Dom de Línguas – Parte 1

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Este sermão faz parte de uma série de sermões de John MacArthur sobre dons espirituais e homens especialmente dotados. Para acessar os sermões anteriores, veja os links no final deste texto.


Voltamos ao capítulo 13 de I Coríntios nesta manhã. E já discutimos os sete primeiros versículos em nosso estudo anterior deste maravilhoso livro de 1 Coríntios, e continuaremos a estudar 1 Coríntios 13, a partir do versículo 8, nesta manhã. Agora, eu quero iniciar nosso estudo dizendo várias coisas que terão impacto nos próximos meses em que seguiremos com o estudo dessa Carta.

Quando chegamos ao oitavo versículo do capítulo 13, entramos no assunto do dom de línguas e da cessação desse dom. À medida que avançarmos para o capítulo 14, estaremos envolvidos ainda mais nesse assunto, porque é o tema desse capítulo. E estou convencido de que o Espírito Santo nos conduziu a esse assunto, porque esta é uma área vital de informação e estudo que realmente precisamos entender.

Eu quero começar dizendo que teremos que gastar muito tempo para entender a Palavra de Deus em relação a esse assunto específico. Mas eu sei que alguns de vocês têm muitas perguntas. Nós estaremos respondendo essas dúvidas, à medida que avançarmos no estudo desses capítulos em 1 Coríntios. Mas, para fazer isso, temos que gastar tempo analisando verso por verso.

Então, tentaremos apresentar esse assunto de um ponto de vista teológico, histórico e de um ponto de vista bíblico, versículo por versículo, cuja composição, esperançosamente, será uma base sólida para você entender o que está acontecendo hoje na igreja acerca do dom de línguas.

Se eu não responder todas as suas perguntas hoje, seja paciente, porque mais cedo ou mais tarde elas serão esclarecidas, à medida que avançarmos nesse estudo. E, se chegarmos ao final do estudo e acharmos que há muitas dúvidas não esclarecidas, dedicaremos um tempo apenas para responder às suas perguntas.

Agora, vamos ao capítulo 13 de I Coríntios e vejamos a partir do versículo 8:

8 O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;
9 Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;
10 Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.
11 Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.
12 Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.
13 Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.

Nossa, que grande palavra! E nós a amamos e nos regozijamos e deleitamos nela, nós que conhecemos o Senhor. Ela nos fala muito claramente hoje na igreja em geral, e creio que é o principal ponto de Paulo aqui. Embora o tema desse trecho das Escrituras seja o dom de línguas, o que Paulo realmente está dizendo aqui é que somente o amor é permanente.

Agora, em nosso estudo desse capítulo de Coríntios, já vimos que há quatro características diferentes com as quais ele Paulo lida. A número um é a proeminência do amor, versículos 1 a 3. E ali, ele discute o fato de que qualquer coisa sem amor é igual a nada. O amor é proeminente em todo dom, em todo ministério. A segunda característica são as perfeições do amor, nos versículos 4-7, onde ele discutiu todas essas qualidades que compõem o amor. E agora ele trata, em terceiro lugar, nos versículos 8 a 12, da permanência do amor.

E assim, o capítulo 13 então termina tratando da permanência do amor. Observe a afirmação que começa no versículo 8. “O amor nunca falha…”. Os versos seguintes de desenvolvem a partir dessa afirmação, ou seja, o amor nunca falha. O amor é permanente, durável. Você sabia que:

  • A esperança chegará ao fim, porque ela será satisfeita, então, não haverá necessidade de esperança.
  • A fé chegará ao fim, porque a fé será realizada, e não precisaremos de fé porque teremos a visão concreta de tudo o que hoje não vemos, mas cremos por fé.
  • Mas, o amor nunca chegará ao fim. É o único que dura para sempre.

A Bíblia não diz que Deus é esperança e a Bíblia não diz que Deus é fé. Mas a Bíblia diz o que? Deus é amor. E o amor é tão eterno quanto Deus, então o amor continuará para sempre. E é isso que os coríntios precisavam ouvir, porque estavam muito ocupados dividindo a comunhão sobre os itens temporários e esquecendo a única coisa que é eterna.

A igreja de Corinto existia em uma cidade que era conhecida como a vaidade do mundo, a cidade de Corinto. Naquela cidade, eles tinham um chamado por Deus. E esse chamado era representar o Senhor Jesus Cristo, ou seja, ser uma demonstração de Seu caráter incomparável através da vida dessa pluralidade de crentes. Foi um alto chamado. Era um chamado que só poderia ser cumprido se eles fossem submissos à vontade do Senhor.

A cidade de Corinto era dominada por materialismo, antagonismo, competição, egoísmo, ódio, imoralidade sexual, etc. E eles deveriam ser sal e luz. Mas eles não estavam sendo. E, como estudamos no livro de 1 Coríntios, a tragédia foi que a cidade de Corinto havia influenciado a igreja. Os cristãos daquela igreja se tornaram carnais, mundanos, indulgentes, egoístas, contenciosos, vingativos, orgulhosos.

Praticamente tudo o que era característico da cultura pagã da qual aqueles cristãos vieram, estava presente na vida daquela igreja, levando até mesmo à perversão de seu próprio comportamento espiritual para um tipo de comportamento típico da religião pagã, distorcendo os dons espirituais do Espírito para que eles pudessem operar na carne e sob a energia de Satanás. E assim, a carta de Paulo para eles é uma exortação. É forte, firme e direta.

E no meio disso, como um glorioso pôr-do-sol, o apóstolo Paulo culmina com seus pensamentos sobre a necessidade particular dos coríntios, dizendo, em outras palavras: “E aqui está o ponto mais brilhante de todos, o amor. O que realmente importa, o que realmente é necessário, vocês não têm.”

  • Não havia doação sacrificial em Corinto.
  • Não havia lavagem dos pés um do outro naquele lugar, não naquela igreja. Pelo contrário, os cristãos se ressentiam uns dos outros. Eles discutiam entre si e se fechavam em seus pequenos grupos privados, em seus partidos.
  • Eles se violavam sexualmente.
  • Eles ainda processavam uns aos outros nos tribunais jurídicos, e se vangloriavam disso.
  • Eles tanto se privavam do casamento, como se divorciavam. Além disso, perverteram o papel apropriado das mulheres na reunião da igreja.
  • Eles retinham a comida dos pobres no banquete do amor.
  • Eles transformaram a Mesa do Senhor em uma orgia bêbada e se ofendiam mutuamente, competiam por destaque no uso de seus ‘dons espirituais’.

