O Jejum Bíblico (1)

Nas Escrituras o jejum não possui um fim em si mesmo. Todos os benefícios do jejum bíblico são indiretos, não diretos. O jejum nunca é algo isolado para criar alguma virtude em si mesmo. O uso inadequado do jejum o degenera em superstição. Deve haver um contexto espiritual para que um jejum seja bíblico. E isso é essencial.

Em Mateus, capítulo 6, Jesus confrontou a hipocrisia dos fariseus, falando inicialmente sobre as esmolas e as orações hipócritas. Ele diz:

Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens (Mt 6.2).

E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens (Mt 6.5).

Jesus acrescentou mais uma marca da religião hipócrita: os jejuns movidos pela busca de glória humana, de mera aparência de espiritualidade. Ele diz:

Mateus 6
16 Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa.
17 Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto,
18 com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.

Os fariseus, os escribas e os judeus praticavam muitos jejuns, algo muito comum no seu sistema religioso. Antes de entendermos a correção do Senhor, precisamos entender o que é o jejum, algo pouco compreendido pela igreja. O jejum é um fenômeno muito popular hoje, mas isso não deve ser confundido com o que a Bíblia nos ensina sobre o jejum.

Glorificando a Deus por sua provisão de alimentos

Estou muito ciente do fato de que todos nós gostamos de comida e eu também gosto. Não sou diferente de ninguém. Também estou muito ciente do fato de que Deus, de uma forma maravilhosa, permite isso. Deus queria que tivéssemos a plenitude de desfrutar tudo o que há para desfrutar na comida.

E sempre foi assim. Quando o Senhor e dois anjos visitaram Abraão, eles fizeram uma refeição juntos (Gn 18.1-8). Ao longo de todo o Antigo Testamento, o povo de Deus se reunia para desfrutar uma refeição. E isso se repetiu com a igreja. Após a ressureição Jesus fez refeições com os discípulos (Lc 24.36-43; Jo 21.12-13; At 1.1-3).

A comida fornece sustento, proporciona prazer e companheirismo. E penso que a comida proporciona uma certa dose de adoração, de glorificar ao Senhor, isso acontece quando somos conscientes de que cada refeição que comemos é um presente de Deus. Paulo escreveu: “portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Co 10.31).

A oração do Senhor diz: “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje” (Mt 6.11). É simplesmente o reconhecimento constante de que a fonte de todo o nosso sustento é o próprio Deus, que nos concede o alimento que comemos. Deus criou os alimentos e, por serem bons para o sustento, para o prazer, para a comunhão e para a adoração, devem ser recebidos com gratidão (1Tm 4.3).

Devemos ser gratos a Deus por sua provisão tão maravilhosa. Não há problema em comer e não há problema em gostar de comer. Deus criou os alimentos para que possamos desfrutá-los com bom senso. Mas, seja como for, há espaço para o jejum em nossas vidas.

A humanidade pratica jejuns há milênios por causas diversas

O jejum é um fenômeno muito popular e existe há milênios. E eles não estão relacionados ao jejum bíblico. Há tratamentos de saúde baseados em longos jejuns de vários dias, em que a pessoa ingere apenas água com alguns minerais, e que resulta na eliminação de toxinas presentes no corpo.

Há muitos livros falando sobre o jejum, mostrando grandes benefícios para o corpo e a mente. Li um livro com muitos testemunhos de pessoas falando do quanto foram grandemente beneficiadas com a prática regular do jejum.

Muitos pagãos acreditavam que os demônios entravam no corpo através da comida, e quando sentiam um ataque especial de demônios, paravam de comer para não receberem nenhum demônio. No misticismo oriental, os místicos estavam muito envolvidos na adoção do jejum.

Os discípulos de Buda jejuam. Francamente, Buda não parece ter chegado perto de um jejum, mas seus discípulos jejuam. E os discípulos de Buda acreditavam que – que você induz visões sobrenaturais ao jejuar. Ao longo da história muitos se entregaram ao jejum, mas, em regra, um tipo de jejum distinto daquele que é bíblico. 

