O Jejum Bíblico (2)

Deus jamais pode aceitar o jejum de um povo em desobediência e vivendo de forma injusta. Ele rejeita esse jejum inútil.  O jejum deve ser resultado de uma vida quebrantada e cheia de anseios espirituais diante de Deus. A um coração assim, Deus diz: “Então, clamarás, e o Senhor te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me aqui…” (Is 58.9).

No sermão anterior começamos ver Mateus 6.16-18, quando o Senhor condenou a hipocrisia religiosa através do jejum sem qualquer valor espiritual. Agora vamos continuar e concluir este ensino do Senhor. Vimos que o jejum bíblico não é bem compreendido pelos cristãos. Jesus exortou dizendo:

Mateus 6
16 Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa.
17 Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto,
18 com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.

No Sermão do Monte (Mt 5 a 7) o Senhor confrontou os religiosos hipócritas. Entre outras coisas, o Senhor disse que suas ofertas, orações e jejuns eram inúteis; que a teologia deles era inadequada; que o caráter deles era inadequado. Cada elemento de suas vidas pessoais e de seu sistema religioso eram inadequados para trazê-los ao Seu reino.

O Senhor estava destruindo a confiança deles em seu sistema religioso falido, para encorajá-los a buscarem a ele como Salvador. E uma das coisas que o Senhor destacou foi o jejum deles. Eles realmente acreditavam que o jejum era uma maneira de lidar com o pecado, que haveria um lugar especial de glória para aqueles que jejuassem e cobrissem seus rostos com cinzas.

Eles externalizaram tanto sua religião que sentiam que, se você desse dinheiro a um pobre, redimiria seus pecados. Se você cumprisse as orações rituais do dia, compraria o perdão. Se você jejuasse, conquistaria um lugar especial no reino de Deus, externalizando totalmente o que Deus pretendia ser uma atitude de um coração reto. E foi contra tudo isso que o Senhor falou.

O alimento se tornando uma perversão

No sermão anterior compartilhei com vocês o fato de que comer é algo bom, é uma bênção de Deus. O alimento é sustento para nosso corpo; é bom para o prazer, para a comunhão quando nos reunimos em torno de uma mesa; é bom para o descanso, quando nos afastamos de um período agitado para descansar em torno de uma refeição.

O alimento é uma dádiva de Deus, mas, como tantas outras dádivas que Deus dá, o homem também perverte o alimento. A sociedade sempre conseguiu perverter a comida, assim como qualquer outro desejo humano.

Vivemos em uma sociedade onde as pessoas não comem para viver, vivem para comer. Enquanto comem uma refeição, planejam a próxima. Enquanto consomem uma coisa, estão pensando em outra coisa que farão em breve. Elas simplesmente estruturam suas vidas de refeição em refeição. A aventura de comer.

No deserto, os filhos de Israel disseram a Moisés: “Quem nos dera tivéssemos morrido pela mão do Senhor, na terra do Egito, quando estávamos sentados junto às panelas de carne e comíamos pão a fartar!” (Ex 16.3). Ou seja, “é melhor estar em um lugar pagão como escravo e comer do jeito que queremos, do que estar no meio da vontade de Deus e não comer o que desejamos comer”. Isso é viver para comer.

A comida se tornou quase como um deus. Um fascínio além do normal. Pense nisso. Quando Satanás quis tentar Eva e causar a queda de toda a raça humana – com o que ele a tentou? Com comida (Gn 3.1-7). Esaú, que havia recebido o tremendo direito de primogenitura, por uma única refeição ele o vendeu (Gn 25.27-34). No deserto o povo murmurou contra Deus e contra Moisés dizendo:

Quem nos dará carne a comer? Lembramo-nos dos peixes que, no Egito, comíamos de graça; dos pepinos, dos melões, dos alhos silvestres, das cebolas e dos alhos. Agora, porém, seca-se a nossa alma, e nenhuma coisa vemos senão este maná (Nm 11.4-6).

Um povo que foi libertado do Egito em uma série de milagres incríveis, que recebeu a lei de Deus e que estava marchando para a terra prometida, só conseguia pensar no que gostaria de comer. Muitos não escolhem comer para viver, mas escolhem viver para comer.

O salmista disse sobre eles: “Então, comeram e se fartaram a valer; pois lhes fez o que desejavam. Porém não reprimiram o apetite. Tinham ainda na boca o alimento, quando se elevou contra eles a ira de Deus, e entre os seus mais robustos semeou a morte, e prostrou os jovens de Israel” (Sl 78.29-31). Deus se indignou contra essa atitude.

