceram a nação de que Jesus era um agente de Satanás, um homem possuído por demônios e até mesmo um louco.
Isso não deveria surpreender. João já havia nos preparado para isso desde o início. Em João 1.11 lemos: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam”. E ainda: “Estava no mundo, mas o mundo não o conheceu”. Em João 3.32, lemos que “ninguém aceita o seu testemunho”. As multidões admiravam seus milagres e se maravilhavam com seu ensino, mas permaneciam indiferentes à sua identidade como o Messias e Filho de Deus. A influência dos líderes religiosos era poderosa demais.
João mostra essa crescente rejeição ao longo de todo o evangelho. No capítulo 7, versículo 25, o povo já dizia: “Não é este a quem procuram matar?”. Todos sabiam que os líderes desejavam sua morte. Nos versículos 30 e 44, tentaram prendê-lo, mas ninguém conseguiu, porque sua hora ainda não havia chegado.
O mesmo ocorre em João 8.20. Novamente ninguém o prende, porque Deus impede que isso aconteça antes do tempo determinado. Mais adiante, em João 8.52, os líderes voltam à mesma acusação: “agora sabemos que tens demônio”. E, no versículo 59, pegam pedras para matá-lo.
No capítulo 9, após a cura do cego de nascença, encontramos outro detalhe importante. O versículo 22 diz que seus pais tinham medo dos judeus, isto é, dos líderes religiosos. Eles acreditavam que esses homens controlavam seu destino espiritual e temiam desafiá-los. Afinal, qualquer um que confessasse Jesus como o Cristo seria expulso da sinagoga.
Essa era uma punição devastadora. Significava excomunhão, exclusão da vida social e religiosa de Israel, isolamento da própria família e da comunidade. O preço de seguir Cristo era altíssimo. Por isso, no versículo 24, os líderes dizem ao homem curado: “Sabemos que esse homem é pecador”. Era essa a mensagem repetida ao povo: Jesus era um pecador, um blasfemo, um possesso e um traidor.
No capítulo 10, a situação se agrava ainda mais. O versículo 19 registra nova divisão entre os judeus. Muitos diziam: “Ele tem demônio e enlouqueceu; por que o ouvis?”. Agora, além de possesso, Jesus é apresentado como um insano. Nos versículos 31 e 39, tentam novamente apedrejá-lo e prendê-lo. Finalmente, em João 11.53, lemos: “daquele dia em diante resolveram matá-lo”. A decisão estava tomada. Restava apenas encontrar a oportunidade, o que ocorreria na Semana da Paixão, quando persuadiram os romanos a executá-lo.
A maré que percorre os Evangelhos não é de fé, mas de ódio. E esse ódio é alimentado pelos líderes de Israel, guardiões de um sistema religioso apóstata e condenatório. Como o próprio Jesus declarou, eles produziam filhos do inferno semelhantes a eles mesmos (Mt 23.15).
Sua influência foi tão eficaz que, em Mateus 27, a mesma multidão clamou: “Crucifica-o! Crucifica-o!”. Não queriam que Cristo reinasse sobre eles. Esse é o poder da falsa religião. Ela aprisiona a mente, endurece o coração e conduz pecadores sinceros à rejeição do próprio Filho de Deus.
A cura do paralítico (João 5.1-16)
Agora, voltemos ao capítulo 5. No Evangelho de João, todo esse fluxo de perseguição contra Jesus começa com esta história. Versículo 16: “E perseguiam a Jesus”. A onda de ódio é desencadeada pelo que acontece no capítulo 5, versículos 1 a 16. Sim, é um milagre incrível, curar um homem que estava doente há 38 anos, uma prova maravilhosa da divindade de Jesus Cristo.
Mas o milagre não é o motivo da história. Ele serve para nos mostrar a reação a Jesus. Esse milagre desencadeia a hostilidade de Israel. Aqui está o gatilho, por assim dizer, que leva as pessoas do interesse com reservas à rejeição sem reservas; do interesse com reservas à rejeição sem reservas.
Assim, nos capítulos 5, 6 e 7, a oposição a Jesus torna-se o tema central. Até o capítulo 4, a divindade de Cristo era demonstrada por meio de sua onisciência, poder miraculoso, autoridade exercida no Templo e até mesmo pelas declarações de João no capítulo 1 sobre sua divindade como Criador. Todos os quatro primeiros capítulos se concentram na pessoa de Cristo e em sua divindade, e em suas palavras, nas coisas que ele disse.
