Comunhão Cristã – Parte 1

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Sermão pregado em 17 de maio de 2020. Nele, John MacArthur traz à lembrança da igreja o conceito, a importância e a realidade da comunhão entre os membros do corpo de Cristo, visto que nas últimas décadas esse assunto tem sido mitigado em sua importância e relativizado em sua necessidade. Quem decidiu e projetou como seria o funcionamento da igreja foi Deus. É sempre bom sermos lembrados do que a Sua Palavra nos diz a respeito. 


Queremos dar uma olhada no tema da comunhão, algo que nos falta de maneira terrível nos dias de hoje. A própria essência da vida da igreja é relacional, não de maneira superficial, mas de maneira muito intensa, profunda. O modelo para isso, é claro, é a Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo, nesse eterno relacionamento de amor. E nós, sendo feitos à imagem de Deus, somos feitos para o relacionamento. A mais pura, melhor, mais alta e mais nobre dessas categorias de relacionamento existe na vida daqueles que pertencem a Deus, que compartilham Sua vida.

O Novo Testamento nos diz que o Filho de Deus veio e montou Sua tenda entre nós [“o Verbo se fez carne e habitou entre nós”]. Ele assumiu a forma de homem, viveu conosco, e então, enviou Seu Espírito Santo para viver não apenas conosco, mas em nós. Somos todos um em Jesus Cristo. Em Efésios, capítulo 4, o apóstolo Paulo expressa essencialmente a mesma realidade de 1 Coríntios 12. 

Efésios 4
15 Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo,

16 Do qual todo o corpo, bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor.

Nós somos o corpo de Cristo. Ele é a cabeça. É a vida Dele que está em nós e nos une na vida espiritual e no amor. Esse é um tema que encontramos muito no Novo Testamento. Gálatas 3:28, novamente nos diz: “todos vós sois um em Cristo Jesus”.

Filipenses 2
1 Portanto, se há algum conforto em Cristo, se alguma consolação de amor, se alguma comunhão no Espírito, se alguns entranháveis afetos e compaixões,

2 Completai o meu gozo, para que sintais o mesmo, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa.
3 Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo.
4 Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros.
5 De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus.

Ter a mesma atitude que estava em Cristo Jesus é ter o mesmo tipo de abnegação que Ele exibiu em Sua condescendência e Sua vontade de ir à cruz por nós. O cristianismo é relacional da maneira mais intensa, espiritual e eterna. Assim deve ser na vida da igreja.

No amanhecer cinzento de abril de 1945, no campo de concentração nazista de Flossenburg, havia um pastor que ficou famoso: Dietrich Bonhoeffer. Ele foi executado por ordem especial de Heinrich Himmler, que era carrasco de Hitler. Bonhoeffer havia sido preso dois anos antes, e basicamente transferido de prisão em prisão, campo de concentração a campo de concentração, de Tegel a Berlim, a Buchenwald, a Schoenberg, a Flossenbürg.

E então, com todas essas transferências, ele havia perdido todo o contato com todos que conhecia. O mundo exterior foi completamente separado dele, e ele perdeu a coisa mais preciosa que possuía: comunhão. O Salmo 133, onde se lê “quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união”, era um assunto muito querido para ele, pois fala de irmãos habitando juntos em unidade, algo que ele havia perdido, como se viu, para nunca mais lhe ser restituído neste mundo.

Essa era uma realidade tão preciosa para ele que, com base nesse versículo, o primeiro do Salmo 133, ele escreveu um livro cujo título é “Vida Juntos”. Ele escreveu sobre a riqueza da comunhão. Deixe-me citar uma parte:

A presença física de outros cristãos é uma fonte de alegria e força incomparáveis para o crente, um sinal físico da presença graciosa do Deus trino. Quão inesgotáveis são as riquezas que se abrem para aqueles que, por vontade de Deus, têm o privilégio de viver na comunhão diária da vida com outros cristãos. Quem tem esse privilégio agradeça a Deus de joelhos e declare que é graça, nada mais que graça, que nos seja permitido viver em comunhão com os cristãos”. 

Ele estava certo. Nós, da Grace Community Church, podemos dizer um amém a isso. Nós experimentamos isso. E é exatamente assim que o Novo Testamento define a igreja. Como igreja de Cristo, somos representados como uma esposa com um marido, um conjunto de ramos conectados a uma videira, um rebanho com um pastor, um reino com um rei, uma família com um pai, um edifício com um fundamento. E então, mais singularmente, um corpo com uma cabeça.

