O Poder da Fé Salvadora

O relato do milagre da cura do filho do oficial do rei não tem como objetivo principal destacar o poder de Jesus para curar, mas revelar a natureza da fé salvadora. A fé superficial das multidões, baseada apenas em sinais e milagres, é contrastada com a fé genuína do oficial, que vai da busca por um milagre à confiança absoluta na palavra de Cristo. Ao crer sem ver, o oficial experimenta uma fé madura que culmina na conversão de toda a sua casa. A salvação é recebida exclusivamente pela fé em Cristo e em sua Palavra, e não apenas pela admiração de suas obras sobrenaturais.

Vamos continuar agora nosso caminho pelo Evangelho de João, olharemos para o capítulo 4, versículos 46 a 54, a seção final des capítulo. Trata-se de uma narrativa de um milagre, uma história de cura. João diz que os sinais que Jesus fez diante dos discípulos “foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.31).

Antes de tudo, vamos ver o contexto que o envolve essa porção das Escrituras. O primeiro sinal operado por Jesus, registrado no evangelho de Joã, foi o casamento em Caná, quando ele transformou água em vinho, no capírulo 2. O capítulo 4 registra o segundo sinal mencionado por João. Os evangelhos estão repletos de sinais e milagres de Jesus.

O ministério de Jesus começou na Judeia, e ali realizou numerosos milagres. Quando Jesus chegou à Galileia, os galileus o receberam porque haviam visto tudo o que ele fizera em Jerusalém durante a festa, pois eles próprios também haviam estado ali (Jo 4.45).

Na época da Páscoa e da festa que a seguia, multidões da Galileia peregrinavam até Jerusalém, como faziam todos os anos. Foi naquela ocasião que testemunharam milagres de Jesus. Assim, no início e no fim de seu ministério, Jesus realizou muitos milagres na Judeia. Entre esses dois períodos, durante aproximadamente dezesseis meses, ele desenvolveu seu ministério principalmente na Galileia, onde também operou muitos milagres. É exatamente nesse período intermediário de seu ministério que o encontramos em João 4.

João 4.45 afirma que, ao chegar à Galileia, os galileus o receberam. Mas receberam-no da mesma forma que o povo de Jerusalém o havia recebido. João 2.23 nos informa que muitos em Jerusalém creram nele ao verem os sinais que realizava. Eles o aceitaram como um operador de milagres, mas, “Jesus não confiava neles, porque a todos conhecia” (Jo 2.24).

Em nenhum lugar dos Evangelhos encontramos os líderes judeus, que rejeitaram Jesus como Messias e Salvador, questionando seu poder para realizar milagres. Era impossível negar seus milagres. Havia testemunhas em excesso, ocasiões demais e fatos incontestáveis para que alguém pudesse desacreditá-los. Foi exatamente isso que Nicodemos disse: “Rabi, bem sabemos que és mestre vindo de Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele” (Jo 3.2).

Essa era a mesma disposição encontrada na Galileia. Eles criam que Jesus era um realizador de milagres. Os quatro Evangelhos preservam um registro impressionante desses acontecimentos. Ao longo da história jamais surgiu um ataque convincente capaz de destruir a credibilidade desse testemunho. Nunca houve uma refutação eficaz dos milagres de Cristo.

E a razão é simples: havia testemunhas demais, milagres demais, lugares demais, ocasiões demais e manifestações sobrenaturais variadas demais. Na verdade, os milagres de Jesus foram tão numerosos que João encerra seu Evangelho dizendo: “Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez; e, se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem” (Jo 21.25).

Entretanto, este milagre específico foi selecionado por João porque serve perfeitamente ao propósito de seu Evangelho. Não é apenas uma narrativa sobre cura. É uma narrativa sobre a fé. Jesus disse ao oficial do rei: “se, porventura, não virdes sinais e prodígios, de modo nenhum crereis” (Jo 4.48). O homem creu na palavra que Jesus lhe disse (Jo 4.50) e, então, não somente ele foi salvo, mas toda a sua casa (Jo 4.53).