E todas essas coisas evidenciavam a ausência da única coisa tão necessária, o amor. Assim, Paulo os escreve sobre o amor. E a grande declaração que ele faz aqui – nos versículos 8 a 12 – é que, em outras palavras:

É melhor você se concentrar no que realmente importa, no que é eterno, e isso é o amor. Em vez de estar tão envolvido com os dons espirituais, e tão preocupado com o destaque que eles podem te dar, e tão preocupado com a busca dos dons que impressionam as pessoas, e tão preocupado com estar em destaque e com o reconhecimento de si mesmo, preocupe-se com o amor. Em vez de ser amargo e antagônico, porque seu dom não é o que outra pessoa tem, e procurar ser vingativo em seu ciúme, procure amar. Porque o amor nunca falha.

Agora, vejamos as três palavras presentes no início do versículo 8. Três palavras, em inglês, e também três palavras em grego [em português, temos o artigo definido ‘o’ no início da frase]: “O amor nunca falha.” E a definição de amor se encontra nos versículos 4 a 7 desse mesmo capítulo:

4 O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.
5 Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;
6 Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;
7 Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

O amor nunca falha. A palavra “falha” é uma palavra interessante no grego. A tradução comum da palavra é “cair”, literalmente “cair no chão”. Mas seu significado tem o sentido de “cair em decadência”. É usada, por exemplo, para falar de uma flor que se decompõe e da qual as pétalas caem no chão. Poderia ser traduzido como “o amor nunca será abolido“.

Talvez a tradução mais simples seja o amor nunca falha, o amor nunca cai, o amor nunca cai no chão, em decadência. O amor é uma flor na qual não há decomposição. O amor nunca pode cessar, porque Deus é amor. E Nele não existe decadência.

A palavra “nunca” no início do verso 8, em grego é uma palavra referente ao tempo e tem a ver com tempo. E o que o texto realmente diz é: “O amor, em nenhum momento, jamais falhará”. Nunca. Algum dia, de fato – acho que quando chegarmos ao céu – o amor será a única coisa que restará. Não precisaremos mais ensinar, porque saberemos tudo. Não precisaremos mais pregar, porque já teremos um viver cem por cento obediente. Não precisaremos de mais sabedoria, porque já a teremos. Não precisaremos de mais conhecimentos a serem transmitidos a nós.

Não precisaremos de ninguém para nos apoiar, ajudar, repreender, exortar, encorajar, orar por nós ou fazer qualquer coisa por nós, porque seremos como Jesus Cristo. Mas, a única coisa que permanecerá será o amor. E em uma dimensão que nunca sequer sonhamos, estaremos totalmente envolvidos no caráter do amor de Deus manifestado uns para os outros para sempre. E assim, Paulo diz aos coríntios: “Vocês devem entender o que vai permanecer para sempre e parar de discutir sobre coisas temporárias!”.

Agora, algumas pessoas entenderam mal a afirmação ‘o amor nunca falha’ e você vai ouvir essa declaração sendo aplicada em situações erradas. Por exemplo, algumas pessoas pensam que isso significa que o amor sempre é bem-sucedido, que se você apenas amar, tudo ficará bem, pois o amor sempre vence. Bem, creio que não é isso que Paulo está dizendo. Ele mesmo entrou em muitas cidades e amou muitas pessoas, e foi expulso de quase todas elas.

A melhor ilustração é o Senhor Jesus Cristo, que amou com um amor incomparável, porém o mundo recusou Seu amor, rejeitou Seu amor, desprezou Seu amor, preferiu amar as trevas. E sempre foi assim. Foi concedido ao jovem governante rico uma oportunidade de sentir e receber o amor de Jesus Cristo, mas ele não quis e se afastou Dele. Deve ter sido uma grande decepção para Jesus. Imagino que o maior desapontamento de todos para Ele foi Judas, que se deliciou com a companhia e cuidado de Jesus por três anos, e depois deu as costas para Ele.

E tem havido muitos como Judas na humanidade. Muitos esposos amaram suas esposas, mas elas deram as costas a seu amor; e muitas esposas amaram seus maridos, mas eles as rejeitaram. O amor nem sempre vence, nesse sentido. Nem sempre. Mas não é isso que Paulo está dizendo. O que Paulo está dizendo é: “O amor é eterno”, e o amor, como virtude, continuará para sempre. E assim, podemos muito bem perceber que é onde precisamos colocar nossa ênfase.

Essa é uma ótima palavra para a igreja, não é? É uma ótima palavra. Você sabe, se pudéssemos simplificar toda a ideia de funcionamento da igreja, seria isso: amem-se, e assim vocês demonstrarão que entenderam como ser igreja. Porque se todo mundo ama a todos, todos ministram a todos. E se todos ministrarem a todos, Cristo será visível no mundo e não seremos capazes de impedir o dilúvio de pessoas incrédulas que virão a nós para tentar entender o que acontece entre nós.

Então, Paulo está simplesmente dizendo: “O amor é o ponto principal da vida da igreja.” E você sabe, ao falarmos sobre o movimento carismático [pentecostal], estamos lidando com ele a partir de uma questão teológica e bíblica, não pessoal. E, por favor, entenda que, mesmo que eu não concorde com todas as coisas que estão acontecendo hoje, a ênfase deste capítulo – o amor – deve aparecer em nossos corações, não é mesmo?

Que nossa atitude em relação às pessoas que estão na comunhão de Cristo, e até mesmo para com as pessoas que estão fora de Cristo, seja de amor, mesmo que tenhamos que esclarecer a elas algumas questões e ajudá-las a ver algumas que talvez não tenham visto atentamente.

Agora, para enfatizar aqui o fato de o amor ser permanente, Paulo contrasta o amor com três dons. E ele faz um contraste muito claro, para mostrar que esses dons são temporários e o amor é eterno, que os dons são parciais e o amor é completo, que os dons são elementares e o amor é maduro. Esses são os três pontos.

Vamos olhar para o primeiro contraste: os dons são temporários. De volta ao versículo 8, ele afirma. “O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá”. Paulo diz aqui que três dons muito importantes cessarão: profecia, línguas e conhecimento [ou ciência]. Eles todos têm tempo limitado, em contraste com o amor. E embora o amor seja indispensável no uso dos dons, ele vai durar mais que os dons.