Distinção entre o jejum popular e o jejum bíblico

Mas é preciso dizer: o que é físico não é espiritual, a Bíblia não fala em jejum por razões físicas. Há uma única remota indicação nesse sentido, em Isaías 58, que veremos na próxima vez, onde a palavra saúde é usada. Mas penso que se refere a uma totalidade espiritual, não física. E, a depender do que move uma pessoa a jejuar, o jejum pode ser até pecaminoso.

Estou distinguindo o que o mundo fala do jejum e o que a Bíblia ensina. Se você está em algum tipo de jejum por razões físicas, não pense que tem o direito de se sentir espiritual, é um mero engano. Esse tipo de jejum não tem valor espiritual algum.

Nas Escrituras o jejum não possui um fim em si mesmo. Todos os benefícios do jejum nas Escrituras são indiretos, não diretos. O jejum nunca é algo isolado para criar alguma virtude em si mesmo.

Ninguém é mais espiritual por não comer do que por comer, pois “o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). João Calvino escreveu que “onde o uso adequado do jejum não é bem compreendido, ele facilmente degenera em superstição”.

Não seja supersticioso em relação ao jejum, ele deve estar sempre conectado com outra coisa, e veremos isso à medida que avançarmos nesse estudo. Não estamos interessados em um jejum físico, egocêntrico e místico, não estamos interessados em um jejum apenas para dizer aos outros que jejuamos e nos sentir mais espirituais. Deve haver um contexto espiritual para que um jejum seja bíblico. E isso é essencial.

O jejum é uma ordem bíblica ou é voluntário?

Há apenas um único jejum ordenado por Deus em toda a Bíblia. E era um jejum nacional público. Conforme lemos em Levítico 16 e 23, no Dia da Expiação (Yom Kippur), em que os sacrifícios da nação eram oferecidos anualmente pelos pecados do povo, deveria haver um jejum (Lv 16. 29-31). Era um jejum ordenado por Deus: “Porque toda a alma, que naquele mesmo dia se não afligir, será extirpada do seu povo” (Lv 23.29).

Mas observe que era um jejum conectado a um profundo espírito de pesar na confissão de pecados. Isso deve lhe dar uma ideia do que é o jejum. Ele nunca está isolado de outra coisa. Está sempre conectado a um grande senso de ansiedade espiritual.

Além do jejum no Dia da Expiação, não há outro lugar na Bíblia que ordene o jejum, não se trata de um mandamento bíblico. Não há uma estrutura para o jejum delineada nas Escrituras. Há apenas uma variedade infinita. Agora, quando Jesus veio, o jejum já havia se tornado uma parte importante da sociedade judaica.

A distorção do jejum

O Antigo Testamento está repleto de jejuns. Havia muitos jejuns. Às vezes, praticados pela nação, às vezes, por um pequeno grupo de pessoas e, às vezes, por um único indivíduo. Mas, quando chegamos à época de Jesus, essa prática já havia ultrapassado os limites.

O que começou como um jejum verdadeiro, espontâneo, voluntário e sincero acabou como um ponto de demonstração hipócrita diante dos homens, onde alguns se exibiam tremendamente, passando uma falsa imagem de espiritualidade para os outros.

Os judeus costumavam jejuar para serem vistos pelos homens. E Jesus precisava corrigir isso. Lucas 18.12 diz que os fariseus jejuavam duas vezes por semana. O Talmude diz que eles jejuavam no segundo dia e no quinto dia, eles afirmavam que foram os dias que Moisés subiu e desceu do Sinai, eles então comemoravam isso com jejuns.

Por mais espiritual que pareça, se você olhar um pouco mais de perto a história judaica, na cidade de Jerusalém, os dois dias da semana em que eles jejuavam coincidiam com os dias em que as pessoas do campo vinham para a cidade. E então havia um momento ideal para exibir uma pretensa piedade.