Portanto, esta não é simplesmente uma história sobre um milagre. É uma história sobre o verdadeiro significado da fé. Tudo que está registrado no evangelho de João tem o propósito de crermos que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo nele, termos vida em seu nome (Jo 20.31).

O evangelho de João é, acima de tudo, o evangelho da fé. A palavra grega para “crer” (pisteuo), é usada cerca de cem vezes no evangelho de João e, em quase todas essas ocasiões, refere-se a crer para a salvação.

O Evangelho de João destrói completamente a religião de obras. Na realidade, existem apenas duas religiões no mundo: a religião do mérito humano e a religião da fé. Esta última é o verdadeiro Evangelho. Todas as demais misturam fé e obras. E toda religião baseada nessa mistura conduz ao inferno. A única religião que conduz ao céu é aquela que ensina que a salvação é recebida exclusivamente pela fé, “porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8-9).

A Natureza da Fé Salvadora e o Perigo da Incredulidade

Já aprendemos essa verdade desde o início do Evangelho de João. Em João 1.12 lemos: “mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus.” Como alguém se torna filho de Deus? Recebendo a Cristo. E o que significa recebê-lo? O próprio versículo responde: “A saber, aos que creem no seu nome.”

Crer é receber. Receber Cristo nada mais é do que confiar plenamente em seu nome. Mas o que significa crer em seu nome? Na linguagem das Escrituras, “nome” representa a pessoa em toda a sua plenitude. Significa tudo aquilo que alguém é. Quando Deus revela seu nome a Moisés, dizendo: “EU SOU O QUE SOU”, está revelando Sua própria natureza.

Da mesma forma, crer no nome de Jesus significa confiar em tudo aquilo que ele é e em tudo quanto as Escrituras afirmam acerca dele. Significa crer em toda a verdade do Evangelho. Essa mesma ênfase aparece novamente em João 3.16: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”

Observem cuidadosamente. A vida eterna não está vinculada a obras. Não depende de rituais, cerimônias religiosas, realizações pessoais, moralidade e bondade humana. Tudo repousa sobre uma única realidade: crer. Logo adiante, João Batista declara: “Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado” (Jo 3.18). Por quê? Porque recusou crer no Filho unigênito de Deus. E João encerra esse capítulo com outra declaração igualmente clara: “Quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida” (Jo 3.36).

Quem crê possui a vida. Quem se recusa a crer permanece debaixo da ira de Deus. Essa é a mensagem constante do Evangelho de João. No capítulo 8, por exemplo, Jesus declara aos líderes judeus: “Eu me retiro, e vós me procurareis, mas morrereis no vosso pecado.” Por que morreriam em seus pecados? Ele mesmo responde no versículo 24: “Se não crerdes que EU SOU, morrereis nos vossos pecados.”

Durante a Festa da Dedicação, em Jerusalém, os líderes judeus cercaram Jesus e exigiram: “Se tu és o Cristo, dize-o francamente” (Jo 10.24). Jesus respondeu:

Já vo-lo disse, e não credes. As obras que eu faço em nome de meu Pai testificam a meu respeito. Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas. As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar. Eu e o Pai somos um (Jo 10.25-30).

Percebam o contraste: Os incrédulos rejeitam sua voz. As ovelhas a recebem pela fé. Essa é a mensagem repetida inúmeras vezes ao longo do Evangelho de João. Quem crê no verdadeiro Cristo recebe a vida eterna. Quem rejeita o verdadeiro Cristo permanece em seus pecados e caminha para a condenação eterna.

A salvação pertence exclusivamente àqueles que depositam sua inteira confiança na pessoa de Jesus Cristo. O falso evangelho, modificado e adulterado por falsas doutrinas humanas, é superficial e imprestável, seu resultado final é a condenação eterna.  Somos chamados a crer no verdadeiro evangelho e obedecê-lo.