Agora, a razão pela qual ele usa esses dons em contraste com o amor é porque esses dons eram as coisas mais valorizadas na igreja de Corinto. Os coríntios estavam orgulhosos. Eles eram egoístas, egocêntricos. Eles desejavam destaque, exibições espirituais, eles desejavam o aplauso das pessoas. E assim, esses dons, para eles, eram o centro.

Porém, como nós já vimos nos sermões anteriores, os dons que os coríntios estavam demonstrando eram, na maioria das vezes, falsificações carnais ou satânicas. Mas, no entanto, é nesses dons que eles colocavam a ênfase. De fato, acho mais interessante lembrar que em toda a carta de I Coríntios, 16 capítulos, não há uma única menção a um ancião ou a um líder dessa igreja. Aparentemente, não havia ninguém que liderava. E eles chegaram ao ponto onde toda a sua visão da adoração da igreja era: “Nós apenas nos reunimos e deixamos o Espírito Santo fazer o que Ele faz e tudo pode acontecer…”.

E, finalmente, no capítulo 14, o apóstolo Paulo clama e diz: “Por favor, que os espíritos dos profetas estejam sujeitos aos profetas! Que tudo seja feito decentemente e em ordem! Vocês não podem agir assim!” Deus nunca pretendeu que a igreja fosse um grupo de pessoas que se reúnem e todos fazem o que sentem. Deve haver estrutura e ordem. Deus é um Deus de ordem.

Assim, em Corinto, não havia liderança; não havia ordem. E eles competiam pela proeminência. Por isso, Paulo está lhes dizendo, em outras palavras:

Esses dons que você exaltam, essas expressões independentes da chamada ‘espiritualidade’, são todos temporários, mesmo os dons verdadeiros, e quanto mais os falsos…. mas o amor continuará para sempre. O amor é o caminho mais excelente.” Essa pequena frase está no final do capítulo 12, versículo 31, “o caminho mais excelente.

Observe a palavra “profecias ” – no verso 8 – note que está no plural. Paulo está falando sobre o resultado do dom de profecia, ou seja muitas profecias. E ele diz: “havendo profecias, elas serão anuladas.” Agora, profetizar é basicamente a capacidade de proclamar publicamente a verdade de Deus. O dom de profecia, “prophēmi”, significa “falar diante de”, ou seja falar diante de uma audiência, de um público. O dom de profecia, então, significa falar diante das pessoas, proclamar.

E o propósito do dom de profetizar é indicado no capítulo 14, versículo 3, como vimos quando o estudamos alguns meses atrás. Aquele que profetiza fala aos homens de três maneiras: edificação, exortação e consolação. Ele fala para edificá-los, incentivá-los ao bom comportamento e confortá-los em seus problemas.

O segundo dom que Paulo menciona no verso 8 – e é um dom muito importante – é o dom de conhecimento, ou ciência. Chama-se “a palavra do conhecimento”, porque também era um dom de falar, e assim era outro dom que os coríntios gostavam de exibir em público. E o dom do conhecimento era a capacidade de observar fatos e fazer observações, de extrair a verdade espiritual da Palavra de Deus, de entender.

Esse seria o dom dos estudiosos, dos professores de Bíblia. Mas os coríntios o usavam com o propósito de se enaltecer, de se destacar. Já vimos especificamente sobre esse dom em nosso estudo dias atrás. Agora, observe que Paulo diz que esses dois dons – profecia e conhecimento – serão aniquilados.

E depois há um terceiro, e esse é o dom de línguas ou idiomas. E usaremos essas palavras como sinônimas, pois na linguagem moderna geralmente esse dom é referido como “de línguas”, mas o verdadeiro significado da palavra no idioma original é “linguagem”. O dom de línguas, como já falamos para você nos sermões anteriores, sempre foi falar em um idioma conhecido. E abordaremos isso ainda mais quando chegarmos no décimo quarto capítulo.

Portanto, o dom de línguas, ou linguagem, era a capacidade de falar uma língua estrangeira como um sinal sobrenatural. Deus pretendia que esse fosse um dom simbólico, com alguns propósitos muito específicos, que discutiremos no décimo quarto capítulo. Portanto, Paulo está dizendo que esses três dons – profecias, ciência e línguas – embora muito importantes, chegariam ao fim. Agora, isso está claro no versículo 8. Se não compreendermos mais nada sobre o versículo 8, isso é fácil compreender, pois o texto é muito claro.

Todos esses três dons vão acabar. Mas a questão é: quando eles iriam cessar? Essa é a questão. E essa é a pergunta que eu quero tentar responder. Agora, nossos irmãos e irmãs pentecostais e carismáticos nos dizem que os dons de sinais não cessaram ainda, então para eles, tais dons cessarão no futuro.

E alguns deles dizem que isso ocorrerá quando a coisa perfeita, mencionada no versículo 10, vier. Outros dizem que “todos os dons já cessaram, todos eles. Hoje não há dons espirituais.” Esse é o extremo oposto da visão dos pentecostais. E há outros que dizem que “alguns dons ainda permanecem, mas outros já cessaram”.

Qual a posição correta acerca desse assunto? Bem, vamos olhar para a Bíblia e descobrir a resposta, porque ela nos mostra o caminho de entender esse assunto. A propósito, devo acrescentar que os pentecostais frequentemente usam este argumento: “Não há um versículo na Bíblia que diga que as línguas cessaram. E, assim, cremos que esse dom permanece operante.” Eles estão certos sobre o fato de que nenhum versículo diz isso. Isso é verdade. Mas, você quer ouvir algo interessante? Não há um versículo na Bíblia que diga que Deus é três em um. Mas Ele é.

Esse não é um argumento muito bom. Argumentar que algo é verdade porque a Bíblia não declara expressamente que não seja, é um argumento fraco e que não se sustenta. E por quê? Ora, porque há muitas verdades na Bíblia que são indicadas a nós pela totalidade das Escrituras, em vez de qualquer declaração específica. Por exemplo, você não terá um único versículo bíblico para usá-lo perante uma testemunha de Jeová que diga: “Jesus é 100% Deus, 100% homem ao mesmo tempo em uma unidade indivisível.” Mas essa é a essência do Deus-Homem, não é? Só que não há um único versículo afirmando isso expressamente.

Mas, sabemos que isso é verdade, porque combinando todos os textos que falam da pessoa de Cristo, iremos chegar a essa conclusão acerca de Sua natureza 100% humana e 100% divina. Ou seja, temos que juntar todas as peças para montar o quebra-cabeça. Portanto, esse não é um bom argumento para se usar.

