O Alicerce da Igreja de Cristo

Os filósofos afimam que não sabem de onde vimos, nem porque existimos e que não estamos indo para lugar algum. Mas, em meio a isso, a igreja de Jesus Cristo postula o fato de que cada um de nós foi criado para glorificar a Deus, e que seu povo fará isso por toda a eternidade. Deus criou o universo e o homem para o louvor de sua glória.

Na última vez, começamos a examinar Mateus 16.18-20, um texto muito importante na Palavra de Deus. Antes de prosseguirmos vamos rever seu contexto a partir do versículo 13.

Mateus 16
13 Indo Jesus para os lados de Cesareia de Filipe, perguntou a seus discípulos: Quem diz o povo ser o Filho do Homem?
14 E eles responderam: Uns dizem: João Batista; outros: Elias; e outros: Jeremias ou algum dos profetas.
15 Mas vós, continuou ele, quem dizeis que eu sou?
16 Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.
17 Então, Jesus lhe afirmou: Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus.
18 Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.
19 Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus.
20 Então, advertiu os discípulos de que a ninguém dissessem ser ele o Cristo.

A chave para esta passagem encontra-se no versículo 18, na declaração do nosso Senhor: “Edificarei a minha igreja”. Ao longo de toda a história, Deus tem reunido um povo redimido e constituído uma assembleia a quem ele imputou a justiça de Cristo. Todas as forças de Satanás, da carne e do sistema mundano não foram capazes de impedir o fato de Deus estar reunindo a sua comunidade redimida.

O propósito da existência do homem

Deus criou o universo e o homem para o louvor de sua glória (Sl 19.1; 148; Is 43.7; Ef 1.3-12). Todas as coisas foram feitas por ele e para ele (Cl 1.16). Deus está reunindo uma assembleia de pessoas redimidas que serão para sempre para o louvor da sua glória. E esse é o tema da história, essa é a razão da existência humana.

Filósofos e historiadores, ao longo de toda a história, questionaram: Por que existimos? Por que o homem é o que é? Qual o propósito da existência? Qual o sentido da vida? Por que estamos aqui? Para a maioria deles não há segredo e nem plano na história a ser descoberto. Ou seja, para eles não há lógica e nem razão para a existência do universo e do homem.

André Moreau (biógrafo, crítico e romancista francês) escreveu: “O universo é indiferente. Quem o criou? Por que estamos aqui, neste insignificante monte de lama, girando no espaço infinito? Não tenho a menor ideia, e estou convencido de que ninguém mais tem”.

Os antigos gregos acreditavam que a vida era um círculo que se repetia indefinidamente, sem levar a lugar nenhum em particular, sem propósito e sem objetivo. Era um mistério incompreensível. O escritor francês Jean-Paul Sartre ensinou que cada homem existe em um compartimento estanque, como um indivíduo completamente isolado em meio a um universo sem propósito.

Francis Schaeffer Monod afirmou: “A existência do homem se deve à colisão fortuita entre minúsculas partículas de ácido nucleico e proteínas em uma vasta sopa pré-biótica”. Ele diz: “Toda a vida resulta da interação do puro acaso e da necessidade. O homem está completamente sozinho na imensidão insensível do universo, do qual emergiu apenas por acaso; seu destino não está definido em lugar nenhum, nem seu dever. O homem é o produto do impessoal, do tempo e do acaso”.

Esses pensamentos esmagaram a sociedade e resultaram na ignorância em relação ao passado e na desesperança em relação ao futuro. Os filósofos concluíram que não temos razão alguma em existir. Assim o hedonismo, que afirma ser o comportamento humano determinado por desejos de aumentar o prazer e diminuir a dor, triunfou em um mundo que desconhece o porquê de sua existência.

Mas, em meio a isso, a igreja de Jesus Cristo postula o fato de que cada um de nós foi criado por uma razão muito específica, e essa razão é glorificar a Deus.

