O Falso e o Verdadeiro Discípulo

Os falsos seguidores de Jesus são pessoas que se aproximam dele movidas por interesses pessoais, buscando milagres, benefícios materiais e a satisfação de seus próprios desejos. Embora demonstrem entusiasmo e aparentem reconhecer a autoridade de Cristo, não estão verdadeiramente dispostos a se arrepender e obedecê-lo. Em vez de se colocarem sob o senhorio de Jesus, desejam que ele realize suas vontades; por isso, valorizam mais aquilo que Cristo pode oferecer do que a sua própria presença. Sua adoração é falsa e centrada em si mesmos, e, quando confrontados com verdades difíceis ou com o caminho da cruz, abandonam o discipulado. As principais características do falso seguidor são a desobediência, o egoísmo, a busca por vantagens e a ausência de fé e adoração genuínas. 

Somos criticados por afirmarmos que muitas pessoas ligadas ao movimento carismático não são verdadeiros cristãos. Mantemos essa posição porque as evidências indicam que muitas delas não compreendem nem creem no verdadeiro evangelho. Nada poderia ser mais desastroso do que fazer alguém pensar que é seguidor de Jesus Cristo quando, na verdade, não é. O próprio Senhor advertiu que muitos lhe diriam: “Senhor, Senhor”, mencionando profecias, milagres e expulsão de demônios, mas ouviriam como resposta: “Nunca os conheci” (Mt 7.21-25). Por isso, cada pessoa deve examinar a si mesma para verificar se realmente está na fé (2Co 13.5).

A Bíblia mostra que alguns professam fé em Cristo, mas depois abandonam o evangelho, a igreja e a Palavra de Deus. São desertores, apóstatas, pessoas que não perseveraram. Isso é especialmente doloroso quando acontece entre amigos, filhos ou cônjuges, mas é uma realidade reconhecida nas Escrituras. João explica que eles saíram do nosso meio porque nunca foram verdadeiramente dos nossos (1Jo 2.19). Portanto, a igreja não deve tornar confortável a vida dos hipócritas, mas apresentar com absoluta clareza a diferença entre o verdadeiro e o falso discípulo.

A apostasia é um tema presente em toda a Bíblia. Os profetas denunciaram Israel e Judá por abandonarem o Deus que conheciam e trocarem a fonte de águas vivas por cisternas rachadas (Jr 2.11-13). Entretanto, as Escrituras não mostram apenas a gravidade da apostasia, mas também a dor que ela causa ao coração de Deus (Os 11.1-9). Essa tristeza aparece nas lágrimas dos profetas (Jr 9.1; 13.17; Lm 1.16)  e, de maneira perfeita, nas lágrimas de Jesus sobre Jerusalém (Mt 23.37-39). A perdição espiritual, a rebeldia e o falso discipulado quebram o coração de Deus e o coração de Cristo.

Acredito que um dos textos mais comoventes e profundamente tristes das Escrituras sobre a apostasia espiritual seja João 6. O sofrimento presente nesse capítulo é avassalador, e espero que possamos compreendê-lo não apenas intelectualmente, mas também emocionalmente. Quando não entendemos as circunstâncias, quando enfrentamos decepções, doenças ou a ameaça da morte, nós nos apoiamos na soberania de Deus. Voltamos à certeza de que Deus governa todas as coisas, está no controle e nada acontece fora de seu propósito. Em João 6, encontramos o próprio Jesus apoiando-se firmemente nessa soberania.

Embora plenamente Deus, Jesus também é plenamente homem e foi tentado em todas as coisas à nossa semelhança, mas sem pecado (Hb 4.15). A apostasia o aflige profundamente. Depois de passar o dia curando enfermos e alimentar uma multidão, demonstrando sua compaixão e seu poder (Jo 6.1-15), Ele vê muitos de seus discípulos se afastarem e deixarem de andar com Ele (Jo 6.66). Então vem aquela pergunta triste e melancólica dirigida aos doze: “Vocês também não querem ir embora?” (Jo 6.67). O capítulo começa com multidões seguindo Jesus e termina com seguidores abandonando-o; logo depois, vemos os judeus procurando matá-lo (Jo 7:1). É um capítulo devastador, de partir o coração.

