Plano de Deus x Plano do Homem
Quando os homens se deparam com o plano de Deus e não gostam dele, oferecem, de forma presunçosa, o seu próprio plano. No plano de Deus Jesus tinha que ir a Jerusalém para ser o Cordeiro, sofrer e morrer numa cruz. Mas, no plano do homem, isso era inconcebível. E os homens ainda veem a cruz como loucura e escãndalo, porque os nossos pensamentos não são os pensamentos de Deus e os nossos caminhos não são os caminhos de Deus.
Seguindo no Evangelho de Mateus, vamos olhar agora para Mateus 16.21-23. Apenas três versículos, mas contendo palavras profundas que nos levam a uma forte reflexão.
Mateus 16
21 Desde esse tempo, começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitado no terceiro dia.
22 E Pedro, chamando-o à parte, começou a reprová-lo, dizendo: Tem compaixão de ti, Senhor; isso de modo algum te acontecerá.
23 Mas Jesus, voltando-se, disse a Pedro: Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim dos homens
Aqui o Senhor contrapõe as coisas de Deus às coisas dos homens. As coisas dos homens são diferentes das coisas de Deus. Neste texto, os gloriosos propósitos, planos e atos de Deus são contrapostos aos propósitos cegos, errôneos e pecaminosos dos homens.
A Bíblia enfatiza como os homens veem as coisas de uma maneira e Deus as vê de uma maneira totalmente diferente. Por exemplo: “Há caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte” (Pv 14.12). Os caminhos e pensamentos do Senhor são mais altos que os dos homens (Is 55.8-9).
Não conhecemos os pensamentos e os caminhos de Deus em nós mesmos e, portanto, tendemos a não compreender o propósito do que Deus está fazendo. E podemos nos tornar uma ofensa a Deus, assim como Pedro foi uma ofensa a Jesus naquele dia.
Pedro, em sua própria sabedoria humana, achou que precisava corrigir o Senhor Jesus Cristo. E muitas vezes nos dirigimos a Deus como se fôssemos corrigi-lo quando vemos coisas acontecendo que não nos parecem corretas. Mas isso acontece porque não saboreamos as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens.
E uma das coisas que você deve aprender no processo de amadurecimento espiritual é a reconhecer que Deus age de maneiras que nós, com nossa sabedoria humana, não conseguimos compreender completamente. Davi planejava construir o templo, mas Deus tinha outro plano, e não permitiu que Davi seguisse no seu intento. Ele teve que entender que seu plano não era o plano de Deus.
Os homens não pensam como Deus. É por isso que Jesus nos ensinou a orarmos assim: “venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10). Com nossas limitações humanas e decaídas, não conhecemos os propósitos de Deus. Por isso o “Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis” (Rm 8.26).
Pedro quis corrigir o Senhor da glória porque Jesus não estava agindo de acordo com seus planos, o que nos apresenta um princípio profundo: aprender a viver segundo o plano de Deus, e não segundo os planos dos homens.
Gostaria de lembrar que Pedro era um crente verdadeiro, esta é uma lição para todos os crentes verdadeiros. Ele já havia afirmado que Jesus era o Filho de Deus, o Salvador, o Messias (Mt 16.16). Diante de uma multidão abandonando Jesus, Pedro lhe disse: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna; e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus” (Jo 6.68-69). Diante da pesca milagrosa, ele disse a Jesus: “Afasta-te de mim, Senhor, porque sou pecador” (Lc 5.8).
Quando Pedro declarou ao Senhor que ele era o Cristo, o Filho do Deus vivo, o Senhor lhe disse: “não foi carne e sangue que te revelaram, mas meu Pai, que está nos céus” (Mt 16.17). E, mesmo diante da rejeição de Israel e das multidões, Jesus lhe disse: “edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18).
A expressão “portas do inferno”, no original grego é: “portas do Hades”. Não se refere ao castigo eterno. É uma expressão coloquial judaica para morte. Pelo menos cinco vezes no Antigo Testamento (Jó 7.9; 10.21; Sl 6.5; 16.10 e Is 38.10) encontramos a mesma expressão: as “portas do Sheol” (porta do Hades, no grego), as trancas da morte, e todas elas se referem à morte.