O mundo se rebelou contra esse propósito divino, mas Deus chama a si aqueles que se tornarão a assembleia redimida, que para sempre o glorificarão. Essa é a razão da história. Esse é o propósito da existência humana. Existimos para o louvor da glória de Deus. Por isso a Escritura diz: “quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31).

É por isso que tudo o que somos e temos, em última análise, está destinado a glorificar a Deus, porque Deus é o único digno de glória. Ele criou o homem para glorificá-lo eternamente, refletir eternamente a sua majestade, o esplendor e a maravilha de sua gloriosa pessoa. E dentre os rebeldes que povoam este mundo, Deus está reunindo essa comunidade redimida que será obediente para glorificá-Lo. E esse é o propósito da vida humana.

O plano soberano de Deus em Jesus Cristo

Os discípulos de Jesus foram instruídos de que, quando o Messias viesse pela primeira vez, ele reinaria aqui na terra como rei, libertaria o seu povo da escravidão e da opressão em que se encontravam. Traria justiça, paz, prosperidade, estabeleceria o trono de seu pai Davi e reinaria e governaria a partir de Jerusalém. Então haveria prosperidade econômica, religiosa, política e militar.

O Messias veio, porém nada do que os discípulos esperavam aconteceu. As pessoas não sabiam quem era Jesus. Uns pensavam que ele era João Batista, Elias, Jeremias, um dos profetas. Os líderes religiosos o odiavam, o desprezavam, queriam a sua morte e zombavam dele. Diziam que operava sinais por meio de Satanás (Mt 12.22-24) e que era um endemoninhado (Jo 10.48).

Veja bem, todas as expectativas dos discípulos estavam frustradas. E agora eles estão em Cesareia de Filipe, como diz o versículo 13, que fica no extremo nordeste de Israel, eles estavam numa espécie de exílio porque a situação na Galileia estava tão tensa que eles tiveram que se refugiar num lugar seguro e tranquilo.

O plano que eles tinham em mente estava frustrado. E para piorar a situação, eles ouviram o discurso em que Jesus disse que “era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitado no terceiro dia” (Mt 16.21). Ou seja, o Messias, o Filho de Deus, o Rei, sendo perseguido, maltratado e morto por homens era uma ideia inconcebível, mesmo conhecendo as profecias do Antigo Testamento (Is 53 etc.).

Em meio a essa situação nebulosa, podemos imaginar que os discípulos se perguntariam se haviam escolhido a pessoa certa e se o plano não havia sido totalmente arruinado. Mas Pedro afirmou: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Em outra ocasião o mesmo Pedro afirmou: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna; e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus” (Jo 6.68-69).

Mas será que o plano deu errado? E é exatamente nesse momento, quando Jesus caminha para a sombra da cruz, faltando apenas alguns meses para o calvário, e o tempo com seus discípulos estava terminando, o Senhor seguia firme, confiante e soberano em meio ao que parecia ser, humanamente, um plano fracassado. Ele afirmou: “Edificarei a minha igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.”

Isso encoraja e fortalece nossos corações. Essa passagem tem sido a força e o encorajamento de muitos santos ao longo dos anos, que se viram em situações em que se perguntavam se Deus não estava perdendo a batalha, se as coisas não estavam se encaminhando para o bem, mas para o mal.

Essa tem sido a esperança confiante de todos nós: que Cristo continua a reunir o seu povo redimido. E essa é a razão de ser da história: que se reúna uma comunidade redimida, a universal assembleia e igreja dos primogênitos arrolados nos céus (Hb 12.22-23), que para sempre será para o louvor da Sua glória. E assim, o nosso Senhor lhes dá essa confiança.

Os atributos da igreja de Cristo

Mateus 16
18 Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

Vemos a certeza disso. A igreja edificada por Cristo é uma igreja certa. “Edificarei a minha igreja.” Há certeza nisso. Há a promessa e o poder de Deus ali. Ela se baseia na fidelidade dele; podemos confiar nisso.

