Discipulado: Perder para Ganhar

Se um homem ganhar tudo que existe no mundo e perder sua alma, o que lhe restará? Apenas um homem morto, arruinado eternamente e condenado à segunda morte. Tudo desaparecerá no túmulo. Mas se ele abandonar sua vida e entregá-la a Jesus, terá tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam, nem roubam.

Prosseguindo no Evangelho de Mateus, vamos olhar agora para Mateus 16.24-28. Essa passagem atinge o cerne da questão do discipulado. Poderíamos intitulá-la “Vencer Perdendo: O Paradoxo do Discipulado”. Ela também representa um golpe mortal na tendência atual que observo no cristianismo: voltado ao consumismo egocêntrico e autocentrado.

Há muitas pessoas que desejam se identificar com Jesus Cristo e serem chamadas de cristãs, mas a perspectiva delas é sobre o que vão ganhar como compensação nesta terra. O cristianismo, de alguma forma, foi redefinido como “obter”, e Jesus foi transformado em um “gênio da lâmpada mágica” que deve atender a todos os nossos caprichos.

Há alguns que dizem que Jesus está aqui para nos tornar saudáveis, ricos e felizes. E nos dizem que Jesus quer que estejamos bem ou que sejamos ricos, e se não formos tudo isso, então não estamos reivindicando nossos direitos ou não temos fé suficiente para nos apropriarmos do que nos pertence, porque o cristianismo foi concebido para que tenhamos tudo o que precisamos e desejamos.

Ao longo dos anos outros foram culpados de propagar um Jesus que é oferecido aos homens como a solução para todos os problemas. Felicidade, abundância, paz, ausência de problemas etc. Anunciando o receber sem dar, o ganho sem a dor. E depois há os defensores do culto da autoestima e da autoimagem, que nos dizem que Jesus veio para fortalecer nossa autoestima e nossa autoimagem. Eles são resultados do narcisismo, do amor-próprio da nossa sociedade contemporânea.

Mas tudo isso não passa de uma religião prostituída. Vir a Jesus Cristo, sim, é receber e continuar recebendo eternamente. Mas há dor e sacrifício antes da recompensa, há uma cruz antes da coroa e há sofrimento antes da glória. Somos chamados a vencer perdendo, essa é a essência do discipulado, a renunciar antes de ganhar. Não é somente aqui que Jesus disse isto. Em outras ocasiões, ele disse:

Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim; e quem não toma a sua cruz e vem após mim não é digno de mim. Quem acha a sua vida perdê-la-á; —quem, todavia, perde a vida por minha causa achá-la-á (Mt 10.37-39).

E Jesus, fitando-o, o amou e disse: Só uma coisa te falta: Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me. Ele, porém, contrariado com esta palavra, retirou-se triste, porque era dono de muitas propriedades (Mc 10.21-22).

Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. E qualquer que não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu discípulo […] Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo (Lc 14.26-27,33).

Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto. Quem ama a sua vida perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo preservá-la-á para a vida eterna (Jo 12.24-25).

Portanto, o que temos aqui em Mateus 16.24-28 é um princípio frequentemente repetido. E eu mencionei apenas talvez metade dos lugares nos evangelhos onde ele aparece, sem falar das inúmeras vezes em que é reafirmado pelos autores das epístolas, pois é “através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus” (At 14.22).

Vencer perdendo era um dos temas recorrentes de Jesus. Jamais compreenderemos a salvação e o discipulado a menos que entendamos esse princípio, tão frequentemente repetido. 

Em Lucas 9.57-62, Jesus se deparou com candidatos ao discipulado: um era precipitado, não sabia o preço; outro disse precisava esperar enterrar seu pai (ou seja, esperar para receber sua herança); e o outro disse que precisava despedir-se de sua casa (ou seja, por em ordem os negócios, um pretenso seguidor confuso, incerto e condicionado), a quem Jesus disse: “quem lança mão do arado e olha para trás não é apto para o reino de Deus” (v. 62).

Mateus 16
24 Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.

Jesus está falando novamente sobre o sacrifício do discipulado, o preço do discipulado, a dor envolvida, os relacionamentos rompidos, a hostilidade, a reprovação, a rejeição e a disposição para sofrer. Os discípulos ainda não haviam aprendido.