Então o Senhor diz: “Vejam, eu sou o Messias, estou construindo o meu Reino, e a morte não o impedirá”. E tendo dito isso, no versículo 21, ele lhes diz que morrerá. Mas a Sua morte não é permanente, porque ele diz que as portas do Hades não podem detê-Lo. E então Ele diz no versículo 21: “Serei morto e ressuscitarei ao terceiro dia”.
Jesus estava guiando os discípulos através da verdade, e eles precisavam compreender. Ele estava lançando um alicerce. Eles criam que Jesus era o Messias; que ele iria edificar a sua igreja e que as portas da morte não podiam impedi-la. Mas a única coisa que ainda não tinham conseguido aceitar é que o Messias deveria sofrer e morrer; que o Messias, o Filho de Deus, o Deus Eterno encarnado, o Rei, o Ungido, sofresse humilhação, rejeição, hostilidade e morte. Isso realmente não se encaixava na perspectiva messiânica deles.
Paulo escreveu: “nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios” (1Co 1.23). Ter um Rei e um Messias que seja preso, humilhado e assassinado não passava pela cabeça de ninguém em Israel, inclusive dos discípulos. E como o entendimento deles era tão incompleto, Jesus disse para não pregarem sobre isso até que entendessem completamente (Mt 16.20).
Ele continuou falando sobre sua morte e ressurreição, mas eles nunca conseguiram compreender. Quando Jesus foi crucificado, os discípulos se dispersaram. Ninguém creu na sua ressurreição até que Jesus se apresentasse no meio deles. No caminho de Emaús, dois discípulos estavam completamente confusos sobre o que aconteceu (Lc 24.13-35). Eles não aceitavam que Jesus fosse morto e não creram que ele havia ressuscitado.
O Senhor os estava ensinando, revelando lições que eles nunca entenderiam completamente até a vinda do Espírito Santo. Mas quando o Espírito Santo veio, cumpriu-se uma promessa que Jesus os havia dado: “Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito” (Jo 14.26). E, de repente, quando o Espírito de Deus veio, as luzes se acenderam, todas essas lições e todo o seu significado se tornaram reais para eles.
Jesus começou a prepará-los para o significado de sua morte, que se revelou plenamente sob o ministério do Espírito de Deus, e então eles a proclamaram com plena convicção e a escreveram para transmiti-la como legado de Deus às gerações futuras.
Ao analisarmos o texto, quatro verdades se revelam para nos mostrar como devemos ter cuidado para não cairmos no grave erro de substituir as coisas de Deus pelas coisas dos homens.
1) O plano de Deus.
Mateus 16
21 Desde esse tempo, começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitar no terceiro dia.
A expressão “Desde esse tempo” pode ser traduzida como “a partir daquele momento”. É uma expressão usada por Mateus para marcar uma transição. Em Mateus 4.17, ele usa essa expressão para marcar o início do ministério público de Jesus a Israel. E agora, ele usa a mesma expressão para marcar o início do seu ensino particular aos discípulos.
Assim, entramos em um novo momento na vida de Cristo, em que seu ministério é principalmente particular. A primeira fase de seu ministério era principalmente público, com algum ensino particular. A segunda, principalmente particular, com algum ensino público. Ele queria ensinar-lhes verdades que eles não compreenderiam plenamente até a vinda do Espírito Santo. Ele estava preparando seus discipulos para o futuro ministério.