O que é, afinal, a fé salvadora?

Para responder essa pergunta, quero levá-los por um momento ao capítulo 11 de Hebreus. Esse é o grande capítulo da fé. Vivemos em uma época em que muitas pessoas dizem: “Eu sou uma pessoa de fé, sou muito espiritual, tenho minhas crenças.” Mas esse tipo de afirmação pode significar praticamente qualquer coisa.

A Bíblia, porém, define a fé salvadora de maneira muito específica. Em Hebreus 10.38 encontramos uma citação de Habacuque 2.4: “o justo viverá pela fé.” Sempre foi assim. Jamais houve salvação pelas obras. Nem no Antigo Testamento e nem no Novo Testamento.

Hebreus 11.1 apresenta a definição clássica da fé: “a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não veem”. Essa definição revela duas características fundamentais da fé: 1) a fé está relacionada com aquilo que ainda esperamos; 2) a fé se refere ao que ainda não vemos. Por isso Pedro escreveu: “a quem, não havendo visto, amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória” (1Pe 1.8).

É isso que caracteriza a fé. Entretanto, se ficarmos apenas nessa definição, alguém poderá confundi-la com a fé comum da vida cotidiana. Todos exercemos algum tipo de confiança todos os dias. Quando entramos em um restaurante, fazemos um pedido e comemos aquilo que nos servem sem jamais entrar na cozinha. Quando nos submetemos a uma cirurgia, confiamos nossa vida ao médico e à equipe hospitalar. Essa é uma fé baseada na experiência.

Sabemos que, normalmente, essas coisas funcionam. Mas nem sempre. Às vezes ocorrem erros. Às vezes erros fatais. Alguns entram para uma cirurgia e nunca mais saem. Outros consomem algo acreditando ser seguro e acabam perdendo a vida. Essa não é a fé descrita em Hebreus.

A fé salvadora é completamente diferente. Quando alguém entrega sua vida a Cristo, está tomando a decisão mais importante de toda a existência. Jamais fez isso antes. Não possui experiência anterior sobre a qual possa apoiar-se. Nunca esteve no céu. Nunca viu a eternidade. Nunca contemplou pessoalmente Cristo glorificado.

Então por que confiar nele? Por que negar o próprio pecado? Por que abandonar a própria vontade? Por que renunciar aos desejos da velha natureza? Porque existe um fundamento absolutamente seguro. É exatamente isso que Hebreus chama de certeza e convicção.

A palavra grega traduzida por “certeza” é “hypostasis”. Ela descreve um fundamento sólido. Algo firme, concreto e que não depende de sentimentos subjetivos. Nossa fé não repousa em emoções, em intuições e em experiências místicas. Nossa fé repousa sobre um fundamento objetivo: a Palavra de Deus. Confiamos nas promessas de Deus. Confiamos nos mandamentos de Deus. Confiamos na revelação de Deus registrada nas Escrituras.

Por isso, quando falamos de esperança, não estamos falando de um simples desejo. Estamos falando de uma certeza firmemente estabelecida pela Palavra infalível de Deus. Jamais estivemos no céu. Mas aquele que habita no céu nos revelou tudo quanto precisamos saber. Tudo está registrado nas páginas das Sagradas Escrituras. Essa é a base da nossa fé.

A segunda palavra é convicção. Ela descreve um compromisso absoluto. Uma certeza tão profunda que governa toda a existência. Portanto, crer em Cristo não significa alimentar uma ideia religiosa vaga. Não significa criar um Jesus segundo nossa imaginação. Significa confiar plenamente na absoluta veracidade das Escrituras. Significa apostar toda a eternidade na confiabilidade do Evangelho. Essa é a fé salvadora. Ela nasce da verdade revelada por Deus. Ela concentra-se na pessoa do Senhor Jesus Cristo. E transforma-se na convicção dominante que dirige toda a nossa vida.

