Como Suportar as Provações (1)

Precisamos saber que as provações  não acontecem em nossas vidas por acaso. Não é apenas um dia ruim. Há um Deus soberano agindo na vida de cada crente para alcançar o seu propósito. Não entender isso torna impossível olhar para o futuro e encontrar alegria.

Frequentemente me perguntam sobre como lidar com os problemas da vida. Todos nós temos problemas. Eles vêm em ondas, ao que parece. Ninguém realmente escapa deles. Em minha própria vida, ao longo dos anos, o Senhor realizou sua obra de refinamento por meio de provações.

E a vida é repleta não apenas de tristezas pessoais, mas, porque somos cristãos, carregamos os fardos uns dos outros. Às vezes nos alegramos com os que se alegram, mas também choramos com aqueles que choram (Rm 12.15). Temos que compartilhar a dor daqueles que estão decepcionados e que passam por fracassos e perdas, e tudo isso faz parte da vida.

E a pergunta que surge é: como lidar com isso? Como enfrentar essas decepções assustadoras, tanto em relação à realidade atual quanto à antecipação do que inevitavelmente nos aguarda? Tiago começa sua carta falando sobre a prova da perseverança no sofrimento. Ele diz:

Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes (Tg 1.2-4).

A palavra grega traduzida como “provação” ou “tentação” sugere “problema” ou “algo que quebre o padrão de paz, conforto, alegria e felicidade na vida de uma pessoa”. A forma verbal dessa palavra significa “submeter alguém ou algo à prova” com o propósito de descobrir a natureza dessa pessoa ou a qualidade de uma coisa.

Deus as permite para provar e aumentar a força e a qualidade da fé que professamos e para demonstrar a validade dessa fé (Tg 1. 2-12). Toda provação torna-se uma prova de fé que tem por objetivo fortalecer. Se o cristão não consegue passar nessa prova por responder a ela de maneira incorreta, essa provação então se torna uma tentação, ou uma incitação ao mal (Tg 1. 13-15).

Como transformar as dificuldades em bênçãos?

Essa é a verdadeira questão aqui. Um joalheiro me afirmou que um dos testes mais seguros para verificar a autenticidade de um diamante é o teste da água. Um diamante genuíno brilha intensamente debaixo d’água, enquanto a imitação praticamente fica sem brilho.

Muitas pessoas que, superficialmente, demonstram confiança em sua fé, descobrem que, ao serem abaladas pela tristeza e aflição, perdem todo o seu brilho, revelando que sua fé e confiança são meras imitações. Por outro lado, o verdadeiro filho de Deus resplandece como um diamante genuíno nas águas da adversidade.

A vida é repleta dessas provações, todos sabemos disso. Em Jó 5.7 diz que “o homem nasce para a tribulação, como as faíscas se levantam para voar”. Em Jó 14.10 diz: “o homem, nascido da mulher, é de poucos dias e farto de inquietação”. No Salmo 22,11, Davi diz a Deus: “não te distancies de mim, porque a tribulação está próxima, e não há quem me acuda”. Em Isaías 8.22, falando por meio do profeta, Deus disse: “olharão para a terra, e eis aí angústia, escuridão e sombras de ansiedade, e serão lançados para densas trevas”.

É isso que a vida é: escuridão, penumbra e angústia para a maioria das pessoas. Salomão escreveu:

Pelo que aborreci a vida, pois me foi penosa a obra que se faz debaixo do sol; sim, tudo é vaidade e correr atrás do vento […] pois que tem o homem de todo o seu trabalho e da fadiga do seu coração, em que ele anda trabalhando debaixo do sol? Porque todos os seus dias são dores, e o seu trabalho, desgosto; até de noite não descansa o seu coração; também isto é vaidade (Ec 2.17;22-23).

A vida pode parecer repleta apenas de problemas e vazio. E mesmo para os verdadeiros cristãos há os constantes problemas e provações que surgem neste mundo caído. O salmista nunca diz que o Senhor o impede de passar por problemas, mas sempre diz que o Senhor o livra deles.

E mesmo no casamento, que é o melhor da vida, a plenitude da vida, a graça da vida e o melhor presente que Deus deu para a felicidade terrena, porque é no casamento que encontramos essa plenitude e essa completude, encontramos família, amor, intimidade e toda a riqueza da vida. Mesmo no casamento há o que Paulo chama de “angústia da carne” (1Co 7.28).