Jesus começou a mostrar aos seus discípulos que ele precisava morrer e ressuscitar. Note a palavra “necessário” (Mt 16.21). Há uma imperativo divino. Essa é a necessidade. Não havia plano B, a cruz era o caminho necessário. Era uma necessidade que ressoava da eternidade e é atemporal. Ela veio com a força da eternidade. Este é o plano de Deus posto em movimento antes da fundação do mundo. Quatro coisas tornaram isso necessário:
a) O pecado humano. Ele teve que morrer porque os homens são pecadores e seus pecados precisam ser pagos. O pecado é injustificável, o homem precisa de um justificador (Rm 3.23-26).
b) A exigência divina, sem derramamento de sangue não há remissão de pecados (Hb 9.22). Por isso Cristo se ofereceu uma vez para sempre para a remissão de pecados (Hb 9.38).
c) O decreto divino; Deus, por seu determinado conselho e presciência, fez com que isso acontecesse. Jesus foi “entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus” (At 2.23).
d) A promessa profética. Os profetas disseram que o Messias morreria (Is 53). Mateus e os outros evangelistas registraram sua morte muito belamente, mas é o salmista quem a descreveu séculos antes (Sl 22).
Este é o plano de Deus, e os homens não têm a opção de dizer: “Deus, eu gostaria de compartilhar o meu plano com o Senhor. Quero que o Senhor conheça o meu plano para que o teu plano possa se ajustar ao meu”.
Isso nos parece ridículo, e ainda assim o fazemos o tempo todo, quando, em outras palavras, dizemos a Deus: “Senhor, eu não entendo o que estás fazendo, eu tenho um plano melhor. Eu não gosto do sofrimento que estou passando, eu não gosto das circunstâncias atuais”. E assim tentamos convencer Deus a adotar o que achamos ser uma abordagem melhor.
Ao analisarmos o plano divino, vemos que ele possui quatro etapas. O primeiro é o plano de Deus: “começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário seguir para Jerusalém…” (Mt 16.21). Ele precisava ir a Jerusalém; isso era imprescindível. Ele precisava ir à cidade dos sacrifícios. Ele precisava ser o Cordeiro Pascal. Ele precisava morrer pelos pecados.
Quando Jesus disse isso, ele estava distante de Jerusalém. Ele estava em Cesareia de Filipe, pequena cidade ao nordeste de Israel, para onde ele havia ido com a intenção de proporcionar um refúgio para seus discípulos, tendo algum tempo com eles sem ser incomodado pelas hostilidades da Galileia. Mas agora ele precisava ir para Jerusalém.
O apóstolo João relata que quando Jesus disse a seus discípulos que iria para a Judeia por causa da morte de Lázaro, os discípulos responderam: “Mestre, ainda agora os judeus procuravam apedrejar-te, e voltas para lá?” (Jo 11.8). Então Tomé disse aos demais: “Vamos também nós para morrermos com ele” (Jo 11.16). Eles sabiam o que os aguardava lá. E na semana seguinte Jesus foi crucificado.
Jerusalém era o centro da hostilidade. De Jerusalém subiam fariseus e escribas para afrontarem a Jesus (Mt 15.1). Os religiosos de Jerusalém não suportavam Jesus Cristo, que os confrontava com a verdade. Eles odiavam Jesus por isso. Mas Jesus sabia que ele só morreria na hora determinada por Deus, quando seu ministério estivesse completo. Ele disse:
O Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu Pai (Jo 10.17-18).
Ele disse a Pilatos: “Nenhuma autoridade terias sobre mim, se de cima não te fosse dada…” (Jo 19.11). Ou seja, Pilatos pensava que estava no comando do julgamento de Jesus, mas, na verdade, tudo ali acontecia de acordo com o plano eterno e soberano de Deus. Quem estava no comando era o Senhor Jesus Cristo.
“Jerusalém” significa “fundamento da paz”. Um dia o Príncipe da Paz reinará em Jerusalém. Ela está situada a 53 Km a leste do Mediterrâneo e a 22 Km a oeste do Mar Morto, em um planalto a 762 metros acima do nível do mar, com seu ponto mais alto sendo o Monte das Oliveiras, a 808 metros de altitude. Vista do leste, brilhando como uma joia ao sol, ela ficou conhecida como a Cidade Dourada.
