Eu Sou o Pão da Vida

Em João 6.32-59, Jesus se declara como o verdadeiro Pão da Vida, o Filho eterno enviado pelo Pai para dar vida espiritual e eterna aos escolhidos. Assim como o pão alimenta e sustenta o corpo, Cristo alimenta e sustenta a alma; por isso, não basta apenas conhecer ou admirar Jesus: é necessário vir a Ele, crer em sua pessoa e confiar em sua morte sacrificial. Jesus fala de duas grandes verdades: Deus providenciou o Pão que dá vida, e o pecador precisa recebê-lo pela fé para ser salvo, sustentado e ressuscitado no último dia.

Prosseguindo no Evangelho de João, vamos olhar agora para João 6.32-59, quando Jesus ensinava na Sinagoga de Cafarnaum. Foi um dia chocante, perto do fim do ministério de Jesus na Galileia.

Aqui Jesus faz mais uma declaração de sua divindade, dizendo: “Eu Sou o Pão da Vida” (v.35,48). Esta é uma das várias vezes que Jesus disse “Eu Sou” no evangelho de João, declarando sua divindade.

“Eu Sou o Pão da Vida” (Jo 6.35,48): na Sinagoga de Cafarnaum, depois da primeira multiplicação dos pães. Ele falou para uma multidão e para seus discípulos.
“Eu Sou a Luz do Mundo” (Jo 8.12; 9.5): No templo de Jerusalém e diante de um homem cego. Ele falou para uma multidão, aos fariseus e aos discípulos.
“Se não crerdes que Eu Sou, morrereis em vossos pecados” (Jo 8.24): No templo de Jerusalém. Dirigiu essas palavras principalmente aos judeus que o contestavam, especialmente aos fariseus e líderes religiosos.
“Quando levantardes o Filho do Homem, então sabereis que Eu Sou” (Jo 8.28): No templo, Jesus falava aos judeus sobre sua futura crucificação.
“Antes que Abraão existisse, Eu Sou” (Jo 8.58):Jesus estava no templo, discutindo com judeus que reivindicavam Abraão como pai. Essa declaração levou-os a tentar apedrejá-lo.
“Eu Sou a porta das ovelhas” (Jo 10.7-9): Ele disse aos fariseus e aos judeus que o interrogavam em Jerusalém, depois da cura do cego de nascença (Jo 9).
“Eu Sou o bom pastor” (Jo 10.11,14): Ele disse aos fariseus e aos judeus que o interrogavam em Jerusalém, depois da cura do cego de nascença (Jo 9).
“Eu Sou a ressurreição e a vida” (Jo 11.25): Ele disse a Marta, irmã de Lázaro, próximo de Betânia, antes de ressuscitar Lázaro.
“Para que, quando acontecer, creiais que Eu Sou” (Jo 13.19): Durante a última ceia, no cenáculo (em Jerusalém) ele falou aos discípulos sobre a futura traição de Judas.
“Eu Sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14.6): A Tomé e aos demais discípulos, durante a última ceia no cenáculo (Jerusalém), antes da sua prisão.
“Eu Sou a videira verdadeira” (Jo 15.1-5): Aos onze discípulos, durante o discurso de despedida, possivelmente no cenáculo ou no caminho para o Getsêmani.

Essas declarações mostram Jesus como aquele que sustenta a vida, ilumina, salva, conduz, protege, vence a morte e dá acesso ao Pai. A expressão de João 8.58 é especialmente significativa porque recorda o nome divino revelado por Deus em Êxodo 3.14: “EU SOU O QUE SOU”. Todos esses “EU SOU” foram ditos por nosso Senhor para deixar claro que ele é um com Deus.

Em João 6 temos o primeiro daqueles “EU SOU”, nos quais ele usa o nome de Deus e, neste caso, aplica, como faz em várias dessas ocasiões, uma metáfora para explicar algo sobre sua natureza e sua obra. Precisamos entender a importância monumental deste sermão proferido na sinagoga de Cafarnaum.

Ele está falando ao povo judeu e apresenta essa poderosa afirmação de que desceu do céu. E que eles precisam comer sua carne e beber seu sangue se quiserem ter a vida eterna. Os judeus compreendiam a questão da vida eterna, da vida no Reino, da vida para sempre, da vida no céu, da vida com Deus, da vida abençoada, da vida feliz. Mas ficaram perplexo com as palavra de Jesus neste sermão. E é sobre isso que vamos nos concentrar. 