Nenhum problema é tão doloroso quanto aquele que ocorre em nossa família. Quanto mais próximas as pessoas são de você – um cônjuge, um filho, um neto, um parente, um pai ou uma mãe – mais dor você sofre com a tristeza, o sofrimento, a decepção e a morte delas.

Jesus compreendeu os sofrimentos humanos. Ele sofreu em todos os aspectos, como nós, porém sem pecado (Hb 2.14-18; 4.15-16). Sua alma se angustiou muitas vezes, tal como em seu lamento sobre Jerusalém (Mt 23.37-39). E ele disse: “no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (Jo 16.31). As aflições fazem parte da vida, ninguém está imune a elas.

Podemos enfrentar problemas familiares, problemas com amigos, problemas no trabalho, dificuldades financeiras, críticas maldosas e cruéis, perseguições, enfermidades e, por fim, a morte. Mas Tiago nos diz que as aflições são um teste. Ele diz: “bem-aventurado o homem que suporta, com perseverança, a provação; porque, depois de ter sido aprovado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor prometeu aos que o amam” (Tg 1.12).

Os problemas vêm de muitas formas. Tiago diz: “Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações” (Tg 1.2), o texto original tem o sentido de “problemas de várias cores e tipos”. Tiago escreveu essa carta para crentes judeus que haviam sido dispersos em um mundo gentio (Tg 1.1), eles estavam sofrendo terríveis batalhas, perseguições, hostilidades e ameaças.

Alguns deles ficaram tão enfraquecidos que precisaram recorrer aos presbíteros em busca de ajuda. O objetivo de Tiago não é definir esses detalhes específicos, mas simplesmente dizer que existem diversas maneiras pelas quais a vida nos expõe a dificuldades. E a questão é: como lidamos com isso? Tiago nem sequer distingue entre problemas internos e externos. Na vida cristã, tal distinção não pode ser feita, nem precisa ser feita. Os problemas vêm de ambas as formas. Alguns são externos, outros internos.

Alguns dos nossos problemas mais profundos não têm nada a ver com ninguém. Têm a ver com decepções pessoais, com frustrações pessoais, com amores não correspondidos e com emoções que parecem nunca se resolver. Têm a ver com medos, ansiedades, preocupações, cuidados, frustrações, mal-entendidos, sonhos não realizados, expectativas não atendidas, solidão e perdas. Mas há coisas externas como críticas cruéis, perseguições, ameaças, incompreensões, conflitos, mentiras e tudo o mais. Essa é a vida.

Tiago diz: “sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança” (Tg 1.3). Ou seja, a nossa reação diante das provações é um teste de nossa fé. A forma como reagimos a todas as dificuldades da vida é um teste de nossa fé. A provação mostra em que ponto na escala da fé nos encontramos, se fraco ou forte. Somos abençoados profundamente quando somos aprovados na provação, e então receberemos a coroa da vida, uma referência à recompensa eterna (Tg 1.12).

Deus sabe onde está nossa fé. O propósito das provações na vida é para que nós memos possamos conhecer a força ou a fraqueza de nossa fé e, ao perseverarmos na provação, sejamos abençoados nesta vida e recompensados na vida futura. Deus tem a intenção, então, de nos conceder, por meio de nossas provações, bênçãos graciosas e eternas.

Como perseveramos nas provações até recebermos bênçãos e a recompensa eterna? Como somos capazes?

O texto de Tiago 1.2-12 revela cinco coisas que são necessárias. Esta é a receita para lidar com as provações. E espero que esta pequena lista fique gravada na sua mente. Ela é realmente a chave para a perseverança, que é a chave para a bênção, que é a chave para a recompensa eterna.

1) A primeira coisa a cultivar em meio a uma provação é uma atitude de alegria.

É aqui que Tiago começa: “meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações” (Tg 1.2). Ele está falando aqui para pessoas que amam a Deus e são irmãos em Cristo.

A ideia popular de que a fé em Cristo nos livrará de problemas é completamente falsa. Não há qualquer ensino bíblico nesse sentido. Nossa fé tem que ser firme o suficiente para enfrentarmos, com alegria, as dificuldades inevitáveis na caminhada. Precisamos assumir um compromisso consciente, em algum momento em que começarmos a enfrentar uma provação, de lidar com ela como alegria.

