Não Vote em Jezabel

O que a Bíblia nos ensina sobre como proceder nas eleições de 2026?

O período eleitoral é sempre fatigante de alguma forma. Existem várias propagandas de todos os lados, mas, no meio de tudo isso, a preocupação principal do cristão precisa ser: como eu posso glorificar a Deus nesse momento (cf. 1 Co 10.31)? Será que a Bíblia tem alguma coisa a dizer sobre como o cristão deve exercer o seu voto em 2026?

É interessante que existe uma comparação dentro dos livros de I e II Reis e I e II Crônicas que envolve três reis muito diferentes e que responde a uma questão muito real. Responde àquela angústia que soa mais ou menos assim: e quando nenhum candidato representa exatamente aquilo em que eu creio? O que eu faço? Eu fico em casa, eu voto nulo, eu voto em branco, eu escolho o menos ruim? Essa é uma conversa séria. Precisamos reorganizar a forma como  pensamos sobre política, à luz da Bíblia.

A Bíblia é a lente pela qual enxergamos todo mundo ao nosso redor

E, para começar, a gente precisa lembrar de uma coisa central da nossa fé: a fé cristã não é uma religião isolada que diz respeito a apenas uma área da vida. O nosso cristianismo não fica preso ao domingo sem interferir na forma como nós trabalhamos na segunda-feira, por exemplo. E a verdade é justamente o contrário: a cosmovisão cristã, o entendimento correto das Escrituras, abarca todas as esferas da vida humana. Isso inclui o trabalho, a arte, a ciência, a educação, a família e também o governo.

Porque a Bíblia se torna a lente pela qual nós enxergamos todo mundo ao nosso redor. Então, quando chega o momento do ano de nós escolhermos os nossos magistrados civis, a Bíblia deve ser a nossa lente que nos guia nessas decisões. E, logo mais adiante, a gente vai conversar sobre três reis do Antigo Testamento que nos dão, de certa forma, um mapa para a gente conseguir lidar com o cenário político que a gente está vivendo hoje.

“Religião e política não se misturam”. Essa afirmação é bíblica?

Mas, antes disso, a gente precisa lidar com uma mentira que, infelizmente, corre muito em círculos evangélicos. Provavelmente você já ouviu alguém dizendo alguma coisa do tipo: “Religião e política não se misturam”. Essa é uma ideia totalmente antibíblica. Na Palavra de Deus, nós encontramos grandes homens e mulheres, durante toda a história, que se envolveram diretamente com as autoridades civis, com as decisões do Estado e também com a estrutura de governo dos povos onde eles viviam.

Por exemplo, Moisés confrontou o faraó do Egito (Ex 5.1-3). José se tornou governador no Egito e coordenou toda uma política pública que salvou nações inteiras (Gn 41.33-57). Elias enfrentou o rei Acabe no meio de uma crise nacional (1Rs 18.17-40). Daniel serviu como conselheiro na Babilônia e na Pérsia (Dn 2.48; 6.1-3,28). Ester foi rainha e arriscou a própria vida para mudar um decreto do rei (Es 4.13-16; 8.3-8). Neemias voltou para Jerusalém como governador e reconstruiu a cidade (Ne 2.1-18; 5.14). João Batista literalmente entregou a sua vida: ele foi decapitado após confrontar o pecado do rei (Mc 6.17-29).

E também, em Romanos 13.1-4, o apóstolo Paulo tem muito a dizer sobre o governo. Então, ele explica que a autoridade civil existe porque Deus a instituiu e que o magistrado é ministro de Deus para o nosso bem e portador da espada para castigar aquele que pratica o mal.

Há outras passagens que nos mostram isso, por exemplo, Provérbios 29,2, dizendo que, quando os justos se multiplicam, o povo se alegra, mas, quando o ímpio domina, então o povo lamenta. Em Jeremias 29:7, quando o povo estava indo para o exílio babilônico, Deus instrui o povo, dizendo: “Procurai a paz da cidade para onde vos desterrei, e orai por ela ao Senhor, porque na sua paz vós tereis paz”. E, à luz disso, a gente entende que se engajar, orar e zelar pela esfera pública é o trabalho do cristão bíblico.

Na prática, qual deve ser o envolvimento dos cristãos na política?