Agora, ao chegarmos ao capítulo 5, vemos a oposição começar a tomar forma. Não foi o milagre que Jesus operou que iniciou o ódio dos líderes religiosos. Esse ódio começou muito antes, quando Jesus atacou a corrupção que o líderes religiosos patrocinavam no Templo, conforme João 2.13-22, logo no início de seu ministério.
Na história em João 5.1-16 há três personalidades: Jesus, os judeus e o homem, e três realidades surpreendentes: a) a incrível compaixão de Jesus; b) o incrível desprezo dos líderes religiosos; c) a incrível complacência do homem. Tudo isso se une para iniciar, desencadear, inflamar a perseguição.
A Incrível compaixão de Jesus
A história começa com a extraordinária compaixão de Jesus. Mas isso não deveria nos surpreender, porque Deus é, por natureza, um Deus compassivo. O Salmo 86.15 O descreve como “compassivo e misericordioso”, e a mesma verdade reaparece nos Salmos 111, 112 e 145, além de permear todo o Antigo Testamento. Nos Evangelhos, Mateus e Marcos registram repetidamente que Jesus foi movido por compaixão. Isso revela sua plena divindade. Ele possui a mesma compaixão do Pai. Sua misericórdia alcança toda forma de miséria humana: o sofrimento físico, por isso cura; a escravidão demoníaca, por isso liberta; e, acima de tudo, o sofrimento causado pelo pecado, por isso salva. Tudo o que Jesus faz e tudo o que diz manifesta essa perfeita compaixão.
É exatamente isso que vemos neste relato. Diante de um homem que jamais encontrara misericórdia humana, Jesus demonstra a misericórdia divina. João 5.7 revela o estado de abandono daquele homem: “Enquanto eu vou, outro desce antes de mim”. Sua enfermidade o impedia de chegar à água, enquanto outros conseguiam passar à sua frente. Durante quase quarenta anos, ninguém lhe disse: “venha, deixe-me ajudá-lo”. Ninguém teve compaixão dele. Mas quando toda esperança humana havia falhado, Cristo veio ao seu encontro. Onde os homens foram indiferentes, Jesus foi misericordioso. Assim, o texto nos mostra que a compaixão do Salvador não depende do mérito do pecador, mas da graça do próprio Deus.
João 5
1 Passadas estas coisas, havia uma festa dos judeus, e Jesus subiu para Jerusalém.
Após os acontecimentos na Galileia, incluindo a cura do filho do oficial do rei, no final do capítulo 4, e os outros milagres que ele realizou na Galileia, registrados nos outros evangelhos, Jesus foi a Jerusalém para uma festa. Havia três festas anuais em Jerusalém (Dt 16.16), mas não sabemos a qual delas se refere o texto. Era uma festa dos judeus, e Jesus esteve presente.
Mesmo que o sistema religioso fosse apóstata e os sacerdotes, que realizavam as funções dessas festas e festivais, fossem uma abominação para Deus, ainda assim era um mandamento da Palavra de Deus celebrar essas festas. E Jesus foi fiel em cumprir toda a justiça, em fazer o que Deus lhe havia ordenado, mesmo que as pessoas que o realizavam quando ele chegou fossem absolutamente indignas. Ele foi fiel em obedecer a Deus em todos os seus mandamentos.
Não sabemos exatamente quando, mas é mais provável que ele tenha interrompido seu ministério na Galileia para ir a essa festa e depois retornado. No capítulo 5, Jesus está em Jerusalém; no capítulo 6 ele está de volta à Galileia; no capítulo 7, de volta a Jerusalém. Portanto, em vez de situar isso no final de seu ministério na Galileia e depois ter que descobrir como ele retornou à Galileia no capítulo 6, é melhor simplesmente considerar isso como uma viagem a Jerusalém para uma festa em algum momento durante seu ministério na Galileia. É importante saber disso.
João 5
2 Ora, existe ali, junto à Porta das Ovelhas, um tanque, chamado em hebraico Betesda, o qual tem cinco pavilhões.
3 Nestes, jazia uma multidão de enfermos, cegos, coxos, paralíticos
4 [esperando que se movesse a água. Porquanto um anjo descia em certo tempo, agitando-a; e o primeiro que entrava no tanque, uma vez agitada a água, sarava de qualquer doença que tivesse].