A cobiça por comida chegou até o santuário de Deus e corrompeu a casa do próprio sumo sacerdote. Deus repreendeu Eli sobre o apetite desordenado, que estava corrompendo a adoração dos próprios sacerdotes dentro do santuário (1Sm 2.29). Da mesma forma, hoje há pessoas com ministérios corrompidos porque não conseguem lidar consigo mesmas em relação à comida.

Paulo exortou a igreja de corinto quanto às orgias de glutonaria e bebedeira que corrompiam as festas de amor e a Ceia do Senhor na igreja do primeiro século. Ele disse: “[…]vos ajuntais não para melhor, e sim para pior […] quando vos reunis para comer, esperai uns pelos outros. Se alguém tem fome, coma em casa, a fim de não vos reunirdes para juízo” (1Co 11.17, 33-34).

A gula e a embriaguez, assim como a dissolução do casamento, parecem marcar o tempo em que Jesus retornará (Mt 24.37-38). Quando alguém cede às paixões do seu apetite por comida, isso causa um declínio em todos os outros elementos da sua vida espiritual, porque a espiritualidade é um pacote completo.

A luxúria insaciável para satisfazer o apetite desordenado conduziu muitos à apostasia. Em Deuteronômio 32.15 diz: “Jesurum engordou e deu pontapés; você engordou, tornou-se pesado e farto de alimentos. Abandonou o Deus que o fez e rejeitou a Rocha, que é o seu Salvador”.

E na sociedade atual, onde somos literalmente bombardeados por comida, nossos apetites estão sempre estimulados a ceder aos excessos, assim o jejum não é uma disciplina comum.

Há muitos jejuns errados no meio da igreja, sem qualquer significado espiritual. Muitos nunca jejuaram porque nunca entenderam realmente o que a Bíblia quer dizer quando fala de jejum. E isso é um problema comum.

Deus nos deu um presente maravilhoso em comer, mas nós o levamos longe demais na direção errada. Em vez de exagerar em relação à comida deveríamos nos aproximar de uma perspectiva bíblica adequada sobre o jejum.

Breve recapitulação do sermão anterior

Fazendo um breve resumo panorâmico do que falamos no sermão anterior, destaco rapidamente alguns pontos que extraímos das Escrituras:

a) Falamos sobre o princípio do jejum. Vimos que jejum é uma abstinência total de alimentos por um período. É humilhar-se diante de Deus em meio a uma luta espiritual. Mas não é um fim em si mesmo, é consequência de uma luta espiritual.

b) Vimos também que o jejum é algo totalmente voluntário, a única ordenança bíblica para jejuar era no Dia de Expiação (Lv 16; 23.26-32), sem qualquer aplicação após a morte e ressurreição de Jesus Cristo. Não há outro lugar na Bíblico que nos ordene a jejuar. O jejum é absolutamente voluntário e sempre está vinculado a algo mais

c) Falamos sobre a prioridade do jejum. Jesus tratou o assunto como algo que faria parte da vida cristã. Quando os discípulos de João o questionaram o porquê de seus discípulos não jejuarem, Jesus respondeu: “Podem, acaso, estar tristes os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar” (Mt 9:15), E na ascensão, ele se foi. E até que Ele retorne, há um tempo para o jejum. Portanto, ele tem uma prioridade espiritual hoje.

d) E é aqui que paramos – O que nos leva a fazer um jejum bíblico? Qual é a luta espiritual que torna o jejum uma resposta tão natural? Falamos sobre sete situações. No sermão anterior, citando vários textos bíblicos, falamos das três primeiras motivações para o verdadeiro jejum.

1) Jejum como resultado da lamentação. A tristeza causa o jejum. O corpo físico responde à ansiedade da alma. Quando seu espírito está aflito, quando há uma tremenda sensibilidade e consciência de Deus em uma luta espiritual, o corpo se acomodará ao coração. E não haverá pensamento em comida.

2) O jejum como resultado do perigo, da provação e do medo, ou seja, em busca de proteção. Há momentos em que esse medo se apodera do coração a ponto de a comida se tornar um pensamento distante.

3) O jejum com resultado da humilhação. A culpa pelo pecado produz tamanha ansiedade e intensidade que o jejum significa muitas vezes falta de apetite. Quando você está perante Deus por causa do pecado há tanta contrição e arrependimento que não há pensamento algum em comida. Uma insatisfação consigo mesmo que não pode haver pensamento algum em satisfazer a si mesmo. Entende?

