A Fonte da Água da Vida (1)

A salvação concedida por Cristo não é temporária, frágil ou incerta. Ela é uma obra divina e eterna, que produz vida espiritual no presente e nos conduz com segurança à eternidade. A água viva que Jesus oferece não vem de fontes externas que precisam ser constantemente buscadas; ela mesmo passa a habitar em nosso coração, tornando-se uma fonte inesgotável da graça de Deus, que flui para a vida eterna.

Prosseguindo em nosso estudo do Evangelho de João, chegamos agora ao capítulo 4, versículos 1 a 14. A narrativa da mulher samaritana junto ao poço é uma das mais conhecidas das Escrituras. Trata-se de um relato simples e profundamente significativo, no qual vemos Jesus evangelizando uma mulher marginalizada pela sociedade e conduzindo-a à salvação. Mais do que isso, observamos como Deus a transformou em instrumento para alcançar outros com a mesma graça que ela havia recebido. O resultado foi que muitos habitantes de sua cidade vieram a crer em Cristo. Como registra João: “Muitos samaritanos daquela cidade creram nele, em virtude do testemunho da mulher” (Jo 4.39).

Aqui temos um exemplo tão claro de nosso Senhor evangelizando um pecador, tonando essa passagem das Escrituras muito instrutiva. Devemos estar bem familiarizados com ela pelas lições que nos ensina: sobre como abordar o mundo incrédulo ao nosso redor e como levá-los a ouvir o evangelho e a compreender o que o evangelho oferece e exige.

Sabemos que João teve um propósito ao escrever seu evangelho: “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.31). O propósito principal de João com a história da mulher e de sua conversão é revelar Cristo como o Messias.

E, neste relato, a humanidade de Cristo é apresentada quando ele está cansado, sedento e sentado junto a um poço. Essa é a sua humanidade. Mas a Sua divindade também se manifesta porque ele encontra uma mulher que nunca havia visto e conhece toda a história dela. Vemos a sua divindade e a sua onisciência. É, portanto, mais do que qualquer outra coisa, uma apresentação de Cristo como o Messias.

Vimos nos capítulos anteriores o testemunho de João Batista e de alguns discípulos, mas agora, João registra a declaração desta verdade dos próprios lábios de Jesus. A mulher havia dito que quando Messias viesse, anunciaria todas as coisas, e, então Jesus lhe respondeu: “Eu o sou, eu que falo contigo” (Jo 4.26).

Essa declaração de Jesus acerca de sua identidade não foi feita a um importante líder religioso de Israel, nem em Jerusalém, tampouco à elite religiosa da nação. Pelo contrário, foi dirigida a uma mulher samaritana que, sob todos os aspectos, era considerada uma pária.

1) O problema histórico entre judeus e samaritanos

Os samaritanos descendiam dos habitantes do antigo Reino do Norte (Israel), composto pelas dez tribos de Israel que seguiram a liderança de Jeroboão após a divisão do reino, apenas as tribos de Judá e Benjamim permaneceram sob a liderança de Roboão (1Rs 12.16-24), formando o Reino do Sul (Judá).

Em 722 a.C., o Reino do Norte (Israel) foi conquistado pelos assírios, e grande parte de sua população foi levada ao cativeiro, dispersando-a (2Rs 17). Os que permaneceram na terra misturaram-se com povos estrangeiros introduzidos pelos conquistadores, adotando práticas pagãs e idólatras. Como resultado, formou-se uma população híbrida, que preservava alguns elementos da fé israelita, mas, com se misturaram com outros povos, assimilaram costumes e crenças idólatras. Por essa razão, os samaritanos eram desprezados e rejeitados, sendo vistos como párias pela sociedade judaica.

Aquela mulher era marginalizada e vivia uma vida imoral, pois ela se casou várias vezes e vivia em adultério naquele momento que Jesus conversava com ela. Ela não sabia nada sobre a verdadeira religião. Jesus lhe disse: “Vós adorais o que não conheceis” (Jo 4.22). Ela não estava buscando a Jesus. Ela não era como Nicodemos, que foi até Jesus à noite porque sabia que ele era um homem enviado por Deus, pois tinha visto milagres e suas palavras (Jo 3.1-2).