Vemos a intimidade nessa declaração. “Minha”, ou seja, a igreja é dele. A igreja é a sua própria possessão pessoal. Ele não se envergonha de nos chamar de irmãos (Hb 2.11), ele nos chamou a uma intimidade com ele. Jesus declarou:

Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora (Jo 6.37)

As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão (Jo 10.27-28).

Há uma identidade de Cristo com sua igreja. Ele a chama de “igreja”, “ekklesia”, de “ek kaleō”, que significa “convocar”. Ekklesia (traduzido como igreja), é uma é termo geral, não técnico. É usada de muitas maneiras. Significa um grupo convocado para uma determinada reunião. Os gregos a usavam para se referir a uma assembleia municipal. A palavra ekklesia, por exemplo, aparece em Atos 7:38 referindo-se a Israel. Eles são chamados de “ekklesia” no deserto.

A multidão revoltada em Éfeso é chamada de “ekklesia” (At 19.32), ou seja, um grupo de pessoas reunidas, uma assembleia que se envolveu em um motim. Em Hebreus 12.22-24, todos os redimidos de todas as épocas reunidos diante do trono de Deus são chamados de igreja, a ekklesia.

Portanto, a palavra tem um significado muito geral, não cometa o erro de identificar este versículo apenas com a igreja do Novo Testamento, porque foi usada em um sentido muito geral. E a igreja nem sequer havia sido fundada até o capítulo 2 de Atos. O que o Senhor está dizendo é: “Continuarei edificando o meu povo redimido, reunindo a minha assembleia”.

O uso técnico da palavra “igreja” começa a partir do livro de Atos e se estende às epístolas. Um paralelo seria observar o uso simples da palavra diácono em Atos 6: “para servir (diakonein) às mesas” (At 6.2) e “ministério (diakonia) da palavra” (At 6.4). Em 1 Timóteo ela aparece com um uso específico, indicando um cargo oficial na igreja: “quanto a diáconos (diakonous), é necessário que sejam respeitáveis…” (1Tm 3.8).

A palavra igreja (ekkesia) passou de um uso muito geral para algo bem específico. Em Mateus 16.18 o Senhor está dizendo: “Continuarei a edificar o meu povo reunido”. Portanto, o Senhor está edificando uma igreja com certeza, com intimidade e com identidade. O povo redimido que veio a Deus pela fé tem intimidade com ele, e a sua igreja segue em direção à sua plenitude.

Qual é o fundamento da igreja que o Senhor está edificando?

Está escrito em Mateus 16.18: “Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”. O Senhor disse que iria edificar a sua igreja sobre uma rocha ou pedra. A questão que se coloca é: o que é essa rocha ou pedra?

Uma heresia conclui que a igreja foi estabelecida sobre Pedro, pois o nome “Pedro” é a tradução da palavra grega “Petros”, que significa, “pedra” ou “rocha”. Como Jesus disse que sobre essa pedra ele edificaria sua igreja, então a Igreja teria sido edificada sobre Pedro. Portanto, Pedro teria sido estabelecido como o primeiro papa, o primeiro chefe da Igreja.

A teologia católica afirma que o papa é coroado com uma tríplice coroa: rei do céu, rei da terra e rei do inferno. Ele empunha duas espadas, a espiritual e a temporal. O Senhor teria conferido a Pedro o primeiro lugar de honra e jurisdição no governo de toda a sua Igreja, e essa mesma autoridade espiritual sempre residiu nos papas e bispos de Roma, como sucessores de Pedro.

Consequentemente, diz a teologia católica, para serem verdadeiros seguidores de Cristo, todos os cristãos, tanto do clero quanto dos leigos, devem estar em comunhão com o papa de Roma, onde Pedro ainda reina na pessoa de seu sucessor.