João descreve o cenário: “existe em Jerusalém, junto à Porta das Ovelhas, um tanque chamado, em hebraico, Betesda”. O uso do verbo “existe” chama a atenção, pois o evangelho de João foi escrito após a destruição de Jerusalém em 70 d.C. Isso pode ser entendido como um presente histórico, recurso comum para narrar acontecimentos do passado. Também é possível que João se refira a estruturas cujas ruínas ainda permaneciam visíveis. Um peregrino do século IV, por exemplo, relata ter visto os vestígios da Porta das Ovelhas e da área do tanque. Em qualquer caso, quando Jesus esteve ali, tanto a porta quanto o tanque existiam.
A Porta das Ovelhas é conhecida desde Neemias 3.1. Era por ela que os animais destinados ao sacrifício eram conduzidos ao Templo. Nas proximidades havia um grande tanque público, chamado Betesda, nome que significa “Casa de Misericórdia”. Jerusalém possuía diversos reservatórios para abastecimento, purificação e banho, mas este se destacava por suas cinco varandas cobertas, onde uma multidão de cegos, coxos e paralíticos buscava abrigo enquanto aguardava alguma esperança de cura.
As palavras sobre um anjo que descia para agitar as águas e curava o primeiro que entrasse não fazem parte dos manuscritos gregos mais antigos e confiáveis. Provavelmente se trata de um acréscimo posterior feito por um escriba, certamente para explicar a crença popular existente naquele lugar. Por isso, essas palavras não pertencem ao texto original do Evangelho de João e não devem ser usadas para fundamentar qualquer doutrina. (Nota: as traduções ARA, NAA e NVI indicam que João 5.4 não consta nos manuscritos mais antigos).
Essa superstição, entretanto, provavelmente já circulava entre o povo, como sugere a resposta do homem no versículo 7: “não tenho ninguém que me ponha no tanque quando a água é agitada”. Talvez o tanque fosse alimentado por uma nascente cujas águas apresentassem algum benefício terapêutico, dando origem, ao longo do tempo, à ideia de um poder milagroso. Seja qual for sua origem, tratava-se apenas de uma crença popular. O texto bíblico não confirma essa tradição. Pelo contrário, prepara o leitor para mostrar que a verdadeira fonte de cura não estava na água de Betesda, mas na presença do próprio Senhor Jesus Cristo.
João 5
5 Estava ali um homem enfermo havia trinta e oito anos.
6 Jesus, vendo-o deitado e sabendo que estava assim há muito tempo, perguntou-lhe: Queres ser curado?
7 Respondeu-lhe o enfermo: Senhor, não tenho ninguém que me ponha no tanque, quando a água é agitada; pois, enquanto eu vou, desce outro antes de mim.
8 Então, lhe disse Jesus: Levanta-te, toma o teu leito e anda.
9 Imediatamente, o homem se viu curado e, tomando o leito, pôs-se a andar. E aquele dia era sábado
Havia ali um homem enfermo havia trinta e oito anos, incapaz de entrar no tanque. Quando Jesus o viu deitado e soube quanto tempo sofria, fez uma pergunta surpreendente: “Você quer ser curado?” Mais uma vez, João revela a onisciência de Cristo, uma evidência de sua divindade. À primeira vista, a pergunta parece desnecessária. Afinal, aquele homem estava cercado por cegos, coxos e paralíticos, aguardando uma oportunidade de entrar nas águas. É evidente que desejava ser curado. No entanto, essa era exatamente a pergunta certa.
Jesus sempre começava pela necessidade mais imediata da pessoa. Foi assim com a mulher samaritana, ao falar da água, e agora é assim com esse homem, ao falar da cura. Depois de trinta e oito anos de sofrimento, ainda existia esperança em seu coração ou apenas um desespero resignado? A pergunta não buscava informação, mas despertava o homem para a profundidade de sua própria necessidade e preparava seu coração para aquilo que Cristo estava prestes a fazer.
Ao mesmo tempo, a pergunta revela a extraordinária compaixão de Jesus. Durante quase quatro décadas, aquele homem vivera sem a misericórdia de ninguém. Ninguém o ajudava a chegar primeiro ao tanque. Ninguém se importava com sua condição. Aos olhos dos líderes judeus, sua enfermidade era a prova de um castigo divino, tornando-o um marginalizado e um pária religioso. Mas, quando todos o ignoravam, Jesus parou diante dele. Um completo estranho lhe dirigiu palavras de bondade e atenção. Pela primeira vez em muitos anos, alguém realmente se importava com ele.