Bem, vamos para o versículo 8: “O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá”.  Sabemos que todos esses dons mencionados nesse versículo cessariam algum dia, todos eles ficariam inoperantes. Agora, quero fazer uma observação, você percebeu uma coisa, logo de cara, e isso é muito importante, que o apóstolo Paulo e o Espírito Santo fazem uma distinção imediata entre línguas, profecia e ciência? E eles indicam aqui, através das palavras que são usadas no verso, que as línguas cessarão em um tempo diferente da profecia e do conhecimento. Ponto muito importante.

Observe a frase: “serão aniquiladas”, referindo-se às profecias. É o primeiro verbo logo após as profecias. Então, observe a última declaração no versículo 8: “havendo ciência, desaparecerá“. E, observo que não importa se a tradução de sua Bíblia traz palavras diferentes, pois são apenas sinônimas.

No texto original em grego, o verbo usado para se referir às profecias e à ciência é o mesmo verbo. Agora, não se perca. Talvez você não saiba muito grego, mas aguente firme e entenderá o que estou dizendo. O verbo, em grego, que se refere às profecias e à ciência, é “katargeō”. Mas, não é o verbo usado para se referir à cessação das línguas. Com relação às línguas é usada uma palavra totalmente diferente. Agora, quando vemos isso, sabemos imediatamente que há um propósito na mente do Espírito Santo para fazer uma distinção nesses termos, e queremos entender o que é.

“Katargeō” significa “tornar-se inoperante”. É uma coisa muito, muito importante para nós entendermos. Ser inoperante. A profecia será extinta; o conhecimento será eliminado. E, aliás, o verbo “Katargeō”, usado no texto duas vezes, é traduzido de maneira diferente em cada vez que é usado, em inglês [e em português também]. Mas é o mesmo verbo, em grego. Porém, a palavra usada para se referir às línguas, no meio do verso, é uma palavra totalmente diferente. É a palavra “pauō”, que significa “parar”.

Portanto, a primeira distinção muito interessante no versículo 8 é a distinção entre dois tipos de palavras gregas, o que nos dá um sentimento um pouco diferente do que o Espírito de Deus está dizendo sobre profecia e conhecimento e o que Ele está dizendo sobre línguas.

E eu ainda acrescento que a segunda distinção aí é que as vozes dos verbos são diferentes. Você lembra que existem três tipos de vozes do verbo? Quais são? Voz Ativa, voz passiva e reflexiva. O verbo, “katargeō”, usado no texto para se referir ao dom de profecia e ao dom de ciência, está na voz passiva.

Agora, aprendemos na escola, que quando um verbo está na voz passiva significa que o sujeito recebe a ação ou sofre a ação. Então, o que o verso 8 está dizendo é que algo está agindo sobre os dons de profecia e ciência com o objetivo de pará-los. O texto declara que “havendo profecias, serão aniquiladas”, em outras palavras, algo virá e interromperá a profecia. É um verbo passivo. A profecia será detida por outra força.

E ocorre o mesmo quando o verso 8 se refere à ciência. [Nota do tradutor: John MacArthur está se referindo ao texto original em grego, pois nas traduções para o português nem sempre o verbo que se refere à ‘ciência’ aparecerá na voz passiva, o que é uma falha na tradução]. Em resumo: algo deterá tanto a profecia, quanto a ciência.

E temos como saber qual é o agente que deterá ou aniquilará a profecia e a ciência? Sim, sabemos. Agora, veja os versículos 9 e 10: “Porque, em parte, conhecemos [referindo-se ao dom de conhecimento ou de ciência ], e em parte profetizamos [referindo-se às profecias] ; Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.”

E no texto há a mesma palavra, “katargeō”, novamente. O que é que vai parar a profecia e o conhecimento? Aquilo que é perfeito. Em outras palavras, o texto está dizendo que quando vier o que é perfeito, ele interromperá o conhecimento e a profecia.

Agora, o que é esse “perfeito”? Algumas pessoas dizem que é a Bíblia, quando ela foi concluída. Outras dizem que é o amadurecimento da igreja; outras que é o arrebatamento; algumas pessoas dizem que é a Segunda VInda, outras dizem que é o fim do milênio. Na próxima vez, trataremos desse assunto especificamente. Mas, agora vamos seguir no nosso tema de hoje.

E é muito interessante notar que apenas profecia e conhecimento aparecem no versículo 9, porém as línguas não aparecem mais, porque apenas profecia e conhecimento serão interrompidos por aquilo que é perfeito.

Mas, agora observe o verbo relativo às línguas: “as línguas cessarão”. O verbo não está na voz passiva. Se estivesse, o texto seria: “as línguas serão cessadas”. Porém, também não está na voz ativa. No grego, é uma voz intermediária, que é a voz reflexiva. Para ilustrar, por exemplo, em inglês [e em português também], diríamos, na voz ativa: “Eu bati”; na voz passiva: “alguém me bateu”; e na reflexiva: “Eu bati em mim mesmo”.

Portanto, no texto em grego, Paulo realmente diz isso: “As línguas vão parar por elas mesmas”. Esse é o significado da voz reflexiva, em grego. As línguas vão parar sozinhas. Ação intensa do sujeito sobre si mesmo. De fato, o Antigo Testamento grego, conhecido como Septuaginta, usa a forma do meio desse verbo “pauō” 15 vezes. E toda vez, significa completar, parar, terminar, ser realizado, chegar ao fim. Isso significa que algo acabou, terminou, está completo, está realizado, está concluído, está feito. E esse verbo, na voz reflexiva, significa que algo terminou por si só.

Assim, o texto está nos dizendo que a profecia e o conhecimento continuarão até que a coisa perfeita venha e os pare, e línguas vão parar sozinhas. Essa é a interpretação aqui quando olhamos para o texto original. Agora, é importante então darmos um passo adiante. As línguas vão parar sozinhas. A próxima pergunta é: Quando? Acredite, não acho difícil de responder. E gostaria de ter tempo para passar apenas uma hora analisando a História e todo tipo de assunto referente a essa questão. Deixe-me ajudá-lo brevemente com isso.

Quando as línguas vão parar? Creio que passei cerca de sete anos estudando esse assunto, e ainda o estudo, tendo lido todos os argumentos acerca dessa questão. E não estou dizendo isso para impressioná-lo. Estou dizendo isso para que você entenda que tentei analisar cada ponto e ser justo em minha conclusão. Também gastei muitas horas discutindo esse tema com pessoas que são pentecostais, tentando avaliar todas as posições.