Sinceramente, não quero perder muito tempo argumentando contra isso, porque essa conclusão é totalmente desprovida de qualquer fundamento bíblico.

O cabeça da igreja é Cristo e não Pedro ou qualquer outro homem (Ef 4.15-16; 5.23; Cl 1.18). Nem Pedro ou qualquer outro homem pode sustentar a igreja. Podemos demonstrar isso, biblicamente, de vários maneiras, mas vou apenas falar de duas refutações inquestionáveis de tal heresia.

Primeira refutação de que a igreja não é fundamentada em Pedro e sim em Cristo

Muitos abordam Mateus 16.18 com foco em garantir que nos livremos da ideia de que a igreja é edificada sobre Pedro.Tu és Pedro (Petros)”, a palavra grega “petros” é uma forma masculina da palavra “pedra” e tem o sentido de uma pedra ou rocha menor. “E sobre esta pedra (petra) edificarei minha igreja”, a palavra grega “petra” é uma palavra diferente, uma forma diferente da mesma raiz, e tem o sentido de uma pedra ou rocha maior.

Assim, a interpretação tradicional tem sido: “Você é Petros”, que significa “pedra”, “mas sobre esta petra”, ou seja, “uma montanha rochosa” ou um “pico rochoso”. Em outras palavras: “Você é uma pedra, mas sobre uma pedra maior eu vou construir minha igreja”, de modo que a declaração é um contraste. “Você é uma pequena rocha. Eu vou construir minha igreja sobre uma grande rocha.”

Retornado ao antecedente no versículo 16, a confissão de Pedro, a pedra maior é o que Pedro confessou: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. E assim o Senhor está dizendo: “Você é uma pequena rocha. Sobre essa grande rocha, essa confissão da realidade da minha divindade, eu vou construir a minha igreja”. Bem, é justo fazer isso com o texto, porque há uma diferença entre essas duas palavras.

Segunda refutação de que a igreja não é fundamentada em Pedro e sim em Cristo

Mas, ao estudar o assunto ultimamente, tenho pensado em outra direção. Em Efésios 2.20 , ao começar a refletir sobre isso, encontramos uma afirmação muito interessante. Diz aqui que a casa de Deus — ou o templo de Deus, ou a igreja de Cristo — está edificada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo o próprio Jesus Cristo a principal pedra angular.

O texto diz que a igreja está edificada sobre o fundamento dos apóstolos. Diz ali, então, exatamente o que estamos tentando impedir de encontrar em Mateus 16.18. Quando Pedro disse: “Tu é o Cristo, o Filho do Deus vivo”, ele expressou o consenso do grupo, e quando Cristo respondeu a Pedro, em um sentido muito real, ele respondeu ao grupo.

“Petros” é usado no caso de Pedro porque é uma forma masculina e ele é um homem. E, linguisticamente, não teremos problema em dizer: “Você é uma rocha, e sobre essa rocha construirei a minha igreja”. Ora, se aceitarmos isso, então estamos dizendo exatamente a mesma coisa que está escrito em Efésios 2.20 , que a igreja é edificada sobre o fundamento dos apóstolos, sendo Pedro um representante deles. E Pedro foi um representante importante.

O livro de Atos menciona Pedro 50 vezes nos primeiros doze capítulos. O sermão que ele pregou no dia de Pentecostes não foi apenas de Pedro, mas de Pedro falando em nome de todos os que creram (At 2). Todos eles abraçaram a mesma mensagem e, como resultado, três mil pessoas se converteram (At 2). Principalmente através do testemunho de Pedro mais duas mil pessoas foram acrescentadas à igreja posteriormente (At 3.11 a 4.4)

Foi através do testemunho e ministério de Pedro que o paralítico foi curado (At 3.1-10) e Dorcas foi ressuscitada (At 9.36-43). Foi através da liderança de Pedro que ocorreu a eleição de Matias para substituir Judas (At 1.15-26). Foi de Pedro a mensagem heroica perante o Sinédrio (At 4.5-22). Entre outros fatos registrados em Atos, vemos que Pedro foi uma pessoa fundamental e atuou como representante do ministério de todos eles.