Essa mulher samaritana não havia visto e nem ouvido Jesus antes, mas foi a ela que Jesus revelou sua própria identidade pela primeira vez no Evangelho de João. É algo extraordinário. E é um testemunho, por um lado, da apostasia de Israel. É uma dura repreensão a Israel que essa revelação não tenha sido feita a algum líder religioso proeminente, mas sim a uma samaritana, a quem eles desprezavam.

Mas é mais do que apenas uma dura repreensão a Israel, foi uma declaração da parte de Jesus de que Ele veio para salvar pessoas de toda língua, tribo e nação. É um testemunho de que a salvação é para todos os que creem (Jo 3.16, Rm 10.13, At 10.34). Por isso Jesus nos ordenou: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28.19). O evangelho se destina a todos os que creem, independentemente de sua etnia ou posição social.

2) Como iniciar uma conversa com uma pessoa indiferente sobre o evangelho que ela precisa ouvir?

E é isso que aprenderemos com Jesus. Já aprendemos algumas coisas com sua conversa com Nicodemos sobre como responder a alguém que vem e diz: “Quero entrar no Reino”. Jesus lhe disse: “Isso não depende de seu esforço, você precisa nascer de novo” (Jo 3.3). Ou seja, “você precisa orar e pedir a Deus por esse novo nascimento se quiser estar em seu reino”.

Essa é uma experiência muito rara para a maioria de nós. Talvez seja mais comum fazer isso em nossas famílias, quando nossos filhos vêm até nós e nos fazem perguntas. Mas, na maior parte dos casos, teremos que iniciar a conversa com pessoas ignorantes e indiferentes à Palavra de Deus, e que, de uma forma ou de outra, pensam que tudo depende dos esforços delas.

Mas, diferente de Nicodemos, que procurou Jesus, aqui está uma mulher que não o procurava, não sabia que ele existia, não tinha ideia de quem ele era. Jesus era um estranho desconhecido que ela encontrou sentado em um poço e que disse coisas que ela não conseguia entender. Suas palavras pareciam bizarras. Foi assim que tudo começou.

Jesus rejeitou a indiferença, ignorância e a imoralidade dela, mas isso não se tornou uma barreira. Vivemos rodeados de pessoas assim, que estão longe de Deus e é nossa responsabilidade ir até elas, são pecadores indo para o inferno e que precisam de salvação. Aprenderemos com Jesus alguns princípios para abordar as pessoas com o evangelho.

3) O contexto envolvido nessa história

João 4
1 Quando, pois, o Senhor veio a saber que os fariseus tinham ouvido dizer que ele, Jesus, fazia e batizava mais discípulos que João
2 (se bem que Jesus mesmo não batizava, e sim os seus discípulos).
3 deixou a Judeia, retirando-se outra vez para a Galileia.
4 E era-lhe necessário atravessar a província de Samaria.

Jesus deixou a Judeia onde ele estava pregando o arrependimento e o reino, exatamente a mesma coisa que João Batista fazia. Mas estava havendo uma transição, o precursor do Messias apontava para Jesus, a quem as pessoas deveriam seguir. João Batista declarou a seus discípulos:

Eu não sou o Cristo, mas fui enviado como seu precursor. O que tem a noiva é o noivo; o amigo do noivo que está presente e o ouve muito se regozija por causa da voz do noivo. Pois esta alegria já se cumpriu em mim. Convém que ele cresça e que eu diminua (Jo 3.28-30).

O batismo de João Batista era o batismo de prosélitos, no qual os judeus vinham e diziam: “não sou melhor do que um gentio e quero que meu coração seja purificado”, e eles simbolizam o desejo de purificação do coração para se prepararem para a chegada do Messias, passando por uma imersão externa na água. E foi exatamente isso que Jesus fazia, mas o apóstolo João explica que Jesus mesmo não batizava, mas seus discípulos. E isso se deve a razões óbvias: imagine a formação de um grupo orgulhoso dos batizados por Jesus.