A Advertência contra a Incredulidade

Todos nós somos chamados a crer no verdadeiro Evangelho. Devemos depositar nossa fé nessa verdade revelada, edificando nossa vida sobre esse fundamento sólido e permitindo que essa certeza produza uma convicção inabalável. Recusar-se a fazê-lo constitui a maior tragédia que um ser humano pode experimentar. E não apenas uma tragédia temporal, mas eterna.

Toda pessoa viverá para sempre. A única diferença será esta: alguns viverão para sempre em alegria consciente na presença de Deus; outros viverão para sempre em tormento consciente, separados dele. É por isso que João trata a questão da fé como a questão mais importante de todas. Crer no Senhor Jesus Cristo significa lançar toda a vida — nesta era e na eternidade — sobre o fundamento absolutamente seguro da Palavra de Deus, convencido de que tudo o que as Escrituras afirmam acerca de Cristo é completamente verdadeiro.

O autor de Hebreus dirige-se repetidas vezes a pessoas que chegaram muito perto da verdade, ouviram o Evangelho, compreenderam sua mensagem, mas decidiram voltar atrás. Em Hebreus 2 encontramos uma dessas advertências. Depois de lembrar que a Lei de Moisés era inviolável e que toda desobediência recebia justa punição, o autor pergunta: “Como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação?”

A Lei foi entregue por intermédio de anjos (At 7.53; Gl 3.19). Em Hebreus 2.2-4, diz que o Evangelho foi anunciado pelo próprio Senhor e depois foi confirmado pelos apóstolos, e que Deus autenticou essa mensagem mediante sinais, prodígios, diversos milagres e dons do Espírito Santo. Os milagres nunca existiram como um fim em si mesmos. Seu propósito era confirmar a veracidade da mensagem do Evangelho.

Jesus realizou milagres. Os apóstolos também receberam autoridade para operar milagres. Tudo isso servia para autenticar definitivamente a revelação divina. Portanto, quem rejeita um Evangelho tão plenamente confirmado não poderá escapar do juízo de Deus. É exatamente por isso que os Evangelhos registram tantos sinais. Eles funcionam como testemunhas permanentes da identidade do Filho de Deus.

Outra advertência aparece em Hebreus 4. Ali o autor lembra que muitos israelitas ouviram as boas novas. Entretanto, a mensagem não lhes trouxe qualquer proveito. Por quê? Porque aquilo que ouviram não foi acompanhado de fé. A Palavra chegou aos seus ouvidos. Mas nunca alcançou seus corações.

Apenas aqueles que creem entram no descanso da salvação. Assim, aqueles hebreus haviam recebido toda a revelação do Antigo Testamento. Agora ouviam o cumprimento dessa revelação em Cristo. Tinham diante de si o testemunho dos milagres. Possuíam o testemunho apostólico. Se, apesar de tudo isso, abandonassem o Evangelho, estariam caminhando deliberadamente para o mais severo juízo.

A advertência torna-se ainda mais solene em Hebreus 6. Ali encontramos pessoas que foram iluminadas. Experimentaram os privilégios da comunidade cristã. Provaram a boa Palavra de Deus. Testemunharam os poderes do mundo vindouro. Todas essas expressões descrevem indivíduos profundamente expostos ao ministério de Cristo e dos apóstolos.

Mas, se depois de conhecer toda essa verdade resolverem voltar atrás, sua situação torna-se extremamente grave. Ao rejeitarem a revelação completa de Deus, colocam-se ao lado daqueles que crucificaram o Filho de Deus. É exatamente isso que torna sua culpa tão severa. Quanto maior a luz recebida, maior a responsabilidade.

O mesmo princípio aparece novamente em Hebreus 10. Ali o autor escreve: “se continuarmos pecando deliberadamente, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados.” O pecado mencionado aqui é a incredulidade persistente. É a recusa deliberada em crer, mesmo depois de conhecer plenamente o Evangelho.