Jesus está dizendo: “Eu, e somente eu, sou o meio pelo qual você pode ter vida eterna”. A passagem de João 6.32-59 é longa, mas pode ser facilmente dividida em duas partes bem conhecidas. E é isso que faremos agora. Ele repete as mesmas coisas várias vezes para que elas fiquem gravadas em seus ouvintes e em nós. Os dois pontos que precisamos analisar aqui são muito simples: a provisão divina do pão e a apropriação humana do pão. Ou seja: Deus proveu o pão, e o pecador precisa recebê-lo e alimentar-se dele.

O que faremos aqui será mais como um estudo bíblico do que um sermão. Não posso pregar um sermão sobre outro sermão. Não posso fazer metáforas sobre metáforas. Portanto, vamos analisá-lo literalmente e ver se conseguimos compreendê-lo.

1) A PROVISÃO DIVINA DO PÃO QUE DÁ A VIDA

Dizer que Jesus é o pão significa que ele alimenta, sustenta e dá vida espiritual, assim como o alimento sustenta o corpo. Jesus empregou a palavra “pão” nesse sentido quando declarou: “nem só de pão viverá o homem” (Dt 8.3; Mt 4.4). Pão, portanto, abrangia tudo o que era necessário à vida. Ao dizer “Eu sou o pão”, Jesus está afirmando: “Eu sou o seu alimento; sou o verdadeiro alimento da sua alma”.

1.1) Jesus, o pão divino é divino e eterno

O primeiro aspecto dessa provisão é que o pão é divinamente preexistente. Essa verdade faz com que a passagem se harmonize tão bem com a mensagem do Natal, pois ela apresenta repetidamente a realidade da encarnação. Observem a expressão “desceu do céu”. Em João 6.32, Jesus afirma que não foi Moisés quem deu o pão do céu, mas o Pai quem dá o verdadeiro pão. O versículo 33 acrescenta: “O pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo”.

No versículo 38, Jesus aplica a metáfora a si mesmo: “Eu desci do céu”. Os judeus compreenderam o alcance de sua declaração e começaram a murmurar: “Não é este Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe conhecemos? Como, pois, agora diz: Desci do céu?” (v. 42). Nos versículos 50-51 e 58, Jesus repete que ele é o pão vivo que desceu do céu. Cada repetição dessa expressão é uma afirmação da encarnação de uma pessoa preexistente. Jesus não começou a existir em Belém, ele veio do céu, ele é eterno.

João inicia seu Evangelho declarando: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1.1). Cristo já existia com Deus e era eternamente autoexistente. Não podemos reduzi-lo a um ser criado. Seu corpo foi preparado por Deus, mas Ele é o Filho eterno, que sempre existiu na presença do Pai e do Espírito Santo. Ele é verdadeiramente Deus. Por isso, João afirma: “vimos a sua glória, glória como a do unigênito do Pai” (Jo 1.14).

Em João 3, durante sua conversa com Nicodemos, Jesus afirma: “ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do Homem”. Ninguém subiu ao céu e voltou para nos trazer uma mensagem divina. Paulo foi arrebatado ao terceiro céu, mas declarou ter ouvido palavras que ao homem não é lícito pronunciar (2Co 2.12-14). O único que veio do céu para nos revelar as verdades celestiais é aquele que sempre esteve lá: o Filho de Deus.

Essa verdade aparece novamente em João 8.42: “Eu vim de Deus e aqui estou; não vim por mim mesmo, mas ele me enviou”. João 13.3 declara que Jesus sabia que viera de Deus e para Deus voltaria. Em João 16.28, ele afirma: “Eu saí do Pai e vim ao mundo; agora, deixo o mundo e volto para o Pai”. Finalmente, em João 17.5, Jesus pede ao Pai que o glorifique com a glória que possuía antes que o mundo existisse. Jesus veio do céu e para o céu retornou.

A primeira verdade sobre a provisão divina do pão, portanto, é sua preexistência eterna. Jesus não é um ser criado, que passou a existir no momento da concepção, como acontece conosco. Ele sempre existiu como Deus Filho.