O ministério de Jesus estava prosperando, mas isso criava problemas. Os líderes religiosos já odiavam João Batista, pois ele pronunciou a condenação sobre os fariseus e saduceus:

Vendo João Batista, porém, que muitos fariseus e saduceus vinham ao batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento; e não comeceis a dizer entre vós mesmos: Temos por pai a Abraão; porque eu vos afirmo que destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão. Já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo (Mt 3.7-10).

Jesus tinha a mesma mensagem sobre a religião apóstata deles, mas Jesus havia entrado no Templo e causado grande tumulto, atacando a apostasia dos líderes religiosos, que fizeram do Tempo um lugar de negócios (Jo 2.13-22).  Então, Jesus então deixou a Judeia e foi para a Galileia (Jo 4.3), onde ministraria por mais de um ano, longe de Jerusalém.

Jesus nunca precisou testar seus inimigos para saber o que fariam. Ele conhecia perfeitamente seus intentos e agia de acordo com o plano soberano do Pai. No Evangelho de João, vemos repetidamente que seus adversários tentaram prendê-lo, mas não tiveram sucesso antes do tempo determinado por Deus. Em João 7.30, lemos que procuraram prendê-lo, mas ninguém lhe pôs as mãos, porque a sua hora ainda não havia chegado. Da mesma forma, em João 8.20, enquanto ensinava no templo, ninguém o prendeu, pois ainda não era o momento estabelecido para sua entrega.

Durante todo o seu ministério, Jesus conduziu seus passos em perfeita submissão ao cronograma divino. Em algumas ocasiões, tomou medidas prudentes para evitar confrontos prematuros; em outras, a proteção divina parece ter atuado de maneira extraordinária. Em Nazaré, por exemplo, quando tentaram lançá-lo de um precipício, ele simplesmente passou pelo meio da multidão e seguiu o seu caminho (Lc 4.16-30). As Escrituras não explicam exatamente como isso aconteceu, mas demonstram que ninguém poderia tirar sua vida antes do tempo determinado por Deus. Sua morte não seria resultado do sucesso de seus inimigos, mas do cumprimento voluntário de sua missão redentora.

Então Jesus saiu da Judeia e foi para a Galileia, para seu grande ministério galileu. Samaria ficava exatamente entre a Judeia e a Galileia. Por isso, para alguém que saía de Jerusalém em direção à Galileia, a rota mais natural era atravessar a Samaria. Entretanto, muitos judeus, evitavam esse caminho devido à forte hostilidade histórica e religiosa entre judeus e samaritanos. Em vez de atravessar a Samaria, eles desciam até o vale do Jordão, cruzavam o rio para a região da Pereia, viajavam para o norte e depois voltavam a cruzar o Jordão para entrar na Galileia. Essa rota era significativamente mais longa.

O texto grego diz que era imprescindível que Jesus passasse por Samaria. Poderíamos argumentar que ele queria um caminho mais curto, mas creio que teríamos que ir além disso e dizer que ele precisava passar por Samaria porque havia um encontro predestinado, estabelecido para ele com uma mulher junto a um poço, um encontro que fora ordenado antes da fundação do mundo. E isso levaria à salvação dela e à salvação de todo um grupo de pessoas de uma aldeia samaritana local.

João 4
5 Chegou, pois, a uma cidade samaritana, chamada Sicar, perto das terras que Jacó dera a seu filho José.
6 Estava ali a fonte de Jacó. Cansado da viagem, assentara-se Jesus junto à fonte, por volta da hora sexta.

Samaria era originalmente o nome da capital do Reino do Norte (1Rs 16.29), mas não demorou muito para que toda a região passasse a ser conhecida como Samaria. E, em algum lugar ao longo do caminho, ficava uma vila chamada Sicar, provavelmente a moderna Ascar, localizada na encosta do Monte Ebal, em frente ao Monte Gerizim.