Nesse caso, resta apenas uma terrível expectativa de juízo. O autor então estabelece uma comparação. Quem desprezava a Lei de Moisés era condenado à morte mediante o testemunho de duas ou três testemunhas. Mas quão maior será o castigo daquele que pisa o Filho de Deus, considera comum o sangue da aliança e ultraja o Espírito da graça? Por isso conclui com palavras impressionantes: “Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo.” Conhecer a verdade. Ser conduzido até a plena revelação. E, então, virar as costas para Cristo. Não existe tragédia espiritual maior do que essa.

O privilégio singular de Israel

Com essa perspectiva em mente, voltemos ao Evangelho de João. A nação de Israel desfrutou de privilégios que nenhuma outra nação jamais recebeu. Primeiramente, possuía o Antigo Testamento. Os profetas haviam anunciado detalhadamente a vinda do Messias. Pedro afirma que eles investigaram cuidadosamente os sofrimentos e as glórias futuras de Cristo (1Pe 1.10-12). Israel possuía toda essa revelação.

Depois veio o cumprimento dessa revelação. João Batista apresentou Jesus dizendo: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). Todas as promessas encontraram seu cumprimento nele. Mas Deus fez ainda mais. Além das profecias e do seu cumprimento, concedeu-lhes um testemunho irresistível por meio dos milagres de Jesus. Eles possuíam a revelação escrita. Possuíam o Messias prometido. Possuíam os sinais sobrenaturais autenticando sua identidade. Tinham diante de si a revelação completa de Deus.

Três reações diferentes diante de Cristo

João apresenta três grupos bastante distintos. 1) No capítulo primeiro encontramos alguns discípulos de João Batista. Eles possuíam profundo conhecimento do Antigo Testamento. Quando João lhes apontou Jesus como o Cordeiro de Deus, imediatamente o seguiram. Nenhum milagre foi necessário. Eles reconheceram o cumprimento das Escrituras.

2) Depois encontramos a mulher samaritana e os habitantes de Sicar. Também eles não presenciaram milagres. Possuíam apenas parte das Escrituras — o Pentateuco. Jesus permaneceu dois dias ensinando-lhes. Explicou-lhes a verdade acerca do Messias. E eles creram. Mais uma vez, sem sinais miraculosos. Bastou-lhes compreender que Jesus cumpria as promessas divinas.

3) Mas, quando chegamos ao restante de Israel — especialmente à Judeia e à Galileia — encontramos exatamente aquilo que Jesus denuncia em João 4.48: “se não virdes sinais e prodígios, de modo nenhum crereis.” Apesar de todas as profecias, cumprimento perfeito dessas profecias e dos incontáveis milagres, eles exigiam mais sinais. Essa atitude revelava uma incredulidade profundamente endurecida.

E existe um princípio espiritual extremamente sério: quando a incredulidade rejeita a luz recebida, as trevas tornam-se cada vez mais profundas. Todo ser humano possui algum conhecimento de Deus (Rm 1.19-32). A Lei de Deus está escrita no coração humano (Rm 2.12-15). A consciência confirma continuamente essa verdade.

Mas, quando alguém rejeita essa luz, Deus o entrega a uma escuridão cada vez maior. Quanto maior a luz rejeitada, maior o endurecimento. Quem chega à plena revelação de Cristo e deliberadamente a rejeita coloca-se numa condição espiritual extremamente perigosa. Foi exatamente isso que aconteceu com Israel.

A conversão do oficial do rei

É justamente nesse contexto que João registra o episódio do oficial do rei. Ele constitui uma exceção. Enquanto multidões permaneceram incrédulas, esse homem chegou à verdadeira fé. Ao final do ministério de Jesus na Judeia havia apenas cento e vinte discípulos reunidos no cenáculo (At 1.15). Na Galileia havia cerca de quinhentos (1Co 15.6). Esse número é surpreendentemente pequeno diante das centenas de milhares de pessoas que ouviram Jesus durante aqueles anos.