Mencionada pela primeira vez em Gênesis 14.19 como a morada de um sacerdote de El Elyon, o Deus Altíssimo, um servo de Yahweh chamado Melquisedeque, um tipo de Cristo. E assim como Melquisedeque era associado àquela cidade, também o seria seu antítipo, Jesus Cristo. Aparecendo novamente em Gênesis 22, esse mesmo local se torna o lugar onde Abraão iria sacrificar Isaque e encontra um cordeiro substituto, que é figura de Jesus Cristo, que seria sacrificado naquela mesma região do Monte Moriá.
Em 1003 a.C., a cidade estava sob o domínio dos jebuseus, e Davi a conquistou, tornando-a capital de Israel (2Sm 5.6-10). Ela era a cidade de Davi (2Sm 5.9). Três meses depois, Davi trouxe a Arca da Aliança para Jerusalém (2Sm 6; 1Cr 15), e a cidade se tornou a cidade de Deus, pois Deus habitava na Arca, simbolicamente. Salomão a chamou de padrão de perfeição (Ct 6.4), e construiu o templo ao Deus Altíssimo naquela cidade, para onde foi levada a Arca da Aliança (1Rs 6 a 8).
Jerusalém se tornou o centro sagrado de adoração para os judeus, alternando períodos de florescimento e devastação, mas jamais perdendo sua essência em seus corações e mentes como a cidade de Deus. De fato, quando foram levados para o cativeiro, clamaram:
Se eu te esquecer, ó Jerusalém, deixa minha mão direita esquecer sua destreza. Se eu não me lembrar de ti, apegue-se a minha língua no céu da minha boca; se eu não preferir Jerusalém à minha maior alegria. (Sl 137.5-6).
Mas a cidade de Jerusalém, quando Jesus chegou lá, era hostil a Deus. Não podemos chamá-la de cidade de Deus e nem de Jerusalém, fundamento da paz. Quando Jesus começou seu ministério, na primeira Páscoa, ele foi à Jerusalém, pegou um chicote para purificar o templo da impureza (Jo 2). E o ódio contra ele nasceu naquele momento. Na segunda Páscoa de sua vida, Jesus foi a Jerusalém e violou a tradição farisaica do sábado e tentaram matá-lo (Jo 5). Na terceira Páscoa de seu ministério, ele deliberadamente se manteve afastado por causa do ódio que sentiam por ele.
Mais tarde, naquele ano, ele foi participar da Festa dos Tabernáculos e os líderes religiosos tentaram prendê-lo para executá-Lo (Jo 7). Quando ele foi ao templo para ensinar, tentaram apedrejá-Lo até a morte (Jo 8). Quando ele ensinou no pórtico de Salomão, eles queriam apedrejá-lo (Jo 10). E quando ele retornou para a última Páscoa, eles o mataram.
Jerusalém deixou de ser a cidade de Davi, a cidade de Deus e o fundamento da paz. Jerusalém passou a ter um novo nome, um nome espiritual: “E o seu cadáver ficará estirado na praça da grande cidade que, espiritualmente, se chama Sodoma e Egito, onde também o seu Senhor foi crucificado” (Ap 11.8). E em 70 d.C., Deus usou os romanos para destruí-la, conforme Jesus havia profetizado (Mc 13.1-2).
Conforme Zacarias, capítulo 14, quando Jesus retornar para estabelecer seu glorioso reino e reinar nesta terra a partir de Jerusalém, a cidade será exaltada, habitará segura (v. 9-11) e “se alguma das famílias da terra não subir a Jerusalém, para adorar o Rei, o Senhor dos Exércitos, não virá sobre ela a chuva” (v.17). Jerusalém voltará a ser Jerusalém, a Cidade Dourada de Davi, a cidade de Deus, o fundamento da paz eterna.
Mas, naquele momento Jesus disse que precisava ir a Jerusalém. Ele disse:
Importa, contudo, caminhar hoje, amanhã e depois, porque não se espera que um profeta morra fora de Jerusalém. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir teus filhos como a galinha ajunta os do seu próprio ninho debaixo das asas, e vós não o quisestes (Lc 13.33-34).
A segunda fase do plano de Deus: o sofrimento.