Então, não vejo problema algum em o Senhor dizer, sem desconsiderar a primeira refutação, que o Senhor disse a Pedro: “Você é a rocha, e sobre essa rocha edificarei a minha igreja”. E, essencialmente, dizendo a mesma coisa que vimos em Efésios 2.20.

E agora surge a questão crucial: em que sentido a Igreja foi edificada sobre os apóstolos, sendo Pedro o líder deles? Os católicos romanos dizem que foi edificada sobre alguém que ascendeu a um posição de alto nível. Mas a Bíblia não diz isso. A igreja não foi edificada sobre os apóstolos, mas sobre os ensinamentos deles, homens que tiveram um chamado único de Deus para iniciar e fundamentar a igreja, que está alicerçada em Cristo (At 4.11; 1Pe 2.4-8; 1Co 3.11).

Por isso, quando a igreja primitiva se reunia, eles não adoravam os apóstolos, mas estudavam a doutrina e os ensinamentos dos apóstolos (At 2.42). Então, o que Ele está realmente dizendo é: “Você é Pedro e eu posso edificar a minha igreja sobre você como uma das pedras fundamentais, porque você afirmou: ‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo’, e você não recebeu isso da carne e do sangue, mas de meu Pai que está nos céus (Mt 16.17-17). E, como você é o instrumento pelo qual o Pai está revelando a sua verdade, eu posso edificar a minha igreja sobre isso.”

Quando olhamos para Efésios 2.20 e vemos que o fundamento da igreja são os apóstolos e profetas, não se trata de uma posição, cargo ou título deles, mas sim do fato de que eles terem lançado o fundamento. Eles proclamaram a Palavra de Deus, a ponto de, em muitos aspectos, serem inseparáveis de sua própria mensagem.

Acho que Martinho Lutero expressou isso muito bem. Ele disse: “Todos os que concordam com a confissão de Pedro são Pedros, estabelecendo um alicerce seguro”. E o Senhor ainda está edificando a sua Igreja e colocando essas pedras vivas de que Pedro falou (1Pe 2.5). Ele ainda está edificando a sua Igreja sobre aqueles que afirmam que a revelação de Deus a respeito de Cristo é verdadeira.

Visto de outra forma, um grupo de pessoas que não crê que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo, não tem lugar onde Cristo possa edificar a sua igreja.

Seja qualquer das duas refutações que acabei de falar, de qualquer forma, você chega à mesma conclusão. E assim, o fundamento da igreja é a revelação de Deus que nos foi dada por meio dos apóstolos. E hoje, estabelecemos esse fundamento ao firmar a Palavra de Deus, e a mantemos firme.

Em 1 Coríntios 3.11, Paulo aborda a questão de um ângulo um pouco diferente quando diz: “Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Cristo Jesus”. Temos o fundamento dos apóstolos e profetas, e aqui temos Cristo como fundamento. Não há contradição alguma. A única razão pela qual os apóstolos e profetas foram considerados as pedras fundamentais foi porque afirmaram a realidade de Cristo como o verdadeiro fundamento.

O Senhor estava reunindo todos esses discípulos nessa confissão e Ele diz: “Você disse isso, Pedro, e é sobre essa afirmação da revelação divina sobre quem eu sou, o Filho do Deus vivo, que posso edificar a minha igreja”. O Senhor edifica a sua igreja sobre a sua verdade, mas sempre escolheu revelar a sua verdade através do seu povo para que eles se tornem inseparáveis dessa verdade. Somos um com Cristo.