E essa é a nossa identidade única. Somos definidos, no capítulo que li anteriormente, como um corpo, de um modo vivo, espiritualmente conectado, ministrando-se mutuamente. Isto é, antes de tudo, espiritual. É um organismo vivo, conectado pela vida eterna comum concedida por Deus.

Quando nosso Senhor orou, em João 17, “para que eles sejam um”, Ele não estava falando sobre a nossa capacidade de nos entendermos. Mas, estava orando ao Pai para que todos que viessem a Ele fossem um espiritualmente. E essa oração é respondida através da igreja sendo o corpo de Cristo.

Estamos espiritualmente conectados e projetados para a vida compartilhada, o amor compartilhado, propósito compartilhado, ministério compartilhado, verdade compartilhada, poder compartilhado. Isso é comunhão. Essa é a igreja. O verbo comunhão – “koinōneō” – é usado oito vezes no Novo Testamento. Em sete delas é traduzido como “compartilhar” (na versão NAS). E em uma delas é traduzido como “participar”.

Realmente, esse verbo descreve uma parceria. A forma substantiva “koinōnia” é usada cerca de trinta vezes, e carrega a mesma ideia. Às vezes, é traduzida como “compartilhamento”, ou “contribuição”, “parceria”, “participação”. Mas, é a ideia de uma dependência mútua – participando, contribuindo, compartilhando, vinculando-se como parceiros, com uma vida comum e uma causa comum. Não somos apenas um reino, não apenas uma família, mas um corpo, que é a maneira mais intensa de descrever a dependência da comunhão da igreja.

E com toda a honestidade, tenho que fazer a pergunta: “Essa é realmente a visão evangélica contemporânea da igreja?”

Nos anos 80, quando Neil Postman, um humanista judeu, escreveu um livro chamado “Divertindo-se até à morte”, ele tratou da perda épica e trágica de pensamentos sérios, e estava falando sobre como o entretenimento específico havia prejudicado a mente das pessoas, principalmente, naqueles dias, pelo poder da televisão. Mas ele disse o seguinte: “Pelo menos a televisão é uma experiência de grupo, e as telas estão ficando maiores para acomodar mais pessoas”.

Bem, Neil Postman dificilmente poderia ter visto que as telas não estavam apenas ficando maiores, mas também estavam ficando menores, paradoxalmente. O entretenimento sedutor passaria das telas públicas às telas mais privadas, tão pequenas quanto um smartphone ou até um óculos do Google.

O mundo ficou tão pequeno, que cada pessoa se torna criadora de seu próprio mundo particular, um mundo secreto de preferências, tentações, com uma força e onipresença sem paralelo na história humana. O smartphone é o dispositivo mais egoísta já inventado.

No passado, você precisava de um telefone com apenas um objetivo: conversar com outra pessoa. Agora, seu telefone raramente é usado para conversar com outra pessoa, mas é usado principalmente para criar seu próprio mundo particular. A tecnologia colocou nas mãos de todos nós o mundo mais constante, incessante, acessível, visual e privado de indulgência egocêntrica, tentação e entretenimento jamais imaginados.

Você escolhe o que quiser. Você escolhe seus relacionamentos. Você escolhe quem entra no seu mundo e quem não entra. Você se torna seu próprio deus, você é o criador do seu próprio universo privado, e fora do seu próprio ciberespaço há a escuridão externa de tudo o que você rejeita. Carl Trueman disse:

A linguagem da amizade é banalizada e barateada pelas redes sociais da Internet. A linguagem do Facebook reflete e incentiva a infantilidade. A infantilidade tornou-se uma espécie de doença transmitida textualmente. 

Por que ele diz isso? Porque se existe algo que define infantilidade é egoísmo. Pergunte a si mesmo se não temos experimentado uma infantilização da igreja. De fato, a igreja se tornou uma ferramenta para satisfazer o egoísmo de todos. Carl Trueman disse:

Os relacionamentos se desenvolvem no mundo desencarnado da Web. Os alunos do ensino médio passam nove horas por dia em seu próprio mundo. Tais são amebas humanas, subsistindo em um mundo não-bizarro que não envolve riscos para si mesmos, não se doam para os outros, não há qualquer vulnerabilidade verdadeira, nenhum compromisso, nenhum sacrifício, nenhum significado real, nenhum valor. A verdadeira comunhão não pode existir no mundo dos avatares auto-criados, pois requer pessoas reais criadas por Deus.