Ao mesmo tempo, João 6 nos ensina que haverá muitos falsos seguidores de Jesus. É possível imaginar falsos seguidores de qualquer pastor ou ministro, mas é difícil imaginar alguém exposto à pessoa, às palavras e ao poder de Cristo e, ainda assim, abandoná-lo. Contudo, esse é o tema central do capítulo: as características do falso discipulado. Seus 71 versículos mostram a diferença entre o verdadeiro e o falso seguidor de Jesus. Essa é uma questão crucial, pois o caminho da vida é estreito e poucos o encontram, enquanto o caminho da perdição é largo e muitos entram por ele (Mt 7.13-14). Muitos dirão: “Senhor, Senhor”, mas ouvirão como resposta: “Nunca os conheci” (Mt 7.21-23).

É insensato presumir que toda pessoa que fala de Cristo ou demonstra algum interesse por Ele seja um verdadeiro cristão. A palavra grega traduzida como “discípulo” significa simplesmente “estudante” ou “aprendiz” e pode se referir tanto a um seguidor genuíno quanto a alguém superficialmente interessado. João 6.66 mostra que é possível acompanhar Jesus por algum tempo e depois abandoná-Lo. O falso discípulo ouve, participa e parece demonstrar vida, mas não possui compromisso verdadeiro. É como o solo pedregoso que recebe a Palavra com alegria, mas, por não ter raiz, permanece apenas por algum tempo e depois se afasta (Mt 13.20-21). O verdadeiro discipulado não é comprovado por um interesse momentâneo, mas por uma fé genuína que permanece.

João 6 fala sobre os verdadeiros e os falsos discípulos. Por isso, precisamos examinar esse capítulo pessoalmente, perguntando onde nos encaixamos, antes de atribuir sua mensagem a outra pessoa. Essa realidade sempre me preocupou, pois cresci ao lado de pessoas que frequentavam a igreja e depois se afastaram de Cristo. Vi isso em meus anos de escola e durante todo o meu ministério pastoral. Essa é uma realidade dolorosa, mas é uma realidade.

Ao longo do capítulo, veremos as características dos falsos discípulos e os sinais que podem ajudá-los a reconhecer o engano em que vivem. Esse é o fio condutor que une os diferentes acontecimentos da narrativa. Cada história possui sua própria riqueza, assim como o grandioso discurso de Jesus sobre o pão da vida (Jo 6.22-59), mas tudo se encaixa no panorama maior do verdadeiro e do falso discipulado.

1ª característica dos falsos discípulos: são atraídos pela multidão (Jo 6.1-2)

Gostaria de pensar que vocês estão na igreja porque são atraídos pela adoração, pela Palavra de Deus, pelo ensino, pela vida no Espírito Santo e pelo amor dos irmãos. Quando muitas pessoas são atraídas por motivos santos, forma-se naturalmente uma multidão; mas elas não estão ali por causa da multidão. O falso discípulo, porém, é atraído pela multidão e pode, por algum tempo, parecer indistinguível do verdadeiro. É justamente no início de João 6 que essa diferença começa a se tornar visível.

Como vimos no sermão anterior, sobre a primeira multiplicação de pães e peixes, João começa o capítulo 6 dizendo: “depois destas coisas…” (Jo 6.1). Essa expressão indica que algum tempo havia transcorrido desde os acontecimentos do capítulo 5. Se a festa mencionada em João 5.1 foi a Páscoa, o intervalo teria sido de aproximadamente um ano; se foi a Festa dos Tabernáculos, teria sido de seis ou sete meses. Nesse período ocorreu boa parte do ministério de Jesus na Galileia, registrado com mais detalhes em Mateus, Marcos e Lucas. João 6 apresenta o desfecho desse ministério: Jesus atravessa o mar da Galileia, também chamado mar de Tiberíades, enquanto uma grande multidão o segue (Jo 6.1-4).

Jesus atraía milhares de pessoas porque elas viam os sinais que ele realizava na cura dos enfermos (Jo 6.2). Durante gerações, ninguém entre elas havia presenciado milagres como aqueles; agora, um homem os realizava diariamente. Sua fama espalhou-se por toda a região, e multidões vinham de muitos lugares para segui-Lo (Mt 4.23-25; Mc 3.7-10). Jesus havia se tornado a pessoa mais popular da Galileia. Ele era o grande acontecimento da vida daquele povo, e sua popularidade atraía multidões cada vez maiores.

Multidões atraem multidões. Quando vemos muitas pessoas reunidas, queremos descobrir o que está acontecendo e nos juntamos a elas. Forma-se uma mentalidade coletiva, especialmente quando algo extraordinário parece estar acontecendo. É perigoso quando Jesus se torna apenas uma causa popular; é igualmente perigoso quando alguém que afirma representá-lo se torna uma celebridade e começa a atrair pessoas sob o pretexto de milagres, poder sobrenatural ou alguma promessa de ajuda. Uma grande igreja pode alcançar pessoas e até ser instrumento para sua conversão, mas a energia, a expectativa e o entusiasmo da multidão inevitavelmente também atraem falsos seguidores.