Todos possuíam o Antigo Testamento, viram seu cumprimento. testemunharam seus milagres. Mesmo assim, a maioria recusou-se a crer. Agora João apresenta um homem que percorre exatamente o caminho oposto. Sua fé cresce passo a passo até tornar-se uma fé verdadeiramente salvadora. É esse processo que começaremos a observar.

João 4
46 Dirigiu-se, de novo, a Caná da Galileia, onde da água fizera vinho. Ora, havia um oficial do rei, cujo filho estava doente em Cafarnaum.
47 Tendo ouvido dizer que Jesus viera da Judeia para a Galileia, foi ter com ele e lhe rogou que descesse para curar seu filho, que estava à morte.

Aquele homem era um oficial real. O termo grego “basilikós” indica alguém pertencente ao serviço da casa real. Tratava-se de um funcionário ligado à corte de Herodes Antipas, governante da Galileia e da Pereia, filho de Herodes, o Grande. Herodes Antipas era um idumeu que governava com muita perversidade. Era um homem odiado pelos judeus. Foi ele quem mandou matar João Batista.

Herodes Antipas era um homem violento e tomado pelo medo. Temia João Batista e a Jesus. Quando ouviu falar do ministério de Cristo, imaginou que João Batista tivesse ressuscitado para atormentá-lo (Mc 6.14-16). É interessante notar que, durante todo o seu ministério na Galileia, Jesus jamais entrou em Tiberíades, a cidade construída por Herodes e sede de seu governo. Herodes queria matá-lo.

Entretanto, um de seus oficiais agora aproxima-se de Cristo. Esse oficial tinha um filho gravemente enfermo em Cafarnaum. Ele já havia ouvido falar de Jesus. Sabia que era um operador de milagres. Compartilhava exatamente da mesma opinião predominante entre os galileus.

João já havia explicado isso anteriormente: “os galileus o receberam porque tinham visto tudo quanto fizera em Jerusalém” (Jo 4.45). Eles acreditavam nos milagres. Nada mais. A mesma situação ocorrera em Jerusalém, onde “muitos, vendo os sinais que ele fazia, creram no seu nome, mas o mesmo Jesus não confiava neles, porque a todos conhecia” (Jo 2.23-24). O mesmo ocorreu com Nicodemos, que disse: “ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele” (Jo 3.2).

Isso era verdade, Jesus realmente operava sinais e milagres. Mas isso era insuficiente. Reconhecer o poder sobrenatural de Jesus não significa ainda conhecê-lo como Salvador. Esse oficial encontrava-se exatamente nesse ponto.

O sofrimento aproxima o pecador de Cristo

Quando soube que Jesus havia retornado à Galileia, o oficial partiu imediatamente ao seu encontro. A viagem não era pequena. De Cafarnaum até Caná havia cerca de trinta quilômetros de subida pelas montanhas. Ele percorreu toda essa distância impulsionado por uma única esperança. Seu filho estava morrendo. Ao encontrar Jesus, rogava insistentemente que descesse até Cafarnaum para curá-lo.

Observem o que está acontecendo. Até aquele momento, sua fé permanecia relativamente distante. Sabia que Jesus fazia milagres. Respeitava seu poder. Mas somente a dor pessoal o levou verdadeiramente até Cristo. Isso continua acontecendo hoje. A aflição frequentemente é o instrumento usado por Deus para conduzir pecadores ao Salvador.

Jesus afirmou certa vez: “os sãos não precisam de médico, e sim os doentes” (Mc 2.17). Enquanto o homem imagina possuir recursos suficientes para resolver seus próprios problemas, raramente procura o Salvador. Mas o sofrimento revela nossa absoluta incapacidade. Foi exatamente isso que aconteceu com aquele oficial. Seu desespero o levou aos pés de Cristo.