O cristianismo não é uma experiência individualista. A igreja não é uma experiência individualista. Mas, a tendência que cresce rapidamente é de que as pessoas criem seu próprio mundo virtual de auto-preferências virtuais, de acordo com seus gostos e desejos, excluindo todos os outros desse mundinho pessoal.

As pessoas criam seu próprio mundo virtual no “Éden” da Internet, que lhes dá o uso perfeito, indominável, auto-realizado, uma auto-projeção digitalizada de design pessoal idílico. A cultura, como resultado, está se tornando mais isolada, mais consumista, mais narcisista, mais absorvida por si mesma, mais individualista, mais moralmente corrompida e moralmente relativa, e certamente mais cheia de rótulos. As pessoas esperam conseguir o que desejam, porque podem criar o que desejam.

E a igreja, nesse contexto, é vista como desnecessária, não essencial. Estamos descobrindo agora que lugares que vendem maconha são considerados necessários, essenciais. Lojas de bebidas são essenciais. As igrejas não são necessárias, porque todos podem criar sua própria religião. A igreja evangélica há décadas tenta dar à cultura o que ela quer. E o que a nossa cultura quer? Ela quer privacidade, conveniência, baixo compromisso, anonimato, irresponsabilidade e auto-realização.

Portanto, a vida da igreja é vítima desse auto-design sedutor. E você ouve as pessoas dizerem: “É difícil encontrar uma igreja que eu goste”. Isso porque muitos querem a igreja de seu iTunes, onde você tem todas as suas músicas, todas as suas mensagens e todos os seus amigos, tudo do seu jeito.

Em uma igreja real, talvez você precise enfrentar um inimigo ou alguém que está fora do seu mundo preferido. Numa igreja real, você pode até ter que ouvir uma mensagem de um pregador que não dirá aquilo que você acredita, ou que pareça não ser tão amável para você. E o pior de tudo, numa igreja real talvez você vá ouvir um velho hino, com um ritmo clássico, puxado por um idoso. E talvez isso seja demais para o mundo criado por você.

Para quem deseja essa igreja virtual, ao gosto do freguês, esse momento de distanciamento forçado que estamos vivendo pode ser algo ideal. Você não precisa de mais ninguém. Esse distanciamento não parece ser um tipo de situação terrível para você, pois seu mundo virtual permanece exatamente do jeito que você deseja. Você pode ter todas as suas próprias informações, experiências e relacionamentos projetados à sua maneira.

Mas o que você perdeu agindo assim? Você perdeu o poder dominante da Palavra de Deus. Você cria seu próprio mundo, inevitavelmente descarta a verdade, descarta a precisão, descarta a realidade, descarta a credibilidade, descarta a racionalidade e até descarta os relacionamentos no nível mais dinâmico e poderoso.

Igrejas online são populares hoje. Por isso, para algumas pessoas, essa quarentena não muda nada do que já viviam. Elas entendem que ir ao local de reunião da igreja e ouvir a pregação é o mesmo que ficar isolado em casa e assistir na tela. Li, de um líder evangélico, o seguinte: “Os jovens millennials estão saindo da igreja e indo em direção a Jesus”. Sério? Sair da igreja e ir em direção a Jesus? Isso é assustador, porque eles estão indo em direção ao Jesus que eles criaram.

Eles estão saindo da igreja, porque não querem ficar sob a autoridade da Palavra de Deus. A igreja para eles é desnecessária. Para eles, você pode participar de um grupo eletrônico, ter um grupo no Facebook, ouvir o que quiser e não ouvir o que não gosta, plantar sua própria igreja de um membro só. Uma igreja exclusiva e isolada.

Há alguns anos atrás, quando essa nova abordagem de igreja começou a emergir, alguns disseram que a igreja tinha que se conformar com essa abordagem mais personalizada da vida. Houve líderes da igreja que concordaram com isso e disseram que todo mundo precisa ser capaz de criar sua própria visão de religião. Um líder disse: “Não adoro a Deus cantando”. Outro escreveu um blog sobre “Por que não me reúno à igreja com muita frequência?”

Outro sugeriu que você poderia fazer sua própria ceia pessoal com chocolate quente e biscoitos, e disse que há uma conexão fantástica entre biscoitos e chocolate quente com os elementos da ceia do Senhor!.”Crie seus próprios sacramentos!”, disse ele.