Uma pequena igreja formada por pessoas que oram, amam o Senhor, cantam, adoram e ouvem a Palavra de Deus não atrairá quem busca apenas popularidade e espetáculo. Ela atrairá aqueles que amam o Senhor, sua Palavra e seu povo. Esse é o ponto de partida do falso discipulado: a atração pela causa popular. A preocupação surge quando um pregador se transforma em uma espécie de astro e uma imagem é construída ao seu redor. O falso discípulo não é atraído por Cristo, mas pela popularidade, pela vitalidade e pela eletricidade da multidão.

2ª característica dos falsos discípulos: são fascinados pelo sobrenatural

Quando alguém anuncia que Deus está presente para curar doenças, transformar carreiras, resolver problemas financeiros e mudar vidas, isso se torna muito atraente para pessoas cansadas de uma existência comum e dolorosa. Foi exatamente o que aconteceu naquele dia. A partir de cinco pequenos pães de cevada e dois peixes, Jesus criou alimento suficiente para que milhares de pessoas comessem quanto quisessem (Jo 6.9-13). Esse é o único milagre de Jesus, além da ressurreição, registrado nos quatro Evangelhos (Mt 14.13-21; Mc 6.30-44; Lc 9.10-17; Jo 6.1-14).

A demonstração de poder foi incrível,  algo inimaginável à mente e capacidade humanas,mas isso não representou dificuldade alguma para Cristo. Ele é o Criador do universo; todas as coisas foram feitas por meio Dele, e sem Ele nada do que existe teria sido feito (Jo 1.3). O poder manifestado na multiplicação dos pães é o mesmo poder que sustenta as estrelas. A multidão não compreendia aquilo, mas sabia que estava diante de algo extraordinário e sobrenatural.

Eles estavam ali porque se encontravam fascinados pelos milagres. Repetidamente, os Evangelhos mostram multidões seguindo Jesus por causa das curas e dos sinais que ele realizava (Mt 4.23-25; 12.15; 14.34-36; 15.29-31). Em Jerusalém, muitos creram em seu nome porque viram os sinais, embora Jesus conhecesse a verdadeira condição do coração deles (Jo 2.23-25). Nicodemos também reconheceu: “Ninguém pode realizar estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele” (Jo 3.2). Muitos se aproximavam de Cristo, portanto, não por compreenderem quem ele era, mas pelo que esperavam receber de seu poder.

A vida pode ser monótona e dolorosa; os relacionamentos são difíceis, as famílias enfrentam conflitos e as decepções são numerosas. Quando alguém aparece em nome de Jesus prometendo saúde, riqueza, prosperidade e realização, facilmente atrai uma multidão, ainda que nada disso seja verdade. Simão, o mágico, chegou a oferecer dinheiro para adquirir o poder do Espírito Santo, mas foi severamente repreendido por Pedro (At 8.18-23). As pessoas desejam elevar-se acima do comum, e esse desejo cria o ambiente perfeito para o falso discipulado: primeiro são atraídas pela multidão e depois ficam fascinadas pela promessa de poder sobrenatural, seja físico, social ou econômico.

3ª característica dos falsos discípulos: pensam apenas em benefícios terrenos.

Depois da multiplicação dos pães, o povo declarou: “Este é verdadeiramente o Profeta que devia vir ao mundo” (Jo 6.14), reconhecendo em Jesus o profeta anunciado por Moisés (Dt 18.15,18). Pareciam estar chegando à conclusão correta sobre sua identidade. Contudo, embora Jesus lhes ensinasse sobre o Reino de Deus e a salvação (Lc 9.11), eles não compreendiam a natureza desse Reino. Como o próprio Cristo afirmou: “O meu Reino não é deste mundo” (Jo 18.36).

Jesus conhecia o coração deles e percebeu que planejavam tomá-lo à força para fazê-Lo rei (Jo 6.15; 2.24-25). Eles não se prostraram para adorá-lo, não se arrependeram nem creram verdadeiramente nele. Queriam um rei capaz de libertá-los do domínio romano, fornecer alimento, curar suas doenças e derrotar seus inimigos. Haviam encontrado alguém que, segundo imaginavam, poderia criar condições perfeitas de vida, e não queriam deixá-lo escapar.