Continuação do sermão anterior: mais quatro motivos bíblicos para o jejum

4) O jejum como resultado de receber ou proclamar a Palavra de Deus

E esta é uma verdade tremenda na Bíblia. Às vezes, quando o povo de Deus ia receber a Palavra de Deus ou proclamá-la, frequentemente vemos um jejum. Em outras palavras, como Jesus disse: “não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4). É no exato momento em que recebemos a palavra que sai da boca de Deus é que podemos entender esta afirmação de Jesus.

Após a queda da Babilônia, império que havia levado Judá ao cativeiro, Daniel leu o profeta Jeremias e entendeu que havia um tempo limite para aquela desolação da nação. Então ele escreveu:

Voltei o rosto ao Senhor Deus, para o buscar com oração e súplicas, com jejum, pano de saco e cinza. Orei ao Senhor, meu Deus, confessei e disse: ah! Senhor! Deus grande e temível, que guardas a aliança e a misericórdia para com os que te amam e guardam os teus mandamentos (Dn 9:3-4).

E então ele passou a confessar os pecados da nação e a se humilhar perante Deus. Ele ansiava ter um coração puro e receber a Palavra que procede de Deus. E durante esse processo o anjo Gabriel veio à sua presença. E então ele escreveu:

Ele queria instruir-me, falou comigo e disse: Daniel, agora, saí para fazer-te entender o sentido. No princípio das tuas súplicas, saiu a ordem, e eu vim, para te declarar, porque és mui amado; considera, pois, a coisa e entende a visão (Dn 9.22-23).

Em outras palavras, o anjo Gabriel disse: “Daniel, Deus te ouviu e ele vai te dar a Palavra”. E assim Daniel recebeu profundas profecias, algumas já cumpridas e outras que ainda estão por cumprir. Antecipando uma revelação de Deus, ele jejuou para poder entender melhor as palavras de Jeremias. Estão ele escreveu:

No terceiro ano de Ciro, rei da Pérsia, foi revelada uma palavra a Daniel, cujo nome é Beltessazar; a palavra era verdadeira e envolvia grande conflito; ele entendeu a palavra e teve a inteligência da visão. Naqueles dias, eu, Daniel, pranteei durante três semanas. Manjar desejável não comi, nem carne, nem vinho entraram na minha boca, nem me ungi com óleo algum, até que passaram as três semanas inteiras (Dn 10,1-3).

Jejuar para receber a Palavra de Deus é simplesmente isto. Se você jejuar, não significa que receberá a Palavra de Deus. Significa que, quando você está tão consumido pela busca de uma revelação de Deus ou pela busca de entender o que Deus revelou, você não pensa em comida até que venha a conhecer e entender o que a Palavra de Deus diz.

Eu me identifico com isso. Há muitas ocasiões na minha vida em que me encontro consumido pela busca de entender a revelação de Deus, trabalhando, estudando, absorvendo, pensando, meditando e mergulhando na Palavra de Deus a ponto de não conseguir parar para uma refeição ou qualquer outra coisa.

Não porque penso: “Ah, não vou comer. Isso vai me ajudar a entender isso”. Não. Porque não tenho pensamentos para isso. Fico sem outros desejos até entender completamente o que a Palavra de Deus está dizendo.

Você não pode se deixar invadir pelo alimento físico quando está faminto pelo pão vivo. Quando foi a última vez que você se dedicou tanto ao estudo da Bíblia a ponto de não deixar que a comida o interrompesse?

O alimento foi esquecido quando Moisés subiu ao monte para receber a Lei de Deus. A Escritura diz

A glória do Senhor pousou sobre o monte Sinai, e a nuvem o cobriu por seis dias; ao sétimo dia, do meio da nuvem chamou o Senhor a Moisés. O aspecto da glória do Senhor era como um fogo consumidor no cimo do monte, aos olhos dos filhos de Israel. E Moisés, entrando pelo meio da nuvem, subiu ao monte; e lá permaneceu quarenta dias e quarenta noites (Ex 24.15-18).

Há muitas ocasiões na Bíblia em que um coração sedento e faminto da Palavra esqueceu a comida. Muitos são frágeis no entendimento da Palavra de Deus porque muitas vezes não a estudam com a intensidade necessária para realmente compreendê-la, facilmente se distraem, e comida é uma das distrações mais poderosas.