Há muitas coisas que me preocupam. Um delas, que está perto do topo da lista, é que a igreja caiu em uma eclesiologia fraca, uma definição anti-bíblica de si mesma. E isso acelerará o declínio, mesmo nessa era que tem ocorrido o impacto em rápida expansão da sã doutrina. As igrejas estão mais preocupadas com: “Qual é o plano para a mídia? Qual é o plano para a tecnologia?”, ao invés de “Qual é o plano para proclamar a verdade?”

E estar separado, isolado, como ocorre agora, funciona bem para muitas pessoas, mas não para a igreja verdadeira, porque a igreja verdadeira é necessária. Precisamos uns dos outros, não funcionamos sem os outros. A igreja, basicamente, cresce à semelhança de Cristo pelo ministério mútuo de dons espirituais. Se nos mantemos separados, prejudicamos nossa vida, nosso crescimento e nosso testemunho.

Então, eu pensei que nesse domingo e no próximo eu gostaria que você abrisse seu coração e mente para entender o quão vital é a nossa comunhão, nosso relacionamento, quão necessária é a igreja, quão importante é para nós estarmos juntos. E quero examinar o Novo Testamento, em algumas categorias, para ajudá-lo a entender claramente a comunhão da igreja.

QUAL A BASE DA COMUNHÃO DA IGREJA?

Qual é a base de nossa comunhão? Qual é o terreno comum que nos une? Não é emocional. Não é denominacional. Não é social. Não é cultural. Não é racial. Não é ecumênico. Nem é teológico. Não é humano. Não é experimental. É espiritual e é divino.

Gostaria apenas de chamar sua atenção para 1 João, capítulo 1 e versículo 3, onde lemos o seguinte: “O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo.”

Nossa comunhão é uma comunhão daqueles que estão conectados ao Pai e ao Filho, e isso significa que a salvação é a base de nossa comunhão. O objetivo do evangelho não é apenas a libertação do inferno eterno; é isso, mas não apenas isso. Mas é a comunhão com o Deus Pai, Filho e o Espírito Santo.

Foi por isso que Jesus orou em João 17:21, “Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.” 1 Coríntios 6:17 diz: “Mas o que se ajunta com o Senhor é um mesmo espírito.”

A comunhão é a ligação daqueles que verdadeiramente possuem a vida de Deus, concedida pela fé em Cristo. Estamos na comunhão pela salvação, e estamos nela para sempre. Nossa comunhão é com o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e com todos os outros crentes. Essa é a nossa irmandade. Nesse sentido, é uma comunhão interminável e eterna, porque passaremos a eternidade com o Pai, com o Filho e com todos os outros crentes.

Ouça as palavras de Jesus, em João 14:23. Ele disse: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada.” Então, não estamos falando de algo subjetivo aqui, estamos falando de algo objetivo: salvação. Crer no evangelho de Jesus Cristo e ser redimido nos coloca na comunhão.

Ouça as palavras de Paulo, em 1 Tessalonicenses 4, verso 9: “Quanto, porém, ao amor fraternal, não necessitais de que vos escreva, visto que vós mesmos estais instruídos por Deus que vos ameis uns aos outros.” Se há algo que marca a comunhão dos salvos, é amor comum. Todos nós estamos ligados no amor de Deus – Pai, Filho e Espírito Santo. Em troca, amamos o Deus Trino e amamos todos aqueles que O amam.

Toda pessoa genuinamente convertida, regenerada e justificada tem direito a essa comunhão, e espera-se que desfrute de toda a comunhão dos redimidos, seja qual for sua formação, sua condição, suas posses, sua capacidade, seu status, porque a base da comunhão é a salvação. E João deixa isso bem claro, quando olhamos para sua primeira epístola., onde ele identifica as marcas dos verdadeiros cristãos: 

I João 1
5 E esta é a mensagem que dele ouvimos, e vos anunciamos: que Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas.

6 Se dissermos que temos comunhão com ele, e andarmos em trevas, mentimos, e não praticamos a verdade.
7 Mas, se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado.

João afirma que ou você está na luz, ou na escuridão. Ou seja, você está salvo ou perdido. Você está na comunhão ou está fora dela. Não é o que você diz que prova se você está na luz, se é um salvo, mas é o que você faz, é como você vive, é como você anda. Aí a verdade é revelada.