O texto bíblico faz referência a Gênesis 48.22, quando Jacó deixou uma parcela de terra para José, que ele comprara dos “filhos de Hamor” (Gn 33.19). Quando os judeus voltaram do Egito, “os ossos de José, que os israelitas haviam trazido consigo quando saíram do Egito, foram sepultados em Siquém, no terreno que Jacó havia comprado dos filhos de Hamor por cem peças de prata. Esse terreno ficava dentro do território da herança dos descendentes de José” (Js 24.32).

Em João 4.6 diz que havia ali a “fonte de Jacó”. O termo grego traduzido como “fonte”, denota uma nascente corrente, mas no versículos 11 e 12, a palavra grega traduzida como “poço” significa “cisterna” ou “poço escavado”. Então sugere que o poço foi escavado e abastecido por uma nascente subterrânea. Essa nascente está ativa até hoje.

Jesus chegou àquele lugar “cansado da viagem, assentara-se Jesus junto à fonte, por volta da hora sexta”. Após caminhar 32 km, na hora sexta, ou seja, meio-dia, Jesus estava exausto por causa da viagem e do sol escaldante. A palavra grega traduzida como “cansado” tem o sentido de “estar completamente esgotado”. Essa é a humanidade de Jesus, ele conheceu nossas lutas, pois ele “deveria ser semelhante aos seus irmãos em todos os aspectos, para se tornar sumo sacerdote misericordioso e fiel com relação a Deus e fazer expiação pelos pecados do povo” (Hb 2.17).

4) A condescendência inesperada

João 4
7 Nisto, veio uma mulher samaritana tirar água. Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber.
8 Pois seus discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos.

E ali estava Jesus, junto ao poço. Foi Ele quem tomou a iniciativa e entrou no mundo daquela mulher. Buscar água era uma tarefa tipicamente feminina naquela cultura, enquanto os homens geralmente trabalhavam nos campos. Como a água era um recurso precioso e escasso na região, os poços eram frequentados diariamente e serviam como importantes pontos de encontro para as mulheres da comunidade.

Normalmente, elas iam ao poço no final da tarde, quando o calor intenso já havia diminuído. Por isso, chama a atenção o fato de essa mulher ter ido buscar água por volta do meio-dia, a hora mais quente do dia. É razoável supor que ela evitava a companhia das demais mulheres da cidade. Sua reputação provavelmente era muito ruim, considerando que havia tido cinco maridos e vivia com um homem que não era seu marido.

Além disso, os samaritanos baseavam sua religião na interpretação do Pentateuco, que continha não apenas os Dez Mandamentos, mas também diversas leis relacionadas ao casamento, ao divórcio e ao adultério. Portanto, aquela mulher certamente conhecia o peso moral de sua própria condição e, possivelmente, carregava consigo a reprovação da comunidade em que vivia.

E Jesus toma a iniciativa dizendo: “Dê-me de beber”. Homens falarem com mulheres em público era algo chocante naquela cultura, especialmente os rabinos. Foi uma quebra da etiqueta religiosa. Os rabinos judeus não podiam falar nem com as mulheres de suas próprias famílias em público.

Os discípulos haviam ido à cidade comprar mantimentos e somente Jesus se aproximou daquela mulher. Um rabino, um homem judeu, não apenas fala com uma mulher publicamente, mas fala com uma mulher marginalizada, desprezada, uma mestiça pagã e, pior ainda, uma adúltera notória.

Jesus nunca fez um milagre para saciar a própria sede, satisfazer a própria fome ou prover qualquer coisa para si mesmo. Não há registro nos quatro evangelhos de que Jesus tenha feito qualquer milagre para se alimentar ou prover algo para si mesmo. Ele honrou o trabalho, o esforço, o cuidado, o sacrifício, a generosidade e todas as coisas que fazemos na vida para nos sustentar.

João 4
9 Então, lhe disse a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana (porque os judeus não se dão com os samaritanos)?

A reação da mulher revela sua surpresa: “Conheço a sua cultura. Sei o que os judeus pensam de nós. Vocês não costumam ter qualquer tipo de relacionamento com os samaritanos”. A observação de João — “porque os judeus não se dão com os samaritanos” — destaca a profunda hostilidade que existia entre esses dois povos.