A resposta do enfermo revela sua condição espiritual tanto quanto sua condição física: “Senhor, não tenho ninguém que me ponha no tanque quando a água é agitada; enquanto vou, outro desce antes de mim”. Ele havia depositado sua esperança na superstição popular em torno do tanque de Betesda. Curiosamente, Jesus não confirma essa crença nem menciona anjos agitando as águas. O homem cria que sua única esperança estava naquele tanque, mas descobriria que a verdadeira fonte de cura não era a água, e sim aquele que estava diante dele.
Aquele homem não fazia ideia de quem era Jesus. Mas o Senhor lhe deu uma ordem: “Levanta-te, toma o teu leito e anda”. O poder é liberado naquele instante. Imediatamente “o homem se viu curado e, tomando o leito, pôs-se a andar.” É um momento realmente impressionante, ao se levantar, ele tinha o poder e a força para se manter de pé. É preciso entender que as curas de Jesus eram completas e instantâneas. Não havia necessidade de reabilitação. Ele simplesmente se levantou e andou. Ele não precisou crer para que o milagre acontecesse. Ele nem sequer sabia quem era Jesus.
O incrível desprezo dos líderes religiosos
O verso 9 termina dizendo: “e aquele dia era sábado”. Esse é o ponto de todo o milagre. Jesus poderia ter feito isso no dia seguinte, não havia urgência. Jesus escolheu o sábado com o propósito expresso de provocar um confronto com os líderes de Israel. Ele disse àquele homem: “Levanta-te, toma o teu leito e anda” (v.8). Jesus sabia que isso incomodaria a liderança judaica.
Os líderes religiosos haviam pervertido a Lei. Deus havia dado a Lei do Sábado (Ex 20.8-11) para benefício do homem, dando-lhe um dia para descanso de seus trabalhos e para ser uma bênção para ele. Os fariseus tornaram-no um fardo, e fizeram do homem escravo de uma miríade de regulamentos humanos.
Em Lucas 6, Jesus entrou na sinagoga em um sábado e encontrou um homem com a mão direita atrofiada. Os escribas e fariseus observavam atentamente, esperando que ele realizasse uma cura para terem do que acusá-lo. Conhecendo seus pensamentos, Jesus chamou o homem para o centro e perguntou: “é lícito, no sábado, fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou destruí-la?” Em seguida, ordenou: “Estenda a mão“. O homem obedeceu, e sua mão foi completamente restaurada. Em vez de se alegrarem com a libertação daquele homem, eles se encheram de furor e começaram a conspirar sobre como eliminar Jesus. Seu apego ao sistema legalista era maior do que sua compaixão pelos que sofriam.
Jesus respondeu a essa distorção com uma declaração decisiva. Em Marcos 2:27–28, afirmou: “o sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado. De sorte que o Filho do Homem é Senhor também do sábado”. Jesus afirmou que ele era maior que o sábado e, portanto, que era Deus. Jesus poderia, de fato, rejeitar os regulamentos farisaicos relativos ao sábado e restaurar a intenção original de Deus para que a observância do sábado fosse uma bênção e não um fardo.
Então Jesus provocou propositalmente um confronto sobre o sábado. Isso nunca teve a ver com a fé do homem. Tinha a ver com o confronto com os líderes. E isso nos leva a considerar a seriedade com que eles encaravam essa transgressão e como Jesus não deu atenção às suas tradições. Ele se recusou a observar as regulamentações legalistas e humanas do sábado, da tradição rabínica. Era um ponto crucial de discórdia entre ele e a elite religiosa.
O Senhor cura deliberadamente este homem no sábado e lhe ordena a pegar sua cama e andar. Ele sabia que estava desafiando os líderes judeus que estavam por perto, observando-o. Jesus não tinha interesse na tradição rabínica, que transformou o sábado em demonstração de uma falsa justiça. Ele estava interessado apenas na Lei de Deus, e, assim, atacou o coração da religião hipócrita, e o fez por meio de um ato de compaixão para com um homem que padecia enfermo.
João 5
10 Por isso, disseram os judeus ao que fora curado: Hoje é sábado, e não te é lícito carregar o leito.
11 Ao que ele lhes respondeu: O mesmo que me curou me disse: Toma o teu leito e anda.
12 Perguntaram-lhe eles: Quem é o homem que te disse: Toma o teu leito e anda?
13 Mas o que fora curado não sabia quem era; porque Jesus se havia retirado, por haver muita gente naquele lugar.
A incrível compaixão de Jesus é seguida pelo incrível desprezo dos líderes judeus. Eles não se importavam se aquele homem conseguia andar e tinha sido curado. Eles eram cruéis e indiferentes. Não tinham nada além de desprezo por aquele homem, acreditando que ele estava naquela condição porque Deus o havia amaldiçoado. Eles manifestaram forte desprezo por Jesus e pelo que ele fez.