Não há jejum apenas em conexão com a revelação recebida, mas também com a revelação dada. Há um jejum associado à pregação ou ao ensino da Palavra. Vejo Paulo falando sobre jejuns frequentes (2Co 6.5; 11.27), certamente alguns desses jejuns tenham ocorrido antes dele começar o ministério em algum local.

Vejo nosso Senhor jejuando 40 dias e 40 noites (Mt 4.2) e então ele inicia seu ministério de pregação. Ele se dirigiu à presença de Deus e clamou a Deus para que derramasse aquela mensagem por meio dele. Ele entendia a seriedade disso.

Eu me identifico com isso. Há momentos em que há uma mensagem tão grande no meu coração, há uma compreensão tão grande em meu coração para proclamar a Palavra, e eu mesmo sou consumido pelos pensamentos dessa Palavra que não consigo pensar em comer.

5) O jejum como medo do julgamento divino para si mesmo e para os outros

Muitos pecadores deveriam jejuar e orar diante das realidades do juízo, e cristãos deveriam jejuar e orar em favor de alguns pecadores neste mundo.

Em Jonas, capítulo 3, temos uma ilustração disso. Jonas levou a mensagem de juízo ao povo de Nínive. E qual foi a resposta daquele povo? Nínive creu em Deus e proclamou um jejum. Eles derramaram seus corações. Eles estavam com medo do julgamento de Deus,

Quando pregamos sobre o julgamento de Deus, muitos crentes ficam bravos conosco. Eles nos acusam de falta de amor. Parece que alertar o pecador sobre o inferno eterno é falta de amor, quando é exatamente o contrário. Olhe nossa nação sem Cristo marchando para o inferno, como alguém pode amá-la se não alertá-la sobre a realidade do juízo vindouro?

Quando foi a última vez que você sentiu uma urgência sobre a desgraça que sobrevirá àqueles sem Cristo? Nínive pelo menos teve o bom senso de jejuar e orar, tão temerosos ficaram com a pregação confrontadora de Jonas. O medo do julgamento divino força o jejum.

6) O jejum como resultado do peso de escolher líderes para a igreja e envio de missionários

Quando chegou o momento de a igreja primitiva chamar pessoas especiais para tarefas especiais na liderança espiritual, o jejum fazia parte disso. O maior problema na igreja é a liderança. Se a liderança estiver certa, a igreja estará certa. Se a liderança estiver errada, a igreja errará.

Na igreja que estava em Antioquia havia alguns profetas e doutores, a saber: Barnabé, e Simeão, chamado Níger, e Lúcio, cireneu, e Manaém, que fora criado com Herodes, o tetrarca, e Saulo. E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando, e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram. (At 13.1-3).

E, havendo-lhes por comum consentimento eleito anciãos em cada igreja, orando com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido (At 14.23).

Era mais importante do que é agora ter as pessoas certas? Era mais importante do que é agora enviar os missionários certos? Se era uma tarefa que exigia oração tão intensa que eles jejuavam, é menos importante para nós hoje? E se eles eram tão intensos na seleção de sua liderança a ponto de orar e jejuar, deveríamos ser menos intensos?

No momento de escolher a liderança devemos fazer com tal intensidade de oração que literalmente nem nos envolvamos ou nos interessemos pelas coisas da vida cotidiana. Que Deus nos dê os homens certos para o presbitério. Que Deus ordene as pessoas certas e as envie dentre nós. Não apenas aqueles que desejam, mas aqueles que merecem, pela graça e pelo chamado de Deus, ser enviados.

Essas coisas exigem oração e jejum. A seleção das pessoas certas é um serviço sacerdotal oferecido a Deus com oração e jejum.

7) O jejum como resultado de busca de direção

Paulo escreveu:

Não dando nós nenhum motivo de escândalo em coisa alguma, para que o ministério não seja censurado. Pelo contrário, em tudo recomendando-nos a nós mesmos como ministros de Deus: na muita paciência, nas aflições, nas privações, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns, (2Co 6.3-5).

Diante dos desafios do ministério e decisões críticas, Paulo sempre estava em busca da direção do Senhor em vigílias, orações e jejuns. Ele estava tomado pelo desejo do desdobramento da vontade de Deus. E isso não é diferente para nós hoje, sempre estamos diante de decisões a tomar e rumos a seguir, precisamos seguir os mesmos passos de Cristo e dos apóstolos.

O verdadeiro jejum está sempre associado com a oração

Vimos sete motivos que podemos ser conduzidos ao jejum: Lamentação, proteção, humilhação, revelação, condenação, seleção e direção. O jejum é para aqueles momentos de profunda luta, onde a atração pelo coração verdadeiramente consagrado é tão poderosa que, ao sermos atraídos para a presença de Deus, todos os pensamentos do mundo desaparecem.