Essa é uma marca do falso discípulo: buscar Jesus apenas pelos benefícios terrenos. Quando um pregador promete que Cristo dará às pessoas tudo o que desejam nesta vida, ele inevitavelmente atrai falsos seguidores. A multidão atrai a multidão; a promessa do sobrenatural desperta fascínio; e a oferta de saúde, prosperidade, satisfação e sucesso aumenta ainda mais essa atração. Essas pessoas não desejam Cristo por quem Ele é, mas apenas pelo que esperam receber dele.

Ninguém, porém, pode usar Deus para realizar seus próprios fins. Israel tentou fazer isso quando levou a Arca da Aliança para a batalha, imaginando que o símbolo da presença divina garantiria a vitória sobre os filisteus. Embora o povo permanecesse infiel, tratou a Arca quase como um objeto mágico. O resultado foi uma derrota devastadora: trinta mil soldados morreram e a própria Arca foi capturada (1Sm 4.3-11). Deus não é o “gênio da lâmpada mágica” que existe para satisfazer desejos e resolver nossos problemas. Apresentá-lo dessa maneira é criar uma fórmula perfeita para atrair falsos discípulos.

4ª característica dos falsos discípulos: não possuem desejo de adoração

João 6
16 E, quando veio a tarde, os seus discípulos desceram para o mar.
17 E, entrando no barco, passaram o mar em direção a Cafarnaum; e era já escuro, e ainda Jesus não tinha chegado perto deles.
18 E o mar se levantou, porque um grande vento assoprava.
19 E, tendo navegado uns vinte e cinco ou trinta estádios, viram Jesus andando sobre o mar e aproximando-se do barco, e temeram.
20 Porém ele lhes disse: Sou eu; não temais.
21 Então, eles, de boa mente, o receberam no barco; e logo o barco chegou à terra para onde iam.

Para compreendermos toda a cena, precisamos também dos relatos paralelos de Mateus e Marcos (Mt 14.22-33; Mc 6.45-52). Ao cair da tarde, Jesus ordenou aos discípulos que entrassem no barco e seguissem adiante, enquanto Ele despedia a multidão e se retirava sozinho para o monte (Mt 14.22-23).

Os discípulos deveriam atravessar o mar da Galileia em direção a Cafarnaum, passando pela região de Betsaida (Jo 6.16-17; Mc 6.45). Eles esperaram por algum tempo, mas Jesus não apareceu. Quando já estava escuro, partiram sem Ele. Então começou a soprar um vento forte, e o mar ficou agitado (Jo 6.17-18).

O mar da Galileia fica cerca de 210 metros abaixo do nível do mar e é cercado por montanhas. Os ventos que descem pelas ravinas podem atingir repentinamente as águas e produzir tempestades violentas. Pelo menos alguns daqueles discípulos eram pescadores experientes e conheciam muito bem o lago; ainda assim, estavam apavorados. Não era a primeira vez que enfrentavam uma tempestade ali. Em outra ocasião, enquanto Jesus dormia no barco, eles o despertaram clamando por socorro. Depois que Ele acalmou o vento e o mar, perguntaram: “Que homem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?” (Mt 8.23-27).

Dessa vez, eles remaram durante quase toda a noite e avançaram o equivalente a 5 a 6 km (Jo 6.19). O barco era castigado pelas ondas, pois o vento era contrário. Entre três e seis horas da manhã, Jesus foi ao encontro deles andando sobre o mar. Ao vê-Lo, imaginaram que fosse um fantasma e gritaram de medo. Jesus, porém, declarou: “Coragem! Sou eu. Não tenham medo!” (Mt 14.24-27).

Pedro respondeu: “Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro sobre as águas”. Ao ouvir Jesus dizer “venha”, saiu do barco e caminhou em Sua direção. Quando reparou na força do vento, teve medo e começou a afundar. Então clamou: “Senhor, salva-me!”. Imediatamente, Jesus estendeu a mão, segurou-o e perguntou: “Homem de pequena fé, por que você duvidou?” (Mt 14.28-31).

Quando Jesus e Pedro entraram no barco, o vento cessou. Aqui está a grande diferença: na tempestade anterior, os discípulos haviam perguntado: “Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?” (Mc 4.41), mas agora, prostraram-se diante Dele e declararam: “Verdadeiramente tu és o Filho de Deus” (Mt 14.32-33). Isso é verdadeiro discipulado: reconhecer quem Cristo é e adorá-lo. Eles o receberam de boa vontade no barco e imediatamente chegaram ao lugar para onde estavam indo (Jo 6.21).