O texto de Tiago 1.2, diz: “meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações”. A palavra grega “hēgēsasthe” traduzida por “tende” ou “considere” poderia ser traduzida como “pensar no futuro”. Ou seja, devemos considerar a provação em que estamos passando olhando para o benefício que ela trará, livrando-se do trauma do momento, pois não há alegria na dor imediata

Ao refletir sobre a morte de minha mãe esta semana, eu poderia ser dominado pela tristeza da perda. Mas, ao pensar nisso sob a perspectiva cristã, logo comecei a pensar no futuro e a considerar que, além do que aconteceu, existe o céu. E é lá que ela está agora, e um dia estarei com ela adorando ao Senhor por toda a eternidade. Podemos superar o momento de dor quando consideramos essas verdades, então a alegria surgirá como a luz do amanhecer, após uma noite de escuridão.

Sempre que nos depararemos com as diversas provações da vida, devemos começar a pensar no futuro, não podemos ficar presos neste momento. A vida é como um vapor que aparece por um instante e depois desaparece. É um breve sopro. E, pensando no futuro, vamos encher nossas mentes com esperança nos reencontros, nas glórias do céu, na vida eterna e em sermos transformados à semelhança de Cristo. Portanto, ao enfrentarmos as provações, devemos pensar na alegre realidade que está além do presente momento.

E não apenas no caso de uma morte, mas também no caso de uma doença. Em vez de nos deixar envolver pela tristeza da experiência imediata, devemos começar a pensar no futuro, no que Deus está produzindo através daquela provação. Penso nas palavras do apóstolo Paulo, que conseguia pensar além da sua própria dor, a ponto de dizer:

Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias, e o Deus de toda consolação; que nos conforta em toda a nossa tribulação, para que também possamos confortar os que estiverem em alguma tribulação, por meio do consolo com o qual nós mesmos somos confortados por Deus (2Co 1.3-4).

Ao vivenciar minha própria dor agora, estou sendo preparado para, no futuro, poder ajudar outros a lidar com as suas dores. Ao passar pela frustração da perda, pelos sonhos não realizados e pelos objetivos nunca alcançados, Deus está queimando parte do meu orgulho e ambição, e está reformando meu comportamento rebelde e me conduzindo a um tipo de sofrimento que me refina e me torna mais semelhante ao meu Salvador. E isso é olhar para frente. Você não pode ficar preso em meio à dor e, ao mesmo tempo, experimentar a alegria. Você precisa seguir em frente.

Para aquele que não nasceu de novo não há um caminho a seguir. Para o ímpio não há Deus para impulsioná-lo, não há esperança de vida eterna, não há um soberano revelando seu propósito em sua vida. Não há como ter esperança, confiança e fé. Há apenas um vazio. E assim é muto difícil superar a dor, ele tende a se perpetuar.

É por isso que as pessoas que não têm esperança sofrem tão profundamente. Mas nós não sofremos como as pessoas que não têm esperança, não é? Porque pensamos em tudo no futuro. Hebreus 12.11 diz: “nenhuma disciplina parece ser motivo de alegria no momento, mas sim de tristeza. Mais tarde, porém, produz fruto de justiça e paz para aqueles que por ela foram exercitados”.

O que Deus quer fazer em sua vida é produzir justiça, e a justiça é a coisa mais gloriosa que você pode possuir, sendo a mais sublime e maravilhosa experiência. Se você olhar para frente, verá a justiça. Se ficar preso à sua dor, sem conseguir desviar o olhar dela, tudo parecerá apenas tristeza.

As provações nos cercam. Às vezes, parecem nos engolir e nos afogar. E não há saída senão atravessá-las. Mas, ainda assim, escreve Tiago, “considerem tudo motivo de alegria”, porque você está olhando para o que Deus está fazendo. E nosso maior exemplo é o Senhor Jesus:

Olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus. Ele, pela alegria que lhe fora proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e assentou-se à direita do trono de Deus (Hb 12.2).