E se você estiver verdadeiramente em comunhão, então andará na luz da verdade e virtude. E você desfrutará da comunhão com outras pessoas que também estão na luz, e estará sendo continuamente purificado de seus pecados.

O versículo 9 acrescenta: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça.” Uma outra característica das pessoas que andam na luz é que elas confessam seus pecados. Elas estão sempre na comunhão, sempre na luz e confessando seus pecados e sempre sendo purificadas.

Um cristão nunca pode estar fora da comunhão. Isso é impossível! Não é que a comunhão nos fará parar de pecar. O versículo 8 diz que enganamo-nos a nós mesmos se dissermos que não pecamos. “Se dissermos que não pecamos, fazemos Deus mentiroso, e a sua palavra não está em nós”, diz o verso 10. Não é que não pequemos, mas a inclinação e a direção de nossa vida são a verdade e a santidade. O Dr. Donald Gray Barnhouse disse:

Um homem andando no convés de um navio pode cair. Sua queda pode machucá-lo, mas não seria o mesmo de que se ele caísse do navio. Um crente quando peca cai no convés, mas nunca se perde ao mar. Cristo cuidou de que nenhuma onda – nem morte ou vida, nem anjos ou principados, ou poderes ou coisas presentes ou coisas por vir, ou altura ou profundidade – jamais nos levará para fora do convés. A comunhão é para sempre. Como Davi, talvez, tenhamos que orar: ‘restaura em mim a alegria da Tua salvação’, mas nunca precisaríamos orar: ‘restaura a salvação’, porque não pode ser perdida, não pode ser.

Estamos sempre na comunhão. Todos os verdadeiros cristãos são um em virtude de um novo nascimento. Somos um com o Senhor que habita em todos nós, e também somos um com os outros crentes. Chegamos um ao outro em Cristo. Chegamos um ao outro como irmãos e irmãs na família e, mais intimamente, como membros do próprio corpo de Cristo. Bonhoeffer entendeu isso, quando escreveu:

Sou irmão de outra pessoa através do que Jesus Cristo fez por mim e para mim. A outra pessoa se tornou um irmão para mim através do que Jesus Cristo fez por ela. O fato de sermos irmãos somente através de Jesus Cristo é de um significado incomensurável. Não é o que um homem é em si mesmo, como cristão, que é a base da comunhão. Sua espiritualidade ou piedade constituem a base de nossa comunhão. O que determina nossa comunhão é o que esse homem é por causa de Cristo. Nossa comunhão um com o outro consiste unicamente no que Cristo fez por nós dois. E isso permanecerá assim por todo o futuro e por toda a eternidade.

A comunhão cristã não é um ideal que esperamos alcançar. Pelo contrário, é uma realidade criada por Deus, da qual participamos. Queremos fazer tudo o que pudermos para mostrar essa realidade espiritual na maneira como vivemos nossas vidas. Mas, a base de nossa comunhão é o fato de estarmos em Cristo. Isso é fundamental e claro, pois uma igreja é composta daqueles que estão em Cristo. Isso é uma igreja. Isso é a igreja.

Quando você se reúne como igreja, a suposição é que você está em Cristo. Isso significa o que seja uma igreja. A igreja nunca foi projetada para descrentes. Ficamos felizes quando eles vêm a nós, vêem o testemunho, ouvem a mensagem, mas a igreja é uma comunhão dos que são o corpo de Cristo, daqueles que compartilham Sua vida. Então, essa é a base da igreja.

A NATUREZA DA IGREJA

Qual é a natureza da igreja? Como a igreja funciona? Como devemos viver essa vida espiritual comum, essa união? Penso que um bom texto para vermos isso está no livro de Atos, onde temos o primeiro vislumbre da igreja e de como ela funciona. Atos, capítulo 2, leva-nos ao dia de Pentecostes, quando a igreja nasceu.

E é isso o que lemos sobre a igreja, aquela primeira igreja, aquele primeiro dia, o mesmo dia em que o Espírito Santo veio e criou a igreja, o corpo de Cristo: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações.” (v. 42).

Agora, quem eram essas pessoas naquele primeiro dia? Bem, nós sabemos quem elas eram. Pedro disse, no versículo 38: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo.” Aquelas pessoas eram os que se arrependeram, creram no Senhor Jesus Cristo ressurreto, receberam perdão e receberam o Espírito Santo.