Como vimos no sermão anterior, eles esperavam que o Messias chegaria derrubando o jugo romano, destronando os Herodes e estabelecendo o Reino com toda a sua glória. E foi muito difícil para eles lidarem com o fato de que Jesus não parecia fazer isso. Ele rejeitou ser proclamado rei (Jo 6.15), foi incompreendido pelo povo e rejeitado e odiado mortalmente pela liderança religiosa.

Seus milagres e palavras não podiam ser explicadas humanamente, e eles finalmente chegaram, pela obra de Deus em seus corações, à afirmação de que, apesar do que não viam acontecer, ele era de fato o Messias. Pedro havia acabado de confessar: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16.16). Então Jesus lhe respondeu dizendo que edificaria sua igreja e as portas do Hades (morte) não prevaleceriam contra ela. Ele havia dito antes: “a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.40).

Em Mateus 16.13-28 Jesus estava sozinho com seus discípulos em uma estrada poeirenta de Cesareia de Filipe, cidade no extremo nordeste de Israel, bem longe de todos os problemas na Galileia. Seu foco dali em diante deixou de ser as multidões, para focar nos seus discípulos. Eles ouviram Jesus conferir a eles autoridade no reino dos céus (Mt 16.19-20). Ele se viram como os heróis do Reino. É um grande momento. Eles esperaram muito tempo por isso.

Mas, logo em seguida, Jesus diz que “lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitado no terceiro dia” (Mt 16.21). Isso caiu com uma bomba diante deles. Isso era completamente absurdo nos planos deles. Pedro repreendeu Jesus, dizendo que isso jamais poderia acontecer. Jesus reconheceu o intento de Satanás, usando as palavras de Pedro, para afastá-lo da cruz, tal como o próprio Satanás fez ao oferecer o reino sem cruz na tentação do deserto (Mt 4.8-10).

Jesus disse a Pedro que ele estava sendo uma pedra de tropeço, porque não pensava nas coisas de Deus, mas nas dos homens (Mt 16.23). Os homens pensam no ganho sem a dor, na coroa sem a cruz, na glória sem o sofrimento, na recompensa sem o sacrifício. É assim que os homens pensam, e Pedro estava pensando como os homens pensam, não como Deus.

A Escritura diz que o ganho vem através da dor e a glória vem através do sofrimento. Não há outro caminho, porque não se pode colocar Deus, seja encarnado no Filho ou vivo no coração do Seu povo, no meio de uma sociedade ímpia sem que haja sofrimento, sem reprovação, sem hostilidade. Por isso “todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3.12).

Por isso Mateus 16.24 começa dizendo “Então, disse Jesus a seus discípulos…”, ou seja, em outras palavras: “vamos voltar àquela primeira lição, quando eu os chamei e lhes disse para deixarem tudo, suas redes, suas famílias, seus meios de subsistência, seu estilo de vida, suas casas, e virem e me seguirem, e eu os faria pescadores de homens. Vamos voltar àquele abandono original de tudo para me seguir.”

E então Jesus diz: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16.24). O que Jesus quis dizer com “se alguém que vir após mim”? Esta é uma palavra evangelística dita às multidões, mas era necessário dizer também aos discípulos. É fácil entender o chamado ao compromisso total com o senhorio de Cristo e a submissão a ele no início da caminhada, mas com o tempo podemos começar a reivindicar direitos.

Seguimos nossa própria vontade, fazemos o que queremos e evitamos a reprovação, a hostilidade, a perseguição e a intimidação, simplesmente nos calando e não representando verdadeiramente Cristo no mundo ou não aceitando que lutas devem acontecer. Eles podem ter esquecido do motivo pelo qual vieram no início. Portanto, se você vier seguir Jesus Cristo, venha nos termos dele e permaneça nos termos dele.

E os discípulos, assim como nós, precisavam de uma reafirmação desses termos. Muitos cristãos quando enfrentam problemas, ou algo dá errado na vida ou são alvos de críticas, começam a se desintegrar, pensando: “O quê? Deus está me abandonando?”.

1)  O primeiro ingrediente do princípio do discipulado: Negar-se a si mesmo

Quando alguém se aproxima de Cristo, com que atitude deve vir? Aqui estão três coisas: abnegação, carregar a cruz e obediência leal. Em Mateus 16.24 Jesus começa pela abnegação: “Negue-se a si mesmo”. É aqui que tudo começa. Poderia ser traduzido como: “Que ele recuse qualquer associação ou companhia consigo mesmo”.