A complacência do homem curado
Eles o interrogaram: “Quem é o homem que te disse: Toma o teu leito e anda?” Ou seja: “esqueça e ignore o milagre, quem disse que você podia carregar sua cama no sábado?”
João 5
14 Mais tarde, Jesus o encontrou no templo e lhe disse: Olha que já estás curado; não peques mais, para que não te suceda coisa pior.
15 O homem retirou-se e disse aos judeus que fora Jesus quem o havia curado.
16 E os judeus perseguiam Jesus, porque fazia estas coisas no sábado.
Este homem está intimidado. E é isso que nos leva à terceira e mais fascinante parte da história: a complacência do homem. Isso é realmente incrível. “Mais tarde, Jesus o encontrou no Templo”. Lembrem-se de que havia dezenas de milhares de pessoas no Templo, mas Jesus conhecia o coração das pessoas e sabia onde elas estavam, onde tinham estado e para onde iam.
Jesus o encontrou no Templo, no meio da multidão. Aquele homem não tinha ideia de quem havia lhe curado. Jesus o encontrou e, provavelmente, eles tiveram uma conversa mais longa do que a registrada por João. Mas o final da conversa foi: “Olha que já estás curado; não peques mais, para que não te suceda coisa pior.”
Qual a implicação disso? Que sua doença de 38 anos estava ligada ao pecado. É sempre assim? Não. No capítulo 9, sobre um homem que nasceu cego, os discípulos perguntaram: “Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?”. Jesus lhes respondeu: “Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus”.
Podemos ficar doentes por uma consequência do pecado ou não. Alguns da igreja de Corinto ficaram fracos e até morreram porque profanaram a mesa do Senhor (1Co 11.29-30). Davi disse: “Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia. Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim, e o meu vigor se tornou em sequidão de estio” (Sl 32.3-4).
Falando sobre as consequências da desobediência, Moisés disse: “o Senhor fará que a pestilência te pegue a ti, até que te consuma a terra a que passas para possuí-la. O Senhor te ferirá com a tísica, e a febre, e a inflamação, e com o calor ardente, e a secura, e com o crestamento, e a ferrugem; e isto te perseguirá até que pereças” (Dt 28.21-22).
No caso daquele homem, sua doença estava relacionada ao pecado. Não sabemos mais nada além disso. E o último e sóbrio aviso de Jesus ao homem é: “Você foi curado, agora precisa seguir um caminho diferente, afastando-se do pecado que marcou sua vida”. Jesus está dizendo: “Trinta e oito anos de doença como resultado do pecado, mas isso não é nada comparado à ira de Deus no inferno que você poderá experimentar para sempre. Você foi curado. Vá e não peque mais”.
Jesus certamente explicou ao homem o que queria dizer com aquilo, o que indica que ele lhe havia mostrado a necessidade de crer nele como o caminho para o perdão e a libertação do poder do pecado. Você acha que tem problemas olhando para trás, para os últimos 38 anos? Isso não é nada comparado ao que o espera se você não se arrepender do pecado.
A parte mais chocante da história está no versículo 15: “o homem retirou-se e disse aos judeus que fora Jesus quem o havia curado.” Ele fez uma escolha clara. Depois de trinta e oito anos de sofrimento, de experimentar a compaixão de Cristo, de receber a cura e de ser advertido sobre a gravidade do pecado, abandonou aquele que o restaurara e declarou sua lealdade aos líderes religiosos. Sabia que eles odiavam Jesus e procuravam um motivo para condená-lo. Ainda assim, entregou-o. Eis o poder devastador da falsa religião.
Não há qualquer evidência de gratidão, arrependimento ou fé. O homem não pretende seguir Cristo nem adorá-lo. Ao contrário, procura recuperar o favor da instituição religiosa. Após a conversa com os judeus, percebe que precisa justificar sua suposta violação do sábado e encontra uma forma de fazê-lo: identifica Jesus como o responsável pela cura. Em vez de permanecer ao lado de seu Benfeitor, escolhe agradar aos líderes que rejeitavam o Filho de Deus.
O resultado aparece imediatamente no versículo 16: “por essa razão, os judeus perseguiam Jesus, porque fazia essas coisas no sábado.” Este não é apenas o relato de um milagre; é a história de uma incredulidade trágica. O homem foi curado fisicamente, mas permaneceu espiritualmente cego. E isso não deveria surpreender. Jesus curou multidões, porém apenas um pequeno remanescente creu verdadeiramente. A falsa religião possui um poder assustador para endurecer o coração, mesmo diante das mais evidentes manifestações da graça de Deus.