Foi uma extraordinária manifestação de poder. Jesus caminhou sobre as águas, sustentou Pedro, acalmou o vento e conduziu o barco ao destino. Os discípulos compreenderam que estavam diante do Filho de Deus, Senhor da natureza e de toda a criação. É isso que distingue os verdadeiros discípulos dos falsos: os falsos são atraídos pela multidão, fascinados pelo sobrenatural e interessados em benefícios terrenos; os verdadeiros se curvam diante de Cristo e o adoram.

5ª característica dos falsos discípulos: buscam prosperidade e realização pessoal

João 6
22 No dia seguinte, a multidão que estava do outro lado do mar, vendo que não havia ali mais do que um barquinho e que Jesus não embarcara com seus discípulos naquele barquinho, mas que os seus discípulos tinham ido sós
23 contudo, outros barquinhos tinham chegado de Tiberíades, perto do lugar onde comeram o pão, havendo o Senhor dado graças;
24 vendo, pois, a multidão que Jesus não estava ali, nem os seus discípulos, entraram eles também nos barcos e foram a Cafarnaum, em busca de Jesus.
25 E, achando-o no outro lado do mar, disseram-lhe: Rabi, quando chegaste aqui?
26 Jesus respondeu e disse-lhes: Na verdade, na verdade vos digo que me buscais não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes.
27 Trabalhai não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará, porque a este o Pai, Deus, o selou.

No dia seguinte à multiplicação dos pães, a multidão ainda permanecia na margem leste do mar da Galileia (Jo 6.22). Eles tinham visto os discípulos partirem sozinhos e sabiam que Jesus não entrara no barco. Por isso, passaram a noite ali, esperando encontrá-lo pela manhã — e, muito provavelmente, receber outra refeição. Enquanto isso, outros barcos chegaram de Tiberíades ao lugar onde haviam comido o pão depois que o Senhor dera graças (Jo 6.23).

Para aquelas pessoas, conseguir o alimento diário exigia verdadeiro esforço. A possibilidade de nunca mais se preocuparem com a próxima refeição era extremamente atraente. Quando perceberam que Jesus e os discípulos não estavam mais ali, embarcaram e foram procurá-lo em Cafarnaum, cidade onde ele havia estabelecido sua base durante o ministério na Galileia (Jo 6.24; Mt 4.13). A multidão ainda pretendia fazê-lo rei e desfrutar continuamente dos benefícios de seu poder (Jo 6.15).

Ao encontrarem Jesus do outro lado do mar, perguntaram: “Rabi, quando chegaste aqui?” (Jo 6.25). A pergunta também significava: “Como chegaste aqui?”. Jesus, porém, não explicou que caminhara sobre as águas, encontrara os discípulos no meio do lago, salvara Pedro e acalmara a tempestade (Mt 14.25-32). Outro relato de milagre não produziria fé verdadeira, pois eles já haviam participado de uma extraordinária manifestação de poder e, mesmo assim, não compreenderam quem ele era.

Jesus ignorou a pergunta e revelou o verdadeiro motivo daquela busca: “Em verdade, em verdade lhes digo: vocês estão me procurando não porque viram sinais, mas porque comeram os pães e ficaram satisfeitos” (Jo 6.26). Os milagres deveriam conduzi-los ao reconhecimento de Jesus como o Filho de Deus, o Salvador e o Messias. Eles, porém, não enxergavam aquilo para o qual os sinais apontavam. Procuravam apenas a satisfação imediata de suas necessidades.

Essas pessoas foram os primeiros candidatos a uma espécie de evangelho da prosperidade. Queriam um Jesus que lhes desse alimento, conforto e tudo o que desejassem. Isso ainda acontece quando falsos mestres apresentam Cristo como alguém que existe para realizar sonhos, resolver problemas e proporcionar satisfação pessoal. Mas essa é uma representação distorcida dele. Os falsos discípulos procuram as dádivas terrenas, não o próprio Cristo.

Por isso, Jesus os advertiu: “Não trabalhem pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do Homem lhes dará; pois Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo” (Jo 6.27). Não gastem a vida buscando apenas aquilo que é temporal, superficial, físico e terreno. Busquem o alimento que permanece para sempre. O Pai autenticou Jesus por meio dos milagres, prodígios e sinais que realizou (At 2.22), mas a multidão ignorava o significado desses sinais e continuava procurando apenas pão.

