O Milagre do Novo Nascimento
Nicodemos era príncipe e mestre em Israel. Ele estava no topo de uma estrutura religiosa falida baseada em obras. Ele vivia fazendo coisas para entrar no reino, ficou perplexo ao saber que o único caminho para o reino é por meio de algo que ele não tinha nada a ver. Jesus lhe perguntou: “Você é mestre em Israel e não entende essas coisas?”
Seguindo pelo evangelho de João, vamos olhar agora para os dez primeiros versículos do capítulo 3. O assunto dessa passagem é o novo nascimento.
João 3
1 E havia entre os fariseus um homem chamado Nicodemos, príncipe dos judeus.
2 Este foi ter de noite com Jesus e disse-lhe: Rabi, bem sabemos que és mestre vindo de Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele.
3 Jesus respondeu e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus.
4 Disse-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura, pode tornar a entrar no ventre de sua mãe e nascer?
5 Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus.
6 O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito.
7 Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo.
8 O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.
9 Nicodemos respondeu e disse-lhe: Como pode ser isso?
10 Jesus respondeu e disse-lhe: Tu és mestre de Israel e não sabes isso?
Por cinco vezes encontramos referência ao “novo nascimento”, ou ao “nascer do alto”. A palavra grega pode ser traduzida como “novamente” ou “do alto”, e ambas as traduções são aplicáveis. Jesus está dizendo que, para alguém entrar no reino de Deus, essa pessoa precisa nascer do alto, nascer de novo. Esta é a doutrina da regeneração, que está no cerne da compreensão da salvação.
O conhecido evangelista Billy Graham publicou um livro com o título: “Como Nascer de Novo”. É tipo um manual de instruções, um guia passo a passo para o novo nascimento. Embora a abordagem seja um clamor ao arrependimento e a fé no Senhor Jesus Cristo, porém, esse livro e seu título não compreendem o princípio que Jesus está ensinando aqui.
O ponto central das palavras de Jesus é que algo precisa acontecer com você, algo do qual você não participa. Não existe um “como nascer de novo”. Não existem passos para o novo nascimento. Em nenhum momento Jesus disse a Nicodemos: “faça isso, diga isso, ore isso”. Em nenhum lugar ele lhe diz como nascer de novo, como nascer do alto, mas que o homem precisa nascer de novo para entrar no reino de Deus.
E, no versículo 7, Jesus diz a Nicodemos: “necessário vos é nascer de novo”. Isso não é uma ordem, é uma constatação. O reino de Deus é apenas para aqueles que receberam a vida de Deus. Você não pode entrar no reino de Deus a menos que participe da natureza divina, a menos que seja uma nova criação.
A analogia é o nascimento. Ninguém participou do seu próprio nascimento. Não existem livros que digam como nascer. Você não tem nada a ver com isso, e é por isso que nosso Senhor usou essa analogia. Assim como você não desempenha qualquer papel no seu nascimento físico, você também não desempenha qualquer papel no seu nascimento espiritual. Esse é o ponto da analogia.
Jesus está dizendo que o reino de Deus só se abre para aqueles que sabem que é totalmente um milagre divino e que renunciam a todos os esforços para participar.
O que queremos dizer com reino? O reino da salvação, o caminho para Deus, o perdão dos pecados, a vida eterna, o céu, a bênção no tempo e na eternidade — tudo isso faz parte do reino da salvação; tudo isso está disponível apenas para pessoas que nascem de novo por um ato criativo realizado por Deus, do qual elas não participam. No contexto, essa é primariamente uma referência à participação do reino milenar, eles aguardavam com ansiedade a profetizada ressurreição dos santos e a inauguração do reino messiânico (Is 11.1-16; Dn 12.2). Para entrar no reino é necessário nascer de novo.
Os teólogos dizem que isso é monergismo, ou seja, a regeneração e salvação da alma são obras exclusivas de Deus, sem qualquer cooperação humana. É sobre isso que Jesus está falando a Nicodemos. Mas há aqueles que dizem que na salvação há sinergismo, ou seja, a ideia de que o livre-arbítrio humano colabora com a graça divina.