Jesus está falando do “eu” como equivalente à carne. Em outras palavras, você precisa chegar ao ponto de negar que tem a capacidade de se salvar; ou que, por si só, não tem a capacidade de ser o que Deus quer que você seja; ou, francamente, que você não tem em si a capacidade de ser qualquer coisa boa. Você precisa pensar assim a respeito de si mesmo.

Para vir a Jesus Cristo, você precisa afirmar que não há nada de bom em sua carne (Rm 7.18). Você não pode agradar a Deus na carne; não pode se redimir na carne e não pode contribuir em nada para sua redenção. O culto à autoestima, tão comum hoje, está levando muitos na direção oposta à mensagem da cruz, quanto mais você se ama, menos provável é que você pense que precise de um Salvador.

Você deve se renegar completamente, esse é o primeiro princípio essencial da vida cristã. É assim que chegamos a Cristo, e é assim que vivemos nele. Precisamos nos enxergar como miseráveis pecadores merecedores do inferno, e que, por nós mesmos, nada podemos fazer para mudar isso, assim nos inclinamos aos pés de Cristo, nosso redentor. O ego é descartado e Cristo enche nosso ser. Assim podemos dizer: “já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20),

Jesus disse: “bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mt 5.3). O fundamento de toda virtude é ser pobre de espírito. A palavra grega traduzida como “pobre” ou “humilde”, tem o sentido de ser tão pobre que você precisa mendigar; ser destituído de tudo; sentir-se humilhado pela sua própria miséria espiritual. Enquanto não entendermos o quão condenados somos, jamais apreciaremos o quão precioso é o perdão de Cristo e jamais compreenderemos os grandes tesouros disponíveis nele.

O salmista escreveu: “Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado e salva os contritos de espírito” (Sl 34.18). Somente os desesperados se aproximam de Deus. Na parábola do fariseu e o publicano, enquanto o fariseu se vangloriava, o publicano “não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador” (Lc 18.13). Jesus disse que enquanto o fariseu saiu vazio, o publicano saiu justificado. E completou: “qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado” (Lc 18.14).

Essa era a intenção de todo o Antigo Testamento. Toda a lei de Deus no Antigo Testamento visa mostrar aos homens quão distantes da salvação e irreconciliáveis eles são por si mesmos. Cristo veio salvar o pecador desesperado que, por si só, nada pode fazer, e por isso chora lamentando sua triste situação (Mt 5.4). E Deus não despreza o coração quebrantado e contrito (Sl 51.17).

Primeiro, então, você vem a Cristo negando a si mesmo. E isso significa que você aceita Cristo nos termos dele, não nos seus. O pecador orgulhoso quer Cristo e, ao mesmo tempo, seus prazeres, cobiça, imoralidade etc. Mas o quebrantado perde sua vida por amor a Cristo e, assim, achará vida plena em Cristo. A alegria vem em se despojar do velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do engano, e nos revestir do “novo homem, que, segundo Deus, é criado em verdadeira justiça e santidade” (Ef 4.22-24). Só podemos dizer sim ao Espírito Santo, quando dizemos não a nós mesmos.

O que significa viver uma vida de abnegação? De negar-se para si mesmo ou morrer para si mesmo?

Você já parou para pensar nisso? Pense desta forma: quando você é negligenciado, não perdoado, ou quando é propositalmente menosprezado e sente a dor e o insulto, mas seu coração se alegra por ser considerado digno de sofrer por Cristo. Isso é morrer para si mesmo.

Quando você é alvo de críticas injustas; desonrado e desprezado; tem seus desejos contrariados; seus conselhos ignorados e suas opiniões ridicularizadas; mas você se recusa a deixar sentimentos ruins crescer em seu coração ou mesmo tenta se defender; aceita tudo pacientemente em silêncio amoroso, você está morrendo para si mesmo.

Quando você rejeita se vangloriar; registrar suas próprias boas obras em busca de aplausos dos homens; bem como não ambiciona lugares de destaque; e tem o prazer de servir, mesmo sendo um desconhecido no meio da multidão, isso é morrer para si mesmo.

Quando você vê seu irmão prosperar e ter suas necessidades maravilhosamente atendidas, e pode sinceramente se alegrar com ele em espírito, sem sentir inveja e sem jamais questionar a Deus, embora suas necessidades sejam maiores e ainda não supridas, isso é morrer para si mesmo.

E quando você consegue receber correção e repreensão de alguém de posição inferior à sua e humildemente admitir, tanto interior quanto exteriormente, que ele está certo, sem encontrar ressentimento ou rebeldia em seu coração, isso é morrer para si mesmo. Essa é sua experiência? 