Seja Cristo, os apóstolos ou a Palavra, tudo diz a mesma coisa, porque todos estavam inseparavelmente ligados. E o Senhor ainda está edificando a sua igreja sobre pessoas que confessam a sua Palavra, que confessam o senhorio de Jesus Cristo, a divindade de Jesus Cristo e creem na Palavra de Deus. Ele ainda está edificando a igreja sobre o fundamento de Jesus Cristo e na doutrina dos apóstolos.

Jesus não estabeleceu a primazia de Pedro e nem de qualquer outro homem. No fim de seu ministério na Galileia, os discípulo perguntaram a Jesus: “Quem é, porventura, o maior no reino dos céus?” (Mt 18.1). Jesus colocou uma criança no meio deles e disse:

Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus. Portanto, aquele que se humilhar como esta criança, esse é o maior no reino dos céus (Mt 18.3-4).

Então, quem é o maior no Reino dos Céus? Qualquer um que se humilhe como uma criança. Quando a mãe de Tiago e João pediu que seus filhos ocupassem os maiores lugares no reino, Jesus lhe respondeu: “Não sabeis o que pedis” (Mt 20.22). Ao ver a indignação dos outros discípulos com tal pedido, Jesus lhe disse:

Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos (Mt 20.25-28).

E quanto a Pedro? Será que ele pensava que tinha sido nomeado o chefe da igreja?

Ao instruir presbíteros, Pedro escreveu:

Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda coparticipante da glória que há de ser revelada: pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho. Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória (1Pe 5.1-4)

Pedro se descreve como apenas mais uma testemunha dos sofrimentos de Cristo, participante da glória que há de ser revelada sobre todos que pertencem a Cristo.

Portanto, os discípulos nunca interpretaram que Pedro ou qualquer outro homem ocupa um lugar de primazia no reino de Deus. E o próprio Senhor nunca interpretou dessa forma, ele disse que o maior no Reino é aquele que se humilha como uma criança.

Portanto, a igreja é edificada sobre o fundamento da doutrina revelada por Deus através daqueles que foram os homens fundadores, sendo Pedro o líder e representante de todos eles. Paulo escreveu: “ninguém pode lançar outro fundamento (themelion = fundação de uma construção), além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo” (1Co 3.11).

O Filho encarnado não é apenas um componente do alicerce da Igreja. Ele é o único fundamento. Construir sobre qualquer outra coisa: lei, tradição e a sabedoria humana resultará em colapso final. O Novo Testamento insiste consistentemente que todos os propósitos salvíficos, santificadores e escatológicos de Deus convergem em Cristo.

A invencibilidade da igreja

Mateus 16
18 …edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

Muitos interpretam esta declaração imaginando Satanás, os demônios e suas forças atacando a igreja com tiros e explosões. Ora, quando um exército ataca, eles não carregam os portões de suas cidades e os atiram contra o inimigo. Portões não são armas.

Os portões se referem a algo que tentará manter a igreja cativa. E o que é esse algo? São os portões do Hades, traduzida aqui como “inferno”. O que é o Hades? A “morada dos mortos”. É o mesmo que a palavra hebraica “Sheol”. Não se refere ao tormento do inferno eterno, é simplesmente o termo usado para a sepultura, o lugar dos mortos.

Então, significa que: a morte não pode deter o povo redimido de Deus. Os portões da sepultura não podem nos reter. Há vitória através da sepultura, vida após a morte. É por isso que Jesus disse: “porque eu vivo, vós também vivereis” (Jo 14.19).

O pior que o diabo pode fazer contra a igreja é matar e martirizar cristãos. Ele tem o poder da morte (Hb 2.14). E Satanás sempre busca matar os cristãos, destruir a igreja, mas os portões do Hades não poderão nos deter.

Em seu sermão no dia de Pentecostes, Pedro declarou que a morte não podia reter Jesus (At 2.24). E como Cristo triunfou sobre a morte e vive em nós, não é possível que a morte nos detenha. Jesus declarou: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11.25). Paulo escreveu:

E, quando este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal se revestir de imortalidade, então, se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. Graças a Deus, que nos dá a vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo (1Co 15.54).