A salvação é uma obra de Deus, independente do homem. O pecador, então, deve ser o receptor de um milagre divino que procede de Deus, e não há etapas, não há um manual de instruções. Esse é o ponto simples, claro e inconfundível de usar a analogia do nascimento em vez de alguma outra analogia. Repito: você não fez nada para contribuir para o seu nascimento físico, e você não faz nada para contribuir para o seu nascimento espiritual.
A conversa sobre regeneração e novo nascimento se desenvolve em três aspectos: 1) há a preocupação do pecador; 2) há a Palavra do Salvador; 3) há a obra do Espírito. Veremos esses aspectos ao longo da conversa de Jesus com Nicodemos. A mensagem é que o reino de Deus está aberto somente para aqueles que abandonam todo esforço próprio. É uma obra de Deus.
1) A preocupação do pecador
João 3
1 E havia entre os fariseus um homem chamado Nicodemos, príncipe dos judeus.
2 Este foi ter de noite com Jesus e disse-lhe: Rabi, bem sabemos que és mestre vindo de Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele.
Nicodemos era um fariseu. Os fariseus eram um grupo de elite de estudiosos da Lei do Antigo Testamento, que obedeciam a essa Lei, bem como a todas as tradições rabínicas que se desenvolveram em torno dela. Eles eram os mais devotos de todos os judeus ao Antigo Testamento e a cada aspecto de sua tradição judaica.
Os fariseus eram isolacionistas. Não queriam ter nada a ver com a plebe, o povo. Eles consideravam toda a população, exceto eles próprios, como ignorante e amaldiçoada (Jo 7.49). Não se viam em uma posição de servir ao povo; simplesmente se isolavam. Eles eram verdadeiros modelos da hipocrisia, eram imundos por dentro, mas externamente fingiam uma falsa espiritualidade. Eles eram filhos do inferno e, por onde passavam, geravam outros na mesma condição deles (Mt 23).
Em Lucas 18.9-14 Jesus falou da parábola do fariseu e do publicano. Enquanto o fariseu se gabava, orando para si mesmo, dizendo que era fiel e exemplo de justiça, menosprezando o publicano que estava ali, e que sequer conseguia elevar os olhos para o céu e dizia: “Senhor, tem misericórdia de mim, um pecador”. Jesus disse que apenas o publicano saiu dali justificado.
Nicodemos era mestre em Israel (Jo 3.10) e príncipe dos judeus, ou seja, era membro do Sinédrio (Jo 3.1; 7.51-52). O Sinédrio era a Suprema Corte de Israel, formado por 71 líderes: anciãos, mestres da lei e sacerdotes, entre fariseus e saduceus. A tradição diz que Nicodemos era uma das três pessoas mais ricas de Jerusalém. E isso era muito importante para sua reputação, pois os fariseus amavam o dinheiro (Lc 16.14). Eles associavam a riqueza à bênção de Deus.
No fundo, Nicodemos sabia que ele mesmo era uma farsa, um impostor, um hipócrita. Ele sabia que sua religiosidade era apenas aparente. Ele vivia vazio por dentro, com medos e dúvidas. A ansiedade dilacerava sua alma. Eis o seu problema: a quem recorrer? Ao próprio mestre. E ele viu em Jesus um mestre superior a si mesmo. Ele diz a Jesus: “bem sabemos que és mestre vindo de Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele”. Seu coração clamava por essa realidade.
Jesus sabia o que havia no coração do homem (Jo 2.24-25). Ele ignorou o que Nicodemos lhe disse, pois sabia o que estava preocupando Nicodemos, ele sabia perfeitamente o que estava no seu coração. Ele tinha onisciência. Ele conhecia os pensamentos, anseios e desejos dos corações dos homens.
Nicodemos havia atingindo o ápice na estrutura religiosa, mas sabia que não estava no reino de Deus, vivia cheio de temores, sem paz, sem alegria e sem qualquer segurança. E em seu coração ele clamava: “O que eu faço? O que eu deixo de fazer?” Porque tudo o que ele sabia é “fazer”, ele era mestre em um sistema religioso falido baseado em obras.