E qual é o alimento que permanece para a vida eterna? É o próprio Cristo. “Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim nunca terá fome, e aquele que crê em mim nunca terá sede” (Jo 6.35). Ele é o pão que desceu do céu (Jo 6.41), o pão vivo que dá Sua carne pela vida do mundo (Jo 6.51). A mensagem é clara: parem de viver para aquilo que perece. Creiam em Cristo, em quem ele é, na razão pela qual veio e em sua morte pela salvação dos pecadores. Esse é o alimento que permanece para a vida eterna.

Você sempre pode atrair uma multidão para satisfazer suas necessidades, realizar seus desejos e dar-lhes alguma esperança de que suas ambições se concretizem. Mas isso não é o que Jesus oferece. O que você fará ao fazer isso é apenas reunir falsos discípulos, atraídos pela multidão, fascinados pela perspectiva do sobrenatural, pensando apenas em coisas terrenas, sem nenhum desejo real de adoração, embora assistam ao espetáculo e gostem da música, preocupados em satisfazer seus próprios desejos pessoais, mas sem interesse no pão da vida. No fim, quando você prega essa mensagem, eles se afastam.

6ª característica dos falsos discípulos: querem poder para satisfazer a si mesmos

João 6
28 Dirigiram-se, pois, a ele, perguntando: Que faremos para realizar as obras de Deus?
29 Respondeu-lhes Jesus: A obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi enviado.
30 Então, lhe disseram eles: Que sinal fazes para que o vejamos e creiamos em ti? Quais são os teus feitos?
31 Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: Deu-lhes a comer pão do céu.
32 Replicou-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: não foi Moisés quem vos deu o pão do céu; o verdadeiro pão do céu é meu Pai quem vos dá.
33 Porque o pão de Deus é o que desce do céu e dá vida ao mundo.
34 Então, lhe disseram: Senhor, dá-nos sempre desse pão.

O que está acontecendo aqui? Admito que a passagem é um tanto enigmática, pois não temos o diálogo completo. Ainda assim, há elementos suficientes para compreendermos outra característica dos falsos discípulos: atraídos por coisas superficiais e interessados na própria satisfação, eles chegam ao ponto de fazer exigências a Deus.

É exatamente isso que encontramos no chamado evangelho da saúde, da riqueza e da prosperidade, com suas ideias de “nomear e reivindicar” e de confissão positiva. Seus pregadores ensinam que você pode ordenar a Deus, dispensar a oração “seja feita a tua vontade” (Mt 6.10) e criar a própria realidade por meio das palavras. Tudo passa a depender da vontade humana, como se Deus estivesse obrigado a satisfazê-la quando a pessoa demonstra fé suficiente.

A primeira exigência da multidão aparece quando perguntam a Jesus: “que faremos para realizar as obras de Deus?” (Jo 6.28). Ele acabara de adverti-los a não trabalhar pela comida que perece, mas pela que permanece para a vida eterna (Jo 6.27). Por isso, a pergunta parece significar: “o que devemos fazer para obter esse poder?”. Não creio que estivessem sinceramente perguntando quais obras agradariam a Deus. Eles já possuíam um sistema religioso bem desenvolvido e julgavam conhecer as exigências espirituais.

Aquelas pessoas reconheciam que Jesus vinha de Deus e possuía poder divino. Muitos haviam crido por causa dos sinais, embora Jesus conhecesse a falsidade daquela fé (Jo 2.23-25). Nicodemos resumiu essa percepção ao declarar que ninguém poderia realizar aqueles sinais se Deus não estivesse com ele (Jo 3.2). Depois de presenciarem incontáveis milagres e participarem da multiplicação dos pães, eles queriam que Jesus lhes transferisse seu poder. Essa mesma mentira continua sendo ensinada: que somos pequenos deuses, possuímos poder divino e podemos criar o mundo que desejamos. Eles não buscavam justiça nem queriam agradar a Deus; queriam poder para satisfazer a si mesmos.

Isso é muito similar a um fato ocorrido em Atos 8. Quando Filipe pregava em Samaria e, pelo poder do Espírito, expulsava demônios e curava paralíticos e coxos, produzindo grande alegria na cidade (At 8.5-8). Ali vivia Simão, um mágico que impressionava o povo e se apresentava como alguém importante. Fascinadas por suas artes, as pessoas o chamavam de “o grande poder de Deus” (At 8.9-11). Ele era um enganador habilidoso, mas sabia distinguir seus truques de uma verdadeira manifestação sobrenatural.