O versículo 41 as descreve ainda como aqueles que receberam a palavra e foram batizados, confessando publicamente sua fé em Cristo, de modo que “naquele dia agregaram-se quase três mil almas”. Então, você tem três mil pessoas que se arrependeram, creram no nome do Senhor Jesus Cristo, foram batizadas nesse nome, receberam o perdão dos pecados e receberam o Espírito Santo.

E o versículo 42 diz: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações.” Este foi um momento raro na vida da igreja, porque todas aquelas pessoas eram verdadeiros convertidos. Não havia joio ainda. Não havia nenhum falso crente no dia de Pentecostes. Não havia cristãos falsos. Foi a expressão mais pura da igreja de todos os tempos.

O versículo 44 diz o que os definia: “todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum.” Eles não estavam apenas compartilhando a vida espiritual em Cristo, não apenas o poder espiritual, mas expressavam sua parceria na comunhão, e tudo se resumia ao fato de que havia um altruísmo avassalador.

Qualquer coisa que eles tinham, eles compartilhavam de bom ânimo. E quando viam alguém com uma necessidade, o versículo 45 diz: “vendiam suas propriedades e bens, e repartiam a cada um, conforme a sua necessidade.” Essa foi a expressão inicial da comunhão espiritual em uma expressão tangível de amor.

Agora, o que é surpreendente sobre isso é que essas três mil pessoas eram basicamente judeus espalhados pelo mundo que tinham ido a Jerusalém para celebrar a Páscoa. Eles eram de toda a região do Mediterrâneo, não se conheciam. Eles, na maioria das vezes, não se conheciam fora de seu próprio grupo, de seu próprio local.

E, no entanto, em um dia eles se arrependeram, creram no evangelho, foram justificados, transformados, receberam o Espírito Santo para residir em seus corações e, imediatamente, houve um vínculo de amor que os levou a vender suas propriedades para garantir que os recursos fossem disponibilizados, distribuídos a pessoas que nunca haviam conhecido antes, e que haviam sido convertidas num mesmo dia. Eles, literalmente, tornaram-se pobres para enriquecer outros.

Isso é comunhão. Essa é a irmandade dos redimidos, e não há nada no mundo como ela. Paulo a descreve, em Gálatas 6:2, como: “Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo.” Surpreendente! Aquelas pessoas foram convertidas num mesmo dia. Alguns dias depois, ou algumas semanas, estavam vendendo seus bens pessoais para atender às necessidades de estranhos.

O versículo 46, de Atos 2, diz que havia algo mais: “E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração”, ou seja, havia uma igreja, mas não havia um templo físico, uma construção, então eles se reuniam no templo judaico, faziam as refeições juntos nas casas.

E também, diz o verso 47: “Louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar.” Havia também esse culto espontâneo e interminável. Havia comunhão, sacrifício e adoração. Aristides foi um pagão, que olhou para o cristianismo primitivo, e escreveu o seguinte:

Eles se abstêm de toda impureza – na esperança da recompensa que virá em outro mundo – se houver entre eles um homem que seja pobre e carente. E se eles não têm abundância de suprimentos, jejuam por dois ou três dias para que possam suprir os necessitados com os alimentos necessários. Essa é a lei dos cristãos e essa é a conduta deles.

Esta foi a igreja primitiva, como vimos em Filipenses 2:3, que diz: “Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo.” Eles consideravam os outros melhores que eles mesmos. O apóstolo Paulo expressa em Romanos:

Romanos 1
11 Porque desejo muito ver-vos, para vos comunicar algum dom espiritual, a fim de que sejais fortalecidos;

12 isto é, para que juntamente convosco eu seja consolado em vós pela fé mútua, vossa e minha.

Em outras palavras: “Quero estar com vocês por causa do incentivo que recebo na comunhão, no compartilhamento de amor, no compartilhamento de recursos, na vida e no desinteresse de vocês por si mesmos”. Essa é a natureza da comunhão cristã.

A igreja evangélica contemporânea está repleta do chamado “evangelho da prosperidade”, que é uma corrida louca para que todos consigam o que querem. Nada poderia ser mais diabólico do que isso. Nada poderia ser introduzido na igreja que fosse mais contrário a tudo o que a igreja é.

Se você está procurando na igreja o que pode obter dela, você não entendeu o que é a igreja e, provavelmente, não entendeu o evangelho, porque o evangelho não o torna egocêntrico, mas faz de você alguém centrado em Cristo. E Cristo é o centro de cada crente.