E Jesus lhe diz: “Ninguém entra no reino se não nascer de novo” (Jo 3.3), isso significa que é preciso recomeçar do zero. Ou seja, toda sua religiosidade, moralidade e obras humanas acumuladas se resumiam a nada diante de Deus.
2) A Palavra do Salvador
João 3
3 Jesus respondeu e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus.
Isso é regeneração. É preciso nascer de novo. É preciso ter uma nova natureza, uma nova vida, uma recriação. E isso não acontece pela vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus (Jo 1.13). Todos nós estávamos mortos em nossos delitos e pecados, mas estando nós ainda mortos, o Senhor nos deu vida juntamente com Cristo e, com ele fomos ressuscitados e assentados nos lugares celestiais em Cristo (Ef 2.1-6). Pedro diz que, em sua misericórdia, o Senhor nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo (1Pe 1.3).
Textos como esses e tantos outros dizem que a salvação é uma obra de Deus. É um milagre divino que desce do céu, do qual não participamos. Não participamos da nossa eleição antes da fundação do mundo (Ef 1.4) e não participamos da nossa regeneração no tempo. Isso é obra de Deus.
João 3
4 Disse-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura, pode tornar a entrar no ventre de sua mãe e nascer?
Muitos pensam que Nicodemos não havia entendido as palavras de Jesus, ou que ele estava sendo irônico, ou que ele considerou ridículas as palavras de Jesus, ou que ele, por ser ignorante, não entendeu nada e fez uma pergunta em tom de zombaria.
Isso não está correto. Não é nada disso que temos aqui. Ele sabia que Jesus havia acabado de ler seus pensamentos. Ele não perguntou a Jesus: “Por que o Senhor está falando comigo sobre o reino?” Ele sabia o que Jesus havia acabado de dizer: “Você não pode entrar no reino por nada que faça, assim como não pode provocar o seu próprio nascimento.”
Nicodemos estava habituado com analogias, ilustrações, parábolas, paralelos etc., isso fazia parte do mundo dos rabinos. Ele passou a vida inteira em discussões e diálogos teológicos. Ele entendeu completamente o que Jesus lhe disse.
Quando ele perguntou: “pode um homem entrar no ventre de sua mãe e nascer de novo?”, ele havia entendido a linguagem figurada que Jesus usou e passou a conversar com Jesus com base nela. Ele entendeu que Jesus havia lhe dito que era impossível para ele entrar no reino de Deus com seus próprios esforços, que não havia essa possibilidade. Ele quis dizer: “Mestre, você está falando de algo que é impossível para mim.”
Jesus não lhe disse como nascer de novo. Nicodemos reagiu como qualquer legalista reagiria. Em outras palavras, ele quis dizer: “Passei a vida inteira fazendo coisas para entrar no reino, e agora o Senhor está me dizendo que o único caminho para o reino é por meio de algo com o qual não tenho nada a ver?”. Mais adiante, no versículo 10, Jesus lhe diz: “Você é mestre em Israel e não entende essas coisas?”
Eis a essência do evangelho da graça. Tudo o que ele conhecia era que a salvação era conquistada por meio da religião, cerimônias, rituais, moralidade e obras humanas. Nicodemos vivia em altos debates teológicos, mas estava ouvindo algo que desmontava completamente sua estrutura religiosa. Para ele era algo muito estranho Deus fazer uma obra salvadora na alma do homem sem que o próprio homem contribua para tal. Ele ficou absolutamente perplexo.
Ele era um mestre em Israel, especialista no Antigo Testamento, mas não entendia o que era o novo nascimento e a regeneração, um assunto abundante no Antigo Testamento. Isso era algo imperdoável. Jesus então passou a lhe mostrar o que era o novo nascimento.
O nascer da água e do Espírito no Antigo Testamento
João 3
5 Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus.