1.2) A vinda de Jesus, o Pão da Vida, foi fruto de um propósito divino e soberano

Cristo não veio ao mundo por acaso, mas porque o Pai determinou que ele viesse, segundo um plano estabelecido desde a eternidade. O versículo 32 declara: “É meu Pai quem lhes dá o verdadeiro pão do céu”; e o versículo 33 o chama de “pão de Deus”. O pão pertence a Deus e é dado por Ele. No versículo 38, Jesus afirma: “Eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou”.

Os versículos 39 e 40 reafirmam essa vontade, e o versículo 57 declara: “assim como o Pai, que vive, me enviou”. Temos, portanto, duas verdades fundamentais sobre a provisão divina do pão: a preexistência eterna do Filho e o propósito soberano do Pai ao enviá-lo.

1.3) Jesus veio para fazer uma obra completa, conforme determinação divina

Ora, o Pai não planejou apenas a vinda do Filho de Deus. Ele também determinou aquilo que o Filho realizaria ao chegar. Não se trata de um plano geral, no qual Deus envia seu Filho e deixa o resultado depender das decisões humanas. O propósito é específico: “Todo aquele que o Pai me dá virá a mim, e quem vier a mim eu jamais rejeitarei” (Jo 6.37). Jesus acrescenta: “Esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum dos que ele me deu, mas o ressuscite no último dia” (Jo 6.39). E novamente: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrair; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.44).

Esse propósito está de acordo com as profecias do Antigo Testamento: “Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que ouviu o Pai e dele aprendeu vem a mim” (Jo 6.45; cf. Is 54.13). Começamos, então, a compreender o plano: o Pai envia o Filho e atrai pessoas para Ele; o Filho as recebe, guarda e ressuscita dentre os mortos. Não é um plano destinado apenas a iniciar uma obra, mas a completá-la. É o propósito de conduzir à glorificação todos aqueles que o Pai atrai.

Jesus confirmou essa verdade ao longo de seu ministério. Em João 10.29, declarou: “Meu Pai, que as deu a mim, é maior do que todos; ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai”. O Pai atrai e entrega; o Filho recebe, guarda e ressuscita. Ninguém pode arrebatar aqueles que estão nas mãos do Pai e do Filho. Isso é cristalino.

Na grande oração sacerdotal de João 17, Jesus repete essa mesma verdade: “assim como lhe deste autoridade sobre toda a humanidade, para que conceda a vida eterna a todos os que lhe deste” (v. 2). Ele também declara: “manifestei o teu nome aos homens que me deste do mundo” (v. 6); “rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus” (v. 9); e, finalmente: “Pai, quero que os que me deste estejam comigo onde eu estou” (v. 24).

A expressão se repete: “Tu os deste a mim”. Eles pertencem a Deus por eleição divina: foram escolhidos em Cristo antes da fundação do mundo (Ef 1.4), e seus nomes foram escritos no Livro da Vida (Ap 13.8; 17.8). No tempo determinado, Deus atrai para Cristo aqueles que lhe pertencem. Cristo os recebe, guarda e ressuscita. Essa ressurreição não é apenas espiritual, mas também física: no último dia, eles ressuscitarão (1Co 15.50-54; Fp 3.20-21) O propósito divino começa na eleição e passa pelo ato de atrair, receber, guardar e preservar, até à ressurreição final e à glorificação.

Ao citar Isaías 54.13 — “Todos serão ensinados por Deus” —, Jesus demonstra que ninguém chega à verdade apenas pela força da razão humana. Ele disse “Todo aquele que ouviu o Pai e dele aprendeu vem a mim” (Jo 6.45). O pregador não produz essa atração; ele é somente um instrumento utilizado para apresentar a verdade. A atração é divina. O Pai é o verdadeiro mestre, aquele que instrui o coração e a mente.

Temos, portanto, o pão divinamente preexistente, providenciado para aqueles que estão incluídos no propósito soberano de Deus. Esse pão desce do céu e vem à terra para cumprir a vontade do Pai: atrair pessoas, entregá-las ao Filho e conduzi-las à glória eterna, salvas espiritualmente e ressuscitadas corporalmente. Essa é a visão completa do Pão da Vida: Ele é divinamente preexistente e cumpre perfeitamente o propósito divino.