Em Lucas 22.28 Jesus disse aos seus discípulos: “Vocês são os que têm permanecido ao meu lado durante as minhas provações”. Ele nunca buscou as provações, elas vieram até Ele. Ele sempre as aceitou. E até mesmo a provação da cruz, ele conseguiu enxergar a glória de Deus. E Ele suportou a cruz com alegria. Não poderia haver provação maior do que a cruz, poderia? Um ser sem pecado carregando o pecado? Mas Ele a suportou pela alegria que lhe foi proposta.

Tiago não diz apenas que quer que tenhamos um pouco de alegria no meio da provação. Ele diz: “Considerem isso” – O quê? – “toda alegria”. Ele quer que tenhamos uma convicção firme, definitiva e decisiva para enfrentar as provações como uma fonte de pura alegria, de alegria sem mistura, completa, transcendente, abrangente e total, ou seja, a alegria daquele que considera um privilégio sofrer porque sabe que isso traz bênção divina e glória eterna.

Os caluniadores de Paulo usavam o fato de ele estar preso como uma oportunidade para promover o prestígio deles próprios ao acusá-lo de ser tão pecador que o Senhor o havia castigado com a prisão. Esses pregadores eram movidos por motivos impuros e pensavam que podia aumentar os sofrimentos de Paulo. Então Paulo escreveu:

Mas, que importa? O importante é que de qualquer forma, seja por motivos falsos ou verdadeiros, Cristo está sendo pregado, e por isso me alegro. De fato, continuarei a alegrar-me […] pois sei que o que me aconteceu resultará em minha libertação, graças às orações de vocês e ao auxílio do Espírito de Jesus Cristo. Aguardo ansiosamente e espero que em nada serei envergonhado. Pelo contrário, com toda a determinação de sempre, também agora Cristo será engrandecido em meu corpo, quer pela vida quer pela morte; porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro. (Fo 1.19-21).

O apóstolo Paulo certamente aprendeu isso, não é? Ele aprendeu, em qualquer situação, a estar contente. Porque ele sabia que, mesmo nas provações mais profundas, delas surgiria uma bênção. Ele estava preso, sofrendo agressões e sendo impiedosamente caluniado por alguns pregadores quando escreveu essas palavras.

Eis um homem com uma convicção inabalável. Ele estava determinado a ser alegre porque conseguia enxergar além do sofrimento. Ele escreveu: “por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte” (2Co 12.10). Ou seja, “quando Deus me reduz a nada, ele me preenche com Sua força graciosa e duradoura”.

Foi a alegria de Jó que o levou a ter a mesma confiançã. E Jó sofreu de forma inimaginável. E para piorar as coisas, ele tinha alguns amigos imprudentes e tolos que vinham e lhe davam todas as respostas erradas para o seu dilema. Ele disse: “mas ele conhece o caminho por onde ando; se me puser à prova, aparecerei como o ouro” (Jó 23.10). Ele havia perdido tudo, mas olhou para frente. E quando pensamos no futuro glorioso é que encontramos o motivo da alegria.

2) A perseverança em meio às provações exige uma mente compreensiva.

Tiago escreveu: “sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança” (Tg 1.3). Enquanto a palavra-chave do versículo 2 é “alegria”, a do versículo 3 é “sabendo”. A palavra grega traduzida como “sabendo” é “ginōskō”, que se refere a um conhecimento por experiência pessoal.

Ou seja, o conhecimento pessoal nos dá a informação necessária para avaliar nossa provação, para que possamos ansiar pela alegria. Há várias coisas que preciso saber e, se eu não as souber, não posso ansiar por essa alegria. Tiago resume tudo dizendo que “precisamos saber que a prova da nossa fé produz perseverança”.

É isso que precisamos saber: Deus tem um propósito, e esse propósito é de nos tornar mais fortes, produzindo resistência para que possamos suportar e permanecer em qualquer provação e perseverar. O que precisamos saber é que Deus está realizando uma obra em nossas vidas. É isso que precisamos saber.

E a obra que Ele está realizando é desenvolver nossa força espiritual para que sejamos mais úteis, mais abençoados e para recebermos uma recompensa eterna ainda maior. É isso que a provação pode produzir. Precisamos saber que, quando estamos passando por uma provação, Deus está permitindo. Precisamos saber disso.