2) O segundo ingrediente do princípio do discipulado: Tomar a cruz

Mateus 16
24 Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.

Morrer para si mesmo é uma coisa, tomar a cruz é outra. O que é tomar a cruz? É a disposição de suportar perseguição, rejeição, reprovação, vergonha, sofrimento, até mesmo o martírio, por amor a Cristo.

A crucificação era relativamente comum no Império Romano, na Ásia Central e no Egito. Após uma revolta que se seguiu à morte de Herodes, o Grande (o mesmo que matou os meninos em Belém – cf. Mt 2), o procônsul romano Varo crucificou dois mil judeus.

Ora, quando Jesus disse: “tome a sua cruz”, eles certamente lembraram daquelas pessoas, tristes e condenadas, marchando pela estrada carregando uma cruz onde seriam mortas. Para eles, a cruz significava caminhar para a morte, rumo ao martírio. É isso que o Senhor está dizendo.

Eles teriam que suportar opróbrios e ridicularizações ao viverem para Cristo. Quando alguém se entrega a Jesus Cristo, está disposto a sofrer as indignidades de um criminoso condenado a serviço de Cristo, se for chamado a fazê-lo. Se andarmos seguindo Jesus Cristo com total devoção a ele, provocaremos reações ao nosso redor. Abnegação significa que eu seguirei Jesus Cristo, me identificarei com ele, invocarei seu nome até o momento da morte. Pedro escreveu:

Alegrai-vos na medida em que sois coparticipantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos alegreis exultando. Se, pelo nome de Cristo, sois injuriados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus. Não sofra, porém, nenhum de vós como assassino, ou ladrão, ou malfeitor, ou como quem se intromete em negócios de outrem; mas, se sofrer como cristão, não se envergonhe, antes, glorifique a Deus nesta parte (1Pe 4.13-16).

Alguém só pode ir a Jesus Cristo nos termos dele. É preciso se entregar completamente, ter um profundo amor e desejo do precioso dom da salvação que ele oferece, que sacrifica até a própria vida. E depois de receber esse dom, não é interessante como nos afastamos desse compromisso inicial? É por isso que Ele está lembrando os discípulos e instruindo a multidão.

A cruz é o sofrimento que nos é inerente por causa de nossa conexão fiel com Jesus Cristo. É como se pudéssemos ver Jesus Cristo caminhando pela Via Dolorosa, rumo à sua própria execução, carregando nas costas a cruz sobre a qual carregaria nossos pecados. E em seu cortejo, milhões de pessoas, cada uma com sua cruz, dispostas ao castigo. Cena gloriosa.

Você não é chamado a Cristo para receber benefícios. Você é chamado a Cristo para se entregar completamente a ele. É essa cruz que marca o verdadeiro discípulo. Falsos crentes não estão dispostos a sofrer a vergonha por Cristo. Eles não querem pagar o preço. Mas, para alguém seguir a Cristo, tem que negar-se a si mesmo, tomar diariamente a sua cruz e segui-lo (Lc 9.23).

3) O terceiro ingrediente do princípio do discipulado: obediência leal.

Mateus 16
24 Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.
25 Porquanto, quem quiser salvara sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á.

Seguir verdadeiramente a Jesus é um modo de vida. É uma submissão ao senhorio de Cristo que se torna um padrão de conduta. É imitar seus passos, andar como ele andou (1Jo 2.6), colocando nossos pés em suas pegadas, fiéis à vontade divina.

E foi isso que o nosso Senhor quis dizer no sermão do monte: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt 7.21). Ao judeus ele proclamou: “se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.31-32).

Quem vive apenas para salvar sua vida terrena, preservar seu conforto, sua comodidade e sua autogratificação, perderá sua alma espiritual eterna. Mas quem estiver disposto a renunciar à sua vida terrena, negar a si mesmo, carregar a cruz, seguir em obediência ao senhorio de Cristo, salvará sua alma espiritual eterna.

Em outras palavras, você tem uma escolha. Pode tentar agora e perder para sempre, ou pode desistir agora e ganhar para sempre. Essa é a questão. Aliás, a palavra “vida” ali é a mesma que “alma” e “eu”, a ideia é a mesma. Os termos podem ser diferentes, mas a ideia é a mesma. Está falando de você, da sua vida, da sua alma, dessa parte interior, desse seu eu verdadeiro. Se você passar a vida tentando alcançar o ouro aqui e agora, vai perder tudo para sempre.