Estou convencido de que as línguas cessaram na Era Apostólica, ou seja que elas cessaram há 1.900 anos atrás. E, de acordo com a tradução da palavra “pauō”, da qual falamos anteriormente, e de sua consistência no Novo Testamento e no Antigo Testamento, significa que, uma vez que cessaram, isso o fora para sempre.

Agora, quero respaldar isso biblicamente, porque não posso apenas dizê-lo e não lhes apontar as Escrituras. Então, eu quero fazer o que puder para defender biblicamente essa conclusão. E ela pode ser respaldada de várias maneiras. Vou apenas dar alguns argumentos que ajudarão a entendê-la.

Número um, a razão pela qual acredito que é verdade que as línguas cessaram na Era Apostólica é porque as línguas eram um dom milagroso e a era de milagres já terminou. Agora, já discutimos isso em sermões anteriores [leia os sermões sobre dons temporários dessa série, já publicados]. Não estou dizendo que Deus não faz milagres até hoje. Não estou dizendo que Deus não cura em nossos dias. Não estou dizendo que Deus não age providencialmente para fazer coisas que humanamente seriam impossíveis. Mas estou dizendo que há uma distinção na história redentora de Deus, em períodos de tempo que eram de operação de milagres, nos quais Deus, para um propósito específico, estava confirmando Sua Palavra.

Em toda a história redentora existem apenas três períodos básicos de milagres [Deus usando homens especialmente dotados]:

  • O período de Moisés a Josué;
  • O período de Elias e Eliseu;
  • O período de Cristo e dos apóstolos.

Cada uma dessas fases de operação de milagres abrangeu períodos de aproximadamente 70 anos, cada um deles.E o período intermediário entre essas fases é longo, vastas épocas, às vezes de 500 a 1.000 anos, em que milagres ocorriam em tão pouca frequência, que de maneira alguma eles poderiam ser considerados a regra, mas a exceção. Esse tem sido, e continua sendo, o padrão de Deus. Ademais, os milagres que ocorreram – ouça isso – no tempo de Cristo e dos apóstolos eram simplesmente amostras ou predições dos “poderes da era vindoura”, Hebreus 6:5. E a “era por vir” não será a era da igreja, mas a era o reino.

E assim, o que aconteceu foi que em certos intervalos na História redentora de Deus, Ele quis dar uma pequena amostra da era vindoura – o reino vindouro. Mas nunca foi a intenção de Deus simplesmente fazer milagres se espalharem por toda a História redentora, de maneira alguma. E você encontra, por exemplo, no Novo Testamento, que o último milagre registrado ocorreu por volta de 58 d.C. E, depois disso, em cerca do ano 96d.C., quando João terminou o Apocalipse, não há registro de nenhum milagre sequer.

Além disso, os dons milagrosos, como línguas, cura e sinais, são mencionados apenas em I Coríntios, que é um livro mais antigo que Efésios e Romanos, por exemplo. E, quando você examina Efésios e Romanos, onde os dons espirituais também são discutidos, que foram escritos mais tarde que 1 Coríntios, não há absolutamente qualquer menção aos dons milagrosos, ou de operação de sinais, como curas, línguas etc.

Então, Deus, em Seu maravilhoso desígnio, tinha uma intenção e um propósito para os milagres. E eles foram parte de uma era milagrosa, com o propósito de confirmar Sua Palavra, de chamar Israel e oferecer-lhes o reino, e lhes dar um gostinho dos elementos do reino, dos milagres dos poderes da era futura, e deixá-los provar uma pequena amostra deles. E é por isso que, em Hebreus 6, é dito:

4 Porque é impossível que os que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo,
5 e provaram a boa palavra de Deus, e os poderes do mundo vindouro,
6 e depois caíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; visto que, quanto a eles, estão crucificando de novo o Filho de Deus, e o expondo ao vitupério.

Uma vez que Israel tinha dado as costas para Deus, mesmo testemunhando tantos sinais feitos por Jesus e Seus apóstolos, Deus se voltou de Israel para os gentios, e portanto, o propósito desses milagres – como um sinal para Israel – tinha terminado. E é importante que entendamos bem esse assunto. Vamos para o capítulo 2 de Hebreus e respaldar algo desse pensamento com um texto que é muito, muito vital para nosso entendimento:

2 Pois se a palavra falada pelos anjos permaneceu firme, e toda transgressão e desobediência recebeu justa retribuição,
3 como escaparemos nós, se descuidarmos de tão grande salvação? A qual, tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor, foi- nos depois confirmada pelos que a ouviram:
4 testificando Deus juntamente com eles, por sinais e prodígios, e por múltiplos milagres e dons do Espírito Santo, distribuídos segundo a sua vontade.

Note que o escritor de Hebreus aqui está escrevendo para as pessoas que estão em cima do muro. São judeus [pois a carta é destinada aos hebreus] que chegaram a um profundo conhecimento de Cristo e estão em profunda consideração se devem ou não vir a Cristo, estão em cima do muro. E ele lhes diz: “como escaparemos nós?” – e o autor se identifica com seus irmãos hebreus no uso do “nós” – “se descuidarmos de tão grande salvação?”, e agora observe: “a qual, tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor…”. Toda a história da salvação foi articulada primeiro por Cristo.

E o texto continua: “foi- nos depois confirmada pelos que a ouviram…”. E quem eram esses que a ouviram? O texto se refere aos apóstolos, que ouviram a Cristo. Assim, todo ensino de Cristo foi confirmado pelos apóstolos. E tanto a palavra pregada por Cristo, como pelos apóstolos, foi confirmada por Deus. Como? “testificando Deus juntamente com eles, por sinais e prodígios, e por múltiplos milagres e dons do Espírito Santo…”.

Agora, observe: o escritor de Hebreus usa o verbo no passado no versículo 3, “foi confirmada“. O evangelho já havia sido confirmado. Já havia sido confirmado por sinais, maravilhas, diversos milagres e dons do Espírito. Observe que havia certos sinais, maravilhas, milagres e dons que eram estritamente para a confirmação do evangelho, para provar que era divino, por isso Deus concedeu os milagres, para que aquelas pessoas soubessem que aquela pregação vinha de Deus.

É interessante para mim que o escritor de Hebreus não diga que o evangelho, ou as doutrinas da salvação, estão sendo confirmadas para nós através de sinais, maravilhas e milagres, mas ele usa o verbo no passado, “foi-nos confirmada”. Logo, mesmo na época em que Hebreus foi escrito, no ano 67 ou 68 d.C., o escritor vê os milagres como algo do passado: “foi confirmada”, ou seja, a palavra pregada já havia sido confirmada através dos sinais.