João 4
48 Então, Jesus lhe disse: Se, porventura, não virdes sinais e prodígios, de modo nenhum crereis.

Foi uma resposta surpreendente de Jesus. À primeira vista, parece uma resposta dura. Mas Jesus não está rejeitando aquele homem. Está denunciando a incredulidade dominante em Israel: Vocês somente acreditam quando veem milagres. Querem sinais, prodígios e manifestações extraordinárias. Mas não querem reconhecer o Messias revelado nas Escrituras.

Mesmo assim, Jesus não rejeita o oficial. Toda fé verdadeira precisa começar em algum lugar. Os próprios milagres tinham exatamente esse propósito. Eles levavam as pessoas a reconhecer que Jesus possuía poder divino. Esse era apenas o primeiro passo. O problema era permanecer apenas nele.

Da fé nos milagres à fé na Palavra

João 4
49 Rogou-lhe o oficial: Senhor, desce, antes que meu filho morra.
50 Vai, disse-lhe Jesus; teu filho vive. O homem creu na palavra de Jesus e partiu.

Ele acreditava que Jesus precisava estar fisicamente presente para curar seu filho. Ainda não compreende plenamente quem Cristo é. Então Jesus simplesmente declara: “Vai; teu filho vive.” Nada mais. Nenhum gesto. Nenhuma imposição de mãos. Nenhuma visita. Nenhuma cerimônia. Apenas uma palavra. E, naquele exato instante, o menino foi completamente curado.

Mas algo ainda mais importante aconteceu: “O homem creu na palavra que Jesus lhe disse e partiu.” Esse é um progresso extraordinário. Antes ele acreditava nas obras de Jesus. Agora passa a confiar em suas palavras. Esse é um passo indispensável. Ao longo do Evangelho de João, Jesus constantemente chama as pessoas a crerem tanto em suas obras quanto em suas palavras.

Os milagres demonstram seu poder. Mas suas palavras revelam sua identidade. Os milagres, por si mesmos, não salvam. Quem salva é a verdade anunciada por Cristo. O oficial agora confia nessa verdade. Sem qualquer evidência visível, simplesmente volta para casa. Essa é uma fé muito mais profunda do que possuía anteriormente.

A confirmação da fé

João 4
51 Já ele descia, quando os seus servos lhe vieram ao encontro, anunciando-lhe que o seu filho vivia.
52 Então, indagou deles a que hora o seu filho se sentira melhor. Informaram: Ontem, à hora sétima a febre o deixou.
53 Com isto, reconheceu o pai ser aquela precisamente a hora em que Jesus lhe dissera: Teu filho vive; e creu ele e toda a sua casa.
54 Foi este o segundo sinal que fez Jesus, depois de vir da Judeia para a Galileia.

Enquanto retornava, seus servos vieram ao seu encontro trazendo a notícia: “Teu filho vive.” Então perguntou cuidadosamente: — Em que hora ele começou a melhorar? Responderam: “Ontem, à hora sétima, a febre o deixou.”

João não está interessado em discutir exatamente qual sistema de contagem das horas era utilizado. O importante é outro detalhe. Foi exatamente naquela hora em que Jesus havia declarado: “Teu filho vive.” Nesse momento, toda dúvida desaparece. O oficial compreende que não se tratava apenas de um milagre extraordinário. Era a manifestação do poder soberano da palavra de Cristo.

A fé salvadora finalmente chega

João então faz uma afirmação muito significativa: “Ele mesmo creu.” Mas espere. Ele já não havia crido? Sim. Primeiro acreditou que Jesus realizava milagres. Depois acreditou em sua palavra. Agora sua fé alcança seu estágio definitivo. Ele crê na pessoa de Cristo. Crê em Seu nome. Reconhece quem Jesus realmente é.

É exatamente a mesma linguagem utilizada por João ao longo de todo o Evangelho. Não basta reconhecer que Jesus realiza milagres. Não basta admirar seus ensinos. É necessário confiar nele como o Filho de Deus e Salvador do mundo. Essa é a fé salvadora.