Paulo clamou a Deus que afastasse dele uma forte provação. Mas ele teve como resposta um “não”. Ele receberia graça para suportá-la porque Deus tinha algo a realizar na vida dele através daquela provação. Veja o que escreveu:

Então o Senhor me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte (2Co 12.9-10).

Precisamos saber que as coisas não acontecem em nossas vidas de forma aleatória. Elas não acontecem em nossas vidas por acaso e por sorte. Não é apenas um dia ruim. Há um Deus soberano agindo na vida de cada crente propositalmente para alcançar o seu propósito.

Eu preciso saber disso. Se eu não entender isso sobre o meu Deus, então terei muita dificuldade em olhar para o futuro e encontrar alegria. Precisamos saber quem é o nosso Deus. Precisamos saber que Deus é imutável e soberano. Não há poder que possa frustrar os seus planos.

Deus tem um plano e ele sabe perfeitamente o que está fazendo em nossas vidas. É tenebroso ouvir pregadores dizendo que Satanás pode impedir ou atrapalhar Deus de executar seus planos em nossas vidas. Isso é uma grande mentira. Deus é absolutamente soberano.

Através de Isaías, Deus disse: “… o meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade” (Is 46.9). Eu preciso saber que meu Deus tem um plano e eu sei – preciso saber – que meu Deus é poderoso o suficiente para executar soberanamente esse plano. E preciso saber que meu Deus é sábio o suficiente para ter o plano certo.

Outra coisa que preciso saber é que Deus, ao executar seu plano, jamais nos colocará em uma posição em que tenhamos que lidar com algo maior do que somos capazes.

Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar. (1Co 10.13).

A palavra grega “peirasmos”, traduzida aqui como “tentação” é a mesma que é traduzida como “provação” em Tiago 1.2. Deus é sábio o suficiente para que possamos ter certeza de que é o plano certo. E Ele jamais nos fará passar por algo que Ele não nos dê a graça para suportar.

Esta é a minha confiança em Deus que me ancora. Eu preciso saber disso. Preciso saber que não sou destroço à deriva neste mundo. Existe um Deus, um Deus vivo, soberano e eterno no controle de cada detalhe da minha vida. Deus está intimamente envolvido em tudo. Se eu não souber disso, a vida assume um caráter completamente diferente.

Eu nunca culpo Satanás pelas minhas provações. Nunca. Não é Satanás quem me submete a provações. É Deus quem permite que Satanás me coloque em provação para os seus próprios fins e propósitos sagrados.

Satanás não pode me tocar, assim como não poderia tocar Jó se Deus não o permitisse. E no caso de Jó, Deus permitiu para testar a sua fé, mas a fé dele nunca vacilou. Jó disse: “ainda que ele me mate, nele esperarei” (Jó 13.15). E, no final, Jó declarou: “eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem” (Jó 42.5). E então “mudou o Senhor a sorte de Jó, quando este orava pelos seus amigos; e o Senhor deu-lhe o dobro de tudo o que antes possuíra” (Jó 42.10).

Paulo escreveu: “foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte” (2Co 12.7). Mas quem estava por trás de tudo? Deus. E o Senhor lhe disse: “a minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2Co 12.9).

Quando as provações chegarem, você deve saber que Deus as permitiu chegar. São essas provações que produzem perseverança. Esse é o propósito de suas provações. Deus tem um plano e tem o poder de executar esse plano, a sabedoria para elaborar o plano certo e a compaixão e a graça para nunca lhe colocar em uma situação que você não possa suportar.

Ao passar por algo e desenvolver perseverança, você terá mais força para a próxima provação. E pouco a pouco, passo a passo, Deus está produzindo cada vez mais força para a sua própria bênção, utilidade e para a sua grande glória. Pedro escreveu:

Mediante a fé estais guardados no poder de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo, Em que vós grandemente vos alegrais, ainda que agora importa, sendo necessário, que estejais por um pouco contristados com várias tentações, para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo (1Pe 1.5-7).

Em Hebreus 11.24 diz que “Moisés, sendo já grande, recusou ser chamado filho da filha de Faraó”. Ou seja, ele recusou todos os privilégios que teria como príncipe no Egito. Ele escolheu “ser maltratado com o povo de Deus, do que por um pouco de tempo ter o gozo do pecado” (Hb 11.25). O que o motivou? “porquanto considerou o opróbrio de Cristo por maiores riquezas do que os tesouros do Egito, porque contemplava o galardão” (Hb 11.26).