Quando os líderes religiosos disseram a Jesus: “não temos razão em dizer que és samaritano e tens demônio?” (Jo 8.48). Eles queriam dizer: “Você não é nada! Você é apenas um samaritano endemoninhado”. Eles manifestavam um desprezo terrível pelos samaritanos.

Jesus, porém, rejeitou completamente o ódio e o desprezo que eles nutriam pelos samaritanos. Em vez de afastá-los, Israel deveria ter levado a eles a verdade de Deus. Contudo, as tradições e os preconceitos haviam substituído a compaixão e o desejo de alcançar aqueles que estavam espiritualmente perdidos.

A mulher percebeu imediatamente que Jesus era judeu, provavelmente por causa de suas vestes. Os judeus usavam roupas características, com borlas nas extremidades, conforme a prescrição de Números 15. Como rabino, Jesus certamente se vestia dessa maneira. Ao mesmo tempo, não havia nada em sua aparência física que o distinguisse dos demais homens de Israel. Jesus não possuía qualquer característica externa extraordinária; era, em sua humanidade, semelhante a qualquer outro homem judeu de sua época.

Mais uma vez, vemos sua plena humanidade se manifestar. Cansado da viagem, sentado junto ao poço e com sede, Ele inicia uma conversa que contrariava todas as expectativas sociais e religiosas daquele tempo. Jesus não se submetia às tradições humanas que não encontravam fundamento nas Escrituras. Tanto isso é verdade que enviou seus discípulos a uma cidade samaritana para comprar alimentos. Eles comeriam comida adquirida de samaritanos, algo que muitos judeus evitariam por causa da rejeição que nutria deles. Para Jesus, a verdade revelada por Deus era mais importante do que as tradições dos homens.

Ao criarem barreiras artificiais e excluírem os samaritanos, os líderes religiosos haviam se afastado do coração de Deus. Em vez de buscar os perdidos, cultivavam separação e desprezo. Por isso, Deus enviou seu Filho para fazer o que eles jamais fariam: levar a graça e a verdade aos rejeitados. Os líderes religiosos de Israel demonstravam pouco interesse na conversão genuína de seu próprio povo e muito menos dos samaritanos. Jesus, porém, veio buscar e salvar os perdidos, independentemente de sua origem, reputação ou posição social.

Como falei antes, a origem da rivalidade entre judeus e samaritanos remonta a 722 a.C., quando a Assíria conquistou o Reino do Norte de Israel e deportou grande parte de sua população (2Rs 17). Alguns israelitas permaneceram na terra, enquanto povos provenientes de diversas regiões do império assírio, como Babilônia, Cuta, Ava, Hamate e Sefarvaim, foram trazidos para habitar a região. Com o passar do tempo, esses grupos se misturaram aos israelitas remanescentes, tanto por meio de casamentos quanto pela assimilação de práticas religiosas daqueles povos, dando origem ao povo samaritano.

Aos olhos dos judeus, os samaritanos haviam comprometido a pureza religiosa e étnica do povo da aliança. Embora os samaritanos afirmassem adorar o Deus de Israel e aceitassem o Pentateuco como Escritura, desenvolveram uma identidade religiosa própria. A tensão aumentou após o retorno dos judeus do exílio babilônico. Quando os samaritanos ofereceram ajuda na reconstrução do templo de Jerusalém, sua participação foi rejeitada pelos líderes judeus (Ed 4.1-3). Em resposta, eles passaram a se opor aos esforços de reconstrução, tendo em Sambalate, adversário de Neemias, um de seus principais representantes (Ne 3-4).

No século IV a.C., segundo a tradição histórica judaica, o sacerdote Manassés, genro de Sambalate, rompeu com Jerusalém e associou-se aos samaritanos. Nessa época foi construído o templo samaritano no Monte Gerizim, estabelecendo um centro de culto rival ao templo de Jerusalém. A partir daí, a separação entre judeus e samaritanos tornou-se definitiva, alimentando séculos de hostilidade, preconceito e ressentimento mútuos.