Você deve jejuar com tal intensidade não apenas em relação a si mesmo, mas também em relação aos outros e até mesmo aos seus inimigos. E, infelizmente, estamos muito longe disso.

Jejum é consagração a Deus, que me separa para Deus tão singularmente em uma luta espiritual que não há espaço para a comida. Agora ouça. Aqui está a chave para tudo. Entenda isso e você terá tudo resumido. Ouça. O jejum está sempre ligado à oração. Você entendeu? A oração nem sempre está necessariamente ligada ao jejum. Você pode orar sem jejuar. Você não pode jejuar sem orar.

Não há na Bíblia jejum sem oração. O jejum, portanto, não é um fim em si mesmo, mas sim o corolário de uma luta espiritual que nos atrai à presença de Deus. O homem que ora com jejum, veja bem, está dando a entender aos céus que está realmente fervorosamente disposto. Que ele não desistirá até que Deus o abençoe.

Alguns oram tão levianamente que apenas proferem palavras soltas. Acho que nem sequer têm pensamentos conscientes de Deus. Outros são tão atraídos para a presença de Deus que o mundo perde o sentido. E quando você ora? Você ora desapegado deste mundo, tão consumido pela presença de Deus? Ou as palavras das suas orações são facilmente distraídas pelas coisas ao seu redor? O jejum é uma afirmação de oração intensa.

O jejum está sempre associado com a oração, e sempre vem de um coração puro. É uma resposta a um coração puro. Isso é muito importante. Se o seu coração não estiver certo, o seu jejum é apenas uma farsa.

E esse é o problema do jejum. Se você não tem um coração puro, você não está jejuando como consequência de oração e intensa luta espiritual. Seu coração não está certo. E esse era exatamente o problema dos escribas e fariseus. Seus corações não estavam certos. O jejum deles era uma zombaria.

Então, tudo começa com o seu coração. Se o seu coração estiver totalmente consagrado a Deus, totalmente afastado do mundo e totalmente puro, então ele resultará em oração verdadeira e agonizante, e a consequência será o jejum.

O perigo do falso jejum

Mas o problema é que o jejum é facilmente falsificado em prol da demonstração espiritual. Cuidado com qualquer coisa em sua vida que você faça para impressionar alguém. Esse é um problema gravíssimo.

Não jejue para impressionar os outros. Jesus disse: “Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam” (Mt 6.16).

A palavra grega traduzida como “hipócrita” significa “um ator em um palco”. Os fariseus eram exatamente assim, eles queriam mostrar a todos que estavam jejuando, e apenas estavam adicionando juízo a eles mesmos.

Jejue apenas quando o seu coração clama por jejum. E o seu coração deve clamar por jejum se você for realmente consagrado a Deus. E quando você faz isso, você está entrando na esfera de bênçãos de Deus.

Mas lembre-se: não faça disso uma demonstração pública e não faça isso para impressionar aos outros. Não cruze essa linha. Já vi pessoas fazendo isso. E Jesus disse: “Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa” (Mt 6.16). Ou seja, impressionaram as pessoas, e é tudo que conseguiram com o falso jejum.

Esse não é o tipo de jejum que Deus busca. Não procure demonstrar aos outros que você jejua, não faça propaganda de seu jejum. Há momentos na minha vida em que sou conduzido ao jejum, e jejuo secretamente em vez de fazer um discurso sobre o meu jejum.

Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto, com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará. (Mt 6:17-18).

Jesus falou: “unge a cabeça e lava o rosto”. Os judeus costumavam se ungir com um óleo hidratante e aromático para proteger a pele do ressecamento diante do calor intenso e reduzir odores corporais. Era assim que se preparavam e se vestiam.

Mas os fariseus andavam pelas ruas com os cabelos não penteados, vestiam roupas velhas e se sujavam de terra. Cobriam o rosto com uma substância branca para ficarem pálidos e jogavam cinzas na cabeça. E desfilavam no dia de mercado para que todos vissem o quão espirituais eles realmente eram.

Quando ensinamos sobre o jejum dizemos que as pessoas devem jejuar e podemos dizer que já jejuamos, só não devemos ficar alardeando que estamos jejuando. O jejum deve ser um ato secreto entre o crente e Deus. O Senhor verá o jejum, e isso é o que realmente importa.