Desfrute agora dos prazeres do pecado e o que você receberá no futuro? Juízo. Aceite agora sofrer com Cristo e o que você receberá no futuro? Bênção e recompensa eterna. Isso é o básico. Se você olhar além do sofrimento, da tristeza, da decepção, da desilusão, dos sonhos não realizados, da doença, da morte, da perda e da separação, você olhará para a recompensa que advém de perseverar fielmente na provação.

Moisés creu em um Deus soberano e poderoso. Ele creu que Deus tinha um plano e que ele executaria esse plano com sabedoria e compaixão, conduzindo-o a um fim glorioso. A perseverança, portanto, é o resultado de uma atitude alegre e de uma mente compreensiva.

3) A perseverança em meio às provações exige uma vontade submissa

Tiago escreveu: “Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes” (Tg 1.4). Não é uma referência à perfeição livre de pecado, mas à maturidade espiritual. A provação da fé leva os cristãos a uma comunhão mais profunda com Cristo e a uma confiança maior nele — qualidades que, por sua vez, produzem um caráter estável, piedoso e justo.

Nunca devemos hesitar em deixar Deus realizar sua obra de aperfeiçoamento. Não diga a Deus: “o que eu realmente quero, Senhor, é uma vida sem problemas”. Agindo assim você apenas se coloca numa posição favorável para receber uma disciplina especial. E, no entanto, há pessoas por aí prometendo, de forma enganosa, que o cristianismo é a porta de entrada para uma vida sem problemas. Não peça ao Senhor uma vida sem problemas. Você deveria pedir ao Senhor isto:

Senhor, realiza a tua obra em meu coração, não me dês mais do que eu posso suportar. Mostra-me graça e compaixão, Tu conheces as minhas fraquezas e fragilidades. Eu quero ver a Tua bondade, mas quero que Tu faças a Tua obra. Quero que Tu realizes a Tua obra de aperfeiçoamento. Quero que Tu faças o que for preciso em mim para me tornar o que Tu queres que eu seja.

Você precisa ser capaz de dizer isso. E acho que, provavelmente, para muitos cristãos, isso pode ser demais. É algo muito forte. Davi escreveu:

Senhor, não é soberbo o meu coração, nem altivo o meu olhar; não ando à procura de grandes coisas, nem de coisas maravilhosas demais para mim. Pelo contrário, fiz calar e sossegar a minha alma; como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe, como essa criança é a minha alma para comigo. Espera, ó Israel, no Senhor, desde agora e para sempre. (Sl 131.1-3).

Sabe o que ele está dizendo? Eu só quero me aconchegar e descansar em Ti. Eu não consigo entender tudo e nem quero tentar entender tudo. Eu só quero agir como uma criança desmamada. Mas o que é uma criança desmamada? Bem, uma criança geralmente é desmamada entre um três anos de idade. E uma criança desmamada encontra seu maior conforto e contentamento nos braços de sua mãe.

E o salmista está dizendo que realmente não precisa de todas as respostas, ele é como uma criança desmamada. Não precisa saber para onde a vida está indo. Não precisa ter todas as grandes perguntas respondidas. Está mais do que satisfeito em simplesmente se aconchegar em Deus e descansar.

Deixe a perseverança alcançar seu resultado perfeito. Deixe Deus fazer o que Ele quer fazer. Não resista, não lute contra isso. Simplesmente deixe-o agir. Davi escreveu:

Agrada-te do Senhor, e ele satisfará os desejos do teu coração. Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele, e o mais ele fará. Fará sobressair a tua justiça como a luz e o teu direito, como o sol ao meio-dia. Descansa no Senhor e espera nele, não te irrites por causa do homem que prospera em seu caminho, por causa do que leva a cabo os seus maus desígnios. (Sl 37.4-7).

A perseverança é caminhar rumo à perfeição, entende? Ela tem um resultado perfeito. Não significa perfeição sem pecado nesta vida. Significa apenas maturidade espiritual. Precisamos deixar Deus nos conduzir a essa maturidade. E nunca chegaremos lá sem provações e sem algum sofrimento ao longo do caminho.