Mateus 16
21 Desde esse tempo, começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitado no terceiro dia.
O Sinédrio, o tribunal governante de Israel, era composto pelos anciãos, que eram basicamente chefes tribais respeitados que se tornaram líderes e juízes em toda a terra de Israel; os principais sacerdotes, que eram principalmente saduceus; e os escribas, que eram principalmente fariseus. Juntos, eles constituíam o tribunal legal.
Os líderes religiosos, que não eram santos, dominavam uma cidade que não era santa. Eles arquitetaram uma farsa, que do ponto de vista deles, seria um julgamento formal. E assim condenaram à morte o Filho de Deus, o Messias, o Rei dos reis.
Jesus disse que era necessário morrer. A palavra que Jesus usou não se refere a uma execução judicial, mas a um assassinato, nada tem a ver a uma punição justa por um crime. Ao ouvirem Jesus falar sobre isso, os discípulos ficaram perplexos, eles não podiam entender isso.
Na primeira purificação do templo, Jesus disse: “Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei” (Jo 2.19). Os judeus ali presentes pensaram que Jesus estava falando do prédio do templo, mas Jesus “se referia ao santuário do seu corpo” (Jo 2.21). Ele estava falando de sua morte e ressurreição.
Os discípulos deveriam ter compreendido as palavras de João Batista, que disse: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29), e chegado à conclusão de que os cordeiros precisavam morrer para expiar o pecado.
Mas a morte de Jesus não fazia sentido com a perspectiva messiânica deles. Eles ficaram perplexos ao ouvirem Jesus falar de sua morte e não creram na ressurreição. Apenas “quando, pois, Jesus ressuscitou dentre os mortos, lembraram-se os seus discípulos de que ele dissera isto; e creram na Escritura e na palavra de Jesus” (Jo 2.22).
Eles viram Jesus ressuscitar a filha de Jairo, o líder da sinagoga (Mc 5.35-43); o filho da viúva de Naim (Lc 7.11-17) e a Lázaro (Jo 11.1-46), mas se ele estivesse morto, quem o ressuscitaria? Então, simplesmente descartaram essa possibilidade e pensaram que o Messias seria retido no Hades. Somente quando Jesus se apresentou perante eles é que creram na sua ressurreição (Lc 24).
E tal como os demais, Pedro não conseguia compreender o Messias morto. Ele havia acabado de ouvir que as portas do Hades (morte) não poderiam impedir a expansão do reino de Deus e a edificação da igreja. Então ele concluiu que Jesus não podia morrer, que isso não podia acontecer. E assim os demais também pensavam.
Em Marcos 9.30-32, Jesus falou sobre sua morte e ressurreição, diz que os discípulos não só não entendiam como isso seria possível, mas evitavam o assunto e temiam fazer perguntas. Logo em seguida, o texto bíblico (Mc 9.33-37) relata que Jesus perguntou o que eles conversavam no caminho, eles ficaram em silêncio. O que eles estavam conversando? “haviam discutido entre si sobre quem era o maior” (Mc 9.34). A visão deles era de um reino terreno imediato, a morte de Jesus era algo totalmente inconcebível.
2) O plano do homem
Mateus 16
22 E Pedro, chamando-o à parte, começou a reprová-lo, dizendo: Tem compaixão de ti, Senhor; isso de modo nenhum te acontecerá.
Vimos o plano de Deus, ou as coisas de Deus, no versículo 21. Mas, no versículo 22 vemos o plano do homem ou as coisas dos homens. Quando os homens se deparam com o plano de Deus e não gostam dele, oferecem, de forma presunçosa, o seu próprio plano. E é o que aconteceu com Pedro, que estava falando por todos os discípulos.