Eles jejuavam por orgulho espiritual. Andavam pelas ruas com os cabelos não penteados, vestiam roupas velhas e se sujavam de terra. Cobriam o rosto com uma substância branca para ficarem pálidos e jogavam cinzas na cabeça. E desfilavam no dia de mercado para que todos vissem o quão espirituais eles realmente eram. Foi contra isso que Jesus falou.

O princípio do jejum

A palavra grega traduzida como “jejum” tem o sentido de abstinência total de alimentos. Há também um jejum parcial, em que a pessoa se abstém apenas de banquetes, luxos etc. Mas, o jejum mais comum é uma abstinência total de comida por um período curto ou longo.

Jejuar é quase o equivalente à frase “humilhar-se (ou afligir-se) diante do Senhor”. Levítico 16.29 diz: “afligireis a vossa alma”. Em outras palavras, é um ato de abnegação. Jejuar é negar a si mesmo. Mas não é feito de forma isolada, deve estar associado a algo mais, sob pena de perder seu significado.

Quanto tempo um jejum deve durar? Alguns dizem: “Bem, se você é realmente espiritual, jejua por 40 dias e 40 noites”. Se você não é tão espiritual, jejua por um dia. Mas a Bíblia não prescreve o tempo para um jejum. O tempo depende da pessoa, da circunstância, da situação e da necessidade.

Em 2 Coríntios 6:5 e 11.27 Paulo diz que fazia jejuns frequentemente. Em sua vida houve jejuns de diferentes tipos, em diferentes épocas, por diferentes razões e propósitos. Se jejuns frequentes fossem verdade para Paulo ele teria dito algo para nos ensinar. Em todos os mandamentos e diretivas que ele deu, nunca há nada sobre o jejum. É algo muito espontâneo, voluntário, individual e pessoal.

Como vimos, o único jejum público obrigatório era o Dia da Expiação (Lv 16 e 23), e quando Cristo morreu na cruz, o Dia da Expiação deixou de existir. Então o único jejum ordenado foi abolido. O que resta é um jejum pessoal, privado, espontâneo e voluntário. E é tanto assim, que a Bíblia nem sequer o ordena. O jejum é consequência de outra coisa.

Às vezes, na Bíblia, por exemplo, o mais comum era o jejum do nascer ao pôr do sol. Havia, em muitos casos no Antigo Testamento, jejuns de sete dias, como em 1 Samuel 31. Daniel, capítulo 10, fala sobre um jejum de três semanas. E então vimos em Lucas 18:12, onde o fariseu jejuava duas vezes por semana. Portanto, os tempos e a duração dos períodos variavam.

O jejum é realmente importante?

Bem, observe em nosso texto, Mateus 6, no versículo 16, Jesus diz: “quando jejuardes”. Depois, no versículo 17, ele diz “quando jejuardes”. Não é um ensino, mas é assumido como parte da vida de uma pessoa que representa o reino ou que faz parte dele.

As Escrituras falam de muitas pessoas que jejuaram, tais como Moisés, Sansão, Samuel, Ana, Saul, Jônatas, Davi, Elias, Josafá, Esdras, Neemias, Ester, Daniel, João Batista, Ana, os profetas e mestres de Antioquia e o apóstolo Paulo. E, mais significativamente, nosso próprio Senhor Jesus jejuou por 40 dias e 40 noites (Mt 4).

O Senhor sabia que os tempos de jejum na vida individual não haviam acabado, e que, mesmo depois de sua morte, ressurreição, ascensão e glorificação, os crentes jejuariam.

O jejum bíblico está relacionado ao luto

Então, chegaram ao pé dele os discípulos de João, dizendo: Por que jejuamos nós, e os fariseus, muitas vezes, e os teus discípulos não jejuam? E disse-lhes Jesus: Podem, porventura, andar tristes os filhos das bodas, enquanto o esposo está com eles? Dias, porém, virão em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão. (Mt 9:14-15).