Mas, agora, como a gente lida com isso na prática? E eu quero conversar com você sobre três pessoas centrais do Antigo Testamento, da história de Israel e Judá. Essa é uma análise muito interessante que eu vi o pastor Josh Howerton fazer e que eu achei sensacional para a gente conversar aqui também.

Então, vamos puxar um contexto para a gente entender. Logo depois da morte do rei Salomão, o reino de Israel se dividiu em dois. Então, ao norte, ficaram dez tribos, e esse reino manteve o nome de Israel, com a capital em Samaria. E, ao sul, ficaram duas tribos que passaram a ser chamadas de Judá, com a capital em Jerusalém (1Rs 12.16-24; 16.24).

E, a partir dessa divisão, a Bíblia narra várias das histórias dos reis daquela época e faz questão de avaliar cada um com uma frase que é como se fosse um veredito. Então, quando você pega para ler tanto os livros de Reis quanto os de Crônicas, você vai encontrar várias vezes, depois da descrição do reinado de algum rei específico, algo do tipo: “Ele fez o que era mau perante o Senhor” ou “Ele fez o que era reto perante o Senhor” (1Rs 16.30; 2Rs 22.2). Então, a Bíblia sempre traz um resumo sobre esses reis. E, dentro do relato desses vários reis, desses vários governos, tanto de Israel quanto de Judá, a gente encontra três figuras centrais.

1) Acabe, o tipo líder ímpio, que promove tudo o que é abominável aos olhos do Senhor) 

O primeiro deles é o rei Acabe. Ele foi rei do reino do norte, casado com Jezabel, uma princesa fenícia que trouxe o culto a Baal para dentro do palácio e depois para todo o Israel (1Rs 16.29-33). E a Bíblia é muito dura com Acabe, dizendo, em 1 Reis 16:30,33 diz:  “Acabe, filho de Onri, fez o que era mau perante o Senhor, mais do que todos os que foram antes dele”. E, no versículo 33, cometeu mais abominações para irritar o Senhor, Deus de Israel, do que todos os reis de Israel que foram antes dele.

Isso porque Acabe e sua esposa Jezabel institucionalizaram a idolatria que o levou à prostituição, perseguiram os profetas do Senhor, como o profeta Elias (1Rs 18.4,13), mataram inocentes e roubaram os cidadãos, especialmente no caso relatado em 1 Reis 21:1-16, em que Jezabel criou todo um julgamento fajuto para matar um homem inocente e tomar a propriedade privada dele. E os dois se tornaram o sinônimo de uma liderança má, uma liderança perversa aos olhos de Deus, porque eles pegaram uma nação e a arrastaram para longe de Deus. E todo cristão, depois de ler esse relato, precisa pensar: que Deus nos livre de líderes assim!

2) Josias, o governante dos sonhos, um agente de justiça

Mas existe um outro rei que a gente precisa analisar. Ele se chamava Josias. Ele foi rei do reino do sul e subiu ao trono quando tinha oito anos de idade (2Rs 22.1). Em 2 Reis 23:25, diz: “Antes dele não houve rei que lhe fosse semelhante, que se convertesse ao Senhor de todo o coração, e de toda a sua alma, e de todas as suas forças, segundo toda a lei de Moisés. E depois dele nunca se levantou outro igual”. E depois, em 2 Reis 22.2, diz que ele fez o que era reto perante o Senhor e andou segundo todo o caminho de Davi.

E a Bíblia diz isso porque Josias promoveu uma das maiores reformas espirituais do Antigo Testamento. Ele redescobriu o livro da lei que estava esquecido no templo e rasgou as próprias vestes depois que leram para ele, quando ouviu o que Deus dizia (2Rs 22.8-13). Ele reuniu o povo na praça pública, leu as Escrituras em voz alta para a nação inteira, destruiu os altares pagãos, restaurou a celebração da Páscoa e conduziu Judá para um momento de fidelidade a Deus (2Rs 23.1-25).

Então, de certa forma, ele foi o governante dos sonhos. E, nesse momento, nós podemos pensar como cristãos: como eu gostaria de ter um Josias como candidato! Então, a gente viu Acabe, que foi o pior de todos os reis; a gente viu Josias, que foi o melhor de todos os reis.