O texto grego traduzido como “Pedro, chamando-o à parte”, tem o sentido que Pedro o abraçou e literalmente o arrastou à força. Vemos aqui a audácia de Pedro e a humanidade de Jesus Cristo. Deve ter havido algo tão genuinamente humano em Jesus que Pedro realmente pensou que poderia falar com ele como um homem fala com seu amigo. E isso é maravilhoso. Pedro jamais teria pensado em fazer isso com Deus, se Deus estivesse se revelando de alguma forma sobrenatural e não humana. Em outras palavras, Pedro, quis dizer:
Senhor, eu só quero te dizer que as coisas não estão indo de acordo com o meu plano e eu gostaria muito que o Senhor as mudasse. Eu não entendo! Eu não sei qual é o teu plano, mas não é o meu e não parece estar de acordo com o que eu considero a melhor maneira de fazer as coisas. E quero apresentar um plano melhor: sem dor, sem sofrimento, sem provações e sem dificuldades, apenas alegria e glória sem limites.
Esse não era apenas o plano de Pedro, era de todos os discípulos. Pedro o levou para um canto e começou a repreendê-lo, ou seja, ele foi enérgico com Jesus. Ele foi movido pela presunção que vem com a autoconfiança. É a força do orgulho. É o senso de privilégio que ele tinha por ter passado muito tempo com Jesus e de ter ouvido Jesus lhe dizer, momentos antes, que Deus o havia revelado sua divindade, messianidade e majestade (Mt 16.16-17).
Pedro e os outros discípulos tinham a visão messiânica de poder, glória, pompa e majestade. Jesus tinha a visão de sofrimento, dor, morte e ressurreição. E essa era a visão de Deus. E Pedro foi contundente contra o plano de Deus: “Tem compaixão de ti, Senhor; isso de modo nenhum te acontecerá”. Ou seja, “esquece esse plano de cruz, de sofrimento e de morte, que o céu lhe conceda algo melhor do que isso, não aceito isso e nem o Senhor pode aceitar”.
Isso é muito ousado. É uma repreensão direta. Veja bem, ele não conseguia conceber um Messias sofredor, humilhado e crucificado. Ele desejava um reino sem cruz. E sem a cruz, toda a obra de Cristo seria inútil, até mesmo sua encarnação. E é isso que os liberais querem hoje, eles rejeitam a mensagem da cruz. As coisas dos homens se opõem às coisas de Deus, elas são inconciliáveis uma com a outra.
3) O Protesto de Cristo
Mateus 16
23 Mas Jesus, voltando-se, disse a Pedro: Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens.
Não consigo imaginar nada mais chocante para Pedro do que essa resposta, porque as intenções de Pedro parecem honrosas à primeira vista. Ele disse isso por amor, embora em ignorância; ele não queria que o Senhor morresse; não queria que o Senhor sentisse dor; não queria pessoalmente sentir a dor que a morte de Jesus lhe causaria, pois o Senhor era tudo para eles durante seu ministério.
Jesus fez uma repreensão bastante forte. Ele disse: “Afasta-te de mim, Satanás” ou “Arreda Satanás”. Ele já havia dito isso a Satanás na tentação do deserto, quando Satanás lhe ofereceu o reino em troca de que ele o adorasse (Mt 4.8-10), ou seja, um caminho mais fácil, sem cruz. Durante toda a vida terrena de Jesus Cristo, Satanás continuou tentando desviá-lo da cruz para um caminho sem humilhação, sem dor, sem morte e sem precisar depender de Deus.
O Senhor sabia que teria que carregar em seu próprio corpo, na cruz, todos os pecados de todos os eleitos de Deus em toda a história. Ele deveria provar o cálice da ira de Deus (Lc 22.42; Mt 26.38-39) e que seria “traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades” (Is 53.5).
No Jardim do Getsêmani, devido ao alto estresse, seu suor se misturou com sangue (Lc 22.44). Na cruz Jesus bradou: “Deus meu, Deus meu: por que me abandonastes?” (Mt 27.46; cf. Sl 22.1). Naquele momento ele estava experimentando o abandono que resultou do derramamento da ira divina sobre ele como aquele que levava sobre si o pecado.
O Senhor, que é santo em sua essência, que nunca conheceu o pecado, iria tomar sobre si os pecados dos eleitos de Deus. Isso para ele era uma provação. Ele iria experimentar, por um breve momento, as terríveis trevas do pecado. E Deus é “tão puro de olhos, que não pode ver o mal” (Hb 1.13). Desestimulá-lo a fazer isso era uma tentação, por isso ele imediatamente disse: “Afasta-te de mim, Satanás!”.