Quando Jesus passou por Samaria e conversou com a mulher samaritana junto ao poço de Jacó (Jo 4), cerca de quatrocentos anos depois da construção do templo no Monte Gerizim, essa animosidade ainda estava profundamente enraizada. Por isso, aquele encontro foi tão extraordinário, pois rompeu barreiras étnicas, religiosas e sociais que pareciam intransponíveis.

5) A misericórdia não solicitada

João 4
10 Replicou-lhe Jesus: Se conheceras o dom de Deus e quem é o que te pede: dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva.

Jesus não responde à observação da mulher sobre a histórica hostilidade entre judeus e samaritanos. Ele simplesmente ignora essa barreira e direciona a conversa para algo infinitamente mais importante. Em outras palavras, ele lhe diz: “Se você conhecesse o dom de Deus e soubesse quem é aquele que lhe pede água, você mesma lhe pediria, e ele lhe daria água viva”. Aqui vemos a misericórdia espontânea de Cristo, que utiliza a sede física e a água do poço como ponto de contato para conduzir a mulher à sua necessidade espiritual.

Jesus inverte completamente a situação. Ele inicia a conversa como alguém sedento, pedindo água à mulher. Porém, em poucos instantes, os papéis se invertem: ela é revelada como a verdadeira sedenta, e ele se apresenta como a fonte inesgotável de água viva. A mulher ainda não compreende onde Jesus pretende chegar, mas é exatamente aqui que a graça começa a se manifestar. “Se conheceras o dom de Deus…” Essas palavras introduzem o ponto de partida de toda verdadeira evangelização.

A evangelização geralmente começa com uma aproximação simples, um ponto de interesse comum, uma conversa cotidiana. Mas logo surge a realidade central: aquilo que Deus oferece ao pecador. Jesus não inicia tratando da moralidade da mulher nem de suas convicções religiosas. Ele começa com misericórdia. Ele começa com graça. Ele fala sobre o dom de Deus.

Essa é a singular glória do evangelho. Todas as religiões do mundo, de uma forma ou de outra, dizem: “Faça isto, cumpra aquilo, alcance determinado padrão, e então Deus lhe concederá sua bênção”. O evangelho, porém, proclama algo completamente diferente: “Independentemente da sua condição moral ou religiosa, Deus oferece gratuitamente sua graça”. A palavra usada por Jesus aponta para uma dádiva imerecida, um presente concedido livremente pela misericórdia divina.

É exatamente nesse ponto que nosso Senhor inicia sua obra na vida daquela mulher: com uma oferta de graça que ela não pediu, uma misericórdia que não procurou e um dom que jamais poderia conquistar por seus próprios méritos.

Voltando ao versículo 10, Jesus diz: “se conheceras o dom de Deus e quem é o que te pede: dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva”. Como vimos na conversa de Jesus com Nicodemos, a regeneração é obra de Deus. Você não pode participar do seu próprio nascimento. Tudo o que você pode fazer é pedir.

Jesus quis dizer: “Tudo o que você pode fazer é pedir. Há um dom de Deus. Estou aqui para dá-lo, se você apenas me pedir eu darei água viva”. E com essa declaração sobre a água viva, ele leva a conversa para uma direção fortemente espiritual. Ela pode ter presumido que água viva era a que havia no poço, pois aquele poço era alimentado por uma nascente, com trinta metros de profundidade.

5.1) Qual é o dom de Deus? O que é a água viva?

É a salvação. Tudo o que há na salvação — misericórdia, graça, perdão e justificação fluindo infinitamente. A morte eterna no inferno não é resultado dos pecados cometidos, mas porque o pecador não pediu a água viva. Jesus disse aos líderes religiosos: “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim. Contudo, não quereis vir a mim para terdes vida” (Jo 5.39-40). Esta é a singularidade do evangelho. É a dádiva gratuita para aquele que pede. Paulo escreveu:

Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação. Porquanto a Escritura diz: Todo aquele que nele crê não será confundido. Pois não há distinção entre judeu e grego, uma vez que o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo (Rn 10.10-13).