1.4) O Pão da Vida é uma promessa divina, a fonte da vida espiritual e da vida eterna

Por que desejamos esse pão? Bem, o que esse pão faz por nós? O que Cristo faz por nós? Por que Ele é importante? A João 6.33: “O pão de Deus é aquele que desce do céu e dá” — o quê? — “vida ao mundo”. O texto grego não está falando de vida biológica, mas de vida espiritual. É por isso que Ele veio. A promessa ligada ao pão é a vida espiritual. E Ele é o único pão de Deus, o único pão vivo, o único Pão da Vida, o único que desceu, a única fonte de vida para o mundo inteiro.

João 6.32-33 falam sobre o pão que desce e o pão que dá vida; então, não vamos muito longe até chegarmos ao versículo 35, que novamente diz: “Eu sou o Pão da Vida”. No versículo 40, vemos outra vez: “Esta é a vontade de meu Pai: que todo aquele que vê o Filho e crê nele tenha…” Agora, a vida é expandida com um adjetivo: “…vida eterna”. Estamos falando de vida eterna. Versículo 47: “Digo, pois, que quem crê tem a vida eterna”. Versículo 50: “Este é o pão que desce do céu, para que todo aquele que dele comer não morra”. Ele diz:

Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu dou […] em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos […] quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia […] quem comer deste pão viverá para sempre. (Jo 6.51,53-54,58)

Como isso é possível? Por causa do versículo 56: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim, e eu nele”.

Como obtemos a vida eterna nestes corpos mortais? Porque entramos em verdadeira união com Cristo. Gálatas 2.20 diz: “Estou crucificado com Cristo. Assim, já não vivo eu, mas Cristo vive em mim”. E temos uma realidade tremenda: “aquele que se une ao Senhor é um só Espírito com ele” (1Co 6.17). Somos um em Cristo. E, portanto, a sua vida eterna está em nós, concedendo-nos a vida eterna. Promessas realmente incríveis. Jesus repetiu essas mesmas promessas diversas vezes sobre a sua união com o seu povo.

No cenáculo, na noite da sua traição, Jesus diz: “naquele dia vocês saberão que eu estou no meu Pai, e vocês em mim, e eu em vocês” (Jo 14.20). Você sabia que, se é verdadeiramente regenerado e pertence a Deus pela fé em Cristo, a vida eterna que você possui é a vida eterna de Cristo em você? Ninguém é capaz de quebrar essa união (Jo 10.28-29). Essa é a segurança de todo crente. Então, promessa divina. Qual é a promessa? Vida. Que tipo de vida? Vida eterna. Qual é a fonte dessa vida eterna? Uma união com o Cristo eterno e vivo.

Não seguimos apenas os ensinamentos de um nobre líder religioso. Estamos a caminho da morte, a menos que ele habite em nós, a menos que sua vida eterna assuma o controle. Portanto, o Pão da Vida é o pão celestial. O Senhor Jesus Cristo vem da eterna preexistência divina para o tempo e o espaço, a fim de cumprir o propósito divino do Pai, que é prover a salvação para o seu povo escolhido. Essa salvação depende de uma união com Cristo que é uma verdadeira realidade espiritual, e é por isso que vivemos para sempre. E culmina na ressurreição. Várias vezes Jesus diz: “Eu o ressuscitarei no último dia”.

É uma união que não será apenas uma união em espírito, mas também em corpo espiritual. Teremos um corpo semelhante ao seu corpo glorioso (Fp 3.20-21). Seremos feitos semelhantes a Cristo quando o virmos como Ele é. Isso é o que significa ser cristão. Não se trata de seguir os ensinamentos de um homem. Trata-se de ter a vida dele em nós. Esta é a obra de Deus. Isso não acontece a menos que você seja ensinado por Deus, como diz João 6.45. Isso não acontece a menos que Deus Pai o atraia e o leve até Jesus (Jo 6.37,44).