O mesmo Pedro que havia declarado uma verdade gloriosa a respeito de Cristo, foi usado em seguida para proclamar a palavra de Satanás. Ele exaltou o plano de Deus, mas em seguida exaltou o plano de Satanás. Satanás estava usando Pedro naquele momento.
Satanás sabia que a cruz era o lugar em que sua cabeça seria esmagada (Gn 3.15). Ele sabia que a cruz era o lugar em que o poder da morte que ele detinha seria destruído (Hb 2.14). Ele sabia que, na cruz, Jesus nos daria vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos; que ele cancelaria o escrito de dívida, que era contra os eleitos de Deus, removendo-o inteiramente, encravando-o na cruz; e, que despojaria os principados e as potestades, publicamente os exporia ao desprezo, triunfando deles (Cl 2.13-15).
Satanás desprezou e odiou a cruz. Mas quando Jesus foi crucificado, ele tentou mantê-lo morto e, claro, não conseguiu, porque os portões do Hades (da morte/sepultura) não podiam reter Jesus (At 2.34-37). Por causa do poder divino (Jo 11.25; Hb 2.14) e da promessa e propósito de Deus (Lc 24.46; Jo 2.18-22; 1Co 15.16-26), a morte não podia reter Jesus na sepultura. O Senhor falou profeticamente de sua ressurreição por meio de Davi (Sl 16.10; cf. At 2.25-28; 13.35).
Jesus disse a Pedro: “Tu és para mim uma pedra de tropeço”. A palavra grega “skandalon”, traduzida como “tropeço”, significa “atrair alguém para destruí-lo”. Em outras palavras, Jesus disse: “Pedro, isso é uma armadilha satânica”.
Vocês podem imaginar o choque de Pedro. Ele dificilmente poderia ter compreendido que, ao tentar dissuadir Jesus da cruz, estava colocando flechas no arco de Satanás para atirar contra o Senhor. Esse perigo sempre nos ronda. Em nossos momentos de desejar honrar e servir ao Senhor podemos estar, na verdade, carregando o arco de Satanás, tomando o lado de Satanás.
4) O que este incidente nos ensina?
Em outras palavras, Jesus disse a Pedro: “você não está pensando segundo a perspectiva de Deus, mas segundo a perspectiva dos homens; está raciocinando do ponto de vista da humanidade, não da divindade”. E isso não se aplicava apenas a Pedro, Jesus sabia que todos os discípulos pensavam a mesma coisa, Pedro foi apenas o porta-voz.
Do ponto de vista de Deus, Jesus tinha que ir a Jerusalém para ser o Cordeiro, sofrer e morrer numa cruz. Mas do ponto de vista do homem, isso era incompreensível e inconcebível. Eles simplesmente não conseguiam ver isso. E os homens ainda veem a cruz como loucura, pedra de tropeço, porque os nossos pensamentos não são os pensamentos de Deus e os nossos caminhos não são os caminhos de Deus.
E nós somos assim. Esquecemos que a Bíblia diz que é através das provações que somos aperfeiçoados. E esquecemos que Deus está nos moldando à imagem de Jesus Cristo, e tudo o que conseguimos ver é a dor presente, e clamamos a Deus para que nos livre dela, quando é justamente ela que nos aperfeiçoa.
Não pensamos como Deus pensa. Tudo o que conseguimos ver é a escuridão presente, a dor presente, o sofrimento presente. Deus vê a glória futura. Eles queriam que Deus fizesse as coisas do jeito deles. Queriam a pompa, a majestade, o Reino e tudo, agora mesmo.
Conclusão
Lição 1: O Salvador, o Messias, o Filho de Deus pode não se encaixar nas definições dos homens, mas nem por isso deixa de ser o cumprimento do plano de Deus.