É muito importante notar que mesmo os escritores do Novo Testamento, que escreveram décadas após o início da igreja, viam toda essa área de sinais e milagres como algo passado. Agora, não diga por aí que eu não acredito que Deus é um Deus de milagres. Acredito que Deus pode fazer o que Ele quiser, e estou animado para vê-Lo fazer. Só estou dizendo que quando você ouve essa conversa constante na igreja moderna, sobre uma pilha de milagres acontecendo, um após outro, isso simplesmente não se encaixa no padrão bíblico, porque ainda não estamos no reino.

E eu acrescentaria um segundo pensamento. Milagres, e particularmente o milagre das línguas, foi um sinal judicial para Israel, por causa da incredulidade de Israel. Veja I Coríntios 14, versículo 21, que diz: “Está escrito na lei: Por homens de outras línguas e por lábios de estrangeiros falarei a este povo; e nem assim me ouvirão, diz o Senhor. A palavra “lei” aí é uma referência geral à Palavra de Deus e citações específicas de Isaías.

Agora, essa profecia era para Israel. E Deus estava dizendo: “Israel, Eu falei com você em palavras claras. E você nunca ouviu Minhas palavras claras; assim, como um sinal confirmando tua incredulidade, começarei a falar com você em um idioma que você não será capaz de entender.” O dom de línguas, amado, foi parte do ato judicial de Deus de dizer a Israel: “Eu Me afasto de você e Me volto para a igreja.”

Ele ofereceu o reino aos judeus. Eles recusaram o reino, eles recusaram o Rei, eles assassinaram o Messias. E, como sinal judicial, ou sinal de juízo, Deus passou a falar ao Seu povo com outras línguas e outros lábios, sendo um sinal da violação da aliança por parte de Israel. Falaremos disso em detalhes quando chegarmos no capítulo 14.

Agora, ouça: as línguas tinham um significado primário para Israel – e, aliás, o versículo 22 diz: “as línguas são um sinal, não para os crentes, mas para os incrédulos…”. Esse sinal nunca foi destinado aos cristãos. Foi concebido como um sinal judicial para Israel. Se, de fato, o julgamento de Deus já havia caído sobre Israel, o dom de línguas não teria significado algum. Porque foi um aviso do ato judicial de Deus contra eles.

E esse ato judicial, ou juízo de Deus, veio quando? Em 70 d.C., quando o templo foi destruído e Jerusalém foi exterminada. Um milhão e cem mil judeus foram mortos em um ato terrível e trágico de Tito Vespasiano, o conquistador romano que varreu e destruiu a cidade, destruiu o templo e despedaçou os muros. Assim, o judaísmo, para todos os efeitos, chegou ao fim. E o propósito do dom de línguas, que era um sinal para o Israel incrédulo do ato de Deus contra eles, julgando sua incredulidade, havia chegado ao fim. Não era mais necessário.

Em terceiro lugar, outra razão pela qual acredito que o dom de línguas desapareceu é porque era inferior ao dom de profecia. Agora me escute: as línguas só tinham a capacidade de edificar quando eram interpretadas. É por isso que, no capítulo 14, verso 27, Paulo diz: “Se alguém falar em língua, faça-se isso por dois, ou quando muito três, e cada um por sua vez, e haja um que interprete.” Porque, quando interpretadas, as línguas teriam alguma função edificante. Quando não interpretadas, as línguas foram um sinal contra Israel.

Mas, para ter algum significado na igreja, teria que haver interpretação e, então, teriam alguma qualidade edificante. Mas, a edificação não era o objetivo principal do dom de línguas; seu propósito era relativo a Israel. Agora, uma vez que Israel havia sido julgado, o propósito das línguas como sinal judicial havia cessado.

Mas, então, alguém pode argumentar: “Mas as línguas ainda permanecem até hoje apenas como algo edificante”. Bem, isso é desnecessário. Isso é absolutamente desnecessário, porque há algo que é muito superior às línguas na edificação. Capítulo 14, versículo 1. O que diz? “Segui o amor; e procurai com zelo os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar”. O que é superior às línguas como expressão de edificação? Profecia. [Nota do Tradutor: Veja o real significado do dom de profecia que permanece até hoje nos sermões anteriores dessa série].

Agora, ouça: todo o capítulo 14 de 1 Coríntios tem como objetivo provar a superioridade da profecia em relação às línguas. Nos primeiros 12 versículos do capítulo 14, Paulo nos mostra que o dom de línguas é um meio inferior de comunicação. Nos versículos 13 a 19, ele diz que as língua são um método inferior de louvor. Nos versículos 20 a 25, ele acrescenta que o dom de línguas é um método inferior de evangelização. E assim, o décimo quarto capítulo é para provar que o dom de línguas é inferior na comunicação, é inferior no louvor e no evangelismo.

E é por isso que ele diz, nos versos 18 a 19: “Dou graças a Deus, que falo em línguas mais do que vós todos. Todavia na igreja eu antes quero falar cinco palavras com o meu entendimento, para que possa também instruir os outros, do que dez mil palavras em língua.” O dom de línguas é inferior ao de profecia e, diante de seu objetivo judicial relativo a Israel e por ter sido um sinal, não há razão para dar tanta ênfase a esse dom, porque ele não tem um propósito edificante contínuo que não possa ser melhor realizado pela profecia [no sentido de proclamação ou pregação das Escrituras]., E esse é o ponto do capítulo 14.

A razão número quatro porque acreditamos que as línguas cessaram é que falar em línguas se torna inútil após o Novo Testamento ter sido completado. Ora, outra característica do dom de línguas era que quando uma pessoa falava em línguas, ela estava recebendo revelação de Deus. Recebendo revelação direta. A pessoa falava e outra interpretava a revelação. O Novo Testamento não estava pronto ainda.

Bem, deixe-me fazer uma pergunta: a revelação direta de Deus cessou? Sim, pois a Bíblia está pronta, completa. Existe algo a ser acrescentado às Escrituras? Algo a ser retirado? Não. De fato, em Apocalipse, João, que escreveu esse último livro da Bíblia, declarou na conclusão do livro, 22:18-19:

18 Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro;
19 E, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro.

Assim, toda a revelação de Deus para nós está completa, pois a Bíblia está completa. Então, como fonte reveladora, o dom de línguas deixou de ter qualquer significado. Até mesmo o dom de profecia, de conhecimento e de sabedoria, na função de revelar algo que Deus está comunicando, também cessaram, embora eles continuem operando em outro aspecto, e veremos mais sobre isso na próxima vez.