2) O PECADOR PRECISA RECEBÊ-LO E ALIMENTAR-SE DELE

Qual é a nossa responsabilidade diante desta verdade? Ficar sentados esperando que aconteça? Não. No maravilhoso mistério da salvação, somos ordenados a nos apropriarmos desse pão. Observe João 6.34: o povo judeu que ouvia Jesus disse: “Senhor, dá-nos desse pão”. Muito provavelmente, eles estavam falando do pão físico, porque ele havia criado alimento para eles. Eles queriam o pão que satisfizesse fisicamente sua fome constante, mas Jesus está falando de Si mesmo como o pão de que eles realmente precisam.

Então, em João 6.35, Jesus diz: “…Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome…”. Veja, ele disse “quem vem a mim”. Mas também disse: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim…” (v.37) e “ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer…” (v.44). Então, a primeira coisa é vir. E, como ninguém pode saber se foi escolhido, a mensagem deve ser pregada até os confins da terra, dizendo aos pecadores: “venham a Jesus”.

Em segundo lugar, olhar. Observe o versículo 6.40: “a vontade de meu Pai é que todo homem que olhar para o Filho e nele crer tenha a vida eterna…”. Não há limitações aqui. A palavra grega traduzida como “olhar” é o mesmo que “contemplar”. O verbo grego basicamente significa olhar atentamente, examinar, estudar, observar. Não é uma palavra para um olhar rápido e passageiro. É uma palavra muito forte.

É o mesmo verbo usado em João 8.51, quando Jesus disse: “se alguém guardar a minha palavra, jamais verá a morte”. Bem como em João 17.24, onde Jesus disse: “Pai, quero que os que me deste estejam comigo onde eu estou e vejam a minha glória” (Jo 8.24).

Então, qual é a responsabilidade do homem? Nossa responsabilidade nos foi apresentada em uma série de mandamentos e convites: “venham a mim”. E, quando chegarem, experimentem, contemplem, examinem, observem com atenção e reflexão; vejam quem Eu sou. Muitas das pessoas que o ouviam na sinagoga naquele dia fizeram exatamente isso. Elas vieram a Cristo e se apegaram a ele. Elas o seguiam, observavam, ouviam e examinavam.

Eu sou o Pão da Vida; o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede […] …a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia […] Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim tem a vida eterna. Eu sou o Pão da Vida (Jo 6.35,40, 47-48)

O versículo-tema de todo o Evangelho de João é: “estas coisas foram escritas para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenham vida em seu nome” (Jo 20.31). Trata-se de crer. Outra maneira de entender isso seria João 1.12: “mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome”. Você precisa vir, olhar e ser exposto à verdade, mas precisa crer.

Voltando à metáfora do pão, em João 6.50, Jesus diz: “este é o pão que desce do céu, para que todo aquele que dele comer não pereça”. A partir de agora está o convite de Jesus. Ele diz:

Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém dele comer, viverá eternamente; e o pão que eu darei pela vida do mundo é a minha carne […] Assim como o Pai, que vive, me enviou, e igualmente eu vivo pelo Pai, também quem de mim se alimenta por mim viverá. Este é o pão que desceu do céu, em nada semelhante àquele que os vossos pais comeram e, contudo, morreram; quem comer este pão viverá eternamente (Jo 6.51,57-58).

Esta é uma metáfora poderosa que todos entendem. Ele quis dizer: “não basta vir, ouvir e admirar. Você precisa se alimentar de mim”. Essa é a nossa responsabilidade. Todos fomos responsabilizados por vir, ver e crer. Crer em quê? Em Jesus, o Pão do Céu. Ele diz isso repetidamente em João 6: “Eu sou o pão que desceu do céu”.

2.1) O que Jesus quis dizer com “comer da minha carne e beber o meu sangue? (Jo 6.6-53-56)

Tudo começa com a crença na pessoa de Cristo. Crer em sua divindade, eternidade, encarnação, obra, morte sacrificial, ressurreição e exaltação. Apenas crer na pessoa de Jesus Cristo como o Pão Vivo não é suficiente. É preciso algo mais. Ele disse: “e o pão que eu darei pela vida do mundo é a minha carne” (Jo 6.51). Ele está falando sobre entregar a própria vida.

Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue permanece em mim, e eu, nele (Jo 6.53-56).

Isso foi chocante para os judeus na sinagoga de Cafarnaum. Até me surpreende que não tenha havido um tumulto. A Lei proibia os judeus de beber sangue (Lv 17; Dt 12,15). Mas Jesus não está falando sobre beber sangue. Ele falou isso como uma figura de linguagem.