Se você está procurando um Salvador, um Cristo, um libertador ou um Messias diferente daquilo que a Escritura revela sobre Jesus Cristo, ou seja, alguém que se encaixe melhor no que você acha que ele deveria ser, você se colocou contra o verdadeiro Messias. Pedro, naquele momento, estava dizendo: “não, esse não é o Messias que procuramos”.
Por sua visão errada, Pedro fraquejou, sofreu muito e aprendeu a lição. Ele foi restaurado por Cristo após a ressurreição e se tornou um valioso vaso nas mãos do Senhor Jesus para iniciar e fundamentar a igreja. Mas, há muitos dizendo isso ainda hoje, rejeitando o verdadeiro Cristo e criando um outro de acordo com seus próprios pensamentos. Crer em um falso Cristo é tão condenável quanto não crer no verdadeiro.
Jesus não se encaixava na definição humana, mas os caminhos de Deus não são os caminhos do homem. E ele era tudo o que o mundo precisava como Salvador. Por isso, no dia de Pentecostes, Pedro disse à multidão:
Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis; sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos; ao qual, porém, Deus ressuscitou, rompendo os grilhões da morte; porquanto não era possível fosse ele retido […] Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo (At 2.22-24, 36).
Lição 2: Há dor no processo de santificação e aperfeiçoamento
Logo em seguida Jesus disse a seus discípulos: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16.34). Se você vai segui-lo, você vai perder a sua vida no processo. E esse é o caminho para a glória: não há glória sem dor, não há coroa sem um espinho no caminho.
E Deus está nos refinando para nos transformar em ouro e está removendo a escória. E cada vez que uma provação ou uma dor surge, não gritamos a Deus dizendo: “Ei, Deus, alinhe teus planos com os meus”, mas dizemos a Deus: “ajude-me a alinhar os meus planos com os teus”.
Nosso caminho é o caminho da glória, alegria, bênção e sem dor. O caminho de Deus é sofrimento, depois glória, depois alegria e, por fim, bênção. Pedro também aprendeu isso. Pedro escreveu:
Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo; pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois coparticipantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos alegreis exultando. Se, pelo nome de Cristo, sois injuriados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e Deus (1Pe 4.12-14).
Alguém escreveu estas palavras:
O homem julga o homem na ignorância. Ele vê apenas em parte. Nossa confiança está em nosso Criador, Deus, que sonda cada coração. E cada erro e cada aflição, quando colocados sob nossos pés, como degraus, podem nos ajudar a chegar ao seu trono de misericórdia. Então, ensina-nos a sorrir, ó Senhor, por mais afiadas que sejam essas pedras, lembrando-nos de que elas nos aproximam de Ti, querido Senhor, de Ti. Os caminhos de Deus não são os nossos caminhos. Seus pensamentos não são como os nossos. Ele nos fere profundamente com espinhos cruéis onde nos curvamos em busca de flores.
Mas, oh, é do coração tantas vezes ferido que essas preciosas gotas se destilam, e que muitas outras vidas, todas desprovidas da bênção da cura, serão preenchidas. Então, dê – oh, dê a flor àqueles que oram para que assim seja, mas eu prefiro ter os espinhos contigo, querido Senhor, contigo.
Vamos orar.
Pai, somos gratos por nos teres ensinado a Tua Palavra. E escolheríamos os espinhos, querido Senhor, que nos aproximam de Ti. Agradecemos-te pelas provações, lutas, por sermos derramados de vaso em vaso até que toda a borra seja drenada e sejamos um sabor doce em Tua boca.
Que não tenhamos pensamentos humanos, mas os pensamentos de Deus sobre o Messias e sobre a nossa própria vida e as suas lutas. Assim como Jesus não era o que os homens esperavam, que saibamos que ser como Ele não significa necessariamente ser o que esperamos. Faze-nos à imagem de Cristo, custe o que custar. Oramos pela Sua glória. Amém.
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Este texto é uma síntese do sermão “Offending Christ”, de John MacArthur em 27/10/1982.
Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:
https://www.gty.org/sermons/2320/offending-christ
Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno





