Esses dons reveladores foram para a infância da igreja, quando Deus estava dando revelações antes que a revelação – a Bíblia – estivesse completa. Escute isso em Hebreus 1: “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho”. Nos últimos dias, a Palavra do Filho. A Bíblia não diz: “E no futuro nos falará através dos pentecostais, ou através da igreja”. Não. Nos últimos dias, a Palavra do Filho. E a Palavra do Filho é o Evangelho, a Palavra do Filho é o Novo Testamento.

A quinta razão pela qual cremos que o falar em línguas cessou é porque esse dom é mencionado apenas nos primeiros livros escritos do Novo Testamento. É tão interessante para mim que I Coríntios é a única epístola onde o dom de línguas aparece. E há muitas epístolas. Paulo escreveu pelo menos 12 outras epístolas e nunca mencionou esse assunto. Pedro nunca o mencionou, Tiago nunca o mencionou, como também João e Judas. O dom já tinha desaparecido, cessado.

E mesmo que o homem sempre tenha um desejo místico de que Deus daria uma revelação particular de Si mesmo a cada indivíduo através da História, simplesmente não é assim que acontece. Deus deu Sua Palavra e Ele autenticou Sua Palavra. E esta é a fé, de uma vez por todas entregue aos santos. A revelação terminou. As línguas, sejam como um dom revelador, ou como um sinal, ou como um dom edificante, deixaram de ter qualquer função.

A sexta razão pela qual cremos que o dom de línguas cessou é porque esse dom cessou historicamente. Ora, a Bíblia diz que as línguas cessariam. A pergunta é: elas já cessaram ou ainda vão cessar? Lembre o que falei no início sobre o verbo grego “pauō”, usado no verso 8 de 1 Coríntios 13 com referência às línguas, e que significa que algo termina por que já cumpriu sua finalidade? As línguas tinham uma finalidade, como falamos. Mas essa finalidade já foi alcançada e cessou.

O mais interessante para mim é o fato de que o primeiro dito “reavivamento de línguas” dentro dos limites da igreja evangélica de Jesus Cristo, desde a era apostólica, foi em 1901. Onde esse dom estava durante os 1.800 anos anteriores? A Bíblia não diz – em 1 Coríntios 13:8 – que o dom cessaria por um tempo e que depois retornaria. O texto bíblico diz que o dom iria parar por si mesmo, por ter alcançado sua finalidade. Ele cessou, pois sua finalidade acabou.

De fato, se você estuda a História dos pais da igreja primitiva, por exemplo, verá que eles foram os líderes da igreja que viveram imediatamente após a era apostólica. Você sabe o que é tão interessante sobre eles? Cleon Rogers diz: “É significativo que o dom de línguas não seja mencionado em nenhum lugar, sugerido ou mesmo encontrado em quaisquer escritos dos pais apostólicos.” Ou seja, a primeira geração após a igreja primitiva nunca fez menção do dom de línguas.

Clemente de Roma, que escreveu uma carta aos coríntios em 95 dC – e viveu bem próximo da era do Novo Testamento, porque alguns acreditam que João escreveu Apocalipse no ano 96 – escreveu aos coríntios e discutiu todos os seus problemas espirituais, porém não fez qualquer menção ao dom de línguas. Sabemos que Paulo, quando escreveu aos coríntios, tratou do abuso ou falsificação do dom de línguas que estava acontecendo naquela igreja.

Mas, no ano 96, quando Clemente escreveu aos coríntios, não tocou nesse assunto, o que dá a entender que o dom já havia cessado. E quando o dom de línguas verdadeiro cessou, o abuso e falsificação do mesmo cessaram também, e assim, isso deixou de ser um problema a ser tratado na igreja.

Justino Mártir, o grande pai da igreja que viveu de 100 a 165 d.C., viajou por toda parte para ter contato com cada igreja, escreveu muitas coisas defendendo o cristianismo, e ele nunca menciona o dom de línguas. Ele elaborou listas de dons espirituais em seus escritos e elas não incluíram o dom de línguas.

Orígenes, que viveu de 185 a 253 d.C., foi amplamente lido, foi um estudioso sem igual na opinião de várias pessoas. Em todos os seus volumosos escritos, e que ainda estão disponíveis, ele não faz menção alguma do dom de línguas. Em seu pedido de desculpas contra Celso, ele argumenta explicitamente que os dons de sinais – ou dons miraculosos – da Era Apostólica foram temporários. E ele diz: “Nenhum cristão contemporâneo exerce qualquer um dos dons antigos.”

Crisóstomo, talvez o maior de todos os escritores cristãos antigos, que viveu de 347 a 407, escreveu um comentário sobre 1 Coríntios 12. E veja o que ele diz: “Esse lugar todo é muito obscuro; mas a obscuridade é produzida por nossa ignorância sobre os fatos mencionados e por sua cessação, de como costumavam ocorrer, mas agora não ocorrem mais.” Crisóstomo está dizendo que esses dons de sinais não mais existiam. Ele continua: “Nós nem podemos defini-los; nem sequer entendemos o que são.”

Agostinho, que viveu entre 354 e 430, em seu comentário sobre Atos 2:4, que trata do Pentecostes, do Espírito Santo e das línguas, diz:

Nos primeiros tempos, o Espírito Santo caiu sobre os que creram, e eles falaram em línguas. Estes eram sinais adaptados àquela época. Pois teria que haver aquele sinal do Espírito Santo. Tratou-se de um sinal, mas acabou.

Então, veja você, os maiores teólogos da igreja antiga consideraram esse dom como uma prática antiga, do início da igreja, e no século IV, eles nem sequer entendiam o que eram esses dons de sinais.

Agora, durante todo esse período, temos o registro de apenas duas pessoas que falaram em línguas na igreja. Um era Montanus, e ele anunciou a todos que ele era o Espírito Santo. Ele era um sacerdote pagão que havia sido convertido ao cristianismo. Ele era acompanhado por todo lugar por sacerdotisas que entravam em êxtase e falavam de modo incompreensível, como ocorria nas religiões de mistério.

Montanus foi expulso da igreja, considerado um herege. Ele também acreditava que Cristo viria em breve e tentou propagar a idéia de que a razão pela qual as línguas estavam novamente operando era porque aquele era o fim dos tempos. A mesma coisa que ouvimos hoje. Exatamente. E Montanus foi considerado herege. Montanus ainda acreditava que Jesus viria para a Frígia, onde ele morava, e estabeleceria o reino com a sede em sua cidade natal.