Alguns dizem que a água significa o nascimento humano. Mas isso é um pensamento que não se sustenta. Seria o mesmo que Jesus ter dito: “Nicodemos, você precisa existir. Você precisa ser uma pessoa que nasceu, porque quem não nasceu não pode nascer de novo”. Isso é ridículo! Jesus não disse isso.
Outros dizem que a água é o batismo. Esse é um pensamento muito popular e sem fundamento. Os comentaristas se estendem por páginas para tentar associá-lo ao batismo cristão, que só aparece em Atos 2. Nicodemos não sabia nada sobre o batismo cristão, e ninguém em Israel sabia.
Nicodemos vivia, se movia e existia no Antigo Testamento. Ele conhecia o Antigo Testamento. Provavelmente tinha memorizado grandes trechos do Antigo Testamento. Ele estava muito familiarizado com os profetas. Água e Espírito: para onde sua mente o levaria?
Olhe para Ezequiel 36 e 37. Aqui está um princípio contido em uma das passagens mais maravilhosas de todo o Antigo Testamento, que descreve a obra salvadora de Deus aplicada a Israel. Mas é a mesma obra salvadora aplicada também aos gentios ao longo da história, assim como aos judeus que chegam à fé em Cristo.
A doutrina bíblica do monergismo diz que a salvação é uma obra exclusiva de Deus, realizada somente pelo Espírito Santo, sem qualquer cooperação humana. Ele ensina que, devido à depravação total, o homem caído não pode desejar ou compreender as coisas espirituais, tornando o novo nascimento um ato soberano e exclusivo de Deus. E é sobre esse nascimento da água e do espírito que o profeta Ezequiel escreveu:
Então, espalharei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. E vos darei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei o coração de pedra da vossa carne e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu espírito e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis. E habitareis na terra que eu dei a vossos pais, e vós me sereis por povo, e eu vos serei por Deus (Ez 36.25-28).
A água e o Espírito são simplesmente uma referência à criação, à nova criação, à obra regeneradora de Deus que ele realiza por sua própria vontade no coração de um pecador. Aqui Deus promete um dia fazê-lo não apenas em judeus e gentios individualmente, mas um dia em toda a nação de Israel. Essa é a água e o Espírito.
Essa grande e marcante passagem da Nova Aliança em Ezequiel 36 seria muito familiar a Nicodemos. Ele a conheceria bem, tal como o capítulo 37, onde Deus contempla a futura salvação de Israel.
Veio sobre mim a mão do Senhor; e o Senhor me levou em espírito, e me pôs no meio de um vale que estava cheio de ossos, e me fez andar ao redor deles; e eis que eram mui numerosos sobre a face do vale e estavam sequíssimos. E me disse: Filho do homem, poderão viver estes ossos? E eu disse: Senhor Jeová, tu o sabes. Então, me disse: Profetiza sobre estes ossos e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor. Assim diz o Senhor Jeová a estes ossos: Eis que farei entrar em vós o espírito, e vivereis. E porei nervos sobre vós, e farei crescer carne sobre vós, e sobre vós estenderei pele, e porei em vós o espírito, e vivereis, e sabereis que eu sou o Senhor […] Portanto, profetiza e dize-lhes: Assim diz o Senhor Jeová: Eis que eu abrirei as vossas sepulturas, e vos farei sair das vossas sepulturas, ó povo meu, e vos trarei à terra de Israel. E sabereis que eu sou o Senhor, quando eu abrir as vossas sepulturas e vos fizer sair das vossas sepulturas, ó povo meu. E porei em vós o meu Espírito, e vivereis, e vos porei na vossa terra, e sabereis que eu, o Senhor, disse isso e o fiz, diz o Senhor (Ez 37.1-6; 12-14).
Essa é a obra soberana de Deus, dando vida futura à nação de Israel. Essa é a sua promessa à nação, e esse é o seu plano e meio de salvação para cada indivíduo também. É uma obra soberana de Deus.
Nicodemos conhecia bem essas passagens, conhecia bem os textos de Ezequiel. Ele o teria lido muitas vezes, provavelmente o tinha na memória por causa da promessa. Ele conhecia o texto de Ezequiel que diz: “e lhe darei um só coração, e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei um coração de carne” (Ez 11.19). Esta é uma obra divina claramente descrita no Antigo Testamento.