O SÍMBOLO DA COMUNHÃO

Qual é o símbolo da comunhão da igreja? Existe algo que possamos ver que simbolize essa comunhão rica, amorosa, sacrificial, alegre e feliz? Sim. Vejamos 1 Coríntios, capítulo 10, versículos 16 e 17. Você se lembra que lemos em Atos 2:43 que eles estavam partindo pão. Bem, aqui encontramos Paulo falando sobre uma das coisas que eles faziam quando partiam o pão, que era celebrar a cruz de Cristo.

Você se lembra de Jesus no cenáculo, na noite anterior à Sua morte, instituir a Ceia do Senhor, o cálice e o pão. O cálice fala de Sua morte, enquanto o pão celebra Seu corpo dado pela igreja. No livro de Atos, toda vez que a igreja se reunia, havia a Mesa do Senhor: comunhão.

Paulo fala sobre essa comunhão, em 1 Coríntios 10:16, e diz o seguinte: “Porventura o cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é porventura a comunhão do corpo de Cristo?” Isso é tão útil! Paulo está dizendo: “Este é o ponto focal do corpo se unindo para compartilhar o pão e o cálice, porque compartilhamos o corpo e o sangue”.

No versículo 17, ele acrescenta: “Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão.” A igreja nunca expressa de maneira mais demonstrável e visível sua unidade espiritual orgânica do que quando se reúne em volta da Mesa do Senhor, a bela ordenança da Comunhão.

A ceia foi distorcida, deturpada, pervertida em formas bizarras na Missa Católica. É tratada com indiferença na tolice da ceia com chocolate quente e biscoitos, como mencionei no início. Mas, nada expressa a vida da igreja mais visivelmente do que a Mesa do Senhor. Todos chegamos ao pé da cruz. Todos nós participamos da ceia como pecadores perdoados, como um com Cristo e um com os outros.

A comunhão torna visível nossa irmandade. Cristo é a cabeça, todos somos membros de Seu corpo, todos igualmente redimidos por Ele. Todos compartilhamos Sua vida, somos todos sustentados por essa vida.

A Mesa do Senhor nos humilha. A Mesa do Senhor nos eleva. A Mesa do Senhor nos chama para o auto-exame. Paulo diz: “Não venha, a menos que você se examine.” A Mesa do Senhor celebra vividamente nossa reconciliação com Deus por meio de Cristo e Sua cruz. Estamos unidos pelo corpo e sangue de Cristo visivelmente naquela Mesa.

Lembro-me de estar em uma “mega igreja”. Eu odeio esse termo, mas é frequentemente usado. E no final do culto, o pastor disse: “Bem, este é o domingo da comunhão, e nós colocamos alguns biscoitos e suco na porta, então pegue alguns na saída”, e assim terminou o culto. A falta de consideração disso é algo próximo de uma blasfêmia.

Levamos a sério a Mesa do Senhor. Nós chegamos a ela confessando nossos pecados. Chegamos como Seu corpo, ajoelhando-nos mais uma vez diante de Sua cruz, e enfrentamos nossa pecaminosidade. Isso é muito importante. Um escritor conta que estava se ausentando com frequência da adoração e da Mesa do Senhor. O pastor foi vê-lo e, depois de conversar sobre os assuntos envolvidos, eles estavam sentados ao lado de uma fogueira.

Com a ajuda de uma pinça, o pastor separou os carvões flamejantes e os espalhou pela circunferência externa da grade aberta. Em alguns instantes, as chamas cessaram e, em mais alguns minutos, os carvões perderam o brilho e ficaram opacos, sem brilho. O pastor olhou para o membro e disse: “Você entende?” O homem teve graça e sabedoria o suficiente para dizer: “Sim, pastor, eu entendo”.

E então, o pastor pegou as pinças novamente e, tirando as brasas da borda externa da grade, ele as juntou. E você, é claro, sabe o que aconteceu. Em pouco tempo começaram a brilhar mais uma vez, e então pegaram fogo, e o fogo era forte. Mais uma vez, o pastor olhou para o aquele homem, e disse: “Você entende?”

Ele lhe disse o seguinte: “Não permita que nada o divida em sua comunhão com seus irmãos, porque vocês serão os perdedores. Não apenas vocês dois serão os perdedores, mas também a integridade da igreja. A chama se apagará e o fogo da vida espiritual se irá.”