Existe uma disposição para pagar o preço que pode significar até mesmo a morte, como foi o caso de Paulo, Pedro, Tiago e outros irmãos ao longo dos séculos e até os dias de hoje. Pode implicar abandono de sua própria segurança, estabilidade e conforto. Pode implicar renúncia de coisas lícitas desta vida. Não significa necessariamente que você  perderá coisas lícitas, mas que isso pode ocorrer, e você deve estar disposto a perdê-las por amor a Cristo.

Isso não quer dizer necessariamente que Deus fará de você um mártir, mas isso pode acontecer, e você deve estar disposto a perder sua vida pela causa dele, para ganhar a eternidade, em vez de passar a vida tentando conquistá-la aqui e perdê-la para sempre.

Mateus 16
26 Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca de sua alma.

Aqui está a hipérbole suprema. Mesmo que fosse possível um homem ganhar tudo que existe no mundo, mas se ele perder sua alma, o que lhe restará? O que é um homem morto que possuiu tudo, mas perdeu sua alma? Apenas um homem morto. E pior ainda, um homem eternamente morto. Todos seus projetos, glórias e riquezas terrenas acabaram na sepultura. O que lhe resta é a segunda morte.

Se você desperdiçar sua vida neste mundo, estará arruinado eternamente, apenas acumulou “tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam” (Mt 6.19). Mas se você abandonar sua vida e entregá-la a Jesus Cristo, terá “tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam, nem roubam” (Mt 6.20).

Mateus 16
27 Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e, então, retribuirá a cada um conforme suas obras.

Jesus disse que o Pai lhe confiou todo julgamento (Jo 5.22) e lhe deu autoridade para julgar (Jo 5.27). E ele acrescentou: “o meu juízo é justo, porque não procuro a minha própria vontade, e sim a daquele que me enviou” (Jo 5.30). Um dia o Senhor voltará, não mais como salvador, mas como juiz de toda a terra. E então Ele retribuirá a cada um segundo as suas obras.

E não se trata de uma salvação pelas obras, mas seremos recompensados e julgados com base no que fizermos, pois nossas ações revelarão quem somos. Ele virá na glória de seu Pai, com seus santos anjos, os instrumentos de serviço e julgamento. Ninguém escapará do acerto de contas final.

Chegará um tempo de recompensas no futuro para os crentes (1Co 4.5; 2Co 5.8-10; Ap 22.12). Aqui, porém, o Senhor estava preocupado com a recompensa do ímpio: o castigo final e eterno (Rm 2.5-11; 2Ts 1.6-10).

Naquele momento os discípulos estavam vendo Jesus sendo rejeitado, perseguido e blasfemado; eles acabaram de ouvir Jesus dizer que seria alvo dos líderes religiosos e que seria morto, mas não prestaram atenção no que ele disse: que ressuscitaria no terceiro dia (Mt 16.21)

Eles estavam em uma estrada empoeirada de Cesareia de Filipe, para onde Jesus os levou para um refúgio contra as hostilidades na Galileia. Mas agora Jesus fala que virá em glória e julgará o mundo. Eles devem ter pensado: “Como será isso? Até agora não vimos glória nenhuma. Ele ainda disse que morrerá. E não somente ele, mas nós também. Como podemos crer nisso, ainda não tivemos um vislumbre desse reino”.

Mateus 16
28 Em verdade vos digo que alguns há, dos que aqui se encontram, que de maneira nenhuma passarão pela morte até que vejam vir o Filho do Homem no seu reino.

Em todos os três Evangelhos sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas), essa promessa é feita imediatamente antes da Transfiguração de Jesus no monte, diante de Pedro, Tiago e João (Mt 17.1-8; Mc 9.1-8; Lc 9.27-36). A palavra usada para “reino” pode ser traduzida como “esplendor real”. Portanto, é mais natural interpretar essa promessa com uma referência à transfiguração, que Pedro, Tiago e João testemunhariam seis dias depois.

Ali Jesus lhes deu uma prévia de seu reino. Ali apareceram Moisés e Elias ao lado de um Cristo glorioso, cujo rosto resplandecia como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz (Mt 17.2). Quando Pedro falava sobre fazer tendas para Jesus, Moisés e Elias, “uma nuvem luminosa os envolveu; e eis, vindo da nuvem, uma voz que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi” (Mt 17.5).