5.2) Por que Jesus fala da salvação como água viva em João 4.10?

Em parte, porque ele e a mulher samaritana estavam junto a um poço. A imagem era perfeita para ilustrar uma verdade espiritual profunda. Contudo, essa metáfora não surgiu apenas das circunstâncias do momento; ela possui raízes profundas no Antigo Testamento.

Em Jeremias 2.13, Deus acusa Israel de ter cometido dois males: abandonar o Senhor, a fonte de águas vivas, e cavar para si cisternas rachadas que não retêm água. O povo trocou a fonte da vida por substitutos incapazes de satisfazer sua necessidade espiritual. Da mesma forma, Jeremias 17.13 declara que aqueles que abandonam o Senhor serão envergonhados, porque rejeitaram a fonte das águas vivas.

A mesma ideia aparece em outras passagens. O Salmo 36.9 afirma: “Pois em ti está o manancial da vida”. Em Isaías 12.3, os redimidos são retratados como aqueles que “com alegria tirarão água das fontes da salvação”. E Isaías 55.1 faz o convite gracioso: “Ó vós todos os que tendes sede, vinde às águas”. Em toda a Escritura, a água simboliza a vida que procede de Deus. Assim como a água é indispensável para a existência física, Deus é indispensável para a vida espiritual.

Quando Jesus oferece água viva à mulher samaritana, ele está oferecendo o dom da vida eterna. Em João 6.35, Ele declara: “Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome, e o que crê em mim jamais terá sede”. Mais tarde, em João 7.37-38, Jesus clama: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba”. Então promete que do interior daquele que crê fluirão rios de água viva, ecoando as promessas de Isaías.

Por isso, em João 4.14, Jesus afirma: “A água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna”. Não se trata de uma satisfação temporária, mas de uma provisão eterna. Quem recebe essa água nunca mais terá sede espiritual, pois a própria vida de Deus passa a habitar nele. A fonte não seca, não falha e não se esgota. Ela continua fluindo para sempre.

Aqui encontramos uma das mais belas descrições da segurança eterna do crente e da perseverança dos santos. Tudo isso revela a natureza graciosa do evangelho. Jesus oferece sua salvação sem considerar o passado moral da mulher, sua condição social ou sua religião. O dom é concedido pela graça. Basta recebê-lo pela fé. Porém, a mulher ainda não compreendia o significado espiritual das palavras de Jesus.

João 4
11 Respondeu-lhe ela: Senhor, tu não tens com que a tirar, e o poço é fundo; onde, pois, tens a água viva?
12 És tu, porventura, maior do que Jacó, o nosso pai, que nos deu o poço, do qual ele mesmo bebeu, e, bem assim, seus filhos, e seu gado?

A resposta da mulher parece revelar uma mistura de incompreensão, ceticismo e até certo sarcasmo. Acostumada a viver na defensiva e desconfiar das intenções alheias, ela questiona: “És tu, porventura, maior do que Jacó, nosso pai, que nos deu este poço?”.

Em outras palavras, ela está dizendo: “Quem você pensa que é? Você não tem balde nem corda, e o poço é profundo. Como pretende me dar essa água? Por acaso possui uma fonte melhor do que a que Jacó nos deixou?”. Seus pensamentos permanecem presos ao plano material. Ela continua considerando apenas a água física, enquanto Jesus fala de uma realidade espiritual e eterna.

A referência a Jacó também revela o valor que os samaritanos atribuíam à sua herança patriarcal. Aos seus olhos, aquele poço era um legado precioso, utilizado por gerações. Por isso, a afirmação de Jesus lhe pareceu exagerada e difícil de acreditar.

Contudo, mais uma vez vemos o contraste entre a limitação da compreensão humana e a paciência da graça divina. A incredulidade da mulher não interrompe a conversa nem afasta Jesus. Pelo contrário, Ele continua conduzindo-a, passo a passo, daquilo que é terreno para aquilo que é celestial, como veremos nos versículos seguintes.