E quando Jesus declarou que a porta do Hades não prevaleceria contra a igreja, ele mesmo estava há pouco meses de ser crucificado. Da mesma forma seus apóstolos seriam martirizados por amor a Cristo. Mesmo com toda essa expectativa, Jesus lhes diz: “Eu edificarei a minha igreja e as portas do Hades jamais a deterão.”

É uma grande verdade. Esta é a promessa da ressurreição. Todo aquele que ama o Senhor Jesus Cristo deixa este mundo para entrar no mundo glorioso de Deus, ausente do corpo e instantaneamente na presença com o Senhor. Muito melhor partir e estar com Jesus Cristo.

E aguardamos justamente a redenção do corpo, quando Jesus voltar para nos levar para estar com ele. Então nossos corpos ressuscitarão da sepultura para se unirem aos espíritos que já estão com Jesus Cristo naquela forma glorificada na qual lhe daremos louvor e glória para todo o sempre. Por isso Paulo escreveu:

A nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória, segundo a eficácia do poder que ele tem de até subordinar a si todas as coisas (Fp 3.20-21).

Em sua glória, Jesus declarou: “Eu sou aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e do inferno” (Ap 1.18). Ele destruiu aquele que tem o poder da morte, ou seja, o diabo (Hb 2.14). Ele tomou as chaves das mãos dele e agora abre a sepultura e liberta os seus. Essa é a nossa esperança.

Imagine o quão importante era isso para aquele pequeno grupo de homens atemorizados naquele momento. Eles olhariam para trás, e chegaria o dia em que estariam no calor da batalha, e o Espírito Santo cumpriria a promessa que Jesus fez. Que ele, quando viesse, traria todas as coisas à memória deles (Jo 14.26). E imagino que houve momentos, em meio à luta deles pela causa de Jesus Cristo, em que eles podiam ouvir o eco das palavras de Jesus Cristo ressoando em suas mentes: “As portas do Hades não prevalecerão contra a igreja”.

A autoridade da igreja

Mateus 16
19 Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus.

Você diz: “Espere um minuto, Jesus disse isso a Pedro, é muito poder para uma pessoa só. Não é à toa que os católicos têm certeza de que Pedro teve a primazia na igreja e que ele tem as chaves do Reino dos Céus e pode dizer quem entra e quem sai. Quer dizer que Pedro recebeu essa autoridade?”

Sim, Pedro recebeu essa autoridade. Mas não somente ele. Após a ressurreição, Jesus disse aos discípulos: “Se de alguns perdoardes os pecados, são-lhes perdoados; se lhes retiverdes, são retidos” (Jo 20.23).

O texto não quer dizer foi nos dado poder para perdoar pecados, mas que podemos ousadamente declarar a certeza do perdão concedido ao pecador arrependido e que crê no evangelho. Também podemos afirmar aos que rejeitam a mensagem do evangelho, por meio da fé em Cristo, que seus pecados não são perdoados.

Em qualquer caso, a autoridade é da Palavra da Deus, a igreja apenas afirma e aplica o que Deus revelou na Escritura.

Em outra ocasião, já no final de seu ministério na Galileia, Jesus ensinou com tratar o pecado de um irmão. Ele disse:

Se teu irmão pecar [contra ti], vai argui-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano. Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra terá sido ligado nos céus, e tudo o que desligardes na terra terá sido desligado nos céus. Em verdade também vos digo que, se dois dentre vós, sobre a terra, concordarem a respeito de qualquer coisa que, porventura, pedirem, ser-lhes-á concedida por meu Pai, que está nos céus. Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles (Mt 18.15-20).