3) Jeú, o líder imperfeito, mas que foi usado por Deus para conter o mal

Mas existe uma terceira categoria, que é representada pelo rei Jeú. Jeú foi um rei do reino do norte. E aqui fica uma coisa muito interessante, porque ele foi ungido pelo profeta Eliseu com uma missão muito específica: destruir a casa de Acabe e apagar da terra o culto a Baal (2 Reis 9:1-10; 10:18-28).

E ele executou essa missão tão furiosamente quanto ele cavalgava (2Rs 9.20). Ele matou Jorão, filho de Acabe, mandou matar Jezabel e acabou com a linhagem de Acabe. E a Bíblia ainda relata que ele reuniu os sacerdotes de Baal de uma forma muito estratégica e eliminou todos de uma vez (2Rs 9.21-26,30-37; 10.1-28). Ele derrubou e transformou o templo de Baal em latrina, como a Bíblia fala em 2 Reis 10,27.

E depois vem aquela avaliação que a Bíblia traz sobre ele. E olhe só o que diz em 2 Reis 10.30: “Pelo que disse o Senhor a Jeú: Porquanto bem executaste o que é reto perante mim e fizeste à casa de Acabe segundo tudo quanto era do meu propósito, teus filhos até a quarta geração se assentarão no trono de Israel”. Então, Deus aqui elogiou Jeú e recompensou a obediência dele.

Mas olhe só o que fala depois, em 2 Reis 10.31: “Mas Jeú não teve cuidado de andar de todo o seu coração na lei do Senhor, Deus de Israel, nem se apartou dos pecados que Jeroboão fez pecar a Israel”. Então, à luz disso, a gente consegue entender que Jeú foi instrumento de Deus para destruir um mal enorme, mas, ao mesmo tempo, ele foi um homem falho, incompleto, cheio de pecados que ele nunca abandonou. Ele não foi Josias e ele também não foi Acabe. Ele foi um terceiro tipo específico de rei.

O que esses três reis nos ensinam sobre a eleição de 2026?

E entender isso daqui é muito importante, porque a Bíblia mostra essas três categorias de liderança política. Existem:

a) Josias, que é o líder justo, que promove o que é justo, um homem fiel ao Senhor e que faz tudo para a glória de Deus.

b) Acabe, que é aquele líder ímpio, que promove tudo o que é abominável aos olhos do Senhor; ele faz e institui aquilo que atrai a ira de Deus.

c) Jeú, que é um líder imperfeito, mas que é usado por Deus para conter o mal, mesmo sem representar tudo aquilo que Deus ordena a um magistrado civil.

E, na maioria esmagadora das vezes em que a gente vai escolher em quem nós vamos votar, a nossa lista de opções não é entre Josias e Acabe; na maioria das vezes, é entre Acabe e Jeú. E aquilo que nós aprendemos a partir das Escrituras é que um líder falho que contém, que impede o mal, é preferível a um líder mau que odeia o Senhor completamente.

E o Senhor Deus, na sua soberania, tem usado vários Jeús ao longo da história para impedir catástrofes culturais. Agora, isso não significa que a gente abaixe o nosso padrão moral, mas significa que o voto é uma escolha limitada, dentro das opções limitadas, que deve ser feita com sabedoria bíblica para impedir o dano e proteger o nosso próximo. Isso porque o voto cristão é um ato de amor a Deus e ao próximo. Então, é por isso que existem pontos essenciais que todo cristão precisa avaliar.

Exemplos de pautas que são inegociáveis

1) O aborto. Em Salmos 139,13-16 e também em Jeremias 1.5, nós lemos que Deus conhece a vida desde o útero. Mesmo antes de aquele bebezinho estar totalmente formado, Deus já o vê ali. Então, um político que é a favor do aborto é alguém que é a favor do assassinato institucionalizado, e o assassinato de inocentes é exatamente o tipo de coisa que atrai a ira de Deus. Não é um assunto secundário; esse é um dos principais tópicos com que o cristão precisa lidar.

E eu digo por mim: sabe uma coisa que é um dado estatístico que me assusta? Eu, por exemplo, sou da geração Z (nascidos entre 1997 e 2012), e estima-se que um terço da minha geração tenha sido abortado. Isso significa que são mais de 26 milhões de bebês da geração Z que não estão conosco porque foram abortados.