Conclusão

Através do profeta Zacarias Deus perguntou ao povo e aos sacerdotes:

Fala a todo o povo desta terra e aos sacerdotes: Quando jejuastes e pranteastes, no quinto e no sétimo mês, durante estes setenta anos, acaso, foi para mim que jejuastes, com efeito, para mim? (Zc 7.5).

Que pergunta. E o Senhor diz:

Endureceram o coração para não ouvirem a Lei e as palavras que o Senhor dos Exércitos tinha falado pelo seu Espírito por meio dos antigos profetas. Por isso o Senhor dos Exércitos irou-se muito. Quando eu os chamei, não deram ouvidos; por isso, quando eles me chamarem, também não ouvirei’, diz o Senhor dos Exércitos (Zc 7.12-13).

O jejum deles era rejeitado por Deus. Não há jejum verdadeiro sem uma vida de obediência à Palavra de Deus. O jejum que Deus aceita vem de um coração verdadeiro.

A parte mais específica sobre jejum em toda a Bíblia está em Isaías 58, é uma declaração confrontadora. Eles jejuaram e se consideraram tão bons porque o fizeram. Mas Deus diz ao povo:

Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso? Por que afligimos a nossa alma, e tu o não sabes? Eis que, no dia em que jejuais, achais o vosso próprio contentamento e requereis todo o vosso trabalho. Eis que, para contendas e debates, jejuais e para dardes punhadas impiamente; não jejueis como hoje, para fazer ouvir a vossa voz no alto. Seria este o jejum que eu escolheria: que o homem um dia aflija a sua alma, que incline a cabeça como o junco e estenda debaixo de si pano de saco grosseiro e cinza? Chamarias tu a isso jejum e dia aprazível ao Senhor? Porventura, não é este o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo, e que deixes livres os quebrantados, e que despedaces todo o jugo? Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto e recolhas em casa os pobres desterrados? E, vendo o nu, o cubras e não te escondas daquele que é da tua carne? Então, romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará, e a tua justiça irá adiante da tua face, e a glória do Senhor será a tua retaguarda. Então, clamarás, e o Senhor te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me aqui; acontecerá isso se tirares do meio de ti o jugo, o estender do dedo e o falar vaidade; e, se abrires a tua alma ao faminto e fartares a alma aflita, então, a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia. E o Senhor te guiará continuamente, e fartará a tua alma em lugares secos, e fortificará teus ossos; e serás como um jardim regado e como um manancial cujas águas nunca faltam. (Is 58.3-11)

Deus jamais poderia aceitar o jejum de um povo em desobediência e vivendo de forma injusta. Ele rejeitou todo aquele jejum inútil e sem qualquer valor espiritual.

O jejum deve ser resultado de uma vida quebrantada pela Palavra de Deus e que está cheia de anseios espirituais diante de Deus. A um coração assim, Deus diz: “Então, clamarás, e o Senhor te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me aqui…” (Is 58.9).

Se você realmente quer ser abençoado, jejue com um coração verdadeiro, puro e obediente. Se o seu caráter estiver correto e a sua vida estiver correta, às vezes, em suas orações, haverá tanta intensidade por algo que o jejum será uma consequência muito natural da oração.

E nesses momentos de grande intensidade, Deus honrará e abençoará, não porque você jejuou, mas porque seu coração era tão puro, e seu jejum foi aceito por Deus. Deus abençoa esse tipo de coração. Vamos orar.

Obrigado, Pai, pelo nosso tempo hoje para cobrir e concluir o nosso estudo sobre esta passagem bíblica. Oh, quão necessário, Senhor, é que entendamos isso. E, novamente, à medida que entendemos tantas coisas, se estivermos em harmonia contigo, todas essas outras coisas encontrarão o seu devido lugar. Os corretivos nem são necessários se houver corações puros.

Deus, quebranta nossos corações, sensibilize-nos, atraia-nos à Tua presença como aqueles que oram tão verdadeira e fielmente que o jejum acontecerá quando tiver que acontecer. Toque cada vida aqui nesta manhã com exatamente o que é necessário. Em nome de Cristo. Amém.


Leia também: O Jejum Bíblico (Parte 1)


Clique aqui e veja também o índice com os links dos sermões traduzidos sobre o Evangelho de Mateus


Este texto é uma síntese do sermão “Fasting Without Hypocrisy – part 2”, de John MacArthur, em 04/11/1979.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/sermons/2232/fasting-without-hypocrisy-part-2

Tradução e síntese feitas pelo site Rei Eterno


 

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