Sobre essa experiência, Pedro escreveu:

Porque não vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas engenhosamente inventadas, mas nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade, pois ele recebeu, da parte de Deus Pai, honra e glória, quando pela Glória Excelsa lhe foi enviada a seguinte voz: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. Ora, esta voz, vinda do céu, nós a ouvimos quando estávamos com ele no monte santo (2Pe 1.16-18).

Na transfiguração, a glória de Deus se manifesta a partir do interior de Jesus. Não foi apenas uma glória refletida, como aconteceu com o rosto de Moisés. A verdade de quem Jesus é foi revelada em sua transfiguração.

Não pode haver coroa sem cruz. Não pode haver reino sem um Calvário. Ali foi apenas uma prévia para firmar a fé de Pedro, Tiago e João, de modo que eles conhecessem as tremendas realidades eternas do reino que virá, não importando o que acontecesse. Não importando a morte do próprio Cristo na cruz; a do próprio Pedro também numa cruz; a de Tiago, morto ao fio da espada; e a de João, perseguido e exilado na ilha de Patmos.

Eles lembrariam que nada disto é o fim da história. Há um glorioso reino além desta vida. O Rei virá glorioso reinar nesta terra; sua glória encherá a terra. Isso acontecerá na sua volta, aquele não era ainda o momento. Mas Jesus deu a eles um vislumbre dessa realidade que virá. Enquanto esse dia não chega, o Senhor reina espiritualmente em seu povo.

O homem que se apega egoisticamente a este mundo e a esta vida, cuja grande preocupação é a realização, o conforto, a segurança, as riquezas, a prosperidade e a autogratificação, por mais próspero que pareça, é um eterno mendigo.

O homem que entrega a sua vida por Cristo, que abandona a si mesmo, pode se tornar um mendigo neste mundo, pode se tornar um mártir, mas será um príncipe com Deus para sempre.

Jesus é o manancial de águas vivas, não gaste sua vida cavando cisternas rachadas que não podem reter as águas (Jr 2.13). Vamos orar.

Senhor Altíssimo e Santo, Manso e Humilde, ajuda-nos a aprender o paradoxo de que o caminho para baixo é o caminho para cima, que ser humilde é ser exaltado, que o coração quebrantado é o coração curado, que o espírito abatido é o espírito jubiloso, que a alma arrependida é a alma vitoriosa, que não ter nada é realmente possuir tudo, que carregar a cruz é usar a coroa, que dar é receber.

Senhor, sabemos que não podemos ver as estrelas durante o dia, mas elas estão lá. E quando a noite chega, elas brilham intensamente. Ajuda-nos a encontrar a tua luz na nossa escuridão, a tua alegria na nossa tristeza, a tua graça no nosso pecado, as tuas riquezas na nossa pobreza e a tua vida na nossa morte. Queremos ser crucificados para que possamos viver, mas não nós, e sim Cristo.

Oramos por aqueles que hoje não te conhecem, para que abram seus corações, digam não ao mundo passageiro e sim à vida eterna, para que jamais pensem em comprar sua alma com ganhos terrenos ou em lucrar ganhando o mundo inteiro e perdendo a alma.

E, Pai, por esses cristãos, ajuda-nos a saber que foi assim que chegamos a ti: destituídos, desesperados, sem recursos, implorando, lamentando, mansos, famintos. E afirmamos o teu senhorio naqueles dias e dissemos que nos submeteríamos fielmente a qualquer preço, tão famintos estávamos pela salvação. Que sejamos fiéis a esse compromisso. E que possamos, alegremente, como Moisés, estar dispostos a suportar o opróbrio de Cristo em vez dos prazeres do pecado e dos tesouros do Egito.

Pai, ajuda-nos a sermos discípulos fiéis, abnegados, portadores da cruz, lealmente obedientes, até vermos Jesus face a face, para recebermos a coroa dada àqueles que carregaram a cruz, uma coroa a ser lançada aos Seus pés benditos. Agradecemos-Te porque Ele virá e sabemos disso porque Ele nos deu um vislumbre da Sua glória na segunda vinda. E temos esperança. Em teu nome Senhor, amém.


Lei também:

Clique aqui e veja também o índice com os links dos sermões traduzidos sobre o Evangelho de Mateus


Este texto é uma síntese do sermão “Winning by Losing: The Paradox of Discipleship”, de John MacArthur em 24/10/1982.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/sermons/2321/winning-by-losing-the-paradox-of-discipleship 

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


 

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