João 4
13 Afirmou-lhe Jesus: Quem beber desta água tornará a ter sede;
14 aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna.

Jesus estabelece um contraste entre a água do poço e a água que somente ele pode oferecer. Quem bebe da água deste mundo volta a ter sede. Nenhuma satisfação terrena é permanente. Prazeres, conquistas, relacionamentos, bens materiais e realizações humanas podem proporcionar contentamento temporário, mas jamais conseguem preencher plenamente o vazio da alma.

Em contrapartida, Cristo oferece uma água que satisfaz de forma definitiva. Aquele que dela beber nunca mais terá sede espiritual, pois receberá a própria vida de Deus em seu interior. E essa água não apenas sacia; ela se transforma em uma fonte permanente, jorrando continuamente para a vida eterna.

Que promessa extraordinária! A salvação concedida por Cristo não é temporária, frágil ou incerta. Ela é uma obra divina e duradoura, que produz vida espiritual no presente e conduz o crente com segurança à eternidade. A água viva que Jesus oferece não vem de fontes externas que precisam ser constantemente buscadas; ela passa a habitar no próprio crente, tornando-se uma fonte inesgotável da graça de Deus, que flui para a vida eterna.

6) As bênçãos incomparáveis prometidas

No versículo 14 Jesus fala de um suprimento infinito de água que satisfaz para sempre. E isto é bem específico, Jesus estava falando da vida eterna. Esta é a fonte da vida eterna. Esta é a misericórdia e a bênção permanente, consistente, plena, satisfatória e eterna de Deus para o pecador que pede.

A analogia agora chegou ao seu ponto principal. A doutrina é a doutrina da vida eterna. Ele está oferecendo a ela a vida eterna, que é uma realidade espiritual — o dom da misericórdia, o dom da graça para todos os que pedem. O que é isso? É água viva. É a satisfação da alma para sempre.

João 4
15 Disse-lhe a mulher: Senhor, dá-me dessa água para que eu não mais tenha sede, nem precise vir aqui buscá-la.

Ela deveria estar pensando: “quem é esse homem e do que ele está falando?” Será que ela entendeu alguma coisa? Talvez. Será que ela está começando a pensar em termos de coisas espirituais e eternas? Talvez. Ou será apenas mais uma zombaria? Ou será uma mistura dos dois? Mas tudo isso veremos na próxima vez. Vamos orar.

Fomos grandemente abençoados, Senhor, ao contemplarmos a experiência do nosso Senhor com esta mulher, e sabemos que ainda há muito mais por vir. Vemos o Seu coração que busca os perdidos. Vemos a Sua graça e misericórdia condescendentes. Vemos Sua maravilhosa promessa de bênção e salvação ao pecador indigno que simplesmente pede. Não temos porque não pedimos; mas, se pedirmos, Tu nos ouves e dás vida àquele que pede.

Contudo, sabemos que não é tão simples assim, pois há a questão do pecado e de como ele deve ser enfrentado, como veremos na próxima oportunidade. Ajuda-nos a aprender essas verdades e a sermos mais capazes e fiéis na proclamação desta mensagem gloriosa sempre que nos deres oportunidade.

Pai, agora nos voltamos para Ti, pedindo que tomes o que aprendemos hoje e nos concedas ocasiões para colocá-lo em prática. Que sejamos buscadores dos perdidos, como o Salvador, levando-lhes aquela condescendência inesperada, aquela misericórdia espontânea e as incomparáveis bênçãos do evangelho. Obrigado por este tempo de adoração e comunhão. Que sejamos enriquecidos para o Teu louvor e glória. Oramos em nome do Salvador. Amém.


Esta é uma série de sermões traduzidos de John MacArthur sobre o Evangelho de João.
Clique aqui e acesse o índice ordenado por capítulo, com links para leitura. 


Este texto é uma síntese do sermão “Messiah: The Living Water, Part 1”, de John MacArthur, em 21/04/2013.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/sermons/43-20/messiah-the-living-water-part-1

Tradução e síntese feitas pelo Site Rei Eterno


 

Compartilhe

You may also like...

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.