Observem apenas duas passagens em Jeremias:
E dar-lhes-ei coração para que me conheçam, porque eu sou o Senhor; e ser-me-ão por povo, e eu lhes serei por Deus, porque se converterão a mim de todo o seu coração […] mas este é o concerto que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: porei a minha lei no seu interior e a escreverei no seu coração; e eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo (Jr 24.7; 31.33).
Ou seja, Deus está falando da criação de um novo povo, dando-lhes um novo Espírito, um novo coração, lavando-os, purificando-os, limpando-os. Essa é toda a linguagem da Nova Aliança.
No Salmo 51 há uma situação muito peculiar com Davi, porque ele perpetrou uma série de pecados massivos, prolongados, premeditados, bem planejados e orquestrados de adultério e morte de um de seus fiéis escudeiros. Ele ocultou seu pecado e foi severamente repreendido pelo profeta Natã (2Sm 12). Houve diversas consequências terríveis na vida de Davi por causa de seu pecado. Em profunda agonia, ele disse:
Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias. Lava-me completamente da minha iniquidade e purifica-me do meu pecado […] purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e ficarei mais alvo do que a neve […] cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova em mim um espírito reto (Sl 51, 1-2; 7,10).
Essa é a linguagem da Nova Aliança. Davi estava tão profundamente arrependido de seus pecados que orava como se fosse um homem não regenerado. Ele sabia o que significava ser regenerado. Significava ser purificado, receber um novo coração, um novo espírito, uma nova disposição, ser uma nova criação.
Nicodemos também conhecia esse Salmo, recitava-o, sabia-o de cor — um dos Salmos mais populares e conhecidos de todos. Nicodemos sabia que a salvação baseada no Antigo Testamento era uma questão de Deus agindo soberanamente segundo sua vontade, mas como é que ele se deixou levar pela mentira condenatória de Satanás de que, de alguma forma, poderia merecer a salvação por algo que fizesse?
Jesus não o absolve. Ele diz: “Como podes ser um mestre em Israel e não saber disso?” (Jo 3.10). O judaísmo apóstata ignorou a verdade da salvação da Nova Aliança e acreditou na mentira de Satanás de que se podia merecer a entrada no reino.
Essa foi a primeira dica de Jesus a Nicodemos sobre o que a Escritura fala do novo nascimento e nascer da água e do Espírito. Mas Jesus lhe deu uma segunda dica:
Carne só produz mais carne
João 3
6 O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito.
Em outras palavras, Jesus lhe disse: “Nicodemos, há um princípio fundamental aqui que você e todo o seu sistema ignora. Tudo o que a carne pode produzir é mais carne.” Você não pode ir da carne para o Espírito. Jesus acusou Nicodemos de não compreender a doutrina do pecado, a doutrina da depravação total, a completa incapacidade e falta de vontade do pecador de fazer o bem, tudo isso está no Antigo Testamento.
O que Nicodemos teria pensado? Uma passagem das Escrituras com a qual ele estaria muito familiarizado seria Gênesis 6, quando Deus apresenta os motivos pelos quais afogaria o mundo inteiro, exceto Noé e sua família. Deus disse: “Não contenderá o meu Espírito para sempre com o homem, porque ele também é carne…” (Gn 6.3).
Este é o problema. Aí está a própria palavra que Jesus usou: “carne”. Essa é a palavra para a humanidade caída, corrompida e pecadora. E então, Deus diz o que a carne produz: “e viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente” (Gn 6.5).
Essa é uma declaração tão clara sobre a depravação humana quanto qualquer outra que se encontre na Bíblia. Todos os desígnios de todos os pensamentos de todos os corações eram continuamente maus. A carne produz isso porque é tudo o que ela pode produzir. Nada mudou, exceto que Deus não mais enviaria outro dilúvio (Gn 8). Somente Deus pode purificar o impuro, ninguém mais (Jó 14.4). Nicodemos conhecia o texto de Isaías que diz:
Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; e todos nós caímos como a folha, e as nossas culpas, como um vento, nos arrebatam. E já ninguém há que invoque o teu nome, que desperte e te detenha; porque escondes de nós o rosto e nos fazes derreter, por causa das nossas iniquidades (Is 64.6-7).