A outra ocorrência das línguas depois da Era Apostólica foi com referência a um homem chamado Tertuliano, e esse era um discípulo de Montanus. Agora, acrescentarei que houve outras ocasiões de manifestação das línguas durante esses períodos, e isso se deu com as sacerdotisas de Delfos, nas religiões pagãs, e com outros feiticeiros e com os chamados videntes. Mas não houve nenhuma manifestação desse dom, nesse período, no cristianismo.

A próxima vez que você verá alguma coisa sobre o dom de línguas depois de Montanus – e ele viveu no século II – foi através dos chamados sacerdotes de Cevenol – por volta de 1685, século XVII. Esses sacerdotes, por sua vez, acreditavam que tinham o dom de uma expressão extática, ou seja a capacidade de entrar em uma espécie de êxtase. E eles eram um grupo estranho na França. Eles acreditavam que seus filhos pequenos entendiam o dialeto francês em um discurso extático, ou seja, numa linguagem incompreensível, fruto do estado de êxtase que entravam em seus rituais.

E eles fizeram ataques noturnos e invasões militares e assim por diante. Eles foram expulsos de qualquer comunidade cristã, porque todas as suas profecias não foram cumpridas, além do fato de que eles eram muito militantes. Eles não faziam parte da linha principal da igreja.

Depois, houve os jansenistas, um grupo de reformadores católicos romanos, que eram anti-reforma protestante. Por volta de 1731, eles realizaram reuniões noturnas na tumba de seu líder e, supostamente, entravam em êxtase, e falavam em línguas estranhas. Eu não duvidaria disso.

Depois, houve os Shakers.Eles se originaram da “mãe Ann Lee”. A mãe Ann Lee viveu entre 1736 a 1784, e se considerava o equivalente feminino de Jesus Cristo. Assim, para ela, Jesus Cristo era Deus no corpo masculino e ela era Deus no corpo feminino. Ela fundou a comunidade Shaker em Troy, Nova York, e alegava ter recebido uma revelação de Deus dizendo que as relações sexuais eram corruptas, mesmo dentro do casamento. E também, para mortificar a carne e resistir à tentação nesse sentido, ela instituiu a prática de homens e mulheres dançando juntos nus, enquanto falavam em línguas estranhas.

O próximo grupo a suscitar o assunto das línguas foram os Irvingitas. Por volta de 1830, Edward Irving começou um pequeno grupo em Londres. Suas revelações contradiziam as Escrituras, suas profecias não foram cumpridas, suas supostas curas foram seguidas de mortes, além de haver rumores de imoralidade no grupo, e assim por diante.

Observe que todas essas pessoas que de alguma forma praticaram o falar em línguas estranhas, estando em êxtase, tudo isso estava fora da igreja. A primeira vez em que isso apareceu e foi trazido para dentro da igreja foi em 1901, na Bethel Bible College, no Kansas (EUA), quando Agnes Ozman alegou receber o batismo do Espírito e a fala em línguas. Isso fez parte do Movimento de Santidade da Igreja na América.

Esse Movimento hegou à rua Azusa, Los Angeles, Califórnia, em 1906. E, a partir daí, cresceram as principais denominações pentecostais, das quais muitos de nossos irmãos e irmãs em Cristo fazem parte. E eles crêem na Palavra de Deus e pregam a Palavra de Deus, e por isso louvamos ao Senhor. E então, em 1960, em Van Nuys, Califórnia, começou o moderno movimento carismático, ou neopentecostalismo, que não pertence às principais denominações pentecostais.

Agora, aponto tudo isso apenas para que você perceba que a manifestação das línguas não é algo que se passou ao longo da história da igreja. E Paulo disse que esse dom cessaria, o Espírito Santo disse que cessaria. Ele já cessou, e não há motivos para acreditar que tenha voltado. As pessoas sempre me dizem: “Bem, John, se esse dom não voltou, o que estamos vendo acontecer no meio daqueles que manifestam essas línguas? Como você explica isso?” Bem, explicarei na próxima vez.

Mas, deixe-me dizer isso em conclusão: tenho alguns amigos queridos que falam em línguas e eles continuarão sendo meus amigos. E continuarei a amá-los, e provavelmente temos menos problemas com o falar em línguas do que com algumas pessoas fofocando no idioma que todo mundo entende.

Mas eu sinto, no meu coração, que Deus me chamou para ensinar Sua Palavra, e quando eu chego à Sua Palavra, eu tenho que ensiná-la. Eu tenho que ensinar do jeito que ela é, e eu apenas quero que eles e todos nós a entendamos. Eu ouço o restante do capítulo 13, e ele está me dizendo para amar, e eu quero amar. Mas tenho que amar dentro dos limites da verdade, e você também. Vamos orar.

Pai nosso, agradecemos por nossos irmãos e irmãs que estão Te amando e que estão pregando o evangelho. E se pudermos ajudar um pouco a esclarecer e clarear algumas questões na Palavra sobre esse assunto, ficaremos muito gratos. Porque esta é a Tua palavra e precisamos entendê-la para a Tua glória. Obrigado por nossa comunhão esta manhã, Pai.

(Enquanto suas cabeças estão inclinadas, vamos renovar nosso compromisso com o Senhor de amar uns aos outros. Esther cantou tão bem sobre isso nesta manhã, e o capítulo 13 de 1 Coríntios fala sobre isso. Talvez, também, em alguns de seus corações, haja uma necessidade real de um comprometimento de suas vidas com Cristo, uma necessidade real de resolver alguns problemas espirituais, para obter vitória espiritual. Não vá embora até que tudo esteja realmente resolvido entre você e o Senhor nesta manhã.)

Pai, obrigado por nossa comunhão. Estamos ansiosos por hoje à noite, porque essa comunhão tem sido muito boa. Usa-nos hoje e reúna-nos hoje à noite com grandes relatos de bênçãos, antecipando o que o Senhor fará novamente esta noite. Obrigado por toda a vida aqui. Oramos para que preguemos a verdade em amor e louvamos pelo que o Senhor faz. Em nome de Cristo, amém.

 


Esta é uma série de sermões sobre os dons do Espírito Santo e homens especialmente dotados, conforme links abaixo:


Este texto é uma síntese do sermão “The Permanence of Love, Part 1”, de John MacArthur em 23/01/1977.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/library/sermons-library/1868/the-permanence-of-love-part-1

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


 

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