Quando os samaritanos creram na mensagem de Filipe sobre o Reino de Deus e o nome de Jesus Cristo, foram batizados. O próprio Simão professou fé, foi batizado e passou a acompanhar Filipe, admirado com os sinais e milagres que presenciava (At 8.12-13). Sua fé, porém, era superficial. O que o atraía não era Cristo, mas o poder. Quando Pedro e João impuseram as mãos sobre os novos convertidos, Simão viu que eles recebiam o Espírito Santo e percebeu uma manifestação visível desse dom (At 8.14-17). Então concluiu que aquele poder poderia ser transferido — e quis obtê-lo para si.

Simão ofereceu dinheiro aos apóstolos e exigiu: “deem-me também este poder, para que aquele sobre quem eu impuser as mãos receba o Espírito Santo” (At 8.18-19). Pedro o repreendeu severamente, declarando que seu coração não era reto diante de Deus e ordenando-lhe que se arrependesse daquela maldade (At 8.20-23). Simão não desejava a salvação nem a glória de Deus; queria apropriar-se do poder divino como se fosse uma mercadoria. Creio que essa mesma ambição estava na mente da multidão de João 6: eles não perguntavam como agradar a Deus, mas como poderiam possuir o poder de Cristo para satisfazer seus próprios desejos (Jo 6.28).

A multidão estava dizendo, em outras palavras: “dê-nos o poder para realizarmos as obras de Deus como Tu fazes”. A resposta, porém, foi não. Jesus declarou: “A obra de Deus é esta: crer naquele que Ele enviou” (Jo 6.29). Em outras palavras, o único poder milagroso do qual eles participariam seria o milagre da fé. Eles não receberiam poder para criar alimento, realizar curas ou controlar as circunstâncias; precisavam crer em Cristo.

E mesmo a fé é uma obra de Deus. Jesus afirmou: “ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer” (Jo 6.44). A regeneração é o milagre divino que torna possível a fé. Por isso, crer se torna um tema recorrente em todo o Evangelho de João: seu propósito é levar as pessoas a crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, crendo, tenham vida em Seu nome (Jo 20.30-31).

A multidão, porém, desejava poder para controlar a própria vida. Essa continua sendo uma oferta popular: a ideia de que Jesus concederá poder para realizar desejos, alcançar ambições, controlar o futuro e criar o próprio destino. A verdade é justamente o contrário. O ser humano não recebe autoridade sobre Deus nem poder para obrigá-lo a cumprir sua vontade. O único milagre do qual pode participar é crer em Cristo — e até isso é resultado da ação soberana de Deus.

Como Jesus recusou a primeira exigência, eles fizeram outra: “Que sinal farás para que o vejamos e creiamos em ti? Que obra realizarás?” (Jo 6.30). Isso é surpreendente, pois haviam acabado de participar da multiplicação dos pães (Jo 6.1-14). O milagre demonstrara o poder divino de Jesus, mas não produzira fé verdadeira. Então, a atitude deles era esta: “Se não nos darás o poder, dá-nos mais milagres”. Queriam uma demonstração ainda maior e contínua — tanto que, na manhã seguinte, voltaram à procura de Jesus, esperando receber novamente o pão que perece (Jo 6.22-27).

7ª característica dos falsos discípulos: não encontram satisfação em Cristo, mas no que esperam receber dele

Observe o argumento da multidão: “Nossos pais comeram o maná no deserto; como está escrito: ‘Ele lhes deu pão do céu para comer’” (Jo 6.31; Sl 78.24). Eles estavam minimizando o milagre realizado por Jesus:“Tu nos deste uma refeição, mas Moisés alimentou uma nação inteira durante anos”. A provisão do maná está registrada nas Escrituras (Ex 16.4-36; Ne 9.15; Sl 78.23-25; 105.40), e eles a usavam para exigir de Cristo algo ainda maior.

O verdadeiro problema era que continuavam buscando alimento permanente. Se Jesus não lhes desse poder para produzi-lo, deveria fornecê-lo continuamente; caso contrário, eles se recusariam a crer. Essa é a atitude da geração má e adúltera, que sempre exige mais um sinal (Mt 12.38-39). Tudo o que desejavam de Jesus era satisfação física: ou ele lhes entregava o poder, ou ficaria encarregado de satisfazê-los para sempre.

Jesus corrigiu a interpretação deles: “Em verdade, em verdade lhes digo: não foi Moisés quem lhes deu o pão do céu” (Jo 6.32). As próprias Escrituras declaram: “O Senhor disse a Moisés: ‘Farei chover pão do céu para vocês’” (Ex 16.4). Moisés não criou o maná; apenas orientou o povo a recolhê-lo. “Este é o pão que o Senhor lhes deu para comer” (Ex 16.15). Deus era a fonte da provisão, e Cristo é digno de glória superior à de Moisés (Hb 3.3).