Jesus disse que aquele não era o momento de jejum para seus discípulos, porque não era momento de andarem tristes. Então, o jejum está relacionado ao que? Ao luto. O jejum é sempre uma consequência de alguma profunda ansiedade espiritual. Esse é o ponto. E naquele momento Jesus disse que não havia razão para jejuar.

Em outras palavras, o jejum, sem o luto como fonte que o induz, não tem sentido. O jejum não tem um fim em si mesmo. O jejum é uma resposta, não um incentivo a algo. E assim, Jesus disse: “eles não jejuam porque não há motivo para jejuar”. Mas vejam isto: “Dias virão em que o noivo lhes será tirado, e então jejuarão.”

Vivemos em um período em que o noivo nos foi tirado, a ceia das bodas do Cordeiro ocorrerá quando estivermos unidos a Cristo, mas até esse tempo, diz nosso Senhor, haverá jejum. Por quê? Porque haverá luta espiritual e, na ausência do noivo, não será como na sua presença.

Jesus está simplesmente dizendo que haverá tempos de jejum. E ao longo da história da igreja, houve aqueles momentos em que o jejum seria a resposta correta. Há uma prioridade no jejum. Ele tem um lugar prioritário nesta era. Pertence a esta era. Não pertencia aos discípulos quando Jesus estava presente. Pertence a este tempo e a este lugar e a nós nesta hora.

Vimos o princípio, o período, a prioridade e agora a provocação. Se o jejum tem um lugar, então o que nos leva a jejuar? Se é uma consequência de algo e se é uma resposta, então o que traz essa resposta?

Há cerca de oito áreas e vamos ver algumas agora e outras na próxima vez.

1) O jejum como resultado de lamentação

Quando a praga atingiu o povo de Deus houve um jejum (Jl 1:14). Quando Neemias ouviu sobre a desolação em que se encontrava Jerusalém, seu coração se partiu. Ele disse: “Tendo eu ouvido estas palavras, assentei-me, e chorei, e lamentei por alguns dias; e estive jejuando e orando perante o Deus dos céus” (Ne 1:4).

Quando seus inimigos adoeceram, Davi escreveu que “as minhas vestes eram pano de saco; eu afligia a minha alma com jejum e em oração me reclinava sobre o peito” (Sl 35:13). Diante de seu lamento pela morte de Abner, Davi recusou comer qualquer coisa até o pôr do sol (2Sm 3.35).

Quando seu filho com Bate-Seba foi acometido de uma doença terrível e fatal, a Escritura diz que “Buscou Davi a Deus pela criança; jejuou Davi e, vindo, passou a noite prostrado em terra”.

Ao lamentar a morte de Saul e de Jônatas, Davi, e todos que estavam com ele “prantearam, choraram e jejuaram até a tarde por Saul, e por Jônatas, seu filho, e pelo povo do Senhor, e pela casa de Israel, porque tinham caído à espada” (2Sm 1.12).

Então, às vezes, a lamentação era muito pessoal; às vezes, lamentavam por outra pessoa, um amigo; às vezes, por um inimigo; às vezes, por um grupo inteiro de pessoas que foram mortas. E em meio a tal lamentação, estavam tão cansados que perderam o apetite. E o corpo reage às ansiedades da mente, e a comida é a coisa mais distante do desejo de seus corações.

É por isso que digo que o jejum não é algo que você simplesmente se voluntaria para fazer, sai e faz, achando que é espiritual por isso. O jejum é quase uma resposta muito natural à ansiedade do coração e da alma que surge em meio a um momento de luto ou tristeza.

Nós nos identificamos com isso em certo sentido, quando se trata da nossa própria vida ou da nossa família. Naquela época as pessoas se conheciam e o mundo era pequeno. E tudo afetava todos, as coisas eram muito mais simples. Hoje sabemos tanto sobre tantas pessoas doentes e sobre tantas tragédias que, para proteger nossas emoções, acabamos nos tornando insensíveis. É um mecanismo de defesa.