E João acrescenta algo maravilhoso: “Ele mesmo creu, e toda a sua casa.” Assim como anteriormente uma aldeia samaritana inteira havia sido alcançada pelo Evangelho, agora uma família pertencente à corte de Herodes experimenta a salvação. Provavelmente estavam incluídos esposa, filhos, servos e demais membros da casa. A graça de Deus alcança um lar inteiro.

O Salvador do mundo

Há algo extraordinário na sequência apresentada por João. No capítulo primeiro, Jesus chama pescadores simples. Depois salva uma mulher samaritana, desprezada pelos judeus. Mais tarde alcança Nicodemos, um dos principais mestres de Israel. Agora salva um alto funcionário da corte de Herodes.

Pessoas de diferentes nacionalidades, classes sociais e posições religiosas. Tudo isso confirma aquilo que os samaritanos haviam declarado anteriormente: “Este é verdadeiramente o Salvador do mundo” (Jo 4.42). O Evangelho ultrapassa todas as barreiras. Não pertence apenas aos judeus, nem aos samaritanos, nem aos pobres e nem aos ricos, mas pertence a todo aquele que nele crê para a vida eterna.

Então, o que significa crer em Cristo? Significa, primeiro, reconhecer seus milagres como obras do próprio Deus. Significa, depois, reconhecer que suas palavras são absolutamente verdadeiras. Mas isso ainda não é suficiente. É necessário ir além. É preciso crer em sua pessoa. Crer que Jesus é o Filho eterno de Deus. Crer que Ele é o Cristo prometido. Crer que Ele veio salvar pecadores.

Esse é exatamente o propósito do Evangelho de João: “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.31). Foi isso que aconteceu naquela casa. Toda aquela família recebeu vida em seu nome. Pouco tempo depois, o próprio Cristo carregaria na cruz a culpa daqueles pecados, oferecendo expiação perfeita por todos eles.

Onde você se encontra nessa caminhada da fé? Talvez você reconheça que Jesus realizou milagres. É difícil negar isso. Talvez admire Seus ensinos. Jamais alguém falou como Ele falou. Mas isso ainda não basta. Você precisa crer em sua pessoa. Precisa recebê-lo como o Filho de Deus, o Salvador do mundo e Senhor. Somente essa fé concede a vida eterna. Ela é um dom da graça de Deus, oferecido a todos aqueles que creem em seu Filho. Vamos orar.

Pai, mais uma vez nos colocamos diante de Ti ao encerrarmos este tempo precioso de adoração, comunhão e ministério. Agradecemos pela simplicidade e pela clareza do Evangelho. Não precisamos conquistar a vida eterna por nossos próprios méritos. Ela é um dom concedido àqueles que simplesmente creem.

Mas também fomos advertidos acerca do terrível perigo de conhecer a verdade e rejeitá-la. Como escaparemos se negligenciarmos tão grande salvação? Quão mais severo será o castigo daquele que pisa o Filho de Deus e despreza o sangue da aliança? Verdadeiramente, horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo.

Senhor, oro para que aqueles que foram conduzidos ao pleno conhecimento de Cristo recebam também o dom da fé salvadora. Sabemos que a fé é um presente da Tua graça, embora o pecador seja chamado a crer. Desperta os mortos espiritualmente. Dissipa as trevas. Concede fé verdadeira — fé que salva — para o louvor da Tua glória. Em nome de Jesus. Amém.


Esta é uma série de sermões traduzidos de John MacArthur sobre o Evangelho de João.
Clique aqui e acesse o índice ordenado por capítulo, com links para leitura. 


Este texto é uma síntese do sermão “Saving Faith in a Herodian Household”, de John MacArthur, em 9/6/2013.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/sermons/43-24/saving-faith-in-a-herodian-household

Tradução e síntese feitas pelo Site Rei Eterno


 

 

 

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