Isso se chama metonímia, quando se troca uma palavra por outra por causa de uma ligação real de sentido ou proximidade entre elas. Por exemplo: “No suor do teu rosto, comerás o teu pão…” (Gn 3.19), refere-se ao trabalho e não realmente ao suor. Por outro lado, na metáfora há a troca baseada em uma comparação ou semelhança inventada (como dizer “ele é um touro”, para indicar que é forte).

Quando Jesus fala de comer sua carne e beber seu sangue, ele está falando de sua morte na cruz. Então, o que Ele está dizendo? Vocês devem aceitar a pessoa que Eu Sou e a morte que Eu morri. Você pode crer sobre muitas coisas sobre Jesus, mas se você não crer em sua morte sacrificial, você não pode possuir a vida eterna.

Pão é um sentido bíblico para os alimentos. Como pão, Jesus nutre e como sangue, Jesus purifica. A Escritura afirma que o sangue de Jesus nos purificou de todo pecado (1Jo 1.7); nos justificou (Rm 5.9) e nos deu acesso à presença de Deus (Hb 10.19). O sangue fala de sua morte. Hebreus 9.22 diz: “…quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e, sem derramamento de sangue, não há remissão”.

Mas os judeus tinham um grande problema com essa questão. A ideia de que o Rei e Messias morreria como um sacrifício era um enorme problema para eles. Eles esperavam um Messias político e vitorioso que libertaria Israel do domínio romano de forma triunfante.

Até mesmo os discípulos de Jesus lutaram com isso. Sempre que Jesus fala de sua morte e sofrimento, a reação deles era de perplexidade. Pedro reagiu dizendo: “Tem compaixão de ti, Senhor; isso de modo algum te acontecerá” (Mt 16.22). Em outro momento, quando Jesus predisse sua morte, os discípulos não conseguiam entender e tinham medo de lhe fazer perguntas (Mc 9.31-32). Era um assunto que eles tentavam evitar.

Até mesmo os discípulos de Jesus lutaram com isso. Sempre que Jesus falava de sua morte e sofrimento, a reação deles era de perplexidade. Pedro reagiu dizendo: “Tem compaixão de ti, Senhor; isso de modo algum te acontecerá” (Mt 16.22). Em outro momento, quando Jesus predisse sua morte, os discípulos não conseguiam entender e tinham medo de lhe fazer perguntas (Mc 9.31-32). Era um assunto assustador para eles e que eles tentavam evitar.

Logo após a ressurreição, Jesus encontra dois discípulos no caminho de Emaús. Eles estavam completamente desnorteados com a cruz. De forma incrédula, um deles disse: “nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel” (Lc 24.41). Eles duvidaram dos relatos sobre sua ressurreição (Lc 24.22-24). Jesus os exortou quanto à incredulidade deles e demonstrou que tudo havia acontecido como profetizado no Antigo Testamento (Lc 24.25-27). Após Jesus se revelar a eles e desaparecer, eles creram e foram anunciar em Jerusalém (Lc 24.28-35). Em seu sermão no dia de Pentecostes, Pedro proclamou a uma multidão:

Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis; sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos; ao qual, porém, Deus ressuscitou, rompendo os grilhões da morte; porquanto não era possível fosse ele retido por ela […] Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo […] Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos e a todos os que estão longe: a tantos quantos Deus, nosso Senhor, chamar (At 2.22-24,36,38-39).

É preciso ser capaz de comer a sua carne, no sentido de reconhecê-lo como aquele que alimenta a alma. Ele disse: “assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim quem de mim se alimenta também viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu…” (Jo 6.57-58). É preciso estar disposto a beber o seu sangue, no sentido de aceitar a sua morte sacrificial. Mas os judeus não conseguiam entender.

Disputavam, pois, os judeus entre si, dizendo: Como nos pode dar este a sua carne a comer? Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último Dia. Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim, e eu, nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim quem de mim se alimenta também viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu; não é o caso de vossos pais, que comeram o maná e morreram; quem comer este pão viverá para sempre (Jo 6.52-58).