Esse é o ensinamento do Antigo Testamento sobre a depravação. Jeremias sintetizou em poucas palavras: “enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jr 17.9). Essa a realidade do coração do homem caído. Por isso Paulo escreveu que todos nós estávamos mortos em delitos e pecados (Ef 2.1-3). O que um morto pode fazer ou contribuir para se livrar de sua condição? Nada.
Houve um tempo em que o apóstolo Paulo se considerava justo. Falando de si mesmo, ele escreveu: “circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu, segundo o zelo, perseguidor da igreja; segundo a justiça que há na lei, irrepreensível” (Fp 3.5-6).
Mas, ao se deparar com a verdade, ele escreveu:
Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas e as considero como esterco, para que possa ganhar a Cristo e seja achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus, pela fé (Fp 3.7-9).
Assim ele descreveu a condição de toda a humanidade:
Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma! Pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado, como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. A sua garganta é um sepulcro aberto; com a língua tratam enganosamente; peçonha de áspides está debaixo de seus lábios; cuja boca está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Em seus caminhos há destruição e miséria; e não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos. Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus. Por isso, nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado (Rm 3.9-20).
Cada uma dessas passagens é uma declaração do Antigo Testamento sobre a pecaminosidade do pecado. Paulo, um ex-fariseu, conhecia todas essas passagens e finalmente viu a luz. O Antigo Testamento, portanto, ensina tudo isso a respeito da pecaminosidade do homem. Mas parece que Nicodemos, sendo mestre em Israel, não entendia isso.
O Antigo Testamento ensina que a salvação é um ato soberano de Deus pela graça, que ele realiza independentemente de qualquer ação da parte do homem. O homem precisa de um novo nascimento espiritual, precisa ser purificado, precisa ser transformado, precisa ter seu coração substituído por um novo coração. Seu espírito precisa ser substituído por um novo espírito, ou disposição, ele precisa que o Espírito Santo seja plantado nele se quiser entrar no reino de Deus.
E isso não é algo que você possa fazer por si mesmo, porque você é carne, e a carne produz apenas carne. É algo básico na Bíblia. Por isso Jesus perguntou a Nicodemos: “Você é mestre em Israel e não entende isso?” (Jo 3.10). Então Jesus lhe disse:
João 3
7 Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo.
Em outras palavras: “Por que vocês estão admirados por eu ter dito que vocês precisam nascer de novo?”. Ou seja: “vocês não entrarão no reino até que isso aconteça, e vocês não podem contribuir porque são carne, e a carne não pode fazer isso. Vocês conhecem o Antigo Testamento, mas foram cegados pela mentira de Satanás”.
3) A obra do Espírito
João 6
8 O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.
Esta é outra analogia que tira completamente o nascimento espiritual das mãos do pecador. O que você pode fazer para controlar o vento? Nada. Você não sabe de onde ele vem, não sabe para onde ele vai, não tem como lhe dar ordens, não pode mandar que ele venha ou que vá embora. O vento é invisível, irresistível, imprevisível e incontrolável. Não há livros ensinando como exercer controle sobre o vento e ajudá-lo a fazer seus circuítos.
Esta é a segunda analogia que Jesus falou para aquele rabino inteligente, perspicaz, de raciocínio claro e lógico — para lhe dizer que esta é uma obra da qual ele não participa. Esta é a graça irresistível, como Jesus disse: “pois assim como o Pai ressuscita os mortos e os vivifica, assim também o Filho vivifica aqueles que quer” (Jo 5.21). É a vontade de Deus, a vontade do Filho e o poder do Espírito.
É uma obra incontestável de Deus. Foi algo novo para Nicodemos e contrário a tudo o que ele conhecia. Ele ficou admirado e sem entender.