Ele disse ainda: “Lembre-se de se reunir à Mesa do Senhor. É lá que somos atraídos juntos; e quanto mais próximos estamos do Senhor à Sua Mesa, mais próximos estamos um do outro; e isso inflama a comunhão.” É um momento sagrado.

Alguns de vocês já perguntaram por que não temos comunhão virtual. A resposta é: porque isso não existe. Não existe comunhão virtual. A própria palavra “virtual” desafia isso. Através da internet, das lives, podemos comunicar a Palavra de Deus, podemos guiá-lo na adoração, mas não podemos expressar comunhão.

E essa é uma das dores no meu coração ao ver um grande número de pessoas que têm uma frequente experiência parecida com o que estão passando agora, uma experiência de tela plana, que não conhece nada de comunhão real.

Se há algo neste mundo louco que é necessário, é a igreja de Jesus Cristo. Se por um momento você se sentir confortável em seu pijama no domingo de manhã, veja como um aviso de que você está fora do que Deus estabeleceu para o funcionamento da Sua igreja. Seu coração deve estar doendo pela comunhão e você deve estar orando para que ela volte a pleno vapor em breve. Essa é a coisa mais necessária, essencial em todo o mundo.

É necessário que estejamos juntos. É necessário que saiamos de nossas casas, voltemos a este lugar de culto, que agora está vazio, voltemos a enchê-lo e reacendamos o fogo. Fomos separados como aqueles carvões. Esse distanciamento prolongado faz com que você esfrie, porque te falta o poder do ministério mútuo dos dons espirituais, a responsabilidade mútua, a expectativa mútua e o ministério mútuo.

Se você se sentir tentado a se afastar da comunhão da igreja por querer satisfazer algum conforto pessoal, peça ao Senhor que o perdoe e ilumine seu coração no dia em que todos nos reunirmos novamente. A igreja é uma comunhão e se expressa não de maneira virtual, mas na vida real, alegre da comunhão dos santos.

Portanto, a base de nossa comunhão é a nossa salvação, a natureza de nossa comunhão é a vida compartilhada, e o símbolo de nossa comunhão é a Mesa do Senhor. E no primeiro domingo em que voltarmos a nos reunir, estaremos nessa Mesa, você pode ter certeza disso. Há muito mais a dizer sobre a comunhão, mas você terá que esperar até a próxima semana. Vamos orar.

Pai, obrigado por nos dar uma revelação tão preciosa de nossa identidade em Cristo, não apenas nosso relacionamento com o Senhor e do Senhor conosco, mas nosso relacionamento com todos os outros crentes. Obrigado pela Grace Community Church. Obrigado pelo amor que existe entre nós, pela vida compartilhada, pelo sacrifício e serviço, pelo ministério dos dons espirituais, pela expressão de todos os crentes. Obrigado por esta igreja ser um local de descanso e refúgio para pessoas de todas as línguas, tribos e nações, porque há pessoas de todos os lugares que estão nesta comunhão. Não existem barreiras de raça, barreiras de nacionalidade, barreiras de etnia; pois somos todos um em Ti.

E, Senhor, desejamos estar juntos novamente. Confiamos que o Senhor nos guiará nessa expressão. O mundo não nos aprecia; é hostil em relação a nós. O mundo nos odeia, porque ele jaz no Maligno. E trazer danos à igreja não tem importância para o mundo e para muitos no poder. Eles ficariam felizes se a igreja nunca voltasse a se reunir de novo . Mas, Senhor, Tu precisas abrir a porta para nos reunirmos. Nós somos a expressão mais necessária da vida divina no mundo. Temos que deixar a luz brilhar, para que o evangelho se torne crível.

Enquanto isso não ocorre, Senhor, dá-nos a oportunidade contínua de ministrar a Tua Palavra e de encontrarmos maneiras de ministrar ao Teu povo, pelo bem do evangelho. E nós te daremos glória, em nome de Cristo. Amém.


Sermões desta série

Clique aqui e leia também a série de sermões de John MacArthur sobre a Anatomia da Igreja.


Este texto é uma síntese do sermão “The Necessity of Christian Fellowship, Part 1″, de John MacArthur em 17/05/2020.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/library/sermons-library/81-78

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


 

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1 Resultado

  1. 30/06/2020

    […] Comunhão Cristã – Parte 1 […]

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