Jesus disse isso ensinando em uma sinagoga em Cafarnaum (Jo 6.59). E muitos de seus seguidores disseram: “Duro é este discurso; quem o pode ouvir?” (Jo 6.60). Jesus lhes respondeu: “Isto vos escandaliza?” (Jo 6.61). E, a resposta é sim. As palavras de Jesus escandalizou os judeus. Paulo escreveu: “nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus e loucura para os gregos” (1Co 1.23).

E qual foi o resultado? “Desde então, muitos dos seus discípulos tornaram para trás e já não andavam com ele” (Jo 6.66). Ao perguntar aos doze se eles também queriam ir embora, Pedro lhe respondeu: “Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna, e nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho de Deus” (Jo 6.68-69).

Várias vezes, em João 6, diz que os judeus estavam murmurando ou discutindo (vv. 36, 41-43, 52,61). No versículo 61, muitos de seus seguidores estão murmurando. No versículo 66, eles saem. Desocupam a sinagoga, deixando apenas Pedro e os outros onze. A multidão ficou escandalizada. Mas a igreja do Senhor não tem outra mensagem a não ser pregar sobre Jesus Cristo, e este crucificado (1Co 2.1), pois “a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” (1Co 1.18).

Se você quer a vida eterna, comer do Pão da Vida é necessário. Você não pode simplesmente vir. Você não pode simplesmente admirar. As pessoas fazem isso o tempo todo, dizendo: “Ah, sim, eu tenho muito respeito por Jesus”. Você não pode simplesmente vir e admirar. Você precisa comer, que é crer plenamente. Mas comer é uma resposta à fome. Então, as pessoas que comem são as pessoas que estão o quê? Famintas!

O que é fome? É a angústia do coração de quem sabe que está vazio. Essa é a obra do Espírito Santo: fazer o coração ter fome. É aí que o Pai começa a atrair. O coração faminto vê o pão. Comer é uma resposta à fome. Comer é pessoal e transformador. Se você não comer fisicamente, você morrerá. Se você comer, o alimento que você ingere te transforma, e é isso que Cristo faz. Vamos orar.

Senhor, nós Te agradecemos porque a Tua Palavra é tão poderosa, tão clara e tão consistente. Sua autoria divina é inquestionável. Obrigado por nos dares a verdade. Oro por aqueles que estão aqui, que talvez tenham vindo, olhado ou estejam olhando, mas ainda não creram, não receberam, não se alimentaram, não aceitaram Cristo não apenas como o pão que alimenta a alma, mas também como o sangue que a purifica. Que nada no Evangelho seja um obstáculo, mas que o Evangelho seja uma mensagem bem-vinda e plenamente acolhida. Que hoje haja pessoas que, tendo ouvido isto, se alimentarão, que receberão Cristo como Senhor e Salvador e receberão com Ele a vida eterna.

Agradecemos-Te porque estamos seguros nessa vida, pois se cremos, se viemos, é porque Tu nos atraíste. Pai, Tu nos entregaste ao Filho, e Tu, bendito Filho, nos guardarás, nos sustentarás e nos ressuscitarás no último dia. Agradecemos-Te pela glória do Evangelho e pela oportunidade que temos de celebrá-lo novamente hoje.

Pai, agora pedimos que faças a Tua obra à Tua maneira. Pai, atrai muitos a Ti. Nós Te louvamos pelo privilégio, imerecido, não conquistado, o dom da graça que nos concedeu a salvação quando éramos Teus inimigos. Agradecemos-Te, Senhor, porque um dia nos fizeste passar fome desesperada e depois nos mostraste o pão da vida, Pai. E aprendemos contigo enquanto nos ensinavas e nos atraías. Agradecemos-Te porque Cristo nos acolheu e nos sustenta até a ressurreição, quando seremos plenamente glorificados na Tua presença para sempre. Obrigado por esta grande verdade e que ela ressoe em nossos corações. Nós Te louvamos, em nome de Cristo. Amém.


Esta é uma série de sermões traduzidos de John MacArthur sobre todo o Evangelho de João.

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Este texto é uma síntese do sermão “I Am the Bread of Life”, proferido por John MacArthur, em 22/12/2013.

Você pode ouvi-la integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/sermons/43-36/i-am-the-bread-of-life

Tradução e síntese feitas pelo Site Rei Eterno


 

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