Nesse episódio, Jesus confronta o legalismo judaico em seu ponto mais sensível: o sábado. Como Senhor do sábado, ele exerce sua autoridade divina, realiza o bem, restaura um homem e o chama ao arrependimento. Ainda assim, esse homem retorna ao sistema religioso que o mantinha escravizado e entrega Cristo aos seus inimigos. É exatamente isso que Jesus denunciaria mais tarde: os líderes religiosos faziam de seus seguidores “duas vezes mais filhos do inferno” do que eles mesmos (Mt 23.15).
Essa é a natureza da religião falsa. Ela prende as pessoas a um sistema de mérito e tradição, impedindo-as de reconhecer a graça de Deus. Foi por isso que Jesus advertiu seus discípulos ao observar os escribas explorando até mesmo a oferta da viúva pobre, levando-a a entregar tudo o que possuía na esperança de obter o favor divino. E foi por isso que anunciou o julgamento daquele sistema: “Não ficará aqui pedra sobre pedra” (Mc 13.1-2). Poucas décadas depois, em 70 d.C., Deus executou esse juízo por meio dos romanos, destruindo Jerusalém, o templo e todo aquele sistema religioso que havia rejeitado o seu próprio Messias.
Você crê em Cristo e o ama como seu Senhor e Salvador? Ou está cativo de uma religião que leva à perdição, liderada por falsos mestres que lhe contam mentiras e o aprisionam em seus enganos? Eu o advirto, como Jesus advertiu: só há uma esperança de salvação, e essa esperança está nele. Rejeite-o e você estará perdido para sempre. E o castigo será eterno, fora de sua presença. O homem fez sua escolha, uma escolha errada, uma escolha trágica, uma espécie de microcosmo de Judas, que encontrou Jesus, viu seu poder, ouviu suas palavras, ouviu seu aviso e escolheu o inferno. Uma história trágica. Ela define o tom para o restante do evangelho e para a rejeição que virá. Vamos orar.
Pai, mais uma vez, nesta manhã, reconhecemos que a Palavra vem com autoridade. Minha palavra não tem autoridade, meus pensamentos, minhas ideias. Mas a Tua Palavra é autoritativa, é verdadeira e é profunda, é séria e deve ser tratada como tal. Cada alma, cada coração, cada vida aqui nesta manhã, ou ouvindo esta mensagem, foi confrontada pela verdade. O Cristo compassivo vem. Ele oferece libertação, salvação e a verdade, e adverte sobre o apego à falsa religião, o poder da falsa religião de manter seu povo cativo.
Ó Deus, oramos para que tenhas misericórdia e abras os olhos daqueles que talvez antes não tenham visto isso, para que vejam agora e apliquem a verdade, para que a fortificação do engano e da mentira seja destruída e eles sejam libertados e levados cativos a Cristo. Essa é a nossa oração.
Antes de terminar a oração, sinto uma grande e persistente ansiedade em relação às pessoas que estão presas em falsas religiões por causa de seu poder e engano. E oro para que Deus, por meio desta mensagem, conceda libertação a muitos.Pai, agora pedimos que nos concedas sabedoria para compreender esta verdade e sabedoria para aplicá-la em todas as vidas. Primeiro na nossa própria, se houver alguma dúvida sobre a nossa condição espiritual, e depois para aplicá-la na vida daqueles que conhecemos, encontramos e amamos. Há alegria em nossos corações porque fomos libertados das trevas para a luz, do reino de Satanás para o Reino de Cristo. Somos abençoados, como lemos anteriormente, por termos provado da Tua bondade. Oramos para que isso aconteça com outros. Resgata-os, Senhor, liberta-os para a Tua verdade e o Teu Espírito. E usa-nos como instrumentos para isso. Agora que a mensagem foi entregue, este não é o fim, este é o começo. Para onde ela vai a partir daqui? De nós para outra pessoa. Dá-nos essa oportunidade, oramos para a Tua glória, em nome de Cristo, Amém.
Esta é uma série de sermões traduzidos de John MacArthur sobre o Evangelho de João.
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Este texto é uma síntese do sermão “The Damning Power of False Religion”, de John MacArthur, em 16/6/2013.
Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:
https://www.gty.org/sermons/43-25/the-damning-power-of-false-religion
Tradução e síntese feitas pelo Site Rei Eterno





