Mas é uma boa ilustração de quão distantes estamos da mente de Cristo. Ele sabia tudo o que havia para saber, compreendia todo sofrimento e podia reunir em seu coração onisciente todos os sofrimentos de cada ser humano que já viveu. Mas isso não o tornou insensível. Ele lamentou sobre a cidade de Jerusalém (Mt 23.37-39), lamentou diante da morte de Lázaro (Jo 11.35) e era movido sempre por amor e compaixão.

Mas nós nos habituamos a ouvir sobre tragédias e nos tornamos insensíveis para nos proteger de desmoronar emocionalmente. E assim, isso nos diz que estamos muito longe de Cristo.

Não duvido que, se seu filho estivesse doente, você jejuaria. Você jejua quando seu amigo está doente? Você jejua quando seu inimigo está doente? Você jejua quando uma tragédia acontece porque entristece profundamente seu coração ver pessoas lançadas no inferno sem Cristo?

Qual é a sua reação? As pessoas dizem: “Bem, você sabe, eu simplesmente não jejuo muito porque não tenho esse tipo de tragédia na minha vida”. Mas isso realmente não é uma desculpa. Jejuaríamos mais se fôssemos sensíveis a coisas que deveriam ser preocupações nossas. E assim, o jejum surgiu como resultado da lamentação. E o corpo, em certo sentido, reage à ansiedade e à tristeza do coração removendo completamente o desejo por comida.

2) O jejum como resultado do perigo, da provação e do medo

Houve momentos em que as pessoas estavam em perigo tão grave que o medo as forçava a jejuar. O medo as impedia de comer. E elas sabiam que sua única proteção e libertação era Deus. E assim, jejuavam e literalmente clamavam a Deus sob grave perigo e severa provação. Não havia espaço para comida.

Quando os amonitas e os moabitas se uniram contra Josafá, rei de Judá, a derrota de Judá era certa. O medo mobilizou Josafá e todo o povo de Judá, então jejuaram esperado um socorro da parte de Deus. Então, Josafá teve medo e se pôs a buscar ao Senhor; e apregoou jejum em todo o Judá. Judá se congregou para pedir socorro ao Senhor; também de todas as cidades de Judá veio gente para buscar ao Senhor (2Cr 20.3-4).

Hamã tramou contra o povo judeu e levou o rei Assuero a decretar a morte dos judeus (Et 3). Quando o decreto do rei foi divulgado “em todas as províncias aonde chegava a palavra do rei e a sua lei, havia entre os judeus grande luto, com jejum, e choro, e lamentação; e muitos se deitavam em pano de saco e em cinza” (Et 4:3). Ester iria arriscar sua própria vida para tentar convencer o rei a revogar tal decreto, então ela disse a Mordecai:

Vai, ajunta a todos os judeus que se acharem em Susã, e jejuai por mim, e não comais, nem bebais por três dias, nem de noite nem de dia; eu e as minhas servas também jejuaremos. Depois, irei ter com o rei, ainda que é contra a lei; se perecer, pereci” (Et 4.16).

Esdras estava prestes a conduzir o povo para fora do cativeiro babilônico. E, ao se aproximar da desafiadora jornada que envolvia graves perigos pela possibilidade de ataques inimigos, ele apregoou um jejum. Ele escreveu:

Então, apregoei ali um jejum junto ao rio Aava, para nos humilharmos perante o nosso Deus, para lhe pedirmos jornada feliz para nós, para nossos filhos e para tudo o que era nosso. Porque tive vergonha de pedir ao rei exército e cavaleiros para nos defenderem do inimigo no caminho, porquanto já lhe havíamos dito: A boa mão do nosso Deus é sobre todos os que o buscam, para o bem deles; mas a sua força e a sua ira, contra todos os que o abandonam. Nós, pois, jejuamos e pedimos isto ao nosso Deus, e ele nos atendeu (Es 8.21-23).