E a próxima geração? Qual vai ser o rombo estatístico que o aborto vai causar nela? O cristão tem o dever de lutar por aqueles que não conseguem falar por si mesmos (cf. Pv 31.8-9). E, quando a gente olha, por exemplo, para o que aconteceu nos Estados Unidos, pela graça de Deus, em 2022 foi revertida uma das principais decisões judiciais abortistas. Roe vs. Wade caiu por terra. E isso foi por causa da intencionalidade dos cristãos em votar em um presidente que colocou ministros na Suprema Corte que eram a favor da vida.

Então, será que nós, cristãos, estamos sendo intencionais em votar naquelas pessoas que são verdadeiramente a favor da vida? Aquelas que promovem políticas públicas que protegem aqueles seres humanos que ainda estão em desenvolvimento no ventre de suas mães?

2) Ideologia de gênero. Gênesis 1,27 nos diz que Deus criou o ser humano homem e mulher, e o padrão de casamento que Deus estabeleceu na Bíblia é um homem e uma mulher (Mt 19.4-6). Então, quando magistrados civis tentam relativizar isso, além de violar uma definição imutável criada por Deus, eles estão abrindo espaço para todo tipo de desvalorização da família, perseguição contra cristãos bíblicos e doutrinação de crianças.

3) Educação como responsabilidade dos pais. Em Deuteronômio 6.6-7, quando Deus está fazendo o chamado à sua aliança, deixa muito claro que a formação dos filhos é uma responsabilidade dos pais. Nenhum Estado tem legitimidade bíblica para tomar essa responsabilidade à força ou para tentar minar a autoridade dos pais. Então, são os pais que decidem se os filhos vão para uma escola cristã ou se eles mesmos vão dar aula em casa pelo homeschooling. Essa liberdade educacional é essencial.

4) Economia. Porque nações inteiras foram arruinadas no momento em que o Estado começou a tentar se comportar como um pai, que te dá dinheiro sem você precisar trabalhar, que te dá saúde, que te dá tudo de graça. Porque, quando o governo assume funções que Deus não lhe deu, ele está usurpando. Porque, biblicamente, o papel do governo, o papel do Estado, é punir os maus e proteger os bons (Rm 13.3-4).

Mas, quando ele tenta começar a controlar tudo sobre a vida do indivíduo, as suas finanças, colocando um imposto desproporcional para tentar compensar todas essas coisas gratuitas, isso está fora dos parâmetros dados por Deus. E, como C. S. Lewis colocou, o pior tipo de tirania é aquela tirania sinceramente exercida para o bem das suas vítimas. Então, o nosso trabalho como cristãos é lutar para impedir todo tipo de tirania.

Conclusão

A nossa herança cristã é lutar contra todo tipo de tirania e nos esforçarmos ao máximo para que um governo que glorifica a Deus seja estabelecido. Os nossos pais na fé foram grandes defensores da liberdade e fortes soldados na luta pelo bem comum.  Nós fazemos parte de uma linhagem de grandes homens e mulheres que não ficaram calados diante do mal. Eles não se anularam nos seus deveres públicos e agiram em prol do amor ao próximo.

E o nosso dever é seguir esse legado, lutar pelo bem comum, lutar por amor ao nosso próximo. E, muitas vezes, o nosso próximo vai ser o bebezinho no útero, vai ser a criança que está sendo doutrinada na escola pública, vai ser a família que está sendo sentenciada à prisão por educar os seus filhos em casa. Vai ser o pastor que não está tendo liberdade de pregar textos bíblicos que são contraculturais. Nós devemos lutar pelo nosso próximo.

E, enquanto nós não orarmos diligentemente e não agirmos de acordo, nós não teremos Josias. Porque, enquanto os cristãos forem apáticos, com discursos evasivos de votar nulo, nós vamos continuar com Acabe. Então, ore (cf. 1Tm 2.1-2)! Ajude os seus irmãos, ajude-os a entender essas verdades sobre as quais a gente conversou aqui e não se deixe nunca levar pela apatia. A apatia é uma das coisas mais destrutivas, não só na vida cristã, mas na vida ao nosso redor. A apatia destrói pessoas individuais, destrói famílias, destrói igrejas e destrói nações.


Autoria: Canal Fé e Tulipas – Conforme vídeo acima
O Site Rei Eterno recomenda inscrição e membresia nesse importante canal bíblico,


 

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