A fé, então, está sendo testada para nos levar a uma maior dependência de Deus, a uma maior perseverança enquanto ele nos conduz à maturidade “para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes” (Tg 1.4). A palavra grega traduzida como “perfeitos” significa “inteiro” ou “completo”. Ou seja, tudo está presente, sem que falte nada. E você precisa se entregar ao processo para que isso aconteça.

Eu sempre oro assim: “Senhor, mostre-me o que o Senhor está realizando. Senhor, por meio disso, faça-me mais semelhante a Cristo. Por meio disso, atraia-me para Ti.” As provações nos levam à plenitude e à maturidade espiritual. E com isso vêm a força, o caráter e a virtude. E esse é o propósito de Deus: nos levar à estabilidade. Pedro escreveu:

Ora, o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar. (1Pe 5:10).

Os moabitas eram um povo pagão e idólatra que vivia do outro lado do Mar Morto, a leste da terra de Israel. E Deus pronunciou julgamento sobre Moabe. Através de Jeremias Deus falou:

Despreocupado esteve Moabe desde a sua mocidade e tem repousado nas fezes do seu vinho; não foi mudado de vasilha para vasilha, nem foi para o cativeiro; por isso, conservou o seu sabor, e o seu aroma não se alterou. (Jr 48:11).

Essa imagem da fabricação de vinho doce é muito vívida. Na produção de vinho doce, o suco era deixado num odre até que todo o resíduo ficasse depositado no fundo. Então, ele era despejado em outro odre para que mais resíduo fosse separado. Esse processo continuava até que ioda a impureza fosse retirada e se obtivesse, enfim, um vinho puro e doce.

Moabe não havia passado de uma aflição para outra, de modo que a sua impureza seria retirada por meio do processo da dor purificadora. Assim, a nação havia sido mergulhada na turvação e amargura dos seus próprios pecados. O castigo de Deus estava vindo para esmagá-los

Moabe nunca havia sido submetida às provações sucessivas e isso se tornou seu grande e terrível problema. Suas impurezas se acumularam e não se dissiparam. Moabe estava repousada em suas próprias impurezas, e por isso aquele povo sofreu juízo.

Eu não quero estar nessa situação. Não quero viver uma vida de facilidades. Se Deus precisa me fazer passar de um recipiente para outro, para que os resquícios pecaminosos da minha vida se afundem e o que restar seja o vinho puro e doce da justiça, que assim seja. Amém?

Queremos deixar Deus fazer a Sua obra, não é? Se vamos permitir que Deus realize o seu propósito em nossas vidas, então precisamos ter uma atitude de alegria, ter uma mente compreensiva e uma vontade submissa diante das provações que ele permite que cheguem a nós.

O que vimos agora é apenas o começo. Vimos Tiago 1.2-4, na próxima vez vamos continuar este assunto estudando cada versículo até chegarmos em Tiago 1.12. Há muito mais por vir. Vamos orar.

Pai, a Tua Palavra jamais nos deixa de nos emocionar, abençoar e encorajar. Oh, como ela é rica e instrutiva para nós! Obrigado, Senhor, pela maneira como o Senhor age em nossas vidas para cumprir os Teus gloriosos propósitos. E eles não são apenas para a Tua glória, mas também para a nossa bênção e glória na Tua eterna presença.

Somos privilegiados, Senhor, não apenas por sermos salvos, mas também por sermos santificados, por sermos transformados de uma forma para outra, de uma provação para outra, até que a essência da nossa vida seja purificada e reste apenas a vida pura e justa
.
Realiza essa obra. Dá-nos um olhar voltado para o futuro, que anseia pela alegria adiante. Dá-nos uma mente compreensiva que confia no Teu plano e no Teu poder, na Tua compaixão, na Tua sabedoria. Dá-nos uma vontade submissa, que anseia por permitir que as provações nos conduzam à maturidade espiritual que nos recompensará com bênçãos nesta vida e glória na vida futura.

E nós Te agradeceremos, Senhor, por estares realizando tudo isso em nós, porque nos amas como um pai ama seus filhos. Amém


Leia tambem: 


Este texto é uma síntese do sermão “How to Endure Trials, Part 1 ”, de John MacArthur, em 24/01/1999.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/sermons/90-205/how-to-endure-trials-part-1

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


Clique aqui e leia outros sermãos traduzidos da carta de Tiago


 

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