João 3
9 Nicodemos respondeu e disse-lhe: Como pode ser isso?
Ele quis dizer: “acabei se ser informado de que eu não posso fazer nada, não entendo isso. O que eu faço então?”. Nicodemos percebeu que Jesus havia destruído toda sua estrutura e vida religiosa. Ele continua sem entender como ele não faz nada para entrar no reino de Deus, isso é contrário a tudo que ele aprendeu, vivia e ensinava.
João 3
10 Jesus respondeu e disse-lhe: Tu és mestre de Israel e não sabes isso?
Essa é a reprovação final de Jesus à estrutura religiosa daquele homem que era reconhecido como um mestre. Ele estava fora do reino de Deus, mas ensinava aos outros o mesmo caminho errante em que estava.
O que aconteceu com Nicodemos?
Por enquanto ele desaparece. Mas ele reaparece no capítulo 7, do evangelho de João. No texto diz que Jesus estava na Galileia, evitando andar pela Judeia, pois os líderes religiosos queriam matá-lo. Estava próxima a Festa dos Tabernáculos, quando multidões iam a Jerusalém. Jesus subiu a Jerusalém e estava pregando e ensinando no Templo (Jo 7.28).
Havia uma grande divisão e dissensão no meio do povo, uns pensavam que Jesus era o Messias, outros que ele era um profeta, e outros queriam prendê-lo para matá-lo (Jo 7.40-44). Os principais sacerdotes enviaram servidores para trazê-lo preso, mas eles não ousaram colocar as mãos nele, e voltaram dizendo: “nunca homem algum falou assim como este homem” (Jo 7.46). Os fariseus lhes disseram:
Também vós fostes enganados? Creu nele, porventura, algum dos principais ou dos fariseus? Mas esta multidão, que não sabe a lei, é maldita. Nicodemos, que era um deles (o que de noite fora ter com Jesus ), disse-lhes: Porventura, condena a nossa lei um homem sem primeiro o ouvir e ter conhecimento do que faz? Responderam eles e disseram-lhe: És tu também da Galileia? Examina e verás que da Galileia nenhum profeta surgiu (Jo 7.47-52).
Foi uma atitude ousada de Nicodemos. Quando todo o grupo queria Jesus preso e morto, ele se levantou em defesa da lei porque queria proteger Jesus, mesmo ainda não sendo um crente. Os fariseus zombaram de Nicodemos, um mestre ilustre.
Isso aconteceu dois anos depois que Jesus havia conversado com Nicodemos (Jo 3), ele continuava como membro do Sinédrio. Nicodemos volta a aparecer no evangelho de João no sepultamento de Jesus:
Depois disto, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, ainda que ocultamente pelo receio que tinha dos judeus, rogou a Pilatos lhe permitisse tirar o corpo de Jesus. Pilatos lhe permitiu. Então, foi José de Arimateia e retirou o corpo de Jesus. E também Nicodemos, aquele que anteriormente viera ter com Jesus à noite, foi, levando cerca de cem libras de um composto de mirra e aloés. Tomaram, pois, o corpo de Jesus e o envolveram em lençóis com os aromas, como é de uso entre os judeus na preparação para o sepulcro. No lugar onde Jesus fora crucificado, havia um jardim, e neste, um sepulcro novo, no qual ninguém tinha sido ainda posto. Ali, pois, por causa da preparação dos judeus e por estar perto o túmulo, depositaram o corpo de Jesus (Jo 19.38-42).
Foi um ato honroso da parte de Nicodemos, bem como um ato de coragem. Nicodemos se junta a José de Arimateia, que era crente, mas não estava disposto a confessar sua fé abertamente. E agora Nicodemos, ousado, vai até lá e deixa claro que ele havia se identificado com o Senhor Jesus. Ele está presente e toma o corpo de Jesus.
Imaginem só: Nicodemos manuseando em seus braços aquele corpo com o qual havia conversado naquela noite, envolvendo-o em faixas de linho e colocando especiarias entre as faixas, como era o costume funerário. Junto com seu amigo José, eles depositam Jesus no jardim, em um túmulo novo, onde ninguém jamais havia sido sepultado. Lá está ele com o corpo de Jesus em seus braços. Ao fazer isso, Nicodemos destruiu toda sua reputação religiosa e sua posição de mestre em Israel.