Como ele havia testemunhado do poder, soberania e amor de Deus para com aqueles que o buscam, seria contraditório ele confiar no exército do rei e não no Senhor que livrou Judá do cativeiro babilônico. Se fizesse isso ele estaria desacreditando do caráter de Deus. Então apregoou um jejum para conduzir o povo em segurança naquela jornada.

3) O jejum como resultado da humilhação

No Dia da Expiação o povo deveria jejuar na confissão de seus pecados (Lv 23.19). Há momentos em que somos perturbados por nosso pecado, neste momento não podemos pensar em comida, mas em derramar nossos corações perante Deus.

Davi cometeu um pecado hediondo, mas tentou ocultá-lo. No auge de sua vida, quando não lhe faltava as bênçãos do Senhor, ele adulterou com Bate-Seba (2Sm 11), esposa de um de seus oficiais militares chamado Urias. Se não bastasse, ele ainda tramou deixá-lo vulnerável numa batalha para que fosse morto.

O profeta Natã foi a Davi e lhe contou a história de um homem muito rico que se apossou injustamente do pouco que um pobre tinha. Davi se irou e disse: “o homem que fez isso deve ser morto” (2Sm 12.5). Natã lhe respondeu: “Tu és esse homem Davi” (2Sm 12.7). Em seus escritos Davi revela o desespero que viveu por causa de seu pecado:

Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia, porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim, e o meu vigor se tornou em sequidão de estio. Confessei-te o meu pecado e a minha iniquidade não mais ocultei. Disse: confessarei ao Senhor as minhas transgressões; e tu perdoaste a iniquidade do meu pecado. (Sl 32.3-5).

Compadece-te de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; e, segundo a multidão das tuas misericórdias, apaga as minhas transgressões. Lava-me completamente da minha iniquidade e purifica-me do meu pecado. Pois eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim […] Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável. Não me repulses da tua presença, nem me retires o teu Santo Espírito. Restitui-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito voluntário (Sl 51:1-3; 10-12).

Suas forças vitais secaram, ele estava dolorido da cabeça aos pés. Ele estava doente. Ele não conseguia comer, não conseguia dormir, não conseguia existir. Mas tudo isso mudou quando ele se humilhou diante de Deus com confissão, arrependimento e clamor de restauração.

Houve muitas vezes em que o povo de Deus confessou pecados. E o jejum fazia parte disso, a comida era a última coisa em suas mentes. O que eles ansiavam era pela restauração da comunhão com Deus. Davi disse: “humilhei-me com jejum e recolhi-me em oração” (Sl 35.13).

O povo de Nínive se arrependeu de seus pecados com a pregação de Jonas e jejuou enquanto confessava (Jn 3.5-9). Daniel orou a Deus, jejuou, se humilhou, confessou os pecados do seu povo e clamou por perdão (Dn 9.2-19).

Saulo de Tarso foi ferido na Estrada de Damasco, caiu na terra e se levantou dali. O Senhor Jesus, a quem ele perseguia, se revelou a ele de forma irresistível. Por três dias ele nada comeu e nem bebeu (At 9.9).

Quando Samuel exortou Israel ao arrependimento por seu pecado de idolatria, “congregaram-se em Mispa, tiraram água e a derramaram perante o Senhor; jejuaram aquele dia e ali disseram: Pecamos contra o Senhor” (1Sm 7.6).

Acabe foi um rei mau sobre Israel, foi lhe dito que o julgamento de Deus era contra ele por causa de suas atividades abomináveis em seguir os ídolos. Em 1 Reis 1.27-29 diz:

Tendo Acabe ouvido estas palavras, rasgou as suas vestes, cobriu de pano de saco o seu corpo e jejuou; dormia em panos de saco e andava cabisbaixo. Então, veio a palavra do Senhor a Elias, o tesbita, dizendo: Não viste que Acabe se humilha perante mim? Portanto, visto que se humilha perante mim, não trarei este mal nos seus dias, mas nos dias de seu filho o trarei sobre a sua casa.