O Pai que deu o pão físico agora oferecia o verdadeiro pão do céu (Jo 6.32). Jesus declarou: “Eu sou o Pão da Vida” (Jo 6.35,48) e “Eu sou o pão vivo que desceu do céu” (Jo 6.51). O maná sustentou uma geração por algum tempo, mas todos morreram no deserto. O verdadeiro pão dá vida ao mundo (Jo 6.33). O maná preservava a existência física; Cristo concede vida espiritual e eterna. O maná foi dado a Israel; o pão verdadeiro é oferecido ao mundo.

A multidão, porém, respondeu: “Senhor, dá-nos sempre desse pão” (Jo 6.34). Eles ainda pensavam na provisão material: “Se não nos darás o poder para produzi-lo, então alimenta-nos continuamente”. É a superficialidade dos falsos discípulos, pessoas egocêntricas que dizem a Deus o que querem, quando querem e como querem. Para que creiam, imaginam que Cristo deve se submeter às suas ordens e servi-los com poder ou provisão.

Os falsos discípulos não encontram satisfação na pessoa de Jesus Cristo, mas apenas no que esperam receber Dele. Jesus lhes disse: “Aquele que vem a mim jamais terá fome, e aquele que crê em mim jamais terá sede. Porém, vocês me viram e ainda não creem” (Jo 6.35-36). Os verdadeiros discípulos desejam o próprio Cristo e confessam: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna; nós cremos e sabemos que tu és o Santo de Deus” (Jo 6.68-69).

Em João 6.35-36, Jesus diz à multidão: “Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede. Porém eu já vos disse que, embora me tenhais visto, não credes”. Como a multidão reagiu a essa afirmação de Jesus? Isso veremos na próxima vez, vamos orar.

Pai, viemos a Ti novamente nesta manhã com corações abertos para Te louvar e adorar, e fomos instruídos claramente pela Tua Palavra. Tivemos a oportunidade de cantar, confraternizar e nos alegrar juntos pela encarnação e, Senhor, agora é hora de examinarmos nossos corações. Somos verdadeiros discípulos? É Cristo quem é tudo em nós? É a Cristo que amamos? Ele nos basta ou estamos aqui apenas pensando que podemos obter o que queremos?

Os verdadeiros discípulos confessam Jesus como Senhor, negam a si mesmos, tomam a sua cruz e caminham até a morte por amor a Ele. Quando nos perdemos em admiração, amor e louvor, e somos consumidos pela pessoa de Cristo, essa é a prova de um verdadeiro discípulo. Portanto, Senhor, mostra-nos os nossos corações para que não sejamos enganados. Oramos em Teu nome. Amém!


Esta é uma série de sermões traduzidos de John MacArthur sobre o Evangelho de João.

Clique aqui e acesse o índice ordenado por capítulo, com links para leitura. 


Este texto é uma compilação e síntese de 3 sermões de John MacArthur, conforme especificado abaixo:

1) True and False Disciples, Part 1 (1/12/2013)
2) True and False Disciples, Part 2 (8/12/2013)
3) True and False Disciples, Part 3 (15/12/2013)

Você pode ouvi-los integralmente (em inglês) nos links abaixo:

https://www.gty.org/sermons/43-33/true-and-false-disciples-part-1 
https://www.gty.org/sermons/43-34/true-and-false-disciples-part-2 
https://www.gty.org/sermons/43-35/true-and-false-disciples-part-3 

Compilação, tradução e síntese feitas pelo Site Rei Eterno


 

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1 Response

  1. Elizabeth Cyrillo disse:

    Entendi que na verdade temos que estar sempre a nos sondar sobre este ensinamentos, as vezes sem percebermos estamos sim esperando que Jesus resolva nossos problemas por saber que Ele e perfeito e a sua vontade para nos e de vida e nao de morte. Mas a verdade pode ser outra que nao estamos dispostos a obedecer o que Ele ja nos ensinou,vivendo,o que pregava, temos apenas que obedecer e executar. Quanta imperfeicao,rebeldia,orgulho, amor proprio ainda pode existir em nos. Temos que confessar a Jesus todos nossos pecados e declarar nossa total dependencia Dele e perseverar nessa esperanca de que pela graca Deus Pai possa ver Jesus vivendo em nos.

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