Primeiro Jesus disse a Pedro: “o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus”. Porém, depois, ele disse a todos os discípulos. E então, disse a toda a assembleia devidamente constituída do povo redimido. A autoridade não é de homens e nem da igreja, mas da Palavra de Deus. Usamos a autoridade da Escritura para aplicar a verdade em cada situação.

Se alguém confessa Jesus como seu Senhor e Salvador, podemos declarar, com respaldo na Palavra de Deus, que seus pecados foram perdoados. Mas se alguém declara que não reconhece Jesus como Senhor e Salvador, podemos declarar, com a autoridade da Palavra de Deus, que seus pecados estão retidos.

Então Pedro tinha esse direito. Os discípulos tinham esse direito. A igreja também tem, porque temos a palavra do céu sobre o assunto. Não se trata de uma autoridade baseada em título. Não se trata de uma autoridade baseada em cargo, mérito humano, posição social, nível de inteligência ou sabedoria. A autoridade reside no fato de que a igreja possui a palavra do céu sobre todas as coisas e pode usá-la com autoridade na vida das pessoas.

Amados, é por isso que jamais comprometemos a Palavra de Deus, pois ela é a única autoridade que temos. Deus colocou a sua Igreja no mundo e lhe deu a Sua Palavra para que ela possa ser uma luz, estabelecendo o modelo que é o padrão de Deus. Oramos para que a sua vontade seja feita na terra como no céu, e assim será, à medida que cumprimos as decisões celestiais por meio da aplicação da Palavra de Deus, que é a autoridade máxima.

É por isso que digo com tanta frequência que a igreja precisa levar Deus a sério. Somos o padrão de Deus no mundo. E precisamos dizer a este mundo: vocês não podem fazer isso. Seus pecados estão sobre vocês. É isso que o céu diz neste Livro, e o céu concorda conosco; isso já está resolvido lá.

Então, a igreja é a autoridade no mundo. E aqueles que estão na igreja têm autoridade no mundo enquanto fizerem valer a Palavra do Deus vivo revelada a eles pelo Espírito. E assim, nós temos autoridade. E não nos preocupamos com o que o mundo diz, não vamos mudar nossa mensagem. Não vamos fazer concessões. Nossa razão de existir neste mundo é glorificar a Deus, e nós glorificamos a Deus quando mantemos o padrão da Sua Palavra.

Uma estranha ordem?

Mateus 16
20 Então, advertiu os discípulos de que a ninguém dissessem ser ele o Cristo

Por que Jesus deu essa ordem? Como conciliar isso com a ordem de pregar o evangelho a toda a criatura? Por que ele diz: “Não digam a ninguém que eu sou o Cristo”?

O povo de Israel esperava um Messias político, militar, econômico e terreno. Eles não compreendiam a dimensão espiritual. Mas na sua primeira vinda Jesus veio estabelecer um reino espiritual, na sua futura segunda vinda, ele fará cumprir plenamente as alianças abraâmica, davídica e a nova aliança.

As expectativas do povo estavam muito distorcidas. E acho que é por isso que rejeito misturar política com cristianismo, a nossa mensagem é espiritual, a mensagem de Cristo, o Filho do Deus vivo. E não ofereceremos nada além do Cristo revelado nas Escrituras.

Oh! que igreja Cristo está edificando! Uma igreja espiritual, uma igreja com autoridade, uma igreja invencível, uma igreja com fundamento na revelação do Deus vivo, concedida pelo Espírito por meio de seus apóstolos e que continua a ser edificada sobre aqueles que confessam a mesma verdade.

Uma igreja com identidade, a soma de todos os redimidos de todas as eras. Uma igreja com intimidade, aqueles que são propriedade pessoal de Jesus Cristo. E uma igreja com certeza, ela será edificada. Ele nos conduzirá à glória. Essa é a sua promessa.


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Este texto é uma síntese do sermão “Church that Christ Builds, The Part 2”, de John MacArthur em 10/10/1982.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/sermons/2319/church-that-christ-builds-the-part-2

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


 

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