O homem cheio de si mesmo se tornou um homem esmagado e quebrado que perdeu toda a necessidade de alimento e jejuou em contrição. Deus realmente recompensou aquele homem pelo verdadeiro arrependimento, mesmo tendo vivido uma vida vil e miserável.

O jejum flui da necessidade de se concentrar em um relacionamento correto com Deus. O físico desaparece. Eu entendo isso de certa forma na minha vida. Espero que você entenda. Há dias em que me sinto sobrecarregado por alguma coisa, e a comida perde todo o significado para mim.

Há um lugar para o jejum, amados, o lugar certo. E se vocês não jejuam, não quero que saiam correndo e comecem a jejuar para se tornarem espirituais. Isso não tem valor algum.

Quero que peçam a Deus que lhes dê o tipo de coração compassivo que os fará se importar tanto com as coisas tristes em suas vidas e nas vidas dos outros, com a necessidade da libertação divina que só Deus pode trazer, com o pecado em suas vidas e nos pecados dos outros.

Que a lamentação, a necessidade de proteção e a humilhação, não importa se é no seu caso ou no caso de outra pessoa, os leve ao ponto de preocupação e compaixão, afastando-se das coisas do mundo, mesmo as tão rotineiras quanto comer.

Deus nos deu todas as coisas boas para desfrutarmos. Amados, aproveitem. Mas quando vocês estiverem em uma luta espiritual e forem consumidos pelas coisas de Deus, saibam que é correto se abster dessas coisas para continuar sua concentração e seu foco naquilo que é espiritual e divino. Que Deus nos ajude a ser mais sensíveis para que o jejum, em seu sentido mais verdadeiro, possa fazer parte de nossas vidas.

No próximo sermão vamos falar do ponto chave em que tudo se fundamenta no jejum, peço a Deus que nos prepare para concluirmos esse assunto tão importante. Vamos orar.

Pai, às vezes sinto que não consegui cobrir o que tanto queria cobrir, mas confio no Teu espírito. O tempo parece ser meu inimigo, mas sei que, por teres limitado as nossas vidas com o tempo, o tempo pode realmente ser nosso aliado. Então, mesmo que não tenhamos conseguido terminar, Senhor, oramos para que guardes estas coisas em nossos corações para que possamos juntar na próxima vez e ter a imagem completa sobre o jejum.

Ajuda-nos, Senhor, a sermos compassivos. Ajuda-nos a não nos tornarmos insensíveis. Ajuda-nos a não ficarmos tão preocupados com confortos materiais, aos quais podemos tão facilmente nos refugiar, a ponto de o mundo real nunca nos tocar. Dá-nos o coração de Cristo, que pôde conhecer todos os sofrimentos que já ocorreram em toda a história humana e, ainda assim, chorar por um deles.

Ajuda-nos, Senhor, a entender o que é estar tão imersos na comunhão espiritual a ponto de perdermos a noção até mesmo das coisas básicas, como comida e bebida. Ajuda-nos a conhecer a experiência de estarmos tão consumidos que essas coisas se tornam o mais distante de nossas mentes. Ajuda-nos a sermos tanto o Teu povo chamado à Tua presença que todo o resto se desvanece, exceto a concentração na Tua palavra e em Ti. Obrigado, Senhor, por falar conosco esta manhã, e nós Te louvamos pela clareza da Tua palavra. Ajuda-nos a ser obedientes a ela. Em nome de Cristo. Amém.


Leia também: O Jejum Bíblico (2)


Clique aqui e veja também o índice com os links dos sermões traduzidos sobre o Evangelho de Mateus


Este texto é uma síntese do sermão “Fasting Without Hypocrisy”, de John MacArthur em 28/10/1979.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/sermons/2231/fasting-without-hypocrisy-part-1

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


 

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