Deus deu-lhe vida, um novo coração, uma nova alma, o purificou e o regenerou. A tradição diz que ele foi a única pessoa que se levantou no julgamento de Jesus perante Pilatos e o defendeu; que foi batizado por Pedro e João; que sua confissão de fé no Senhor Jesus foi tão ousada que o levou a ser destituído de seu cargo, de sua posição como mestre, de toda a sua fortuna, de todas as suas propriedades, de todos os seus bens, e que foi banido de Jerusalém pelo Sinédrio, ao qual servia.
Ele foi reduzido a viver fora da cidade, e sua família ficou na cidade em extrema pobreza. Há uma pequena história tradicional de que sua filha era tão pobre que chegou à vergonha de cavar em montes de esterco em busca de grãos para comer e sobreviver. Um rabino passou por ali, viu-a e teve compaixão dela, e perguntou: “Quem é você?” Ela respondeu: “Sou filha de Nicodemos”. Então o rabino perguntou: “O que aconteceu com seu pai?” Ela respondeu: “Ele se tornou seguidor de Jesus e foi banido”. E o rabino se recusou a ajudá-la.
Séculos depois, um homem chamado Fócio se refere a um documento antigo que registra o martírio de Nicodemos no primeiro século, por causa de sua devoção a Cristo. Ele diz que Nicodemos foi espancado até a morte por uma multidão. E essa é a história completa. Ele perdeu tudo neste mundo, mas ganhou tudo no mundo vindouro.
O que você pode fazer? “Declarou-lhes, pois, Jesus: Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede. Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora. E a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.35,37,39).
Você pode suplicar a Deus que lhe dê vida; é prerrogativa Dele. Mas você pode orar, e ele não rejeita essa oração sincera. Você pode dizer como o publicano: “Senhor, tem misericórdia de mim, pecador” (Jo 18.13). Vamos orar.
Pai, nós Te agradecemos novamente pela maravilhosa história de Nicodemos, este relato extraordinário das Escrituras. Em toda a sua riqueza, em toda a magnificência da verdade divina, não há paralelo, nada sequer se aproxima, nada ascende a este nível, nada. Este é o maior tesouro do mundo, a coisa mais importante do mundo, a verdade divina; mais doce que o mel do favo, mais preciosa que o ouro, muito ouro fino. Nós Te agradecemos pela doçura, pelo valor, pelas alegrias incomparáveis que nos chegam com a compreensão da verdade divina. Nós a compreendemos. Nós a entendemos. A verdade, oculta aos sábios, revelada aos pequeninos, para a Tua glória, somente para a Tua glória.
Oro por aqueles que são como Nicodemos, talvez religiosos, morais, mas preocupados, temerosos, duvidosos, conhecendo a hipocrisia de seus próprios corações, sabendo que não estão no reino. Que o Senhor os salve pela Sua vontade, os lave com a água da Sua Palavra e lhes dê um novo Espírito, plante o teu Espírito Santo neles, dê-lhes nova vida, regenere-os. Abra a sepultura, liberte-os, transfira-os do reino da morte e das trevas para o reino do Seu amado Filho e produza neles arrependimento, fé e obediência. Tudo isso para o Seu louvor e a Sua glória.
Pai, obrigado por este maravilhoso momento de adoração. Usa-nos, Senhor, para proclamar esta verdade com ousadia e, então, esperar no teu poder e te dar todo o louvor, oramos. Amém.
Esta é uma série de sermões traduzidos de John MacArthur sobre o Evangelho de João.
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Este texto é uma síntese do sermão “God’s Role in Regeneration”, por John MacArthur, em 27/01/2013.
Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:
https://www.gty.org/sermons/43-13/gods-role-in-regeneration
Tradução e síntese feitas pelo Site Rei Eterno





















